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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Governo usou só 48% da verba para evitar desastres

Até novembro, apenas R$ 2,1 bi dos R$ 4,4 bi previstos foram utilizados

Previsão para o verão é de chuvas fortes, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, segundo o Inmet.

Antes mesmo do período mais crítico de chuvas, o Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres), inaugurado em agosto pela presidente Dilma Rousseff, já emitiu alertas de emergência a 407 municípios atingidos por seca ou chuva.

As previsões para os próximos três meses são de chuvas fortes, mas as principais ações para prevenção e resposta a desastres continuam à espera de recursos.

Até o fim de novembro, dos R$ 4,4 bilhões reservados no Orçamento de 2012 para programas em todo o país -sobretudo ações de prevenção na época de chuvas-, o governo se comprometeu a pagar menos da metade -48%, ou R$ 2,1 bilhões. Pagou efetivamente R$ 1,1 bilhão, ou 25%.

O governo federal divide o ônus da baixa execução orçamentária com municípios e Estados. Diz que, como beneficiários, eles precisam cumprir uma série de exigências.

Um dos resultados dessa "dificuldade" em executar ações preventivas é que o governo precisa abrir os cofres para remediar tragédias.

A Comissão de Orçamento do Congresso aprovou crédito extra de R$ 676 milhões para os municípios que sofrem com a seca, principalmente no semiárido do Nordeste -a liberação ainda precisa ser aprovada pelo plenário da Câmara.

Esse dinheiro extra foi solicitado porque pode ser gasto livremente em ações emergenciais, enquanto a verba do Orçamento é em sua maioria atrelada à prevenção.

CULPA DA METEOROLOGIA

"Colocam a culpa na meteorologia, mas nós avisamos com antecedência. Se os governantes não tomarem providências, todo ano vai ser a mesma coisa: enchentes, carros boiando, deslizamentos", afirma o meteorologista Fabrício Silva, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

O prognóstico climático para o verão é de chuvas fortes, em especial nas regiões Sudeste e Sul do país.

"Não vai haver chuva abaixo da média no próximo trimestre", avisa Silva.

A maioria das ações à espera de verbas federais está descrita de forma genérica no Orçamento. São obras para contenção de encostas, controle de cheia e de erosão, drenagem e canalização de córregos, que envolvem sete diferentes ministérios.

Cabe a Estados e municípios apresentar projetos específicos que, depois de analisados e aprovados pelas pastas, entram na fila de repasses.

Para o Estado de São Paulo e seis municípios paulistas, por exemplo, há R$ 89,15 milhões autorizados.

Desse total, foram comprometidos R$ 500 mil para drenagem no bairro Morrinhos 3, no Guarujá (litoral sul), e R$ 3 milhões para apoio a obras preventivas em diferentes áreas do Estado.

Todos esses recursos foram garantidos no Orçamento por parlamentares de São Paulo por meio de emendas, cujos pagamentos precisam ser autorizados pela presidente.

Não saíram do papel ainda, por exemplo, R$ 45 milhões previstos para Osasco, na Grande São Paulo, e R$ 21 milhões para a capital paulista prevenirem enxurradas, enchentes e cheias.

MONITORAMENTO

Para o chefe do Cenad, Rafael Schadeck, obras de prevenção e um sistema eficiente de monitoramento são igualmente importantes. Para isso, o governo se prepara para criar um software que vai uniformizar e gerenciar todas as informações de áreas de risco e desastres em todo país.

A região serrana, no Rio, e os vales Doce, no Espírito Santo e em Minas, e do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Rio, são apontadas como as regiões que mais exigem atenção.

Informção divulgada através do jornal Folha de São Paulo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Rio fecha maior aterro sanitário da América Latina

Criado em 1978 à beira da Baía de Guanabara, antigo lixão de Jardim Gramacho recebia 9,5 mil toneladas de resíduos por dia.

O Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho finalmente foi fechado ontem. Após 34 anos, o maior aterro sanitário da América Latina deixa de macular a imagem do País e do Rio às véspera da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

Presente ao ato simbólico de fechamento do lixão antes da Rio+20 - promessa da prefeitura -, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, lançou o "desafio de o Estado do Rio de Janeiro ser o primeiro a cumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos".

Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente do Rio, Carlos Minc, todos os aterros sanitários no entorno da Baía de Guanabara serão fechados até o fim do ano. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei 12.305, de 2010, prevê o fechamento de todos os lixões do País até 2014. A ministra Izabella definiu o cumprimento do prazo para implantação da política como um "desafio imenso".

"O prazo é muito curto, mas é importante que os instrumentos para a concepção desse objetivo sejam consolidados", disse Izabella, em entrevista coletiva, lembrando que a responsabilidade de erradicação dos lixões é dos municípios.

Segundo ela, o governo federal financia iniciativas locais de adequação à lei. "Os Planos Municipais de Resíduos Sólidos são necessários para a erradicação do lixões. Além disso, até o fim do ano implantaremos, em quatro cadeias, a estrutura de logística reversa."

Criado em 1978 à beira da Baía de Guanabara, sobre área de manguezal e cercado pelos Rios Iguaçu e Sarapuí, o Aterro de Gramacho recebia 9,5 mil toneladas de lixo por dia. A maioria (75%) vinda do Rio. A montanha de lixo ocupava uma área de 1,3 milhão de metros quadrados.

Até 1996, os despejos eram feitos sem nenhum critério.

"Passamos os últimos 30 e poucos anos cometendo um enorme crime ambiental, que é esse lixão às margens da Baía de Guanabara", disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes.

A partir de 1996, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) transformou Gramacho num aterro sanitário, instalando um sistema de drenagem para coletar e tratar o chorume. Dejetos de serviços de saúde passaram a ter descarte próprio.

O ícone da mazela humana, porém, continuava lá: o lixo só era espalhado e coberto com barro ou cascalho após ser revirado pelos catadores, ao lado de urubus.

O lado social do desastre ambiental foi alvo de polêmicas em torno da indenização de R$ 14 mil paga a cerca de 1,7 mil catadores. A lista dos contemplados foi elaborada por associações dos trabalhadores.

Segundo a assistente social Valéria Pereira Bastos, da Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (Acamjg), as regras para inclusão dos beneficiados foram definidas em reuniões com cerca de 1,2 mil trabalhadores.

A Acamjg é a entidade de Sebastião Santos, protagonista do documentário Lixo Extraordinário, que mostra o processo de criação do artista plástico Vik Muniz com lixo recolhido em Gramacho. "Agora é vida nova", disse Santos, após a cerimônia.

Publicado no jornal O Estado de São Paulo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Artigo: sustentabilidade

Código Florestal (1934-2011)

Obituário: ele faleceu na noite da terça-feira, 6/12, vítima de múltiplos atropelamentos no Congresso. O corpo passará o verão em necrotério, pois há quem proponha seu esquartejamento antes da cerimônia no Planalto. Crueldade que só poderá ser evitada se deputados e senadores forjados na luta pela redemocratização aproveitarem o recesso para meditar sobre três questões.

O Código que está para ser revogado amadureceu em 15 anos de deliberações democráticas. Começou a tramitar em 2 de janeiro de 1950, quando o "Projeto Daniel de Carvalho" foi encaminhado ao Congresso por mensagem presidencial de Eurico Gaspar Dutra. Resultou a lei federal do "Novo Código Florestal" (NCF), só promulgada dia 15 de setembro de 1965, já por Castello Branco, em conjuntura que Elio Gaspari tão bem caracterizou como "Ditadura Envergonhada" (Companhia Das Letras, 2002). Antes do Ato Institucional nº 2 que dissolveu os partidos, tornou indireta a escolha do presidente da República e transferiu para a Justiça Militar o julgamento de crimes políticos.

Esse esclarecimento é crucial para desmentir ladainha da cruzada dos grupos mais interessados em afrouxamento das normas de conservação agroambiental. Infelizmente, também por desinformados simpatizantes da mobilização que alerta a opinião pública para as injustiças e retrocessos contidos nos projetos da Câmara (PLC 30) e do Senado (Substitutivo 1358). O NCF não foi "obra dos militares". Afirmá-lo é conspurcar a memória das lutas pela democracia.

A obra dos militares foi inversa. Por 27 anos foram promovidos desmatamentos de áreas vocacionadas à preservação permanente, assim como sabotagens de outros dispositivos de proteção desses "bens de interesse comum a todos os habitantes do país". Não apenas nos dois decênios de ditadura "escancarada", "encurralada" e "derrotada" (1965-1985), como também no tragicômico setenado de Sarney e Collor (1985-1992). As salvaguardas do artigo 225 da Constituição de 1988 só puderam surtir efeito dez anos depois, com a Lei de Crimes Ambientais, também esmiuçada pelo Congresso entre 1992 e 1998.

A principal consequência política dessa história institucional é a admissibilidade de se anistiar aqueles produtores agropecuários que - até 1998 - descumpriram o NCF por terem sido oficialmente tangidos a suprimir vegetação nativa de áreas sensíveis. O corolário é que nada tem de anistia, mas sim de torpe indulto, qualquer perdão a desmatamento feito sem licença a partir de 1999.

Ao não estabelecerem tal distinção, PLC e Substitutivo tratam como se fosse farinha do mesmo saco duas realidades opostas: áreas rurais legitimamente "consolidadas" por árduo e cuidadoso trabalho de abnegados produtores agropecuários, versus terras travestidas de pastagens para a especulação fundiária. A predatória aposta que alavancou 80% do déficit de áreas de preservação permanente: 44 dos faltantes 55 milhões de hectares (Mha).

Só isso explica a ilusão de que a bovinocultura ocupe área 3,5 vezes maior que o total das lavouras. A maior parte dos 211 milhões de hectares tidos como pastos constitui gigantesco estoque imobiliário voltado a rendimentos que nada têm a ver com atividades produtivas (lucros "extraordinários" em economês). Serão os senhores desses domínios os principais ganhadores caso o NCF seja revogado por diploma semelhante ao PLC ou ao Substitutivo senatorial.

Além de indultar as criminosas devastações dos últimos 13 anos, e premiar especuladores fundiários disfarçados de pecuaristas, esses dois projetos embutem uma terceira atrocidade: dispensam todos os imóveis rurais com área de até 4 módulos fiscais, por alegada compaixão por empreendedores agropecuários de pequeno/médio porte. Aí se tira proveito da reinante confusão entre duas categorias legais: imóveis e estabelecimentos. Uma coisa é propriedade/posse fora de perímetro urbano ("imóvel rural"). Outra é empreendimento agrícola, pecuário e/ou florestal ("estabelecimento agrícola"). Nem toda propriedade imobiliária abriga negócio produtivo.

Atinge 56 milhões de hectares o hiato entre a área ocupada por imóveis rurais de até 4 módulos fiscais (136 milhões de hectares) e a dos estabelecimentos agrícolas familiares (80 milhões de hectares). Lacuna que corresponde a 544 mil imóveis, cuja área média é, portanto, de 103 hectares. A maior parte não entra no Censo Agropecuário pelo simples fato de se tratar de terras nas quais inexiste atividade produtiva relevante. É a fatia da especulação imobiliária voltada ao mercado dos sítios e chácaras de recreio, turbinado pelas famílias urbanas emergentes. Neste caso, solidariedade aos agricultores familiares só serve de pretexto para contentar outros ocupantes do andar de cima com desobrigações de práticas conservacionistas.

Esta é, em suma, a economia política da revogação do NCF: um pacto do latifúndio mais tropical com as bucólicas elites urbanas. Aliança que já demonstrou imensa força parlamentar. Principalmente por contar com estarrecedora adesão do PT, a reboque da esquisita titular do Meio Ambiente.

Autor: José Eli da Veiga.
(professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP - IRI/USP, e do Instituto de Pesquisas Ecológicas - IPÊ)
Publicado no jornal Valor Econômico.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Comissão sobre catástrofes climáticas aprova relatório final

A comissão especial sobre prevenção a catástrofes climáticas acaba de aprovar o relatório final, elaborado pelo deputado Glauber Braga (PSB-RJ). O relatório sugere medidas para um novo marco regulatório para a Defesa Civil no Brasil.

No texto, Braga propõe a criação de um novo fundo de recursos dentro de uma política nacional de proteção civil, para executar ações imediatas de prevenção e atendimento às populações afetadas por calamidades. Pelo relatório, metade das verbas será destinada necessariamente à prevenção de futuros desastres.

"Não se pode falar em prioridade sem estabelecer claramente de onde vão sair os recursos e de que forma esses recursos vão ser trabalhados. Precisamos ter clareza de onde os recursos podem sair e de que forma o governo brasileiro pode se comportar nesse sentido", disse o deputado sobre o relatório.

Para ver a íntegra do relatório aprovado, clique aqui.

Divulgado através do portal da Câmara dos Deputados.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Artigo - Desastres no Rio.

Cadê o dinheiro das vítimas?

Dados do relatório final das CPIs sobre as chuvas da Assembleia do Rio e da Câmara Municipal de Petrópolis, sobre a tragédia ocorrida na Região Serrana, em janeiro, informam:
Mais de 900 mortes, 71 delas em Petrópolis;
Continuam desaparecidas: 241 pessoas;
Desabrigados: 8.908. Em Petrópolis: 187 famílias;
Desalojados: 23.118. Em Petrópolis, são 6.956;
Deslizamentos de encostas ultrapassam os 770, sendo que, em Petrópolis, houve registro de 74 encostas atingidas.

A economia também está bastante afetada: 84% dos empresários da Região Serrana sofreram com o temporal, o que representou R$469,29 milhões em prejuízos. Na área industrial, 68% tiveram problemas, totalizando R$153 milhões de perdas.

Há a previsão de que a região receba R$1,4 bilhão, montante necessário para ser totalmente recuperada. Para Petrópolis está prevista a aplicação de R$312 milhões destes recursos. A expectativa é que sejam construídas 1.340 unidades habitacionais pelo programa Minha Casa Minha Vida. No entanto, o início das obras está previsto só para fevereiro de 2012. Mais de um ano depois da tragédia!

E os "por ques" continuam: por que até hoje esses recursos não chegaram? Por que até hoje as famílias que foram atingidas pelo desastre ainda não têm solução para os seus problemas? Por que soluções, que deveriam ser práticas, como o desassoreamento dos rios e a orientação devida às famílias, não acontecem?

E aos inúmeros "por ques" a resposta do poder público, presente na 4ª Audiência Pública promovida pelo bispo de Petrópolis, dom Filippo Santoro e a Frente Pró-Petrópolis, depois dos 8 meses da tragédia foi: "A burocracia emperra (sic)."

A conclusão, entretanto, é outra e bem objetiva: "Se os governos se preocupassem em criar reais planos de emergência e estrutura logística poderiam, sim, ter evitado ou minorado a perda de tantas vidas e de bens."

Está claro que o poder público foi, e continua sendo, omisso, displicente em fazer cumprir as normas que regulam a ocupação e uso do solo urbano, de forma a evitar construções irregulares em áreas de risco. Culpado em não criar projetos habitacionais, para dar as mínimas condições de moradia à população que, todos sabem, sem ter alternativa, sobe os morros para poder ter um teto. Dinheiro público existe para tanto, o que falta é gestão clara, compromisso ético com o bem público, projetos benfeitos.

Quando olhamos o passado, é difícil acreditar que há 153 anos Petrópolis já sofria com as chuvas. Em 1858, a cidade já penava com deslizamentos e mortes. Num desses momentos, o imperador D. Pedro II e toda a comitiva imperial ficaram impedidos de chegar ao palácio e precisaram voltar para o Rio de Janeiro.

Este círculo de dor, que piora a cada ano, com mais pessoas sofrendo, está longe de ter um fim?

Autor: Maria Helena Arrochellas
Publicado no jornal O Globo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vítima das chuvas na região serrana do Rio ainda busca corpo do marido e espera aluguel social



Amanda Coutinho, 23, sobreviveu por milagre à destruição provocada pelas enchentes na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro deste ano. No entanto, pelo menos 29 familiares da ex-moradora do bairro Campo Grande, uma das áreas mais pobres do município e grande ponto de devastação, não tiveram a mesma sorte - entre os quais o marido, Flávio, e o filho, Pedro Gabriel, de apenas dois anos. Seis meses após o dilúvio, com lágrimas nos olhos, a jovem afirma que ainda luta para encontrar o corpo do marido.

"Eu sei que vou achá-lo!", exclama Amanda, que se mudou para a casa do pai desde que sua residência foi soterrada por uma avalanche de pedras e escombros. Enquanto o Ministério Público investiga denúncias de corrupção, desvios de verba e dispensa de licitações na Prefeitura de Teresópolis, a jovem revela que ainda não foi chamada pelo poder público para receber o aluguel social (R$ 500 mensais) - embora tenha se cadastrado há cinco meses.

"Eles até agora não fizeram contato. Muita gente que não precisa, que não perdeu nada na tragédia, está recebendo o aluguel social. Só na minha família, oito pessoas perderam suas casas, mas apenas uma conseguiu o benefício porque tem um amigo que trabalha na prefeitura", disse.

Amanda tinha casa própria --com quarto, sala, cozinha e banheiro-- deixada pela sogra há alguns anos. A residência simples, avaliada em torno de R$ 50 mil, ficava exatamente no ponto em que as três enxurradas se juntaram e varreram tudo o que estava pela frente. A convite da reportagem do UOL Notícias, a jovem retornou ao local nesta quinta-feira (29), e explicou com detalhes tudo o que consegue lembrar da madrugada fatídica do dia 12 de janeiro.

Salva por uma porta
"Eu levantei assustada por volta de 1h30. Chovia demais, algo que nunca vi na vida, e o barulho não deixava ninguém dormir. No quintal, a água já estava pela cintura... A cozinha e o banheiro ficaram alagados. Quando faltou luz, meu marido pulou a janela para socorrer o irmão, que morava em uma casa próxima, e não voltou. Foi a última vez que eu o vi. Meu filho estava dormindo. Fiquei olhando pela janela para tentar encontrar o Flávio. Nesse momento, eu lembro de um estrondo, como se fosse uma explosão. Já veio caindo tudo... Depois disso, não lembro de mais nada", relatou.

Amanda foi encontrada praticamente nua pelo pai algum tempo depois, presa entre um pé de limão e um carro que havia sido arrastado pela força da água. Perto dela, uma das portas estava inclinada, sustentando um peso incalculável de escombros e destroços. "A porta me salvou", explica a jovem. Ela teve ferimentos leves nos braços e nas pernas, e foi levada em estado de choque para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Teresópolis.

Eu gritava e ninguém ouvia. A única coisa que eu conseguia pensar era: 'morreu todo mundo e eu fiquei sozinha'. A água estava batendo no meu pescoço no momento que o meu pai pulou no carro e me puxou com a ajuda de alguns vizinhos", complementou.

Aniversário do filho
Um dia antes da tragédia, o filho de Amanda, Pedro Gabriel, completou dois anos. A jovem mostrou para a reportagem do UOL Notícias as poucas fotos que conseguiu salvar da festa de comemoração, o que a fez lembrar de uma travessura do filho.

"A primeira coisa que eu lembro quando penso no meu Pedro é dele roubando docinhos na mesa, no dia da festinha. A casa estava cheia nesse dia, até de parentes que nunca apareceram. Olhando agora, eu tenho a sensação de que aquilo era uma despedida", disse.

A própria Amanda encontrou o corpo do filho no dia seguinte ao dilúvio em um campo da estrada da Posse, que fica a cerca de um quilômetro de distância do bairro Campo Grande.

"Nós organizamos um grupo composto pelos moradores para procurar e identificar os corpos. Nessa busca, meu pai passou pelo corpo do meu filho e me chamou. Quando me aproximei, vi que realmente se tratava do Pedro. Não tenho palavras para descrever esse momento", relatou.

Durante o mutirão de buscas organizado pelos familiares e amigos das vítimas fatais, a jovem contou que algumas cenas lhe marcaram para sempre. "O único corpo que não foi arrastado pela chuva e permaneceu no bairro era o de uma senhora que estava presa pela cabeça em um vergalhão, como se fosse um espantalho", disse. No entanto, segundo ela, a mais chocante ainda estava por vir: "No último dia, encontramos dois corpos abraçados. Era o de uma mãe protegendo a filha".

Dos 29 parentes de Amanda mortos na tragédia, apenas oito corpos foram encontrados.

População traumatizada
Segundo Amanda, sempre que uma chuva mais forte atinge Teresópolis, muitos moradores traumatizados já buscam abrigo em locais seguros, ou até mesmo ligam para a Defesa Civil. "Tenho uma amiga que ainda mora no bairro Campo Grande e me liga de cinco em cinco segundos quando começa a chover. Quando há relâmpagos, ela passa mal e desmaia", disse.

Das 6.000 pessoas que moravam no bairro Campo Grande, aproximadamente 20 continuam residindo no local, que permanece completamente tomado por pedras e escombros. O cenário de destruição faz com que os próprios moradores se organizem para limpar o local.

De acordo com o cronograma da prefeitura, cerca de 50 imóveis (que estão parcialmente destruídos e inabitáveis) já deveriam ter sido demolidos, mas hoje servem para as crianças brincarem de esconde-esconde. Além disso, há sucatas de automóveis retorcidos e uma quantidade incalculável de lixo cercando a comunidade. "Parece uma cidade fantasma", resume o pedreiro Antônio Batista, que voltou ao bairro Campo Grande por não ter onde morar. Ele também não recebe aluguel social.

Fraude
Amanda contou à reportagem do UOL Notícias que conhece pelo menos 30 pessoas que não perderam nada na tragédia, porém recebem o aluguel social no valor de R$ 500. Segundo ela, uma parente de sua madrasta foi beneficiada no mês passado com R$ 2.500 de aluguel social (atraso de cinco cinco meses), mas continua residindo em casa própria no bairro Santa Rita, já que o imóvel não foi afetado pelas chuvas.

"Enquanto isso, eu que perdi tudo tenho que morar de favor. Se eu fosse amiga de alguém que trabalha na prefeitura, a situação seria diferente", afirma.

O governo municipal já admitiu publicamente o problema. Pelo menos dois processos de cadastramento foram realizados em razão das denúncias de fraude. Há estimativas de que 300 famílias estejam recebendo o aluguel social de forma indevida.

Primo arrastado por 4km
Amanda é prima de Marcus Vinícius, 11, o menino que foi arrastado por quatro quilômetros pela força da água durante a tragédia na região serrana. Ele só foi salvo por um voluntário no dia seguinte, extremamente machucado, e ficou cerca de um mês internado. A história do garoto foi noticiada por jornais de vários países.

Segundo Amanda, o menino tem até hoje uma cicatriz causada por um erro médico durante cirurgia no hospital público Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, na Baixada Fluminense. O irmão mais velho do menino, Henrique, atualmente trabalha como pedreiro na Fazenda da Paz, justamente o local no qual o corpo de Marcus foi resgatado.


Fonte: UOL

quarta-feira, 23 de março de 2011

Região serrana do Rio ainda tem 345 desaparecidos


Setenta dias depois do temporal que vitimou 905 pessoas na região serrana do Rio de Janeiro, familiares enfrentam falta de informações para encontrar 345 pessoas classificadas, até agora, como desaparecidas.

Teresópolis conta 180, entre elas a mulher e duas filhas de Wendel Cunha, 33. O pedreiro não estava em casa quando a força da água arrastou todo o imóvel. Ele só encontrou o corpo da filha mais nova, Yasmin, de apenas dois meses.

Segundo o juiz José Ricardo Ferreira, da 2ª Vara de Família da cidade, conseguir a confirmação documental da possível morte de um desaparecido será um processo "vagaroso e cuidadoso". "Se eu declarar a morte de alguém que não morreu, vou causar graves consequências em questões de herança, dívidas e sucessão", afirma.

Mesmo com a cópia da autorização de sepultamento do pai, Elizangela Lopes, 28, não consegue o atestado de óbito a fim de que sua mãe consiga a pensão que tem direito. "Minha mãe está gravemente ferida e precisou fazer um enxerto no pé", diz Elizangela, que está desempregada.

Para casos como o dela, a Vara de Família marcou para meados de abril um "pautão" no qual serão julgados casos em que a prova documental foi insuficiente para comprovar uma morte.

O Ministério Público não sabe dizer quantos dos mortos em Teresópolis foram enterrados sem identificação. Segundo o órgão, a promotora Anaíza Malhardes suspendeu a questão enquanto está de férias. Ela pretende cuidar dos casos quando voltar, no mês que vem.

Em Nova Friburgo, levantamento do Ministério Público sobre os 85 desaparecidos aponta indícios de que apenas 22 casos se tratam de pessoas que morreram de fato. Os outros 63 seriam pessoas que foram encontradas sem que a Promotoria fosse avisada para que desse baixa na lista de desaparecidos. Nova Friburgo teve 21 corpos enterrados sem identificação. Dois deles foram reconhecidos posteriormente por fotos e tiveram a identidade confirmada por digitais.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Deslizamentos em Santa Catarina

Psiquiatra aplicou Programa preventivo para população afetada por catástrofes.

Notícia publicada na Revista Emergência edição 02/2011.
                                              
Após longo período de chuva sobrecarregar o solo da região do Vale o Itajaí, em Santa Catarina, na primeira semana de dezembro de 2008, enchentes, alagamentos e deslizamentos afetaram severamente 63 municípios e aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Cidades ficaram inundadas, encostas deslizaram soterrando casas, empresas e trechos de estradas.

Informações divulgadas pela Defesa Civil, em janeiro de 2009, contabilizavam 135 vítimas fatais e 78 mil pessoas fora das suas casas, entre desalojados e desabrigados.

Populações inteiras ficaram sem energia elétrica e água potável, e algumas regiões, totalmente isoladas. Hospitais, escolas e ginásios acolheram, provisoriamente, os desalojados, oferecendo-lhes condições básicas para sobrevivência. E os programas de atendimento à saúde emergencial, sobrecarregados, convergiram para a atenção médica imediata, combate às doenças transmissíveis, água e reparação de danos causados à infra-estrutura sanitária.

No dia 9 de dezembro, 2 dias após as ocorrências mais sérias, o psiquiatra José Toufic Thomé, conseguiu reunir-se com a Secretária de Saúde do Estado, Carmen Zanotto, e com a coordenadora estadual em Saúde Mental, Elisia Puel, entre outras autoridades. Seu objetivo era apresentar a proposta de intervenção focada em preparar profissionais e lideranças que trabalhavam no atendimento à população afetada, segundo o Protocolo Internacional da Rede de Ecobioética / UNESCO. Aprovada a aplicação do Programa de Capacitação em Atendimento em Catástrofes, já no dia 15 de dezembro, profissionais da Associação Brasileira de Psiquiatria, sob a coordenação do Dr. Thomé, se reuniram com representantes dos Conselhos Regionais (Psicologia, Serviço Social, Enfermagem, Terapia Ocupacional e Medicina, e outros), para discussão da proposta de atuação em cada município, de forma a assegurar adesão e colaboração de todos na implantação do protocolo.

O Dr. Thomé, durante capacitação de cuidadores em Pernambuco.


De janeiro de 2009 a dezembro de 2010, foram realizadas 20 capacitações sob o tema “Cuidando dos Cuidadores”, com a participação de 685 profissionais. E em 2009, a Secretaria Estadual de Saúde ainda ofereceu um Curso de Especialização de Terapia Comunitária para 40 profissionais. O Dr. Thomé, que no Brasil, atua como representante da Organização das Nações Unidas - ONU, e da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA na sigla em inglês) para assuntos relacionados à intervenção em situações de transtornos psiquiátricos decorrente de catástrofe, explicou que o ‘fator humano’ é característica que precisa ser considerada em situações extremas. Ou seja, a percepção subjetiva com que cada indivíduo compreende e reage às situações de catástrofes, conforme a sua cultura, convicções e experiências sociais. “A dimensão psicossocial contempla não só a possibilidade de adoecimento psíquico, mas também o surgimento de inúmeros problemas como consumo drogas e substâncias psicoativas, comportamentos violentos, e outros” afirma o Psiquiatra. “Pesquisas apontam que após as tragédias de grandes proporções, até um terço da população exposta sofre algum tipo de transtorno em Saúde Mental. Portanto é importante oferecer tratamento adequado para as pessoas expostas, afim de prevenir o seu adoecimento”.

O Programa aplicado em Santa Catarina foi a primeira iniciativa de longo prazo, focada na prevenção de adoecimento em Saúde Mental, empreendida no Brasil. Entre os objetivos principais, destacam-se: Estabelecer programa sustentável e passível de ser reproduzido por período prolongado, visando a minimização do impacto negativo em Saúde Mental provocado pelo desastre; Identificação precoce e encaminhamento terapêutico adequado de casos de transtornos mentais em áreas e grupos de risco; e oferecer suporte especializado, conforme forem detectadas as necessidades específicas da população. O Dr. Thomé ressalta que nem todos os problemas psicossociais ocasionais que surgirem em pessoas expostas em situações extremas devem ser qualificados como doenças. “É compreensível que pessoas saudáveis afligidas por eventos de grande impacto, fiquem emocionalmente desorganizadas, por um período determinado. O trabalho que desenvolvemos em Santa Catarina, priorizou justamente treinar Cuidadores para que acompanhassem a população afetada, durante esse período de desorganização, afim de detectar e atender as pessoas, antes que desenvolvessem transtornos psiquiátricos”, explicou o Dr. Thomé.

Ao final do Programa, em 2010, população e SES puderam confirmar que os esforços empreendidos para minimizar os efeitos da catástrofe sobre a população afetada surtiram efeito. Segundo a SES, o Programa somou esforços na recuperação das pessoas afetadas por enchentes e deslizamentos nas cidades do Vale do Itajaí, e beneficiou diretamente as comunidades, com medidas preventivas que atenuaram o adoecimento em Saúde Mental. “O processo de capacitação permitiu que os participantes compreendessem a importância das ações intersetoriais e de se trabalhar de forma integrada para atender a população exposta em situações de desastres”, avalia Elisia Puel.

A Secretaria de Educação do município de Blumenau, replicou o Programa empreendido em toda a sua rede, e irá capacitar 4.500 funcionários da área de educação, com o objetivo de oferecer maior atenção à população infantil e adolescente. E o Dr. Thomé afirma que as experiências vivenciadas Santa Catarina também contribuíram de forma significativa para o aprimoramento dos protocolos da Rede de Ecobioética, em Programas similares, empreendidos junto às populações afetadas por desastres em Pernambuco e Rio de Janeiro. “O trabalho desenvolvido no Vale do Itajaí serviu como referência em outras ocasiões, inclusive, para profissionais que atuam liderados pelo Brasil, no Haiti. E atualmente, estou iniciando a criação de uma rede de apoio e intervenção nacional, a partir do Ministério da Saúde”, revela.


José Toufic Thomé é psiquiatra e psicoterapeuta psicodinâmico; coordenador e docente do Curso Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras no Instituto Sedes Sapientiae - SP; preside a Unidade Brasileira da Rede Ibero-americana de Ecobioética para Educação, Ciência e Tecnologia- Cátedra UNESCO de Bioética - membro internacional e representante da Cátedra UNESCO de Bioética; membro do Comitê Executivo da Associação Mundial de Psiquiatria na Secção de Psiquiatria dos Desastres (WPA) e delegado do Conselho Mundial de Psicoterapia (WCP) na Comissão de Saúde Mental do Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (ONU).

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Diagnóstico apressado

José T. Thomé

A dimensão da catástrofe que acometeu parte da população do estado do Rio de Janeiro, apesar de recorrente, surpreendeu. E não sem razão, ganhou a atenção do país, com direito a reportagens, declarações de autoridades, detalhamento de características geográficas e, infelizmente, alguns excessos.

Em meio aos esforços das equipes de resgate e atendimento de emergência, à mobilização solidária empreendida pela população fluminense, e aos novos planos de investimento organizados às pressas, por quem se absteve do compromisso de empreender políticas habitacionais sustentáveis, tenho assistido à banalização sistemática do diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático - TEPT. Declarações afoitas, oferecidas como se fosse possível explicar e resolver tudo a partir dessa conclusão. Nesse caso, invariavelmente equivocada.

Estudos indicam que um em cada quatro indivíduos submetidos a catástrofes desenvolvem TEPT nos meses e anos posteriores ao evento1. Porém, diagnosticar que uma pessoa sofra com o transtorno, durante o pronto atendimento ou nos abrigos improvisados, nos dias em que o desastre ainda está acontecendo, parece-me leviandade.

TEPT faz parte do grupo dos transtornos psiquiátricos predominante na população em geral2-3. E segundo a última revisão do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais - DSM-IV, classificam-se apenas cinco variações de Transtornos de Ansiedade: TEPT, transtorno obsessivo-compulsivo - TOC; transtorno de ansiedade generalizada - TAG, transtorno do pânico / fobia social - FS; e fobias específicas4.

Especificamente o TEPT, está relacionado à existência de um evento / trauma, de grande relevância na percepção subjetiva do paciente, e que no passado, o expôs a uma situação real de ameaça. E esse evento pode sim ser exemplificado, entre outros, por deslizamentos e enchentes como as que ocorreram no estado do Rio. Entretanto, a pessoa com TEPT, sofre através de persistentes visões em flashback da situação traumática que viveu; e pode apresentar insensibilidade e reação comportamental incompatível, em situações que não representam perigo real; meses e/ou anos após a ocorrência do trauma. Ou seja, uma pessoa que teve a infelicidade de vivenciar o desastre na serra fluminense, por exemplo, poderá, no futuro, relembrar a situação dramática que enfrentou e reagir emocionalmente durante um simples dia de chuva.

Ao analisar os pacientes que sofrem TEPT, é possível verificar que há correspondência entre as suas reações comportamentais e emocionais, e os estímulos externos que recebe. Ou seja: lugares, clima, contexto, pessoas. E nessa condição, conforme a semelhança que a percepção subjetiva do paciente interprete em uma situação, ela poderá desencadear a mesma reação, emocional e física, vivenciada no momento do trauma.

Como ser humano e profissional especialista em traumas causados pelo disruptivo, acredito que qualquer pessoa saudável tem o direito de se sentir emocionalmente desestabilizada, por determinado período, quando submetida às consequencias de uma catástrofe. Essa pessoa, que durante o evento extremo, viveu a experiência de perder familiares e/ou amigos, a própria casa e referências de vida, ficou exposta ao perigo de morte, fome e desabrigo, não deve ser diagnosticada como afligida em Saúde Mental. E acredito nisso porque não é sua percepção subjetiva da realidade que está afetada, mas sim, a própria realidade.

Faço parte de uma corrente de pensamento, que não se satisfaz em buscar exclusivamente na pessoa afetada pela catástrofe e exposta a tão desorientadora realidade, a desordem de ordem psíquica que possa ser qualificada como doença; nem tampouco em aguardar que esse estresse emocional, temporário, evolua para o real quadro de desajuste e adoecimento. Aí sim, poderá ser TEPT.

Se há consenso que a exposição de indivíduos saudáveis em eventos desorganizadores apresenta alto potencial de adoecimento físico e desequilíbrio emocional, parece-me sensato admitir que o diagnóstico TEPT, nessas circunstâncias, é ineficiente em propor tratamento e evitar que pessoas sãs desenvolvam transtornos de ansiedade. Por isso, partilho da proposta do Dr. Moty Benyakar5, ao admitir o diagnóstico diferencial de Transtorno por Disrupção, onde se incluem os quadros depressivos. E defendo o direcionamento: oferecer atendimento assistencial continuado às populações afetadas por catástrofes, durante os anos seguintes ao evento, com o objetivo de prevenir o desenvolvimento de adoecimento.

É simples e imprudente, usar o diagnostico precoce de TEPT em avaliações por escalas, que pontuam sintomas, sem considerar os fatores humanos envolvidos nos desastres.

Leia outros artigos no Blog do Dr. José Thomé.

José Toufic Thomé é psiquiatra e psicoterapeuta psicodinâmico; coordenador do Curso Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras no Instituto Sedes Sapientiae-SP; preside a Unidade Brasileira da Rede Ibero-americana de Ecobioética / Cátedra UNESCO de Bioética; membro da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) - Secção de Psiquiatria dos Desastres; e delegado do Conselho Mundial de Psicoterapia (WCP) na Comissão de Saúde Mental do ECOSOC na Organização das Nações Unidas (ONU).



REFERÊNCIAS

1. Kessler RC, McGonagle KA, Zhao S, Nelson CB, Hughes M, Eshleman S, et al. Lifetime and 12-month prevalence of DSM-III-R psychiatric disorders in the United States: results from the National Comorbidity Survey. Arch Gen Psychiatry. 1994;51(1):8-19.

2. Kessler RC, Berglund P, Demler O, Jin R, Merikangas KR, Walters EE. Lifetime prevalence and age-of-onset distributions of DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry. 2005;62(6):593-602.

3. Kessler RC, Chiu WT, Demler O, Merikangas KR, Walters EE. Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry 2005;62(6):617-27.

4. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders - DSM-IV. 4 th ed. Washington, DC: APA; 1994.

5. Benyakar, M (2003) Lo Disruptivo: Amenazas individuales y colectivas, Buenos Aires, Editorial Biblos.

Benyakar Moty, M.D; Ph.D. (Buenos Aires) Presidente da ‘Rede Internacional de EcoBioética para Educação, Ciência e Tecnologia’. Representante da Unesco para EcoBioética. Presidente da Seção de Psiquiatria dos Desastres da Associação Mundial de Psiquiatria.

6. Thomé, JT (2009) Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras, RJ, Editora ABP

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Brasil está preparado para desastres naturais?

Na matéria publicada no dia 07 de fevereiro, no jornal Correio Braziliense, “Estudo tenta prever enchentes e deslizamentos em áreas de risco”, o jornalista Marcelo da Fonseca descreveu o estudo feito pelo engenheiro hidráulico e pesquisador Wilson Fernandes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O engenheiro desenvolveu uma pesquisa para calcular a probabilidade de inundações em áreas de risco e, assim, permitir que autoridades possam alertar moradores sobre as características dos locais onde vivem.
Mas de que adianta a dedicação dos especialistas e estudiosos, se as autoridades que detém o poder de agir junto à população que vive em locais de risco, não fazem a sua parte?

Catástrofes como a que aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro, no mês passado, vitimou quase mil pessoas e deixou milhares de desabrigados e desalojados, têm acontecido com frequência no Brasil, principalmente nos período de chuvas.

A falta de programas preventivos, como o monitoramento de risco, treinamento para profissionais de saúde e atenção emergencial e obras de infra-estrutura e contenção de encostas, entre outras. E as deficiências de estrutura e organização entre os órgãos envolvidos nas ações de intervenção, têm origem no descaso dos governos com iniciativas de médio e longo prazo, com pouco apelo eleitoral.

De acordo com o pesquisador Wilson Fernandes, na prática, o Brasil continua atrasado nas tecnologias que lidam com os desastres ambientais. E prova disso é o despreparo para lidar tanto com a prevenção, como com a tragédia em si, quando ela ocorre.

Leia a matéria na íntegra publicada no jornal Correio Braziliense.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um mês depois da chuva, Região Serrana do RJ ainda tem cenário de tragédia

Desalojados ainda moram em igrejas e tendas, que servem de abrigos.

Barro nos cantos das ruas, poeira, casas destruídas, pedras, e postes quebrados bloqueando vias. O cenário de caos continua em algumas cidades da Região Serrana do Rio, um mês após a catástrofe provocada pela chuva em janeiro. Desde o início da enchente, as prefeituras dos municípios afetados contabilizam mais de 890 mortes.

Em Teresópolis, chuva deixou rastros no bairro Campo Grande.

As buscas por vítimas continuam e o Ministério Público do Rio ainda estima que mais de 400 pessoas estejam desaparecidas.
Para muitos, o novo lar ainda é um sonho distante. Com escassez de imóveis para alugar, as igrejas, galpões e escolas servem de residência para aqueles que perderam tudo. Em Teresópolis, a prefeitura registrou 9.110 desabrigados e 6.727 desalojados. Atualmente, a cidade tem 18 abrigos, onde residem cerca de 900 pessoas.
A situação não é diferente em Nova Friburgo. O levantamento da prefeitura aponta 949 famílias desabrigadas e 4.528 desalojados. Parte dessas pessoas se divide entre os 69 abrigos espalhados pela cidade. Em São José do Vale do Rio Preto, há 111 famílias morando em locais provisórios, como tendas e associações de moradores.

Destruição no bairro Campo Grande
 
Moradores andam em meio ao cenário de caos
em Teresópolis.

O motorista Antonio Gonçalves Rocha, de 68 anos, mora há mais 40 anos em Campo Grande, um dos bairros mais afetados pela chuva em Teresópolis.

Nas paredes das casas ainda é possível ver as marcas que a água atingiu, na noite de 11 de janeiro. A Cedae e a Ampla, a pedido da Defesa Civil, não normalizaram o abastecimento de água e luz no local, para evitar o retorno dos moradores.
Apesar do cenário desolador, algumas pessoas resistem a sair de casa. Antônio é um deles. Ele diz que não deixa a residência da patroa com medo de saques. O motorista alega que não há segurança em Campo Grande à noite e de madrugada.

“Nesta semana mesmo, houve roubos em várias casas que foram abandonadas por seus moradores nos bairros da Posse, Caleme e Campo Grande. A casa da minha patroa, onde moro, não foi afetada. A chuva carregou apenas a piscina e o jardim. Sei que pra isso aqui voltar ao normal vai levar uma década, mas enquanto isso, estou ajudando a desobstruir algumas ruas para os carros passarem”, conta o motorista.

O caseiro Manoel Rodrigues teme que o bairro de Campo Grande seja esquecido pelas autoridades.
“Moro aqui na região há 25 anos. Como fica um pouco distante do Centro, acho que isso aqui vai servir mesmo de cemitério, com várias pessoas ainda mortas embaixo desse tanto de pedra e terra. Campo Grande virou um bairro fantasma, acho que nunca mais vai voltar ao normal, com o tempo as pessoas esquecem”, declara o caseiro.

Comerciantes lamentam prejuízo

Comerciantes ainda lamentam prejuízo um mês
depois da chuva (Foto: Tássia Thum/G1)
No Centro de Nova Friburgo, o clima é de volta à rotina. Apesar das marcas de barro e lama no canto das ruas, o trânsito de pessoas é intenso. Mas, para alguns comerciantes, o recomeço ainda está longe. O empresário Gilberto da Silva está com a sua loja de doces e souvenirs fechada há um mês.
A chuva levou grande parte do estoque da loja e derrubou prateleiras. Com a ajuda de amigos e funcionários, Gilberto pretende reabrir o comércio em dois meses. A loja fica na Praça do Suspiro, um dos principais pontos turísticos da cidade.
“O comércio em Nova Friburgo está totalmente parado. Acho que as coisas vão voltar à normalidade, em 6 meses, até um ano, quem sabe”, lamenta o comerciante.


Turismo em Petrópolis

Após as chuvas, Petrópolis tenta voltar a atrair os turistas. A cidade que abriga o Museu Imperial registrou 72 mortes e ainda tem 200 habitantes desabrigados e mais de 6 mil desalojados. Os bairros mais castigados pelo temporal ficam a cerca de 15 quilômetros do Centro de Itaipava, distrito de Petrópolis.
Segundo a prefeitura de Petrópolis, no mês de janeiro, os hotéis e pousadas da cidade chegaram a sofrer uma queda de quase 100% nas reservas. O comércio amargou também um declínio de 60% nas vendas. Para reaquecer a economia local, os hotéis baixaram as tarifas e criaram promoções.

Fonte: G1

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tragédia provocada pela chuva na serra já fez mais de 855 vítimas

Balanço de prefeituras da Região Serrana apontam 856 mortos.

Os deslizamentos causados pela chuva na Região Serrana do Rio já contabilizaram 856 mortos. Os dados foram divulgados pelas prefeituras das cidades neste domingo (30). Já o número de desabrigados e desalojados chega a quase 30 mil em toda a região.


Casa destruída em Sebastiana.

O comitê de Ações Emergenciais em Petrópolis informou neste domingo (30) que 71 corpos foram resgatados no município. Em Nova Friburgo, o número de vítimas chega a 412. Já em Teresópolis foram registrados 344 óbitos. Também houve 22 mortes em Sumidouro, 6 em São José do Vale do Rio Preto e 1 em Bom Jardim.

Segundo dados das prefeituras e da Defesa Civil do estado, Teresópolis tem 6.210 desalojados e 5.058 desabrigados; Petrópolis (incluindo Itaipava) soma 6.223 desalojados e 191 desabrigados; e Nova Friburgo já contabiliza 3.220 desalojados e 2.031 desabrigados.

Outros municípios afetados pela enxurrada de janeiro, São José do Vale do Rio Preto registra 2.018 desalojados e 300 desabrigados; Bom Jardim tem 1.186 desalojados e 632 desabrigados; Sumidouro soma 311 desalojados e 200 desabrigados; e Areal contabiliza 1.469 desalojados.
A lista da Defesa Civil cita ainda outros municípios atingidos pelas chuvas, como Santa Maria Madalena (284 desalojados e 44 desabrigados), Trajano de Moraes ( 188 desalojados e 28 desabrigados), Sapucaia (30 desalojados e 140 desabrigados), São Sebastião do Alto (32 desalojados e 75 desabrigados), Três Rios (36 desalojados e 33 desabrigados), Cordeiro (43 desabrigados), Carmo (55 desalojados e 12 desabrigados), Macuco (28 desalojados e 24 desabrigados), Cantagalo (8 desalojados) e Cachoeiras de Macacu (4 desabrigados).

Dez casos de leptospirose em Nova Friburgo

A prefeitura de Nova Friburgo informou na sexta-feira (28) que há dez casos de leptospirose confirmados no município após a enxurrada. De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura, todos os doentes já foram medicados, passam bem e não estão internados.


Em Teresópolis, há um caso notificado da doença – que é transmitida por água contaminada pela urina do rato. Nos dois municípios, quase 140 pessoas ainda aguardam o resultado de exames.

Com o aumento dos casos suspeitos de leptospirose, equipes de agentes de saúde foram reforçadas. O trabalho de prevenção inclui o controle de ratos e o trabalho de orientação dos moradores. Quando se trata de doenças depois de tragédias, o pior ainda pode estar por vir.

A secretária municipal de Saúde de Nova Friburgo, Jamila Calil, não descarta a possibilidade de surto da doença: “É possível porque nós estamos agora num momento do aumento de número de casos. Exatamente entre duas e três semanas do episódio da enchente é que começam a aparecer o maior número de casos suspeitos de leptospirose", explica.

A secretária disse também que há menos médicos atendendo a população nos hospitais da cidade. Alguns pediram demissão depois das chuvas por causa da dificuldade de acesso, outros perderam a casa. Sobre a falta de médicos, a Secretaria municipal de Saúde de Nova Friburgo disse que o problema já está controlado.

Parques fluviais

Ainda na sexta (28), a Secretaria estadual de Meio Ambiente anunciou que vai criar cinco parques nas margens de rios em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. Serão ocupados 95 quilômetros das laterais, onde a vegetação original será recuperada.

Fonte: G1

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Turismo da reconstrução: militares, servidores públicos e voluntários movimentam Teresópolis

Vindas de longe ou das vizinhanças, pessoas empenhadas em ajudar famílias que perderam tudo na tragédia ocupam hotéis e restaurantes na cidade.

São 9h de sábado quando o tenente-coronel Silva Júnior aparece. Ele é o último hóspede a descer. Depois de 10 dias, esse é o primeiro café-da-manhã do militar no restaurante do Hotel Bel Air, na entrada de Teresópolis, onde está hospedado desde o dia seguinte às chuvas que assolaram a Região Serrana. Normalmente, a rotina o fazia acordar às 6h e comer um pão com manteiga na Granja Comary, onde foram montadas duas tendas no local transformado em base do Exército para chegada e saída das equipes de resgate.


Militares no café-da-manhã em um hotel em Teresópolis: movimento de turistas foi substituído pelo de trabalhadores que lutam para reconstruir a cidade.

O sábado foi um dia atípico para o homem que comanda mais de 30 militares do 1º Batalhão de Aviação do Exército. Era o primeiro dia de alguma tranquilidade depois da tragédia. Muitos de seus companheiros estavam indo para casa, em Taubaté, interior de São Paulo. Novos pilotos chegavam para render parte dos que trabalharam por mais de uma semana, das sete da manhã até depois das oito da noite, no resgate de famílias e corpos, na distribuição de donativos, na procura de novas áreas alagadas e isoladas, na identificação de pontes, no transporte de médicos. “É uma satisfação muito grande poder minimizar a dor das pessoas, poder usar os meios que temos para ajudar e salvar. Todos temos família em casa, mas o nosso dever está em primeiro lugar e, hoje, minha missão é estar aqui”, explica o comandante, que deve ficar em Teresópolis por pelo menos um mês.

Na maior parte da cidade que até agora contabilizou 319 mortos e ainda busca 211 desaparecidos, o clima ontem era de quase normalidade. Nas ruas da região central de Teresópolis, a chuva não fez estragos. E começam a ficar para trás as lembranças da tragédia. Restaurantes, hotéis e lojas abriram normalmente. Mas basta observar com atenção para estranhar o vazio da famosa feirinha de roupas, comidas e artesanato da cidade. Em fins de semana normais de alta temporada, ela estaria amontoada de gente entre as barracas, ávidas por levar da cidade alguma lembrança e aproveitar o preço das roupas de frio. Mas neste sábado não havia turistas e a feirinha começou a ser desmontada mais cedo, um pouco pela chuva que caiu rapidamente no fim da tarde, e muito pela falta de movimento.

Sem turistas, Teresópolis está longe de estar deserta. Há gente de todo o estado e vários cantos do país hospedados em seus hotéis e circulando pelas ruas. São turistas acidentais – pessoas mobilizadas pelo desastre das chuvas que estão no município para trabalhar em sua reconstrução. Ao invés de passar o dia batendo perna pela Feirarte, em caminhadas ecológicas no Parque Nacional da Serra dos Órgãos ou em visitas ao Lago Comary, esse tipo bem particular de visitante corre de um lado para o outro com sacos de supermercado na mão, descarrega caminhões que chegam sem parar com doações, conversa com moradores que perderam parentes e suas casas, organizam filas para a entrega de mantimentos, dão informações de como conseguir novos documentos, tentam restabelecer os serviços básicos e ajudam no que podem para trazer a cidade de volta ao seu curso normal.

Erberson veio de Roraima, por conta própria, para ajudar no ginásio Pedrão, em Teresópolis

É gente como o auxiliar de sonda Erbeson Costa Rocha, cearense morador de Roraima, e o advogado William Cunha Von-Held, de Cabo Frio, na Região dos Lagos fluminense. Erbeson pegou R$ 2 mil e 25 dos seus 45 dias de folga para doar às vítimas da enchente. Viajou de Salvador para o Rio de ônibus, enfrentando 1.649 quilômetros de estrada, para dormir abrigado em uma igreja. Passa o dia no ginásio Pedrão, que foi transformado em centro de recebimento de doações e é onde voluntários e funcionários da Defesa Civil, prefeitura e governo do Estado se reúnem para oferecer apoio psicológico e jurídico, distribuir roupas e mantimentos e ajudar na busca por desaparecidos. Erbeson foi sozinho para Teresópolis, cidade onde nunca esteve, arcando com todos os custos da viagem. Só vai embora em meados de fevereiro. “Em 2008, fui para Blumenau, quando aconteceu aquela catástrofe por conta das chuvas. Eu não consigo ver tanto sofrimento e não fazer nada, se eu posso ajudar. Não sou rico, mas tenho saúde e posso trabalhar. Estou aqui para ser útil e fazer o que for preciso”, explica o soldador, que ontem trabalhava dando baixa na saída de colchões e outros donativos distribuídos para os desabrigados e desalojados. “Tem caminhão de doação chegando meia-noite e precisa de alguém para descarregar. Dorme-se pouco por aqui, mas ninguém reclama”, garante.

Diferente de Erbeson, William não estava de folga. Funcionário da prefeitura de Cabo Frio, ele faz parte do grupo de 28 pessoas que se mudou temporariamente para Teresópolis para trabalhar com a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos no auxílio às vítimas das chuvas. Ontem, passou parte do dia num galpão de bebidas que abriga quase 200 pessoas no bairro Meudon fazendo o cadastramento de famílias que vão receber o Aluguel Social. “É a primeira vez que fico tão perto de uma tragédia como esta. Ouvimos histórias muito tristes e vemos famílias e vidas destruídas. Estou aqui a serviço. Fazendo o meu trabalho eu posso contribuir para, de alguma forma, ajudar a diminuir esse sofrimento. Já me sinto útil“, afirma.

A rotina de William e seus colegas é a mesma desde que chegou em Teresópolis, no início da semana. “Acordamos por volta das 7h, tomamos café no hotel e nos reunimos para a distribuição das tarefas, de acordo com a demanda do dia. Voltamos lá pelas 21h, só mesmo para tomar banho, comer alguma coisa e dormir“. Os dias são longos e a carga emocional, pesada. “Já trabalhei no auxílio às famílias que buscam parentes, na distribuição de material, fiz cadastramento na zona rural e nos abrigos. Ontem atendi a um casal que procurava dois de seus quatro filhos. Já tinham encontrados dois corpos, mas outros dois continuavam desaparecidos. Eram todos crianças, a mais nova com um ano. Nessa hora a pressão é muito grande e não temos o que fazer, a não ser estar ali para aquela pessoa“, conta, com os olhos marejados, a assistente social Renata Rocha, também de Cabo Frio. Ela deve ficar pelo menos até terça-feira na Serra.
Histórias como as de Erbeson, William e Renata são comuns nestes dias nas ruas de Teresópolis. Mas não é só gente que vem de longe ajudar. Moradores da cidade não ignoram o sofrimento de seus conterrâneos e fazem o que podem. Qualquer gesto, por menor que seja, faz a diferença quando a tragédia humana deixa a todos sem palavras. Com jaleco branco e prendedores de cabelo no bolso, o designer de jóias Eduardo Gonçalves resolveu mudar a rotina e relembrar seus tempos de cabeleireiro nos anos 80: tirou as tesouras, pentes e a máquina da gaveta e passou o sábado num abrigo cortando cabelos, enquanto sua tia fazia as unhas das crianças. Até as 14h, Eduardo já tinha feito mais de 20 cortes. “Não podia ficar em casa como se fosse um fim de semana normal. O que vim fazer é uma coisa bem pequena, mas já é alguma coisa, né?”. A alegria dos meninos que pediam para ficar com cabelo de moicano era mais do que a resposta que Eduardo procurava num sábado longe de ser um sábado qualquer.

Fonte: Veja

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Veja a lista de desaparecidos na Região Serrana, segundo o MP

Parentes podem preencher formulário de desaparecidos no site do MPRJ

O número de pessoas desaparecidas nos municípios da Região Serrana do Rio, segundo levantamento do Ministério Público do Rio de janeiro (MP-RJ), chega a 400. Pelo levantamento são 195 em Teresópolis, 134 em Nova Friburgo, três em Bom Jardim, um em São José do Vale do Rio Preto, quatro em Sumidouro, 32 em Petrópolis e 31 em localidades não informadas. Os números foram fechados por volta das 22h de quinta-feira (20).

A lista pode ser consultada no site do MP-RJ http://www.mp.rj.gov.br/. Além de poder preencher o formulário com informações das pessoas desaparecidas também no site, quem quiser registrar desaparecimento pode ligar para o número (21) 2283-6466, das 8h às 18h, diariamente.

762 mortos, segundo prefeituras

Pelos últimos levantamentos dos municípios, ao todo são 762 mortos, sendo 365 em Nova Friburgo, 304 em Teresópolis, 64 em Petrópolis, 22 em Sumidouro, 6 em São José do Vale do Rio Preto e 1 em Bom Jardim.

Fonte: G1

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ABP e APERJ iniciam intervenção no Rio de Janeiro

Psiquiatras voluntários oferecem atendimento à população dos municípios afetados pelas chuvas.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), através da Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), iniciou, desde sábado, os trabalhos de intervenção nas cidades serranas do Rio de Janeiro, afetadas pelas fortes chuvas das últimas semanas.

A diretoria da ABP acredita que a valorização dos profissionais que residem nos locais onde as intervenções se fizerem necessárias é fundamental para atingir o resultado esperado. Segundo Antônio Geraldo, presidente da ABP, é primordial que sejam respeitados os conhecimentos regionais e técnicos das Federadas locais e seus associados. “Prestigiando e priorizando este conhecimento todo o processo será facilitado, os custos serão reduzidos, e os resultados mais objetivos”. Na visão da nova diretoria é fundamental a descentralização da ação, acionando as associações locais, regionalizando as ações e agindo em rede. Esta será a forma de trabalho da ABP neste tipo de situação em qualquer uma das regiões do país.
O objetivo é manter a ABP junto com os associados, buscando o que é melhor para os associados, suas federadas e para seus pacientes.

Vários psiquiatras de todo o Brasil estão se dispondo a ajudar, e para a coordenação isso é extremamente importante para uma eventual necessidade. “É de suma importância que os associados de todo o país, que tenham disponibilidade de amostras grátis de medicação façam a remessas para a ABP ou APERJ.

Acompanhe o que já está sendo feito

As associações estão em contato com as secretarias municipais de saúde da região para oferecer atendimento psiquiátrico, por profissionais voluntários, à população afetada. Presidentes de outras federadas do Rio de Janeiro, IPUB e Sociedade de Psicanálise foram acionados e, em segundo momento, também irão ajudar.

Os coordenadores de atendimento já iniciaram os trabalhos em Petrópolis e Itaipava. No Vale do Cuiabá, uma escola foi colocada à disposição para que os psiquiatras montem um ambulatório de Psiquiatria no local. Em Teresópolis, os profissionais estão atuando com a coordenação de saúde do município e outras autoridades locais.

Em Nova Friburgo, já há um lugar com boa estrutura de consultórios, disponibilizada pelo Day Hospital. Profissionais de saúde mental, de um fórum permanente, se reúnem todos os dias para acertar os detalhes de atendimento e 4 psiquiatras da infância e adolescência voluntários trabalham na região, reforçando a rede local.

Segundo Fátima Vasconcellos, presidente da APERJ e coordenadora das ações de intervenções no Rio de Janeiro da ABP, as cidades estão solicitando profissionais para atender adultos, mas, principalmente, crianças e adolescentes. "Muitas crianças estão em estupor, outras com quadros depressivos. Também, muitas perderam os pais e só conseguem informar o primeiro nome, não sabem o sobrenome. Entre os adultos, também há casos de depressão e até mesmo de surtos psicóticos", explica.

Além disso, associações mobilizam reforços para atender a demanda por medicamentos. "Praticamente tudo foi perdido durante a catástrofe e o estoque de remédios disponível nos dispensários das prefeituras não será suficiente, principalmente, neste primeiro momento em que não há uma rede organizada. Tudo ainda está sendo criado. Também há o grave problema de pacientes psiquiátricos que precisam de internação pela reagudização da crise. Entretanto, não existem leitos psiquiátricos disponíveis, pois na região não há CAPS III, que teriam leitos de retaguarda", acrescenta Fátima Vasconcellos.

Ainda de acordo com a psiquiatra, não foi possível chegar a todos os municípios, pois a área do desastre é grande e de difícil acesso. As estradas foram destruídas e estão sendo reabertas. Também não há postos de saúde montados, mas conforme alternativas forem disponibilizadas, mais ajuda será oferecida. "A questão básica é falta de organização por conta da extensão da catástrofe. As necessidades estão sendo reconhecidas, mas estamos tomando as medidas para supri-las", diz.

Contudo, apesar das dificuldades, muitos profissionais estão se mobilizando. "Tenho certeza que podemos contar com os psiquiatras do Rio de Janeiro. Temos que agradecer, inclusive, a solidariedade de colegas de várias federadas, que estão se comprometendo em conseguir medicamentos para nos ajudar. Estamos em contato com o Ministério Público, que garante adquirir o que for necessário. Porém, por hora, o nível local pode precisar de mais reforços e vamos acionar quantos profissionais forem necessários", finaliza Fátima Vasconcellos.

Fonte: ABP

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tragédia na Região Serrana completa uma semana com mais de 670 mortos

Até esta terça (18), as prefeituras das cidades afetadas somam 677 mortos. Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis foram três das mais castigadas.

A tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro completa uma semana nesta terça-feira (18) e já soma 680 mortos, segundo os números oficiais das prefeituras das cidades devastadas pelas chuvas. Pelos últimos levantamentos dos municípios, são 318 mortos em Nova Friburgo, 277 em Teresópolis, 58 em Petrópolis, 20 em Sumidouro, 6 em São José do Vale do Rio Preto e 1 em Bom Jardim.

Em Teresópolis, a prefeitura procura 177 desaparecidos. Em Petrópolis, há 26 desaparecidos, segundo a prefeitura. Em Sumidouro, há outros cinco. Já em Nova Friburgo, a prefeitura informou que não há levantamento sobre desaparecidos. O número de desabrigados e desalojados na região passa de 15 mil.

A localidade de Ponto Final, em Itaipava, distrito de Petrópolis, ficou devastada  (Foto: Bernardo Tabak/G1)


Já a Secretaria estadual de Saúde e Defesa Civil informa que são 665 mortos no estado, sendo 312 em Nova Friburgo, 276 em Teresópolis, 58 em Petrópolis (incluindo corpos encontrados em São José do Vale do Rio Preto) e 19 em Sumidouro.

As duas mortes de São José do Vale do Rio Preto foram confirmadas pela prefeitura de Petrópolis, para onde foram transferidos os corpos e feita a identificação por familiares. A Prefeitura de São José do Vale do Rio Preto informou nesta segunda-feira que ainda não tem registros de mortes de moradores da cidade. De acordo com a assessoria do município, os 6 corpos encontrados na cidade são de moradores de outras cidades e chegaram até lá pela correnteza do Rio Preto.


Segundo a Polícia Civil, 676 corpos já foram resgatados e identificados pelos peritos do IML (Instituto Médico Legal), sendo 277 em Teresópolis, 319 em Nova Friburgo, 56 em Petrópolis, 19 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 em Bom Jardim. Com o corpo encontrado em Bom Jardim, passariam a ser 6 cidades com registros de mortos na Região Serrana, segundo a polícia. O G1 não conseguiu entrar em contato com a prefeitura de Bom Jardim.

As buscas por outras vítimas que ainda estejam soterradas e o trabalho de resgate da população que ainda se encontra em áreas isoladas na Região Serrana do Rio entraram em seu 6º dia.

A previsão do tempo para o longo do dia é de pancadas de chuva e trovoadas, em toda a Região Serrana.

Nesta segunda-feira (17), quatro rodovias que estavam interditadas foram liberadas. Já a prestação de serviços básicos, como o fornecimento de luz e água, continua sendo gradativamente restabelecida nas cidades atingidas.

Reforço de 700 militares

A Região Serrana recebeu o reforço de 700 militares de SP, MG e RS. De acordo com o Comando Militar do Leste (CML), são militares especializados na construção de pontes móveis.

Nesta segunda-feira, soldados do Batalhão Escola de Engenharia, de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, instalarão uma ponte em Teresópolis. Além de Teresópolis, partes dos municípios de Bom Jardim e São José do Vale do Rio Preto também estão isoladas depois que diversas pontes foram destruídas pelo temporal.

Os prefeitos das cidades de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo se encontraram nesta segunda-feira e lançaram um um consórcio pela reconstrução das cidades.

Tendas como as usadas após tsunami abrigarão vítimas das chuvas. Elas serão doadas por uma ONG, que trabalha em parceria com o Rotary Internacional. Cada barraca tem capacidade para dez pessoas e possui equipamentos de sobrevivência, cozinha separada, fogareiro, panelas, talheres, pratos, cobertor, purificador e armazenador de água.

Ajuda para desabrigados

O MEC anunciou bolsa de R$ 350 para estudantes da Região Serrana. Segundo o ministério, para receber a bolsa o estudante precisa ter sido selecionado para cursos universitários do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), ou para obtenção de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni).

O governador Sérgio Cabral disse nesta segunda-feira que sugeriu ao governo federal que 100% das moradias do programa "Minha Casa, Minha Vida", na Região Serrana , sejam destinadas às famílias que moram em áreas de risco.


Maior tragédia da história

Esta já é a maior desastre natural da história Brasil. O número de vítimas ultrapassou o registrado em 1967, na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Naquela tragédia, tida até então como a maior do Brasil, 436 pessoas morreram. Relembre outras tragédias.

Fonte: G1

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Solidariedade em tragédias é natural do ser humano, diz psiquiatra

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Quando a pessoa se vê diante de um grande risco, lembra que a morte existe, e para afastar essa ideia, passa a lutar pela vida de um parente, do vizinho e até de quem não conhece.

Solidariedade é um sentimento imediato das pessoas que encontram pela frente parentes, amigos, vizinhos e até desconhecidos em situações de risco. Um tronco de árvore, um pedaço de madeira e um cobertor. Para salvar os feridos, os voluntários improvisam, fazem de tudo. Mãos na terra para encontrar um desaparecido, um parente. Muitas pessoas nunca se viram, mas o que importa é a vida.

O que explica essas reações diante da tragédia? O psiquiatra ouvido pelo Jornal Hoje, José Toufic Thomé, explica que essa solidariedade é natural do ser humano. Quando a pessoa se vê diante de um grande risco, lembra que a morte existe, e para afastar essa ideia, passa a lutar pela vida de um parente, do vizinho e até de quem não conhece. “Os nossos sentimentos de sobrevivência afloram em toda essa extensão, do atingido diretamente ao atingido indiretamente. Então, por exemplo, nosso humanitarismo Aflora. Nós vamos nos identificar e vamos tentar ajudar. De alguma forma, eu estou me ajudando, combatendo a minha impotência”, diz.

Por isso, nessas horas, até as pessoas que estão longe das tragédias se mobilizam. “Eu não posso fazer nada lá, então eu mando roupas, alimentos, o que faz parte da natureza humana, a solidariedade”, afirma Thomé.

José Toufic Thomé faz parte de uma comissão da ONU, Organização das Nações Unidas e acompanha vítimas de desastres. O psiquiatra disse que nosso jeito de ser permite que o brasileiro tenha uma reação mais rápida. “Eu acho que o brasileiro é um povo mais afetivamente exposto, ou melhor, se expõe nos seus afetos, e isso agiliza ações ou atitudes sociais”, explica.

Fonte: G1

Governo deve agir para evitar estresse pós-traumático no RJ, dizem especialistas

Para psicólogos britânicos, 'valor da comunidade' é importante para a recuperação das vítimas.

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que a ação imediata das autoridades é essencial para evitar que as pessoas afetadas pelas enchentes e deslizamentos na Região Serrana do Rio sofram de transtorno de estresse pós-traumático.

A condição pode se manifestar em pessoas expostas a eventos traumáticos, como desastres naturais ou episódios provocados pelo homem, como guerras, ataques violentos ou sequestros.

Para especialista, reações ao desastre variam de pessoa para pessoa. (F/Antonio Scorza/AFP)

Na opinião do psicólogo Chris Brewin, que trabalhou com vítimas do furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, a prioridade dos governos federal e estadual uma semana após a tragédia deve ser "reconhecer a dor das pessoas e tentar reconstruir a comunidade o mais rapidamente possível".

"No Katrina, o governo demorou demais para entrar com ajuda. As pessoas se sentiram abandonadas", avalia Brewin, membro da Divisão de Psicologia e Ciências Linguísticas da University College of London (UCL).

Irwin Redlener, diretor do National Center for Disaster Preparedness (Centro Nacional de Preparação para Desastres) da Columbia University, em Nova York, que também trabalhou com vítimas do Katrina, afirma que os governos têm a responsabilidade de oferecer apoio psicológico às vítimas.

"Em desastres naturais como o que está acontecendo no Brasil é certo que as pessoas vão necessitar de apoio psicológico, se não ao longo dos próximos anos, pelo menos nos próximos meses", afirma.

"O governo deveria oferecer apoio psicológico. Todas as famílias afetadas devem ter pelo menos uma avaliação preliminar por uma equipe de psicólogos", diz.
Ele afirma ainda que, como as pessoas comuns são geralmente as primeiras a responder a desastres, é importante que sejam mais bem orientadas para saber o que fazer nessas situações.

O centro que ele comanda na Columbia University foi criado após os ataques de 11 de setembro, com o objetivo de melhorar a capacidade do país de preparação, resposta e recuperação de desastres.

Reações

O psicólogo Michael Reddy, da British Psychological Society, explica que vários tipos de reações emocionais podem ser esperados das vítimas nestes dias que se seguem ao desastre na serra fluminense.

Segundo ele, muitos podem estar revivendo a situação o tempo todo, "sentindo medo e pavor novamente". Outros podem estar evitando a todo custo pensar ou falar sobre o que passaram, e há ainda os que podem estar "sobressaltados, levando sustos facilmente e tendo pesadelos".

Ele ressalta, no entanto, que essas reações são normais e, num primeiro momento, não devem ser identificadas como transtorno de estresse pós-traumático.
"O diagnóstico só pode ser feito após um mês de sintomas ininterruptos. Antes disso não podem ser chamados de transtorno", esclarece Reddy.

Ele explica que as pessoas com mais chances de desenvolver a condição são as que tiveram suas vidas ameaçadas e viram parentes morrer. Em seguida, vêm os que não correram risco de morte, mas perderam familiares e conhecidos. Em último, estão as pessoas que não sofreram perdas diretamente, mas estão "horrorizadas" com o episódio.

Personalidade

Para Irwin Redlener, a reação ao desastre depende da personalidade de cada pessoa.
"Alguns são mais resistentes e não terão efeitos no longo prazo. Outros vão carregar o impacto psicológico por um longo período, vão sofrer de transtorno de estresse pós-traumático. Os que participaram da resposta inicial têm uma possibilidade muito grande de sofrer traumas de longo prazo", afirma Redlener.

Segundo o especialista americano, a primeira resposta das pessoas em casos com os das enchentes no Rio é tentar garantir a sobrevivência, e elas apenas reagem aos acontecimentos, sem tempo de processar as informações.

"Quando o perigo inicial passou, a pessoa já ajudou quem podia, ela para, respira e começa a ver a extensão do que aconteceu. É um período de confusão e desorientação. Um período de choque, quando percebem que tanta coisa mudou", diz.

Redlener afirma que isso ocorre não apenas com familiares de vítimas e testemunhas, mas também com profissionais que trabalham nas equipes de resgate. Ele lembra que muitos bombeiros que atuaram no resgate e ajuda às vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, sofreram de transtorno de estresse pós-traumático por longos períodos. "Todos estão sujeitos, inclusive profissionais que atuam no resgate e no auxílio às vítimas", diz.

Comunidade

De acordo com os especialistas ouvidos pela BBC Brasil, cerca de 60% das vítimas de desastres se recuperam do trauma sozinhos, sem precisar de apoio psicológico. Para os 40% que desenvolvem o transtorno, a ação da comunidade, com o apoio do governo, é extremamente importante.

Psicólogo vê papel importante para ação da comunidade após desastre. (Foto:Antonio Scorza/AFP)

"Em desastres de larga escala como esse, terapias de grupo organizadas pela comunidade funcionam bem porque incentivam as pessoas a se abrir, dividir experiências. Verbalizando os sentimentos lidamos mais facilmente com eles", explica Michael Reddy. Reddy conta ter coordenado um grupo de especialistas que ajudou vítimas do terremoto que matou 18 mil pessoas na Turquia, em 1999, e que se surpreendeu como o "valor da comunidade" foi imprescindível para a recuperação de milhares de pessoas que perderam tudo."Pelo que conheço do Brasil, imagino que seja uma situação semelhante, em que as famílias e os amigos são muito unidos."

James Thompson, psicólogo do University College London, concorda. E, na sua avaliação, uma forma de superar traumas causados por desastres pode passar pela arte.
"Uma das técnicas é retratar o evento em forma de desenhos , peças teatrais ou pinturas, porque são meios aceitáveis de lidar com a dor", sugere Thompson.
No caso do Brasil, segue ele, "isso pode passar pela música, dança, ou até uma novela".

"O brasileiro tem a seu favor o entusiasmo, o espírito festeiro e a alegria. Em uma tragédia como essa, isso pode fazer a diferença e ajudar a comunidade a se reerguer", diz.

Ainda segundo os especialistas, cerca de 15% dos pacientes não conseguem superar o transtorno de estresse pós-traumático, apresentando sintomas como ansiedade e depressão até três anos após o evento. Nesses casos, terapias individuais são o tratamento mais recomendado.

"O passo mais importante agora é garantir abrigo, comida, água e o mínimo de conforto possível. Em seguida, dar início à reconstrução das casas, mandar as crianças para a escola, voltar ao trabalho. Isso pode influenciar muito na maneira como essas pessoas vão lidar com as perdas de pessoas queridas e bens materiais", detalha Chris Brewin.

Ainda segundo Brewin, a experiência com o Katrina ensinou que em situações como essa o governo deve evitar enviar as pessoas para longe da área do desastre para não quebrar o "laço social" que une a comunidade afetada.

"Muitas pessoas foram forçadas e se mudar para outros Estados do sul dos Estados Unidos e nunca se recuperaram emocionalmente, porque queriam ter refeito suas vidas onde moravam antes", afirma.

Abandono

De acordo com Irwin Redlener, a sensação de abandono é agravada pelo fato de as pessoas esperarem que a ajuda oficial esteja a postos em uma situação desse tipo, o que nem sempre é possível.

"Geralmente há uma grande decepção. As pessoas estão acostumadas com o dia-a-dia, quando chamam o serviço de emergência e ele chega. Mas quanto maior a extensão do desastre, mais desorganizada será a resposta do governo", diz. "Acabam tendo de tomar por conta própria medidas como procurar por comida, por abrigo, porque a ajuda oficial não está lá. Sentem-se isoladas, abandonadas e assustadas."

Segundo Redlener, que também é pediatra e especialista em saúde pública, as crianças geralmente sofrem mais o impacto psicológico de um evento como as enchentes no Rio.
"As crianças são particularmente vulneráveis. Podem ficar muito quietas, não falar sobre o assunto. É preciso garantir que sejam protegidas", diz.
Ele afirma que vários meses após a passagem do furacão Katrina, estudos mostravam que as crianças ainda sofriam um forte impacto da tragédia.

Tanto para crianças como para adultos, o tratamento deve incluir aconselhamento psicológico de longo prazo, diz o especialista.
Além dos ataques de 11 de setembro e do furacão Katrina, Redlener já acompanhou os esforços de resposta a desastres como o terremoto na Guatemala, que deixou 23 mil mortos em 1976, a fome de 1984 e 1985 na Etiópia, que matou 1 milhão de pessoas, e as enchentes no Paquistão no ano passado.

"Alguns desastres geram efeitos mais prolongados que outros. Alguns destroem casas. Outros destroem casas e toda uma comunidade", diz. Redlener diz que também há uma diferença entre desastres sobre os quais há algum tipo de aviso prévio, como furacões, nos quais as pessoas podem se preparar, e aqueles que vêm sem aviso, como enchentes e terremotos."Mas em comum todos têm a falta de preparo das pessoas para reagir a um desastre. E dos governos também."

Fonte: G1

Mitos do desastre

“Acabo de receber esse texto do amigo João Augusto Figueiró, do Instituto Zero a Seis (www.zeroaseis.org.br – vale a pena conhecer!). E a partir do artigo desenvolvido pelo colunista Hélio Schwartsman, na Folha do último sábado (15/01), fica claro que houve melhoras, mas os governos, a mídia, e até a própria sociedade, ainda não conseguem perceber com clareza a dimensão humana das catástrofes e insistem em perpetuar a divulgação de mitos”.
Thomé.


ARTIGO (Hélio Schwartsman)

SÃO PAULO - Os norte-americanos podem ser acusados de várias coisas, mas não de falta de pragmatismo. Não há fenômeno social grande ou pequeno sobre o qual eles não tenham tentado erigir uma ciência. A Wikipedia lista nada menos do que 89 subcampos da sociologia. São coisas como sociologia do consumo, do crime, da internet, do filme e, como não poderia deixar de ser, a sociologia do desastre.

Assim, mais ou menos desde os anos 20, parte dos cientistas sociais dos EUA se dedica a observar e mensurar como as pessoas reagem em situações de catástrofes e emergências naquele país. Chegaram a algumas conclusões interessantes que, se são válidas para o Brasil, ganham atualidade com a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro.

A primeira delas é que, ao contrário do que sugere o senso comum, vítimas costumam reagir com racionalidade aos acontecimentos. Pânico contagiante, fuga em massa, saques, ainda que possam ocorrer de forma esporádica, constituem o que autores como Enrico Quarantelli e Henry Fisher chamam de "mitolologia do desastre". Emergências, dizem, tendem a despertar o altruísmo das pessoas, não o lobo hobbesiano que existe dentro de cada um de nós.

Outro ponto importante é que vítimas e autoridades frequentemente se comportam como se evitar saques e violência fosse uma prioridade. Com isso, podem tomar decisões erradas, como permanecer numa casa condenada e desviar recursos para um policiamento provavelmente desnecessário.

Parte da culpa, diz Fisher em seu "Response to disaster", é da mídia. Após tabular 40anos de cobertura jornalística de catástrofes, ele conclui que os meios de comunicação seguem perpetuando os mitos, mesmo que sem evidências empíricas para ampará-los.

A situação, entretanto, pode estar melhorando. Hoje já quase não se publicam mais histórias de saqueadores que cortam os dedos dos mortos para ficar com seus anéis.

Fonte: Folha de São Paulo

Brasil não é Bangladesh. Não tem desculpa, diz consultora da ONU

"O Brasil não é Bangladesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século 21, que pessoas morram em deslizamentos de terras causados por chuva." O alerta foi feito pela consultora externa da ONU e diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir.

Conhecida como uma das maiores especialistas no mundo em desastres naturais e estratégias para dar respostas a crises, Debarati lançou duras críticas ao Brasil, em entrevista ao Estadão.com.br. Para ela, só um fator mata depois da chuva: "descaso político."

Estadão- Como a senhora avalia o drama vivido no Brasil?
Debarati Guha-Sapir- Não sei se os brasileiros já fizeram a conta, mas o País já viveu 37 enchentes, em apenas dez anos. É um número enorme e mostra que os problemas das chuvas estão se tornando cada vez mais frequentes no País.

Estadão- O que vemos com o alto número de mortos é um resultado direto de fenômenos naturais?
DGS- Não, de forma alguma. As chuvas são fenômenos naturais. Mas essas pessoas morreram porque não têm peso político algum e não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano.

Estadão- Custa caro se preparar?
DGS- Não. O Brasil é um país que já sabe que tem esse problema de forma recorrente. Portanto, não há desculpa para não se preparar ou se dizer surpreendido pela chuva. Além disso, o Brasil é um país que tem dinheiro, pelo menos para o que quer.

Estadão- E como se preparar então?
DGS- Enchentes ocorrem sempre nos mesmo lugares, portanto, não são surpresas. O problema é que, se nada é feito, elas aparentemente só ficam mais violentas. A segunda grande vantagem de um país que apenas enfrenta enchentes é que a tecnologia para lidar com isso e para preparar áreas é barata e está disponível. O Brasil praticamente só tem um problema natural e não consegue lidar com ele. Imagine se tivesse terremoto, vulcão, furacões...

Fonte: Estadão