Mostrando postagens com marcador drogas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drogas. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Opinião: drogas e políticas públicas

Crack: uma realidade dolorosa

A sociedade padece e agoniza diante da situação dos usuários de crack e das “cracolândias”. Em todos os confins do território brasileiro existem usuários desta droga. Embora o cidadão pobre, sem oportunidades e que fica à mercê da sociedade continue sendo o mais acometido, pessoas das classes sociais mais abastadas também passaram a configurar como usuários desta substância. Conseqüentemente, o caos, numa realidade já caótica, vem se agravando. Eis que surge um questionamento: como reagir frente a esta realidade?

Os programas governamentais sucumbem na necessidade de combater o crack. Tais programas e projetos devem extrapolar a dimensão da saúde, visto que, sem instrumentos sociais, educacionais e culturais nenhum resultado será alcançado. Por mais que o componente de saúde pública seja primordial, é obtuso e equivocado achar que a problemática do crack e que todas as suas conseqüências serão combatidas, apenas, com discussões pautadas em leitos psiquiátricos ou clínicas de tratamento.O dependente de crack e suas famílias necessitarão, além de espaços de tratamentos dignos e adequados, de uma revolução social.

Este é o grande engodo da problemática que poderia ser questionada de forma reducionista da seguinte forma: o Estado Brasileiro está preparado e se mostra capaz para esta revolução?

Confesso que é difícil responder se em algum momento ele esteve ou se ele está ou se ele estará pronto para revolucionar desta forma conforme analisado acima. O dependente de crack é o mesmo fora e dentro do espaço de tratamento seja ele comunitário, hospitalar ou misto. Portanto, a vida dele, em sua quase totalidade, acontecerá nas ruas, nas relações familiares e sociais, no trabalho e no cotidiano. Eis o porquê da necessidade de se pensar além dos espaços de tratamento sejam eles públicos ou privados. A propósito estes últimos crescem gradativamente evidenciando a falência do modelo público de tratamento e a lucratividade neste terreno fértil e não semeado pelo Estado.

Após as propostas de Reforma da Assistência à Saúde Mental, ocorridas nas décadas de 1980 e 1990 e confirmadas nas décadas seguintes, ocorreu uma redução maciça dos leitos hospitalares psiquiátricos. Paralelamente, havia a proposta de criar uma rede comunitária substitutiva capaz de assumir, em todos os aspectos terapêuticos, o paciente psiquiátrico. Nesta transição reformadora, alguns pontos críticos merecem destaques:

1. O descompasso na velocidade de redução dos leitos hospitalares e de criação dos serviços substitutivos comunitários;

2. A falta de análise longitudinal do principal substitutivo da Reforma “Psiquiátrica” Brasileira (CAPS – Centro de Atenção Psicossocial) no que concerne aos seus indicadores de impacto (eficiência, eficácia, efetividade, etc);

3. O investimento deficitário para o setor hospitalar gerando uma falta de assistência àqueles que necessitam deste modelo de tratamento;

4. O número limitado de unidades psiquiátricas em hospital geral capazes de fornecer um tratamento psiquiátrico mais integral e integrado com as outras áreas médicas;

5. O financiamento precário para saúde mental associado a um direcionamento majoritário de recursos aos Centros de Atenção Psicossociais.

Há uma necessidade de avaliação crítica sobre estes pontos e isto de forma alguma é significado de que ocorrerá uma defesa a modelos asilares ou manicomiais. Pelo contrário, os asilos não necessariamente precisam de muros hospitalares, visto que, eles também estão ligados a forma ideológica do pensar e nascem com o abandono. Desse modo, um consultório pode ser manicomial, um CAPS pode ser manicomial, uma unidade de internação pode ser manicomial e embora os manicômios tenham sido combatidos no período pós-reformador, atualmente, temos manicômios maiores do que os de outrora, por exemplo: os presídios brasileiros.

Se o gargalo já era estreito para ter um tratamento psiquiátrico digno antes do aumento da preocupação social com o crack e com as “cracolândias”, imaginem agora. Por isto, eu volto a ressaltar: o que era o caos ficou mais caótico e neste terremoto sanitário e social surgirão aproveitadores e falsos líderes capazes de lucrar com tudo isto sejam com ganhos primários ou secundários. Na verdade, isto já é um filme repetido basta lembrar as guerras, as situações de conflitos e a seca nordestina.

Em todo processo saúde-doença, independente da patologia, é necessário compreender, aprofundar o entendimento e investir em atividades preventivas. Estas propostas mostram-se eficazes e, ao final, menos onerosas, portanto mais eficientes. Em relação ao crack, discute-se sobre “tratar” e “internar” como se a simples colocação do indivíduo no regime hospitalar, por mais que indicada sob o julgamento médico, resolvesse a problemática. A discussão técnica de muitas entidades representativas de classes e de categorias profissionais bate, recorrentemente, nesta tecla. Cansamos de escutar o questionamento – “onde vamos internar”? No entanto, não escutamos o seguinte questionar: como vamos fazer para combater esta ascensão de usuários de crack e de “cracolândias”? Enfim, numa linguagem mais coloquial, seria melhor e mais lógico “enxugar o gelo ou impedir que ele cresça”?

A voz daqueles que trabalham com saúde mental e que poderiam pressionar as instâncias governamentais é uma voz fraca e sem reverberação. No Brasil, a forma ideologicamente apaixonada que a Reforma da Assistência à Saúde Mental foi conduzida deixou um triste legado – a dicotomia entre as categorias profissionais. De um lado “os defensores da reforma” e de outro “os opositores da reforma”. Às vezes, esta análise é tão primitiva e tão apaixonada que você pode ser colocado em um lado por uma simples opinião que, em tese, não teve como objetivo defender nem lá, nem cá. Conclusão: a voz é fragmentada e, muitas vezes, até contraditória. O resultado é um meio de cultura apropriado para a construção de Políticas de Saúde Pública que não darão certo. E nós, protagonistas do processo, ficamos parecidos com “baratas tontas” trombando uns nos outros sem conseguir mudar absolutamente nada.

Talvez, tudo isto justifique esta importante problemática. Portanto, a questão não é somente a capacidade expansiva de consumo e de dependência que o crack tem. Ele se encaixou como dedo em luva nesta realidade caracterizada por uma:
• Atenção à saúde mental capenga;
• Usuários com situação social, educacional e cultural agonizante;
• Disputa entre categorias profissionais com ausência de voz conjunta e coletiva;
• Ausência de Políticas de Saúde Mental com medição de indicadores de impacto das suas propostas;
• Surgimento de aproveitadores e falsos líderes que, ao invés de inverter e resolver a demanda, acaba por perpetuá-la.

O crack é uma realidade nua e crua que está explícita aos olhos de todos. Não adiantará se esconder, pois, de um jeito ou de outro, ele baterá na nossa porta. Por fim, é preferível analisarmos estes pontos de estrangulamentos a fim de construirmos exércitos e propostas de vitória, pois esta postura é mais digna e enriquecedora do que escrever e valorizar derrotas. As categorias profissionais da saúde mental e a sociedade civil precisarão ajustar o discurso para que, de maneira mais efetiva e menos dicotomizada e messiânica, melhores resultados sejam alcançados.







Autor: Dr. Régis Eric Maia Barros
(Psiquiatra, Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP)
Escreva para o autor AQUI.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Número de fumantes cai 20% em seis anos no Brasil

Segundo levantamento da Unifesp, redução foi maior entre os adolescentes.
Na classe A, o índice aumentou.

A prevalência de fumantes no Brasil diminuiu 20% nos últimos seis anos, passando de 19,3% em 2006 para 15,6% em 2012. A queda foi maior entre os adolescentes do que entre adultos e mais acentuada em homens em comparação com mulheres. Apesar disso, o padrão de consumo do tabaco no país piorou – os fumantes estão consumindo mais cigarros por dia e considerando cada vez mais difícil passar um dia sem fumar.

Esses dados fazem parte do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito por pesquisadores da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo entrevistou no ano passado 4.607 pessoas com mais de 14 anos de 149 municípios brasileiros.

Queda — Segundo os resultados, o tabagismo entre adolescentes de 14 a 18 anos passou de 6,2% em 2006 para 3,4% em 2012, uma redução de 45%. Já entre maiores de 18 anos, essa taxa diminuiu de 20,8% para 16,9% no mesmo período, uma queda de 19%.

Embora a prevalência de fumantes seja maior entre adultos do sexo masculino do que do feminino (21%, ante 13% em 2012), a queda nos últimos seis anos foi mais acentuada entre homens do que mulheres (22% e 13%, respectivamente). Esse dado indica a possibilidade de, no futuro, a taxa de fumantes ser semelhante entre ambos os sexos.

A redução do tabagismo entre adultos ocorreu em todas as regiões brasileiras. O Sul apresentou a maior diminuição, de 23%, mas continua sendo a região com a maior prevalência de fumantes do país (20,2%), à frente do Sudeste (17,7%), Centro-Oeste (17%), Norte (14,4%) e Nordeste (14,2%).

O fumo diminuiu entre pessoas de todas as classes sociais, com exceção da classe A, que dobrou a prevalência de tabagismo (de 5,2% em 2006 para 10,9% em 2012). Uma das possíveis explicações para esse dado pode estar no fato de alguns fumantes deixarem o cigarro por ele pesar no bolso: 6,4% das pessoas alegaram parar de fumar para economizar dinheiro. Outras 79,8% justificaram preocupação com a saúde.

"A diminuição do tabagismo é um tendência mundial, mas o Brasil precisa continuar se mobilizando para combater o problema. Hoje, ao lado do álcool e da pressão alta, o cigarro é um dos principais causadores de doenças no mundo", diz Ana Cecília Marques, psiquiatra da Uniaid. "Até o fim da década de 1980, ninguém achava que o cigarro causava dependência e oferecia danos à saúde. A sociedade está reagindo ao tabagismo apenas agora."

Características do vício — De acordo com o estudo, metade dos brasileiros já experimentou cigarro – em média, isso acontece aos 16 anos de idade. Entre aqueles que já fumaram alguma vez, metade se tornou um fumante frequente, sendo que 21% abandonaram o cigarro.

As características de consumo de cigarros pioraram de 2006 para 2012. Nesse período, os fumantes passaram de 12,9 para 14,1 o número de cigarros que fumam em um dia. Além disso, a taxa de fumantes que consomem o primeiro cigarro até 5 minutos depois de acordar aumentou de 18% para 25%, e dos que acham difícil ou muito difícil passar um dia sem fumar aumentou de 59% para 67,8%. Esses três fatores são considerados como indicares de dependência.

Longe do cigarro — Segundo a pesquisa, 90% dos fumantes entrevistados gostariam de abandonar o cigarro, mas apenas 17% estão fazendo planos para que isso aconteça. Mais da metade (63%) disse já ter tentado parar de fumar sem sucesso, embora menos de 10% tenham feito algum tratamento com esse objetivo. A maioria buscou ajuda de algum membro da família ou de amigos.

"A política de tratamento contra o tabagismo no Brasil sem dúvida está ultrapassada. Ela não pode mais se basear apenas no número de cigarros que uma pessoa fuma por dia, mas sim ser uma abordagem cada vez mais individualizada", diz Ana Cecília. Segundo ela, o tratamento contra a dependência em cigarro pode incluir psicoterapia, uso de medicamentos que evitam uma recaída, reposição de nicotina com adesivos ou chicletes e até antidepressivos em casos mais graves.

Informação divulgada através do portal da revista Veja.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Estímulo magnético pode ajudar fumantes a largar vício, sugere estudo

Usar campos magnéticos para alterar a atividade cerebral pode ajudar alguns fumantes a abandonar o hábito, aponta um estudo preliminar recém-divulgado.

Os pesquisadores dizem ter usado estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês) para "desfazer" o vício em nicotina do cérebro do paciente.

As descobertas preliminares, apresentadas na conferência Neuroscience 2013, nos EUA, sugerem que a técnica pode ajudar fumantes a reduzir o consumo de cigarro ou mesmo abandoná-lo. Mas novos testes são necessários antes que a técnica seja indicada para uso clínico.

Estímulo

A TMS estimula neurônios a alterar funções cerebrais e já é utilizada no tratamento de alguns pacientes que sofrem de depressão. A equipe da Universidade Ben Gurion, em Israel, usou os campos magnéticos em duas áreas do cérebro associadas ao vício em nicotina: o córtex pré-frontal e a ínsula.

Os 115 fumantes que participaram do estudo foram divididos em três grupossubmetidos a TMS de alta frequência, a de baixa frequência ou a nenhum tratamento — durante 13 dias. Após seis meses de estudo, o grupo que teve TMS de alta frequência consumiu menos cigarro e apresentou índices maiores de abandono do fumo.

As melhores taxas de sucesso no tratamento ocorreram quando os participantes viram fotos de cigarros acesos durante a terapia magnética. Desses, um terço largou o cigarro após seis meses.

Resposta do cérebro

Os pesquisadores argumentam que a terapia pode alterar a resposta natural do cérebro a imagens, sensações e objetos associados ao fumo. "A pesquisa mostra que podemos conseguir desfazer algumas das mudanças que o fumo crônico causa no cérebro", explica Abraham Zangen, da Universidade Ben Gurion.

"Sabemos que muitos fumantes querem largar o cigarro ou fumar menos, e a técnica pode ajudar a conter a causa número um de doenças evitáveis."

O médico Chris Chambers, especialista em TMS na Universidade de Cardiff (Grã-Bretanha), acha que o estudo contribui por "somar-se a crescentes evidências de que o estímulo cerebral, quando aplicado a partes específicas do lóbulo frontal, pode aumentar nossa capacidade de superar vícios".

"(O estudo) é animador e tem uma gama de aplicações na psiquiatria", agrega.

No entanto, ele ressalta que a pesquisa ainda não foi revisada por grupos médicos e que ainda é preciso "desenvolver um entendimento maior sobre o porquê e como esses métodos funcionam".

Um outro estudo, divulgado na mesma conferência, sugere que o estímulo cerebral por meio de eletrodos pode ajudar também no combate ao vício de heroína. O estudo foi feito com camundongos, que ingeriram a droga descontroladamente até se viciarem. Os animais que foram submetidos a estimulação cerebral profunda reduziram o consumo do entorpecente.

Barry Everitt, professor da Universidade de Cambridge, disse que os estudos podem trazer benefícios: "Intervenções sem o uso de medicamentos seriam um grande passo adiante no tratamento antidrogas, que atualmente depende de substituir uma droga pela outra e tem altas taxas de reincidência".

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Orgasmo feminino tem efeito terapêutico, sugere pesquisador

O orgasmo feminino pode ter um efeito terapêutico. Quem diz é o psicólogo americano Barry Komisaruk, professor da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, que já passou 30 de seus 72 anos investigando os benefícios do prazer sexual no bem-estar das mulheres.

Seu último estudo demonstra que o clímax estimula todas as principais áreas do cérebro e tenta encontrar possíveis usos terapêuticos do estímulo vaginal.

No atual estágio, os estudos de Komisaruk estão concentrados em verificar se o prazer sexual pode ajudar no tratamento de pacientes com ansiedade, depressão ou dependências.

Durante sua pesquisa, Komisaruk colocou suas pacientes em câmaras de ressonância magnética com a recomendação de estimular suas partes íntimas até alcançar o orgasmo.

O monitoramento cerebral desse processo o levou a algumas conclusões interessantes, que Komisaruk compartilhou nesta entrevista telefônica com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

BBC - O que acontece no cérebro de uma mulher durante um orgasmo?

Barry Komisaruk - Há um enorme aumento da atividade. O que averiguamos é que durante o orgasmo há um aumento impressionante do fluxo de sangue e de oxigênio na cabeça, ambos nutrientes muito benéficos para o cérebro.

BBC - Como é sua análise do cérebro?

Komisaruk - Monitoramos sua atividade durante o clímax e observamos quais zonas são ativadas quando a mulher tem um orgasmo. Já vimos que seus efeitos benéficos chegam a todos os sistemas principais do cérebro. Eu me refiro ao sistema sensorial, ao sistema de coordenação motora, etc.

BBC - Seu estudo menciona que conhecer os efeitos do orgasmo na nossa cabeça pode ajudar a superar a depressão, a ansiedade ou o vício. Como?

Komisaruk - É precisamente isso que queremos comprovar. Para isso, permitimos que a paciente veja a própria análise de seu cérebro ao vivo. Estamos no processo de averiguar se visualizar os processos de nossa mente ajuda a controlá-la. Há uma zona chamada núcleo accumbens que é a área do prazer.

Essa área é ativada pela nicotina, pelo chocolate, pela cocaína e também pelos orgasmos. A minha pergunta é: podemos ensinar a nós mesmos como aumentar conscientemente a atividade nesse núcleo observando seu funcionamento? Que efeito teria isso em pacientes com depressão ou ansiedade?

BBC - Quão conhecidos são os efeitos do orgasmo na saúde?

Komisaruk - Praticamente não há estudos. Este é o primeiro que se faz sobre suas consequências sobre o cérebro. O que já se estudou é o resultado do orgasmo no coração da mulher e também os benefícios do orgasmo masculino para evitar o câncer de próstata.

Comprovou-se que as mulheres que tinham mais orgasmos gozavam de uma melhor saúde cardíaca. O estudo em homens mostrou que os que tinham menos orgasmos não haviam liberado substâncias tóxicas que estavam acumuladas na próstata pela ausência de ejaculação. Esse fator os faz mais propensos ao câncer.

BBC - Quando acredita que seu conhecimento sobre o cérebro será suficiente para oficializar uma prescrição médica de orgasmos?

Komisaruk - Eu já recomendo. Mas para conseguir que isso seja feito de maneira regular são necessárias mais pesquisas. Dependerá das descobertas que façamos no futuro.

BBC - É fácil conseguir dinheiro para pesquisar a sexualidade?

Komisaruk - É muito difícil. As entidades que financiam são reticentes em dar dinheiro para estudos sobre o prazer e o sexo. Em parte porque enfrentam a pressão social. O governo não quer se envolver com pesquisas sobre a sexualidade por temor de ser criticado com o argumento de que há problemas mais sérios.

BBC - Por que está interessado no orgasmo da mulher e não do homem? Há muita diferença entre os dois?

Komisaruk - Há mais semelhanças que diferenças. A razão pela qual comecei a me interessar pelo orgasmo feminino foi que encontrei evidências de que o estímulo vaginal tem a capacidade de bloquear a dor sem necessidade sequer de alcançar o orgasmo.

Demonstramos que ambos os prazeres atuam como calmante, mas que o orgasmo é mais efetivo que a simples estimulação.

A partir disso, muitas mulheres me disseram que utilizam a estimulação vaginal para reduzir o mal-estar da menstruação ou a dor provocada pela prática de esportes. E isso funciona para elas.

BBC - Então a estimulação vaginal pode aliviar a dor a longo prazo ou somente a curto prazo?

Komisaruk - Meus estudos somente conseguiram estabelecer que o orgasmo reduz a dor menstrual imediatamente e pode ter um efeito por horas.
O alívio das dores nas costas é outro efeito benéfico da estimulação vaginal e dos orgasmos.

Entrevista divulgada através do portal da BBC.

Leia também: "Orgasmo ajuda a prevenir doenças físicas e mentais, diz estudo"

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Doenças do pulmão matam um em cada dez europeus

Pesquisadores da European Respiratory Society constataram que a incidência de câncer de pulmão e da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) - mal que destrói os alvéolos pulmonares, incapacitando parcialmente o órgão - deve continuar a crescer nos próximos 20 anos por causa do persistente hábito do fumo entre europeus.

Apesar de ser considerado um problema grave, a pesquisa apontou que a prevenção, o tratamento e o fomento à pesquisa não são prioridade em países europeus. A pesquisa europeia, divulgado na publicação científica European Lung White Book e feita a partir de dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do European Centre for Disease and Control, analisou as tendências da evolução das doenças pulmonares em toda a Europa.

O estudo demonstra que fumantes de tabaco representam "o desafio da saúde mais importante da Europa" e mantém o fumo como o hábito que causa o maior número de mortes por câncer de pulmão, DPOC e insuficiência cardíaca.

Ainda que o número de fumantes tenha diminuído significativamente em países como a Dinamarca e Grã-Bretanha desde os anos 1970, o estudo mostra que os efeitos de longo prazo daqueles que mantiveram o hábito ao longo dos anos continuam a gerar um alto índice de mortes por câncer de pulmão e DPOC. Com isso, a proporção no número de mortes causado por condições pulmonares deverá permanecer estável pelos próximos 20 anos, ainda que haja uma previsão de queda no índice de infecções do pulmão.

Desde 2000, o serviço nacional de saúde da Grã-Bretanha oferece um serviço gratuito de aconselhamento para pessoas que queiram largar o cigarro. O estudo europeu destaca que iniciativas como essa "resultam num maior número de fumantes engajados em parar de fumar".

Conclusão

Os resultados da pesquisa concluíram que o investimento em prevenção, tratamento e pesquisa de doenças ligadas ao pulmão deve ser priorizado. "Tanto o tratamento quanto a prevenção de doenças pulmonares devem melhorar se quisermos reduzir o impacto (do problema) na longevidade, qualidade de vida e economia dos países Europeus e em todo o mundo", afirma Francesco Blasi, presidente da European Respiratory Society.

Para o professor Richard Hunnard, da British Lung Foundation, o estudo europeu mostra o real problema causado pelas doenças respiratórias da Grã-Bretanha. "Doenças como o câncer de pulmão e DPOC mata milhares de pessoas todos os anos, mas existem ainda outros 40 tipos diferentes de doenças pulmonares. Índices de mortalidade por fibrose pulmonar idiopática (doença em que os alvéolos se transformam num tecido rígido chamado fibrose e param de funcionar) e mesotelioma (câncer considerado raro, que acomete dentre outros órgãos a pleura - a membrana que envolve o pulmão), têm crescido progressivamente por décadas", ressalta Hunnard. "Se levarmos tudo isso em consideração, é bem provável que cerca de um quarto das mortes na Grã-Bretanha a cada ano sejam causadas por doenças respiratórias - o mesmo número de mortes causadas por todos os outros tipos de câncer que não envolvem o pulmão", explica.

Ele ainda disse que os altos índices de morte na Grã-Bretanha associadas ao pulmão sugere que os pacientes estão procurando ajuda médica muito tarde.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

POPULAÇÃO BRASILEIRA TEM 12% DE FUMANTES

Dados do Ministério da Saúde mostram que 12% dos brasileiros são fumantes. Para tentar conscientizar as pessoas sobre o risco do tabaco e a importância de largar o cigarro, foram feitas nessa quinta-feira (29/08), data em que é comemorado o Dia Nacional de Combate ao Fumo, ações educativas em praticamente todo o país para comemorar.

O pneumologista da Divisão de Controle do Tabagismo, do Inca (Instituto Nacional do Câncer), Ricardo Meirelles, alerta que o tabagismo é uma doença que pode ocasionar outras: é um dos fatores de risco para o aparecimento de diversos tipos de câncer (pulmão e boca), doenças cardiovasculares, AVCs (acidentes vasculares cerebrais), além de menopausa, infertilidade e envelhecimento precoces.

Meirelles explica que, logo depois de deixar o cigarro, o ex-fumante já sente melhora na qualidade de vida. “Ele sente uma melhora dentro de dois, três dias no fôlego, se não tiver uma doença respiratória, já dá pra subir uma escada melhor, fazer exercícios”, disse o especialista.

Segundo o especialista, deixar de fumar é difícil, mas o acompanhamento de profissionais pode tornar o processo mais confortável. De acordo com o Ministério da Saúde, existem 24.515 equipes de 4.371 municípios brasileiros inscritas no PMAQ (Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica ), que inclui o PNCT (Programa Nacional de Controle do Tabagismo), para oferecer tratamento gratuito ao dependente.

A terapia do serviço público inclui apoio psicológico, medicamentos (entre adesivos, pastilhas, gomas de mascar e o antidepressivo bupropiona), atendimentos educativos e terapêuticos.

O tabagismo é considerado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) a principal causa de morte evitável. Além disso, cerca de 1,2 bilhão de pessoas são fumantes. “Cerca de 80% dos fumantes desejam parar, mas apenas 3% conseguem realmente abandonar o vício. Além disso, é considerado ex-fumante a pessoa que fica um ano sem fumar”, explica o cardiologista do Hospital do Coração do Brasil, João Ferreira Marques. O médico esclarece que, quem abandona o vício antes dos 30 anos, consegue reestabelecer o organismo a ponto de parecer que nunca fumou.

De acordo com Meirelles, muitas vezes o fumante espera ter um problema de saúde para decidir parar de fumar. O médico acrescentou que a proibição de fumar em locais fechados fez com que muitos fumantes se sentissem incomodados em ter que deixar o ambiente de amigos para fumar e isso está fazendo com que pensem em deixar o vício. “Ele está conversando com amigos e tem que sair para fumar, a pessoa sente-se escrava do cigarro. Se está no shopping e precisa sair pra fumar, isso passa a ser desconfortável”.

Segundo pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde, entre 1989 e 2010 um em cada três brasileiros deixou de fumar devido à entrada em vigor das medidas que restringiram a propaganda de cigarros na televisão e em veículos de comunicação de massa.

A meta do governo brasileiro é reduzir de 12% para 9% a proporção de fumantes na população adulta até 2022.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Estudo mostra que cocaína muda estrutura do cérebro em duas horas

Uma pesquisa feita por cientistas nos Estados Unidos revelou que a cocaína pode mudar a estrutura do cérebro poucas horas após o consumo.


Os estudiosos da Universidade da Califórnia fizeram experimentos com camundongos, que receberam injeções com cocaína.

Eles constataram que, apenas duas horas após receber a primeira dose, as cobaias já haviam desenvolvido no cérebro novas estruturas que são ligadas à memória, ao uso de drogas e a mudanças de comportamento. Os camundongos que tiveram as maiores alterações no cérebro revelaram ter uma dependência mais elevada de cocaína, mostrando que, segundo especialistas, o cérebro deles estava "aprendendo o vício".

A pesquisa foi divulgada na publicação científica Nature Neuroscience.

Caçador de cocaína

Os cientistas investigaram nas cobaias o surgimento de pequenas estruturas nas células do cérebro chamadas espinhas dendríticas, que têm relação profunda com a formação das memórias. Um microscópio a laser foi usado para olhar dentro do cérebro dos camundongos, ainda vivos, para procurar por espinhas dendríticas após eles receberem doses de cocaína. A mesma análise foi feita em camundongos que, em vez de injeções com cocaína, receberam injeções com água.

O grupo que recebeu cocaína apresentou uma maior formação de espinhas dendríticas, o que indica que mais memórias, relacionadas ao uso da droga, foram formadas.

A pesquisadora Linda Wilbrecht, professora assistente de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia na cidade de Berkeley, disse: "Nossas imagens fornecem sinais claros de que a cocaína induz ganhos rápidos de novas espinhas, e quanto mais espinhas os camundongos ganham, mais eles mostram que ‘aprenderam’ (o vício) sobre a droga".

"Isso nos mostra um possível mecanismo ligando o consumo de drogas à busca por mais drogas."

"Essas mudanças provocadas pela droga no cérebro podem explicar como sinais relacionados à droga dominam o processo de tomada de decisões em um usuário humano", concluiu a pesquisadora.

O pesquisador Gerome Breen, do Insituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, ressaltou que "o desenvolvimento da espinhas dendríticas é particularmente importante no aprendizado e na memória". "Este estudo nos dá um entendimento sólido de como o vício ocorre – ele mostra como a dependência é aprendida pelo cérebro."

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Charge: Violência urbana



A charge acima foi criada pelo artista Bruno, de São José dos Campos – SP.
Acesse o blog do BRUNO.
Entre em contato com o chargista através do e-mail: chargesbruno@yahoo.com.br

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Opinião: violência na TV

VIOLÊNCIA NA TV E COMPORTAMENTO AGRESSIVO

Nunca se assistiu a tanta violência na televisão como nos dias atuais. Dada a enormidade de tempo que crianças e adolescentes das várias classes sociais passam diante da TV, é lógico o interesse pelas consequências dessa exposição. Até que ponto a banalização de atos violentos, exibidos nas salas de visita pelo País afora, diariamente, dos desenhos animados aos programas de “mundo-cão”, contribui para a escalada da violência urbana? Essa questão é mais antiga do que se imagina.

Surgiu no final dos anos 1940, assim que a televisão entrou nas casas de família. Nos Estados Unidos, país com o maior número de aparelhos por habitante, a autoridade máxima de saúde pública do país (Surgeon General) já afirmava em comunicado à nação, no ano de 1972: “A violência na televisão realmente tem efeitos adversos em certos membros de nossa sociedade”. Desde então, a literatura médica já publicou sobre o tema 160 estudos de campo que envolveram 44.292 participantes, e 124 estudos laboratoriais com 7.305 participantes. Absolutamente todos demonstraram a existência de relações claras entre a exposição de crianças à violência exibida pela mídia e o desenvolvimento de comportamento agressivo.

Ao lado deles, em 2001, foi publicado um estudo interessantíssimo numa das mais importantes revistas de psicologia, que evidenciou efeitos semelhantes em crianças expostas a videogames de conteúdo violento. Em fevereiro de 2002, Jeffrey Johnson e colaboradores da Universidade de Columbia publicaram na revista Science os resultados de uma pesquisa abrangente que estende as mesmas conclusões para adolescentes e adultos jovens expostos diariamente às cenas de violência na TV.

A partir de 1975, os pesquisadores passaram a acompanhar um grupo de 707 famílias, com filhos entre um e dez anos de idade. No início do estudo, as crianças tinham em média 5,8 anos e foram seguidas até 2000, quando atingiram a média de 30 anos. Nesse intervalo de tempo, periodicamente, todos os participantes e seus pais eram entrevistados para saber quanto tempo passavam na frente da televisão. Além disso, respondiam a perguntas para avaliar a renda familiar, a possível existência de desinteresse paterno pela sorte dos filhos, os níveis de violência na comunidade em que viviam, a escolaridade dos pais e a presença de transtornos psiquiátricos nas crianças, fatores de risco sabidamente associados ao comportamento agressivo.

A prática de atos agressivos pelos jovens foi avaliada por meio de sucessivas aplicações de um questionário especializado e de consulta aos arquivos policiais. Depois de cuidadoso tratamento estatístico, os autores verificaram que, independentemente dos fatores de risco citados acima, o número de horas que um adolescente com idade média de 14 anos fica diante da televisão, por si só, está significativamente associado à prática de assaltos e à participação em brigas com vítimas e em crimes de morte mais tarde, quando atinge a faixa etária dos 16 aos 22 anos. Essa conclusão vale para homens ou mulheres, mas não vale para os crimes contra a propriedade, como furtos e vandalismo, que aparentemente parecem não guardar relação com a violência presenciada na TV.

Conclusões idênticas foram tiradas analisando-se o número de horas que um jovem de idade média igual a 22 anos (homem ou mulher) dedica a assistir à televisão: quanto maior o número de horas diárias, mais frequente a prática de crimes violentos. Entre adolescentes e adultos jovens expostos à TV por mais de três horas por dia, a probabilidade de praticar atos violentos contra terceiros aumentou cinco vezes em relação aos que assistiam durante menos de uma hora. O estudo do grupo de Nova York é importante não só pela abrangência (707 famílias acompanhadas de 1975 a 2000) ou pela metodologia criteriosa, mas por ser o primeiro a contradizer de forma veemente que a exposição à violência da mídia afeta apenas crianças pequenas. Demonstra que ela exerce efeito deletério sobre o comportamento de um universo de pessoas muito maior do que aquele que imaginávamos.

Apesar do consenso existente entre os especialistas de que há muito está caracterizada a relação de causa e efeito entre a violência exibida pelos meios de comunicação de massa e a futura prática de atos violentos pelos espectadores, o tema costuma ser abordado com superficialidade irresponsável pela mídia, como se essa associação ainda não estivesse claramente estabelecida.

Em longo comentário ao artigo citado, na revista Science, Craig Anderson, da Universidade de Iowa, responsabiliza a imprensa por apresentar até hoje como controverso um debate que deveria ter sido encerrado anos atrás. Segundo o especialista, esse comportamento é comparável ao mantido por décadas diante da discussão sobre as relações entre o cigarro e o câncer de pulmão, quando a comunidade científica estava cansada de saber e de alertar a população para isso. Seis das mais respeitadas associações médicas americanas (entre as quais as de pediatria, psiquiatria, psicologia e a influente American Medical Association) publicaram, em 2001, um relatório com a seguinte conclusão sobre o assunto: “Os dados apontam de forma impressionante para uma conexão causal entre a violência na mídia e o comportamento agressivo de certas crianças”.


As associações médicas e a imprensa brasileira dariam importante contribuição ao combate à violência urbana se trouxessem esse tema a debate.



Autor: Dráuzio Varella.
(Médico oncologista, cientista e escritor).
Artigo divulgado através do site pessoal do médico.

Opinião: violência urbana

Crimes sem castigo


Os excessos cometidos na ficção e a violência presente na realidade.

Ao observar notícias recorrentes nos noticiários, somos obrigados a conviver com a violência como fator indissociável da realidade, e em muitos momentos, prestes a nos afligir, tão naturalmente quanto os congestionamentos em metrópoles. São situações corriqueiras em que temos a falsa impressão de que suportar a violência é parte da vida.

Há algumas semanas um telejornal mostrava cenas em que um automóvel atropelava um motociclista parado em uma esquina. Após a colisão, um rapaz que ocupava o banco do carona desceu do carro e avançou sobre o motociclista que reagiu, sacou um revólver e atirou. E enquanto o apresentador da emissora explicava que eram pai (ao volante) e filho, reagindo contra o assaltante que levara a moto, as imagens mostravam o pai tentando usar o carro como arma mais algumas vezes, antes de descer para socorrer o filho, mortalmente ferido.

Acontecimentos que ganharam manchetes relataram histórias trágicas de jovens assassinados na porta de suas casas, em lanchonetes e no mencionado trânsito das cidades. E mesmo crimes bárbaros como a tortura e morte da dentista Cinthya Moutinho, por mais socialmente condenável que tenha sido, foi reproduzido dias após, levando outro ser humano à morte.

Nas cidades mais estruturadas, onde a miséria é proporcionalmente menor, curiosamente, parece existir mais violência desmedida. Como explicar tanta violência em uma sociedade em que ainda há problemas, mas onde também aconteceram inegáveis avanços no compartilhamento de bens e serviços entre a população?

As sociedades primitivas se organizavam ao redor de grupos rivais. Naquela realidade, em que a sobrevivência dependia da aceitação individual nessas tribos, os líderes eram elevados por suas ações violentas, interpretadas como fonte de poder ou força. Essa constatação antropológica talvez possa explicar, em parte, a identificação humana com o emprego da violência como instrumento de superação de dificuldades. Esta sensação está presente em nosso inconsciente, ou seja, no emaranhado psíquico mais insondável que corresponde aos processos mentais primitivos, onde irrompem muitas das nossas pulsões, sensações e emoções. Por exemplo, a angústia, o medo, as paixões, a vida e a morte.

A partir do inconsciente, a pulsão de morte se estabelece como uma componente intrínseca à pulsão de vida. Ou seja, a percepção da morte nos estimula a valorizar a vida. E assim, por mais que o indivíduo esteja exposto em condições adversas, o ato de matar não é normal e é humanamente identificado como errado. A exceção ocorre somente nas pessoas destituídas de compaixão ou que sofram de séria doença em Saúde Mental. Contudo, a prevalência de pessoas acometidas por psicopatia não poderia ser representativa entre a população, a ponto de explicar tanta violência e mortes.

Há alguns dias, ao acompanhar um desenho “infantil” a que meu neto assistia na TV, percebi que mesmo não havendo armas de fogo, sangue e personagens em agonia, os disparos de laser, golpes e desintegrações, eram representados a todo instante. E atenta à violência disfarçada de divertimento, a criança era estimulada a libertar as suas fantasias, identificando-se com ícones violentos, suas ações e realizações.

O mesmo propósito de entretenimento e oferta para promoção das fantasias inconscientes que todos temos, podemos perceber no cinema, em programas da TV, nos vídeo games e na Internet. O estímulo à violência é oferecido em doses intermináveis para crianças, jovens e adultos. E através de produções elaboradas para reproduzir e criar realidades, há acesso irrestrito à emoção de assistir às cenas em que uma pessoa atira em outra, ou atropela, queima, explode, tortura... Enfim, na era da revolução tecnológica e da comunicação digital, o macabro repertório de formas de ferir e matar, na ficção, parece ser tão inesgotável quanto acessível.

Não há dúvidas que a repetição de experiências emocionais, mesmo quando virtuais, tende a amenizar a surpresa que sentimos naturalmente ao presenciamos um feito inédito. E nesse contexto, a exploração da violência fictícia, como alternativa de divertimento, pode sim estimular atitudes reais. Pois assim como após a emoção despertada pelas primeiras jogadas geniais de um craque da bola, através da frequência com que elas se repetem, nós nos acostumamos não só a acreditar que são movimentos possíveis, como esperamos por eles. Ao assistirmos perseguições em alta velocidade, em que tiros são permanentemente disparados por todos os envolvidos, e os acidentes, ferimentos e morte, num primeiro momento, nos surpreendem. Com o tempo e a repetição de cenas similares, a velocidade, a destruição, os tiros e até as mortes, tendem a se tornar triviais. Monótonas até.

Contudo, recorrer à conclusão que coloca apenas sobre os ombros da mídia e da indústria do entretenimento, a responsabilidade pelo aumento nas ações violentas praticadas em todas as camadas sociais, é uma escolha reducionista, que se abstém de tratar as características mais profundas da origem do problema. Basta observar, por exemplo, as nações que consomem conteúdos audiovisuais idênticos ou similares aos exibidos no Brasil, e revelam índices relacionados a crimes bem menos alarmantes, para percebermos que somente regulamentar a exposição da violência em produtos de ficção, seria prudente, mas isoladamente não representaria grande avanço.

De fato, para modificarmos o progressivo ciclo de violência que se instalou em muitas regiões do país, também deverão ser áreas de trabalho prioritárias: a educação, como forma de desenvolvimento intelectual e humano, a promoção da cultura e dos esportes, como respostas sociais às necessidades emocionais da população (alternativas à violência ficcional), e a presença do Estado, não apenas como cuidador e distribuidor de justos benefícios para as parcelas menos favorecidas, mas também e principalmente, como promotor eficiente de segurança e justiça em todas as camadas sociais.

Presenciar a reconhecida impunidade que assola o país, e assistir aos incontáveis exemplos de criminosos que mesmo identificados, conseguem escapar das punições que, por lei, mereciam (ou da maior parte delas), exerce influência muito mais nociva à ética e promoção de qualidade de vida, que qualquer superprodução violenta de Hollywood.

Em uma sociedade permissiva, onde os cidadãos detectam que há ineficiência na investigação de crimes, e permanente flexibilização na aplicação das leis, a percepção de limites e responsabilidade tende a ser desconsiderada ou negligenciada. Flexibilizam-se sentimentos e a Culpabilidade. Ou seja, a relação psicológica entre os autores dos crimes e a sua conduta.

Autor: José Toufic Thomé
Psiquiatra-Psicoterapeuta (ABP/AMB)
Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética / Cátedra UNESCO de Bioética,
Vice-presidente da Secção Psiquiatria e Intervenção em Crises da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA),
Vice- presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia-ABRAP
Coordenador do Curso Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras do Inst. Sedes Sapientiae-SP.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aumenta consumo de cocaína no Brasil, diz relatório da ONU.

De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2013, lançado nesta quarta-feira (26), o Brasil apresentou aumento no uso de cocaína pela população em geral.

Dados atuais afirmam que a prevalência estimada do uso da substância entre a população geral é estimada em 1,75%, consistente com a tendência do consumo da droga no país.

Dentre os estudantes universitários nas 27 capitais brasileiras, a prevalência anual do uso de cocaína era de 3% segundo estudo de 2011 da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.

O documento foi produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e ressalta que o Brasil desempenha um papel importante no mercado global de cocaína tanto como um destino quanto país de trânsito.

As extensas fronteiras terrestres do país com os três principais países que são fontes da droga – Bolívia, Colômbia e Peru –, sua grande população, significativos níveis de uso de ambos: pó de cocaína e crack, bem como o fácil acesso ao Oceano Atlântico para o tráfico em direção à África e à Europa são fatores que contribuem para esse papel.

O UNODC lembrou que em 2011 mais da metade da cocaína apreendida no Brasil tinha origem na Bolívia (54%), seguida pelo Peru (38%) e Colômbia (7,5%). A Bolívia, o único país entre os três principais de origem que não tem acesso direto ao mar aberto, identificou o Brasil como o maior destino planejado para a cocaína apreendida.

Maconha e as ‘novas substâncias psicoativas’ registram crescimento no mercado nacional

O relatório também destacou que o número de apreensão de cannabis – popularmente conhecida como maconha – foi praticamente o mesmo em 2010 e 2011, com 885 e 878 casos, respectivamente. No entanto, a quantidade total da substância que foi apreendida passou de 155 toneladas em 2010 para 174 toneladas em 2011, o terceiro aumento consecutivo.

Em relação à propagação de novas substâncias psicoativas (NSP), o Brasil relatou o surgimento de mefedrona e de DMMA (uma feniletilamina) em seu mercado. Conforme uma pesquisa domiciliar anterior realizada no país em 2005, a taxa de prevalência na vida toda para o uso de ketamina era de 0,2% entre pessoas de 12 a 65 anos. Tal registro foi equivalente ao uso ao longo da vida da merla, uma variante da pasta-base de coca fumável e com maior prevalência do que o uso de heroína (0,09%).

A mesma pesquisa destacou que a “Benflogin” (benzidamina), outra NSP, apresenta taxa de prevalência de 0,4% na vida toda entre a faixa etária de 12 a 65 anos. O medicamento age localmente para o tratamento de inflamações da boca e da garganta, mas é tomado em doses elevadas e usado indevidamente no Brasil e em alguns outros países como um estimulante do sistema nervoso central e delirante (classe especial de alucinógenos).

Na América Latina, outros países também observaram registros de NSP: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá e Uruguai. As NSP relatadas incluíam ketamina e substâncias à base de plantas, seguidas de piperazinas, catinonas sintéticas, feniletilaminas e, em menor extensão, os canabinoides sintéticos.

Sobre a apreensão de “ecstasy”, o UNODC lembrou que em 2011 o Brasil relatou as maiores apreensões da substância desde 1987, totalizando 70 kg. Na última década, a maioria das apreensões anuais relatadas pelo Brasil ficaram abaixo de 1 kg.

Aumento na taxa de prevalência por dirigir sob efeito de drogas

De acordo com o UNODC, a taxa de prevalência por dirigir sob o efeito de drogas não é tão conhecida mundialmente, no entanto, estudos recentes do Brasil, Europa e Estados Unidos indicam que este registro pode ser mais comum do que se pensava.

No Brasil, um estudo de 2010 com 3.398 motoristas descobriu que 4,6% deles testaram positivo para alguma substância ilícita. Destes, 39% foram para cocaína, 32% para tetrahidrocanabinol (THC) – cannabis –, 16% para anfetaminas e 14% para benzodiazepinas.

Em outra pesquisa no Brasil, testes de drogas em pacientes que foram admitidos no pronto socorro após acidentes de trânsito mostram que estes eram mais propensos a terem cannabis em seu sistema do que o álcool.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Relatório Mundial sobre Drogas 2013 observa a estabilidade no uso de drogas tradicionais e aponta o aumento alarmante de novas substâncias psicoativas.

A sessão especial de Viena é um marco no caminho para a futura Revisão de Drogas da ONU.


Em um evento especial da Comissão de Narcóticos, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) lançou em Viena o Relatório Mundial sobre Drogas 2013. O evento marca o primeiro passo no caminho para a revisão da Declaração Política e Plano de Ação, que será realizada pela Comissão de Narcóticos em 2014. Além disso, em 2016 a Assembleia Geral das Nações Unidas realizará uma Sessão Especial sobre a questão das drogas.

Embora os desafios relacionados a drogas estejam surgindo a partir de novas substâncias psicoativas (NSP), o Relatório Mundial sobre Drogas 2013 aponta para a estabilidade no uso de drogas tradicionais. O relatório servirá como uma referência chave no caminho até a revisão de 2016.

O Diretor Executivo do UNODC, Yury Fedotov, disse: “Nós concordamos em um caminho para a nossa discussão em andamento. Espero que ele leve a uma afirmação da importância das convenções internacionais de controle de drogas, bem como a um reconhecimento de que as convenções são humanas, centradas nos direitos humanos e flexíveis. É necessária também uma ênfase firme na saúde, e devemos apoiar e promover alternativas de meios de subsistência sustentáveis. Além disso, é essencial reconhecer o importante papel desempenhado pelos sistemas de justiça criminal na luta contra o problema mundial das drogas e a necessidade de melhorar o trabalho contra precursores químicos”.

Problemas emergentes com drogas

Comercializadas como “drogas lícitas” e “designer drugs”, as NSP estão se proliferando num ritmo sem precedentes, criando desafios inesperados na área de saúde pública. Fedotov pediu uma ação conjunta para impedir a fabricação, o tráfico e o abuso dessas substâncias.

O número de NSP comunicadas pelos Estados-Membros para o UNODC subiu de 166 no final de 2009 para 251 em meados de 2012, um aumento de mais de 50%. Pela primeira vez, o número de NSP excedeu o número total de substâncias sob controle internacional (234). Como novas substâncias nocivas têm surgido com uma regularidade infalível no cenário das drogas, o sistema internacional de controle de drogas enfrenta agora um desafio devido à velocidade e à criatividade do fenômeno das NSP.

Este é um problema de drogas alarmante – mas as drogas são lícitas. Vendidas abertamente, inclusive através da internet, as NSP, que não passaram por testes de segurança, podem ser muito mais perigosas do que as drogas tradicionais. Os nomes pelos quais são conhecidas nas ruas, como “spice”, “miau-miau” e “sais de banho” levam os jovens a acreditar que eles estão curtindo uma diversão de baixo risco.

Dada a amplitude quase infinita de alterações da estrutura química das NSP, novas formulações estão ultrapassando os esforços para impor um controle internacional. Enquanto a aplicação da lei fica para trás, os criminosos têm sido rápidos em explorar este mercado lucrativo. Os efeitos adversos e o potencial viciante da maioria dessas substâncias não controladas são, na melhor das hipóteses, pouco conhecidos.

Em resposta à proliferação das NSP, o UNODC lançou um sistema de alerta antecipado, que permitirá que a comunidade global monitore o aparecimento das NSP e tome medidas apropriadas.

Panorama global

Enquanto o uso de drogas tradicionais, como a heroína e a cocaína, parece estar em declínio em algumas partes do mundo, o abuso de medicamentos de prescrição e de novas substâncias psicoativas está crescendo. Na Europa, o consumo de heroína parece estar em declínio. Enquanto isso, o mercado de cocaína parece estar se expandindo na América do Sul e nas economias emergentes da Ásia. O uso de opiáceos (heroína e ópio), por outro lado, continua estável (cerca de 16 milhões de pessoas, ou 0,4% da população entre 15 e 64 anos), apesar de uma alta prevalência de uso de opiáceos relatada no Sudoeste e Centro da Ásia, Sudeste e Leste da Europa e América do Norte.

A África está emergindo como um destino para o tráfico, bem como para a produção de substâncias ilícitas, embora os dados disponíveis sejam escassos. Fedotov pediu apoio internacional para monitorar a situação e evitar que o continente se torne cada vez mais vulnerável ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Há também uma necessidade de ajudar o grande número de usuários de drogas que são vítimas dos efeitos colaterais do tráfico de drogas através do continente.

Novos dados revelam que a prevalência de pessoas que injetam drogas e também vivem com HIV em 2011 foi menor do que o estimado anteriormente: a estimativa é de que 14 milhões de pessoas entre as idades de 15 e 64 anos usem drogas injetáveis, enquanto 1,6 milhões de pessoas que injetam drogas também vivem com HIV.

Essas estimativas revisadas são 12% mais baixas para o número de pessoas que injetam drogas e 46% mais baixas para o número de pessoas que injetam drogas e vivem com HIV. Essas mudanças são resultado da revisão de estimativas em países que adquiriram novos dados de vigilância comportamental desde as estimativas anteriores, que foram feitas em 2008.

Em termos de produção, o Afeganistão manteve a sua posição como o maior produtor e cultivador de ópio a nível mundial (75% da produção de ópio ilícito global em 2012). A área global de cultivo da papoula de ópio atingiu 236.320 ha, 14% mais do que em 2011. No entanto, por causa de uma safra de baixo rendimento devido a uma doença que afeta a planta da papoula no Afeganistão, a produção mundial de ópio caiu para 4.905 toneladas em 2012, 30% menos do que no ano anterior e 40% menos do que no ano de pico de 2007.

As estimativas da quantidade de cocaína fabricada variou de 776 a 1.051 toneladas em 2011, praticamente inalterada em relação ao ano anterior. As maiores apreensões de cocaína do mundo – não ajustada para pureza – continuam a ser relatadas na Colômbia (200 toneladas) e nos Estados Unidos (94 toneladas). O uso de cocaína continua caindo nos Estados Unidos, o maior mercado de cocaína do mundo. Em contrapartida, aumentos significativos nas apreensões têm sido observados na Ásia, Oceania, América Central e do Sul e no Caribe em 2011.

O uso de estimulantes do tipo anfetamínico (ATS, na sigla em inglês), excluindo o ecstasy, continua a ser generalizada a nível mundial e parece estar aumentando na maioria das regiões. Em 2011, cerca de 0,7% da população mundial com idade entre 15 e 64 anos (33,8 milhões de pessoas) tinham usado ATS no ano anterior.

A prevalência de ecstasy em 2011 (19 milhões de pessoas, ou 0,4% da população) foi menor do que em 2009. No entanto, a nível global, as apreensões de ATS subiram para um novo recorde de 123 toneladas em 2011, que é 66% maior do que em 2010 (74 toneladas) e o dobro do valor de 2005 (60 toneladas).

Metanfetaminas continuam a dominar o negócio de ATS, correspondendo a 71% das apreensões globais de ATS em 2011. Comprimidos de metanfetamina permanecem como o ATS predominante no Leste e Sudeste Asiático: 122,8 milhões de comprimidos foram apreendidos em 2011, embora esse número represente um declínio de 9% em relação a 2010 (134,4 milhões de comprimidos).

As apreensões de metanfetamina cristalizada, no entanto, aumentou para 8,8 toneladas, o nível mais alto nos últimos cinco anos, indicando que a substância é uma ameaça iminente. O México registrou suas maiores apreensões de metanfetamina, mais do que dobrando dentro de um ano, partindo de 13 toneladas para 31 toneladas, o que representa umas das maiores apreensões relatadas globalmente.

A cannabis continua a ser a substância ilícita mais utilizada. Enquanto o uso de cannabis tem claramente diminuído entre os jovens na Europa durante a última década, houve um pequeno aumento na prevalência de usuários de cannabis (180 milhões, ou 3,9% da população entre 15 e 64 anos), em comparação com as estimativas anteriores em 2009.



Acesse o relatório completo no site do UNODC.

terça-feira, 18 de junho de 2013

EUA buscam saídas para frear suicídios de soldados

Estatísticas mostram que o suicídio mata hoje mais militares dos Estados Unidos do que as próprias operações de combate em guerras. Acredita-se que, todos os dias, um militar americano que regressou ao país após servir em uma zona de conflito tira sua própria vida.

O número de suicidas após servir no Afeganistão é particularmente ilustrativo. Ele já supera o número total de militares dos EUA que morreram em combate no país centro-asiático.

O alto número de suicidas levanta questões sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra americanos. O que estaria errado no cuidado prestado a eles?

Alguns motivos têm sido citados para explicar as mortes, entre eles o fato de que os veteranos sofrem de sequelas psiquiátricas e que o sistema para dar assistência a eles está sobrecarregado, já que governo não dedicaria suficientes recursos para ajudá-los. Entretanto, desde o ano passado, o governo americano tem ampliado o apoio aos veteranos, e novas terapias têm sido usadas para tentar minimizar os efeitos do trauma.

Estresse pós-traumático

Os transtornos psiquiátricos são um dos principais motivos que levam os militares que chegam de zonas de conflito a buscar ajuda no Departamento de Assuntos para Veteranos, mantida pelo governo dos Estados Unidos. O diagnóstico mais frequente é o de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), mas muitos também sofrem de depressão e relatam dependência de drogas.

Paula Schnurr, vice-diretora executiva do Centro Nacional para TEPT nos Estados Unidos, disse à BBC Mundo que "o TEPT é um problema muito significativo entre os veteranos e militares da ativa, já que este é um dos transtornos mais afetam os indivíduos que vivem uma experiência traumática durante o serviço militar, como por exemplo a exposição a uma zona de guerra". Mas não é necessariamente correto atribuir o grande número de suicídios de militares americanos ao diagnóstico de estresse pós-traumático. "A incidência de suicídio em pessoas com TEPT juntamente com outros transtornos mentais é alta", responde Schnurr."Porém, a grande maioria das pessoas que sofrem de TEPT não tenta se suicidar. É um problema sério, mas tempos que salientar que a maioria desses pacientes não têm tendência ao suicídio".

Investimento

Percebendo a gravidade da situação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, resolveu investir mais recursos materiais e humanos na atenção psicológica aos veteranos de guerra e militares em serviço. No dia 31 de agosto do ano passado, Obama publicou um decreto de lei que transfere mais recursos e poder a um conjunto de departamentos que oferece assistência a membros do Exército ─ o Departamento para Assuntos dos Veteranos, a Secretaria de Defesa e o Serviço de Saúde.

Além disso, no ano passado, foram investidos US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10,6 bilhões) nos serviços de para apoio à saúde mental. De acordo com o Departamento para Assuntos dos Veteranos, foram criados 15 projetos piloto em sete Estados, onde a entidade mantém agentes que ajudam os veteranos a ter acesso a serviços de saúde mental.

Foram contratados 1,6 mil agentes de saúde mental e 248 novos especialistas na área. Foi ainda criada uma campanha nacional para prevenção do suicídio com a finalidade de aproximar os veteranos e militares ativos dos serviços de saúde mental.

Dinheiro não é tudo

Contudo, julgar que a situação é resultado da mera falta de recursos é, segundo especialistas, simplificar o problema. Essa é a opinião de Raúl Coimbra, diretor do sistema de saúde do Hospital de San Diego, na Califórnia. Segundo ele, existem outros fatores que têm um papel muito importante, como o estigma que persiste em torno dos problemas mentais: muitos militares não se sentem confortáveis para pedir ajuda, pois não querem ser classificados como loucos.

Existem ainda os que querem receber ajuda, mas não pelas mãos de um especialista civil. Os militares se queixam que os civis desconhecem a realidade enfrentada pelos membros do exército e por isso preferem recorrer a outras fontes de ajuda. É o caso da organização Veterans4Warriors (Veteranos para os Guerreiros, em tradução livre do inglês), que oferece assistência específica a todo militar veterano. Por meio de um serviço telefônico ou por e-mail, um ex-militar que sofre de algum tipo de sequela mental pode receber ajuda de uma outra pessoa que pode compreender melhor sua situação.

No caso do governo, o Departamento para Assuntos dos Veteranos atende 9 milhões de militares em busca de ajuda, de um total de 22 milhões de veteranos que existem em todo o país.

Terapias alternativas

No caso dos militares que sofrem de TEPT, outra crítica frequente é que nos tratamentos existe uma tendência de medicar os pacientes em vez de se oferecerem a eles terapias mais prolongadas, que exigem mais recursos humanos, mais tempo e, assim, mais investimento.

Mas terapias tradicionais estão sendo reavaliadas. Entre as alternativas que surgem com mais força está a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, na sigla em inglês) ou a teoria do crescimento pós-traumático, segundo a qual as experiências traumáticas pode se converter, a médio e longo prazo, em uma experiência que transforma a pessoa num sentido positivo.

Na terapia de ACT, o paciente é estimulado a não negar a causa de sua ansiedade, mas a aceitá-la, enfrentá-la, para assim aprender a se afastar do trauma. Mais ainda, o paciente deve identificar os valores que formam a base de sua existência e se comprometer a viver em conformidade com eles.

Segundo Paula Schnurr, tanto a medicação como a psicoterapia são eficazes no tratamento de TEPT. "Todos os manuais de saúde mental em vigor nos Estados Unidos recomendam que utilizemos tais métodos", explica. Schnurr ressalta, ainda, a importância da educação e difusão de informações sobre o TEPT, assim como o apoio dos familiares e pessoas que convivem com o paciente, para combater o estigma associado ao mal.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Trauma de tortura na ditadura transmitido entre gerações, diz psicanalista

A violência sofrida por vítimas da ditadura militar no Brasil e por suas famílias não foi compartilhada e elaborada pela sociedade como um todo e é como uma "chaga aberta" que está sendo transmitida de geração para geração, segundo um psicanalista ouvido pela BBC Brasil.

Moisés Rodrigues da Silva Júnior, presidente da instituição de saúde mental paulistana Projetos Terapêuticos, disse, no entanto, que o Estado brasileiro acaba de dar um passo decisivo e histórico para tentar remediar isso.

Um projeto piloto que oferece atendimento a algumas das vítimas acaba de ser inaugurado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. As chamadas Clínicas do Testemunho são parte de uma política que visa reparar erros cometidos por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura. Entre estes, perseguições, tortura, desaparecimentos e assassinatos de supostos oponentes políticos.

O governo já oferece reparação econômica às vítimas e seus familiares, mas segundo o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, não basta reparar economicamente. “É obrigação do Estado reparar também psicologicamente”.

Cinco instituições de saúde mental – em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife – estão participando da fase inicial do programa, que vai durar dois anos e deve atender cerca de 700 pessoas. Entre as instituições está a clínica onde Moisés atende.

Dor inexplicável

"Como não houve o compartilhamento ou elaboração (do trauma sofrido), a violência se torna um material tóxico que habita as pessoas na forma de medos, ameaças e sofrimento", disse Moisés. Ele citou como exemplo o caso de uma família que atendeu, um casal e seus filhos. Moisés não sabia que um dos avós das crianças havia desaparecido durante a ditadura.

A família parecia bem ajustada. Mas os netos adolescentes do desaparecido faziam uso abusivo de drogas, explicou Moisés. "Tinham uma dor que não sabiam referir exatamente. Fomos conversando, até que começou a aparecer, por parte do pai - o filho do desaparecido - a ideia de que ele sentia a vida como uma tortura."

"Mas de onde vinha essa palavra, tortura? Eu não sabia que o pai dele tinha sido torturado, mas essa palavra me chamou a atenção e eu quis saber de onde vinha. Encontramos isso na história do avô. Não é que a partir daí tudo se fez luz, mas isso foi importante no tratamento dessa família."

Moisés disse que as vivências traumáticas, quando não são expressas, ficam num limbo atemporal onde não podem ser reconhecidas como causa do sofrimento e tão pouco esquecidas. "São uma presença ausente, ou uma ausência presente, que pode invadir (o presente) a qualquer momento, reativando os sentimentos de terror. Formam uma grande rede, que passa de uma geração para outra, como uma chaga aberta", explicou. "Então, temos de falar disso".

"Fazer circular aquilo que ficou estagnado provoca terror e, ao mesmo tempo, começa a arejar o terror. O tóxico é compartilhado e dividido por todos."

O psicanalista admitiu que o processo não é fácil e disse não saber quantas pessoas vão querer participar das Clínicas do Testemunho.

Tortura 'legítima'

Uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) constatou que 47,5% dos entrevistados eram favoráveis ao uso, em tribunais, de provas obtidas a partir de tortura policial. O estudo foi feito em onze capitais brasileiras.

Nesse contexto, a decisão do Ministério da Justiça de oferecer atendimento às vítimas da ditadura representa um marco histórico, disse o psicanalista. "A tortura é feita no Brasil com o apoio forte da população", reconhece. "Mas não podemos esquecer o lugar do Estado na organização social e simbólica".

Para Moisés, a decisão do Estado de oferecer atendimento às vítimas da ditadura estabelece um precedente fundamental. "O que é importante aqui é o reconhecimento, pelo Estado, de que não cumpriu seu dever (de proteger o cidadão), de que impingiu sofrimento e está pronto a reparar o mal realizado."

"Isto muda tudo. A partir de agora, a história não é mais eu atendendo aos netos do desaparecido, que se drogam."

"Agora, sou contratado pelo Ministério da Justiça para exercer ações reparatórias".

O projeto Clinicas do Testemunho foi inaugurado em abril, em um evento na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Moisés estava presente. "Tinha uma população muito emocionada, de afetados, familiares, simpatizantes, profissionais da saúde. Foi muita satisfação poder viver essa vitória, porque até outro dia dizia-se que isso tudo (os relatos de tortura e desaparecimentos) era uma fantasia, que no Brasil não tinha havido uma ditadura e, sim, uma 'ditabranda'".

Um testemunho

A militante política carioca Eliete Ferrer, de 66 anos, também saudou o lançamento das Clínicas do Testemunho. Ela é organizadora do livro 68, A Geração que Queria Mudar o Mundo, publicado em 2011.

No final da década de 1960, professora de história do nível primário, Eliete passou a integrar a Ação Libertadora Nacional (ALN) em protesto contra o golpe militar.

Inicialmente, o grupo apenas realizava manifestações, mas com o endurecimento na política do governo, o movimento também se radicalizou e passou à luta armada.

Em 1973, o então companheiro de Eliete, jornalista Luiz Carlos Guimarães, foi preso e torturado. Quando foi solto, dois meses depois, o casal caiu na clandestinidade e saiu do Brasil. "Fomos para o Chile, fomos direto para o terror", ela explicou. "Nós não sabíamos".

Presos em 11 de setembro de 1973, dia do golpe militar no Chile, Eliete e o companheiro sofreram violência nas mãos da polícia chilena. Houve espancamentos, simulações de fuzilamento e ameaças de estupro. Mas eles conseguiram escapar e, com ajuda da ONU e de entidades ligadas a direitos humanos, se exilaram na Suécia.

Eliete só retornaria ao Brasil em 1979, quando entrou em vigor a Lei da Anistia.

Traumatizada, ela recebeu atendimento psicológico por voluntários do Grupo Tortura Nunca Mais/Rio de Janeiro (GTNM/RJ). "Quando cheguei ao Brasil, tinha muitos problemas. Não conseguia falar sobre o Chile ou sobre a prisão do Luiz Carlos."

"Eu tinha muitos pesadelos, sempre acordava gritando, duas, três vezes por noite", contou. "Sonhava que as pessoas queriam me matar."

"Fiz terapia durante muitos anos, mais de dez. O GTNM/RJ foi pioneiro em oferecer esse atendimento".

Ela disse que a terapia a ajudou a viver melhor consigo mesma. "Quando a gente fala, o assunto duro, pontudo, que machuca como um ouriço, vai se polindo e todo mundo consegue segurá-lo."

Por tudo isso, Eliete aplaude a iniciativa do Estado brasileiro, de assumir a responsabilidade pelo atendimento às vítimas. "As clinicas são uma forma de olharmos para a ferida, junto a um profissional, uma pessoa que estudou a alma humana, e vai te ajudar a curar aquela ferida."

Próximo passo

Mas a militante acrescentou que, para ela, o processo de reparação ainda não está completo. "Se o torturador não é punido, a tortura continua, nas delegacias."

"Éramos militantes, mas quem é torturado hoje é o preto pobre nas periferias das cidades."

E finalizou: "O próximo passo, em termos institucionais, seria o julgamento dessas pessoas. Não queremos que sejam torturados como fomos, mas que sejam julgados pelas leis do país."

A Lei da Anistia, que permitiu que presos políticos e exilados como Eliete voltassem a viver em liberdade no Brasil, também garantiu o perdão político aos torturadores que trabalharam a serviço do regime.

Além do atendimento às vítimas e familiares de vítimas da ditadura militar, o projeto Clínicas do Testemunho inclui atividades paralelas: o treinamento de profissionais para atender pessoas afetadas pela violência de Estado e pesquisas sobre as consequências psíquicas e sociais da violência de Estado.

Interessados em participar das clínicas devem procurar a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.