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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Opinião: drogas e políticas públicas

Crack: uma realidade dolorosa

A sociedade padece e agoniza diante da situação dos usuários de crack e das “cracolândias”. Em todos os confins do território brasileiro existem usuários desta droga. Embora o cidadão pobre, sem oportunidades e que fica à mercê da sociedade continue sendo o mais acometido, pessoas das classes sociais mais abastadas também passaram a configurar como usuários desta substância. Conseqüentemente, o caos, numa realidade já caótica, vem se agravando. Eis que surge um questionamento: como reagir frente a esta realidade?

Os programas governamentais sucumbem na necessidade de combater o crack. Tais programas e projetos devem extrapolar a dimensão da saúde, visto que, sem instrumentos sociais, educacionais e culturais nenhum resultado será alcançado. Por mais que o componente de saúde pública seja primordial, é obtuso e equivocado achar que a problemática do crack e que todas as suas conseqüências serão combatidas, apenas, com discussões pautadas em leitos psiquiátricos ou clínicas de tratamento.O dependente de crack e suas famílias necessitarão, além de espaços de tratamentos dignos e adequados, de uma revolução social.

Este é o grande engodo da problemática que poderia ser questionada de forma reducionista da seguinte forma: o Estado Brasileiro está preparado e se mostra capaz para esta revolução?

Confesso que é difícil responder se em algum momento ele esteve ou se ele está ou se ele estará pronto para revolucionar desta forma conforme analisado acima. O dependente de crack é o mesmo fora e dentro do espaço de tratamento seja ele comunitário, hospitalar ou misto. Portanto, a vida dele, em sua quase totalidade, acontecerá nas ruas, nas relações familiares e sociais, no trabalho e no cotidiano. Eis o porquê da necessidade de se pensar além dos espaços de tratamento sejam eles públicos ou privados. A propósito estes últimos crescem gradativamente evidenciando a falência do modelo público de tratamento e a lucratividade neste terreno fértil e não semeado pelo Estado.

Após as propostas de Reforma da Assistência à Saúde Mental, ocorridas nas décadas de 1980 e 1990 e confirmadas nas décadas seguintes, ocorreu uma redução maciça dos leitos hospitalares psiquiátricos. Paralelamente, havia a proposta de criar uma rede comunitária substitutiva capaz de assumir, em todos os aspectos terapêuticos, o paciente psiquiátrico. Nesta transição reformadora, alguns pontos críticos merecem destaques:

1. O descompasso na velocidade de redução dos leitos hospitalares e de criação dos serviços substitutivos comunitários;

2. A falta de análise longitudinal do principal substitutivo da Reforma “Psiquiátrica” Brasileira (CAPS – Centro de Atenção Psicossocial) no que concerne aos seus indicadores de impacto (eficiência, eficácia, efetividade, etc);

3. O investimento deficitário para o setor hospitalar gerando uma falta de assistência àqueles que necessitam deste modelo de tratamento;

4. O número limitado de unidades psiquiátricas em hospital geral capazes de fornecer um tratamento psiquiátrico mais integral e integrado com as outras áreas médicas;

5. O financiamento precário para saúde mental associado a um direcionamento majoritário de recursos aos Centros de Atenção Psicossociais.

Há uma necessidade de avaliação crítica sobre estes pontos e isto de forma alguma é significado de que ocorrerá uma defesa a modelos asilares ou manicomiais. Pelo contrário, os asilos não necessariamente precisam de muros hospitalares, visto que, eles também estão ligados a forma ideológica do pensar e nascem com o abandono. Desse modo, um consultório pode ser manicomial, um CAPS pode ser manicomial, uma unidade de internação pode ser manicomial e embora os manicômios tenham sido combatidos no período pós-reformador, atualmente, temos manicômios maiores do que os de outrora, por exemplo: os presídios brasileiros.

Se o gargalo já era estreito para ter um tratamento psiquiátrico digno antes do aumento da preocupação social com o crack e com as “cracolândias”, imaginem agora. Por isto, eu volto a ressaltar: o que era o caos ficou mais caótico e neste terremoto sanitário e social surgirão aproveitadores e falsos líderes capazes de lucrar com tudo isto sejam com ganhos primários ou secundários. Na verdade, isto já é um filme repetido basta lembrar as guerras, as situações de conflitos e a seca nordestina.

Em todo processo saúde-doença, independente da patologia, é necessário compreender, aprofundar o entendimento e investir em atividades preventivas. Estas propostas mostram-se eficazes e, ao final, menos onerosas, portanto mais eficientes. Em relação ao crack, discute-se sobre “tratar” e “internar” como se a simples colocação do indivíduo no regime hospitalar, por mais que indicada sob o julgamento médico, resolvesse a problemática. A discussão técnica de muitas entidades representativas de classes e de categorias profissionais bate, recorrentemente, nesta tecla. Cansamos de escutar o questionamento – “onde vamos internar”? No entanto, não escutamos o seguinte questionar: como vamos fazer para combater esta ascensão de usuários de crack e de “cracolândias”? Enfim, numa linguagem mais coloquial, seria melhor e mais lógico “enxugar o gelo ou impedir que ele cresça”?

A voz daqueles que trabalham com saúde mental e que poderiam pressionar as instâncias governamentais é uma voz fraca e sem reverberação. No Brasil, a forma ideologicamente apaixonada que a Reforma da Assistência à Saúde Mental foi conduzida deixou um triste legado – a dicotomia entre as categorias profissionais. De um lado “os defensores da reforma” e de outro “os opositores da reforma”. Às vezes, esta análise é tão primitiva e tão apaixonada que você pode ser colocado em um lado por uma simples opinião que, em tese, não teve como objetivo defender nem lá, nem cá. Conclusão: a voz é fragmentada e, muitas vezes, até contraditória. O resultado é um meio de cultura apropriado para a construção de Políticas de Saúde Pública que não darão certo. E nós, protagonistas do processo, ficamos parecidos com “baratas tontas” trombando uns nos outros sem conseguir mudar absolutamente nada.

Talvez, tudo isto justifique esta importante problemática. Portanto, a questão não é somente a capacidade expansiva de consumo e de dependência que o crack tem. Ele se encaixou como dedo em luva nesta realidade caracterizada por uma:
• Atenção à saúde mental capenga;
• Usuários com situação social, educacional e cultural agonizante;
• Disputa entre categorias profissionais com ausência de voz conjunta e coletiva;
• Ausência de Políticas de Saúde Mental com medição de indicadores de impacto das suas propostas;
• Surgimento de aproveitadores e falsos líderes que, ao invés de inverter e resolver a demanda, acaba por perpetuá-la.

O crack é uma realidade nua e crua que está explícita aos olhos de todos. Não adiantará se esconder, pois, de um jeito ou de outro, ele baterá na nossa porta. Por fim, é preferível analisarmos estes pontos de estrangulamentos a fim de construirmos exércitos e propostas de vitória, pois esta postura é mais digna e enriquecedora do que escrever e valorizar derrotas. As categorias profissionais da saúde mental e a sociedade civil precisarão ajustar o discurso para que, de maneira mais efetiva e menos dicotomizada e messiânica, melhores resultados sejam alcançados.







Autor: Dr. Régis Eric Maia Barros
(Psiquiatra, Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP)
Escreva para o autor AQUI.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Número de fumantes cai 20% em seis anos no Brasil

Segundo levantamento da Unifesp, redução foi maior entre os adolescentes.
Na classe A, o índice aumentou.

A prevalência de fumantes no Brasil diminuiu 20% nos últimos seis anos, passando de 19,3% em 2006 para 15,6% em 2012. A queda foi maior entre os adolescentes do que entre adultos e mais acentuada em homens em comparação com mulheres. Apesar disso, o padrão de consumo do tabaco no país piorou – os fumantes estão consumindo mais cigarros por dia e considerando cada vez mais difícil passar um dia sem fumar.

Esses dados fazem parte do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito por pesquisadores da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo entrevistou no ano passado 4.607 pessoas com mais de 14 anos de 149 municípios brasileiros.

Queda — Segundo os resultados, o tabagismo entre adolescentes de 14 a 18 anos passou de 6,2% em 2006 para 3,4% em 2012, uma redução de 45%. Já entre maiores de 18 anos, essa taxa diminuiu de 20,8% para 16,9% no mesmo período, uma queda de 19%.

Embora a prevalência de fumantes seja maior entre adultos do sexo masculino do que do feminino (21%, ante 13% em 2012), a queda nos últimos seis anos foi mais acentuada entre homens do que mulheres (22% e 13%, respectivamente). Esse dado indica a possibilidade de, no futuro, a taxa de fumantes ser semelhante entre ambos os sexos.

A redução do tabagismo entre adultos ocorreu em todas as regiões brasileiras. O Sul apresentou a maior diminuição, de 23%, mas continua sendo a região com a maior prevalência de fumantes do país (20,2%), à frente do Sudeste (17,7%), Centro-Oeste (17%), Norte (14,4%) e Nordeste (14,2%).

O fumo diminuiu entre pessoas de todas as classes sociais, com exceção da classe A, que dobrou a prevalência de tabagismo (de 5,2% em 2006 para 10,9% em 2012). Uma das possíveis explicações para esse dado pode estar no fato de alguns fumantes deixarem o cigarro por ele pesar no bolso: 6,4% das pessoas alegaram parar de fumar para economizar dinheiro. Outras 79,8% justificaram preocupação com a saúde.

"A diminuição do tabagismo é um tendência mundial, mas o Brasil precisa continuar se mobilizando para combater o problema. Hoje, ao lado do álcool e da pressão alta, o cigarro é um dos principais causadores de doenças no mundo", diz Ana Cecília Marques, psiquiatra da Uniaid. "Até o fim da década de 1980, ninguém achava que o cigarro causava dependência e oferecia danos à saúde. A sociedade está reagindo ao tabagismo apenas agora."

Características do vício — De acordo com o estudo, metade dos brasileiros já experimentou cigarro – em média, isso acontece aos 16 anos de idade. Entre aqueles que já fumaram alguma vez, metade se tornou um fumante frequente, sendo que 21% abandonaram o cigarro.

As características de consumo de cigarros pioraram de 2006 para 2012. Nesse período, os fumantes passaram de 12,9 para 14,1 o número de cigarros que fumam em um dia. Além disso, a taxa de fumantes que consomem o primeiro cigarro até 5 minutos depois de acordar aumentou de 18% para 25%, e dos que acham difícil ou muito difícil passar um dia sem fumar aumentou de 59% para 67,8%. Esses três fatores são considerados como indicares de dependência.

Longe do cigarro — Segundo a pesquisa, 90% dos fumantes entrevistados gostariam de abandonar o cigarro, mas apenas 17% estão fazendo planos para que isso aconteça. Mais da metade (63%) disse já ter tentado parar de fumar sem sucesso, embora menos de 10% tenham feito algum tratamento com esse objetivo. A maioria buscou ajuda de algum membro da família ou de amigos.

"A política de tratamento contra o tabagismo no Brasil sem dúvida está ultrapassada. Ela não pode mais se basear apenas no número de cigarros que uma pessoa fuma por dia, mas sim ser uma abordagem cada vez mais individualizada", diz Ana Cecília. Segundo ela, o tratamento contra a dependência em cigarro pode incluir psicoterapia, uso de medicamentos que evitam uma recaída, reposição de nicotina com adesivos ou chicletes e até antidepressivos em casos mais graves.

Informação divulgada através do portal da revista Veja.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Estímulo magnético pode ajudar fumantes a largar vício, sugere estudo

Usar campos magnéticos para alterar a atividade cerebral pode ajudar alguns fumantes a abandonar o hábito, aponta um estudo preliminar recém-divulgado.

Os pesquisadores dizem ter usado estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês) para "desfazer" o vício em nicotina do cérebro do paciente.

As descobertas preliminares, apresentadas na conferência Neuroscience 2013, nos EUA, sugerem que a técnica pode ajudar fumantes a reduzir o consumo de cigarro ou mesmo abandoná-lo. Mas novos testes são necessários antes que a técnica seja indicada para uso clínico.

Estímulo

A TMS estimula neurônios a alterar funções cerebrais e já é utilizada no tratamento de alguns pacientes que sofrem de depressão. A equipe da Universidade Ben Gurion, em Israel, usou os campos magnéticos em duas áreas do cérebro associadas ao vício em nicotina: o córtex pré-frontal e a ínsula.

Os 115 fumantes que participaram do estudo foram divididos em três grupos — submetidos a TMS de alta frequência, a de baixa frequência ou a nenhum tratamento — durante 13 dias. Após seis meses de estudo, o grupo que teve TMS de alta frequência consumiu menos cigarro e apresentou índices maiores de abandono do fumo.

As melhores taxas de sucesso no tratamento ocorreram quando os participantes viram fotos de cigarros acesos durante a terapia magnética. Desses, um terço largou o cigarro após seis meses.

Resposta do cérebro

Os pesquisadores argumentam que a terapia pode alterar a resposta natural do cérebro a imagens, sensações e objetos associados ao fumo. "A pesquisa mostra que podemos conseguir desfazer algumas das mudanças que o fumo crônico causa no cérebro", explica Abraham Zangen, da Universidade Ben Gurion.

"Sabemos que muitos fumantes querem largar o cigarro ou fumar menos, e a técnica pode ajudar a conter a causa número um de doenças evitáveis."

O médico Chris Chambers, especialista em TMS na Universidade de Cardiff (Grã-Bretanha), acha que o estudo contribui por "somar-se a crescentes evidências de que o estímulo cerebral, quando aplicado a partes específicas do lóbulo frontal, pode aumentar nossa capacidade de superar vícios".

"(O estudo) é animador e tem uma gama de aplicações na psiquiatria", agrega.

No entanto, ele ressalta que a pesquisa ainda não foi revisada por grupos médicos e que ainda é preciso "desenvolver um entendimento maior sobre o porquê e como esses métodos funcionam".

Um outro estudo, divulgado na mesma conferência, sugere que o estímulo cerebral por meio de eletrodos pode ajudar também no combate ao vício de heroína. O estudo foi feito com camundongos, que ingeriram a droga descontroladamente até se viciarem. Os animais que foram submetidos a estimulação cerebral profunda reduziram o consumo do entorpecente.

Barry Everitt, professor da Universidade de Cambridge, disse que os estudos podem trazer benefícios: "Intervenções sem o uso de medicamentos seriam um grande passo adiante no tratamento antidrogas, que atualmente depende de substituir uma droga pela outra e tem altas taxas de reincidência".

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Reportagem sobre psicose pós-parto


Mães que quiseram matar filhos falam dos perigos da psicose pós-parto.

A psicose pós-parto, uma doença mental devastadora, mas pouco compreendida, afeta uma em cada 500 mães e pode resultar em suicídio ou mesmo em assassinato de bebês.

O período que sucede o parto é o momento em que as mulheres estão mais propensas a doenças mentais, tais como depressão ou psicose. Mas há tratamento.

A BBC entrevistou pessoas afetadas por esta doença que, muitas vezes, passa despercebida porque médicos e enfermeiras não estão preparados para identificar os sintomas ou porque, por medo do estigma, é escondida pelas mães.

A maioria das mulheres com a psicose pós-parto não tem história familiar ou pessoal de doença mental, alertam os especialistas.

'Estava cheia de vontade de matá-lo'

Jo Lyall era uma dessas mulheres. Depois que seu segundo filho, Finlay, nasceu, Jo passou por um episódio assustador. Uma noite, poucos dias depois de deixar o hospital, ela esteve a ponto de estrangular o bebê: "Coloquei ele adormecido na cama ao meu lado, e meu cérebro simplesmente desligou", disse ela. "Era como se alguém tivesse desligado um interruptor na minha cabeça, e eu olhei para ele e estava cheia de vontade de matá-lo."

"Eu coloquei minha mão em seu pescocinho, ainda não forte o suficiente para manter a própria cabeça, e comecei a apertar. Eu não queria machucá-lo. Sabia que não devia fazer isso, mas eu queria saber se era capaz". Jo sabia que algo estava errado, mas tinha medo de procurar ajuda, por pensar que perderia a guarda dos filhos.

Sem tratamento, ela começou a planejar como matar a si e seus dois filhos. "Um dia, pensei em sufocar os garotos enquanto eles dormiam após o almoço", disse ela. "Tinha que ter certeza de que os meninos e o cachorro estariam mortos antes que eu tirasse minha própria vida, porque eu não podia arriscar que sobrevivessem sem mim", acrescentou.

o fez várias tentativas de suicídio, mas depois de seis meses em um hospital psiquiátrico e quatro anos sob medicação, está totalmente recuperada. Ela faz campanha pela maior consciência dos sintomas de psicose pós-parto, para permitir que médicos e parteiras ofereçam um melhor tratamento para mulheres doentes. "Eu sobrevivi, em grande parte, devido a um médico e a uma quantidade extraordinária de sorte", disse ela. "Mas as mulheres não deveriam ter que confiar na sorte para sobreviver a uma condição tratável".

'Tinha desejo de machucá-lo'

Os especialistas não sabem a causa exata de psicose pós-parto, embora acredite-se que as grandes mudanças hormonais que se seguem ao nascimento do bebê tenham um papel importante, juntamente com a genética. A proporção de jovens mães em risco é grande. E mulheres com transtorno bi-polar têm 50% de chances de se tornar gravemente doentes nas semanas após o parto.

Shelley Blanchard estava nesta categoria. Por isso, sua equipe médica não só monitorou sua saúde física enquanto o nascimento do bebê se aproximava, como também o seu bem-estar psicológico. Shelley foi apoiada nos estágios finais de sua gravidez e nos primeiros meses da maternidade por uma equipe que incluía o Dr. Nick Best, psiquiatra perinatal especializado em cuidar de mulheres grávidas e jovens mães com problemas de saúde mental.

Best fez visitas regulares a Shelley, assim como a enfermeira psiquiátrica de sua comunidade. "Uma pessoa pode passar da situação normal à psicótica, delirante e paranoica no espaço de apenas dois ou três dias", disse Best.

Shelley também começou um tratamento com drogas anti-psicóticas na mesma noite que ela deu à luz o bebê Oliver. Mas algumas semanas depois do nascimento, o humor de Shelley começou a piorar e ela parou de tomar os medicamentos anti-psicóticos porque a deixavam sonolenta. "Comecei a ter pensamentos desagradáveis sobre Oliver, tinha desejo de machucá-lo, de jogá-lo pelas escadas ou soltá-lo de propósito", disse ela.

"Eu estava tão assustada, não queria machucar meu filho, mas os pensamentos foram ficando mais fortes e mais frequentes, então tive que buscar ajuda." Ela contatou a equipe médica e foi internada em uma unidade especial em Winchester, onde as mães e seus bebês podem ser mantidos em segurança durante o tratamento.

Três meses mais tarde, Oliver e Shelley estavam em casa novamente, recuperados. "Se eu não tivesse ido para a unidade, acho que provavelmente teria acabado por tomar uma overdose, e teria possivelmente me matado. Eu estava fora de controle", disse Shelley à época.

"Foi um tempo tão sombrio, mas consegui aprender um pouco mais sobre mim. Estou realmente me sentindo muito bem agora, poderia até dizer que estou me sentindo fantástica."

Pai perdeu mulher e filha

Dave Emson sabe como a psicose pós-parto pode ser grave - quando sua filha Freya tinha apenas três meses de idade, sua esposa Daksha matou o bebê a facadas e colocou fogo em seu quarto. Daksha morreu em consequência das queimaduras quase três semanas mais tarde. "Cheguei em casa por volta das cinco e meia ou mais, e quando cheguei à porta da frente senti um cheiro de queimado", disse Dave ao recordar o dia em que a tragédia aconteceu.

"Normalmente, ao entrar eu dizia 'Daksha, querida, estou em casa' e ela respondia e eu ouvia o balbuciar do bebê. Mas naquele dia houve um silêncio. Daksha deixou um bilhete falando de seus temores de que a filha do casal fosse vítima de "forças das trevas" e de seu desejo de proteger Freya a todo custo. Daksha tinha estudado psiquiatria e estava prestes a se tornar consultora quando morreu. Ela tinha escolhido a carreira em parte porque sofrera de depressão grave por anos, mas poucas pessoas sabiam de sua condição, já que ela tinha medo do estigma que traria.

O inquérito sobre sua morte levou a novas diretrizes no sistema de saúde britânico para o tratamento de funcionários com doença mental. Dave agora escreve um livro sobre sua história - para ajudar outras pessoas em situação semelhante: "Primeiramente, é uma forma de Daksha falar através de mim, de falar com pessoas que estão sofrendo, companheiros trabalhadores da área de saúde mental, pessoas que estão sofrendo com as condições de saúde mental, para que saibam que não estão sozinhas", disse ele.

reportagem divulgada através da BBC Brasil, em agosto de 2012.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

TEORIA DAS JANELAS PARTIDAS

Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor, abandonadas na via pública. Uma no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia. Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. A viatura abandonada em Palo Alto, entretanto, manteve-se intacta.

Mas a experiência em questão não terminou aí. Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto. O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre. Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso? Evidentemente, não é devido à pobreza, é algo que tem que ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação. Faz quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras. Induz ao “vale-tudo”. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa idéia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Baseados nessa experiência, foi desenvolvida a ‘Teoria das Janelas Partidas’, que conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores. Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se desenvolverão delitos e violência.

Na mesma linha de raciocínio, se cometem ‘pequenas faltas’ (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas, estes mesmos espaços serão progressivamente ocupados pelos delinquentes.

A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. O início foi dedicado ao combate das pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de ‘Tolerância Zero’. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana. O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão ‘Tolerância Zero’ soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinqüente, pois aos dos abusos de autoridade da polícia deve-se também aplicar-se a tolerância zero. Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito.Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na rua onde vivemos.

A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras. Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.



Texto divulgado no blog da Clínica Alamedas, de São Paulo.


Acesse o texto completo (em inglês) da Teoria das Janelas Partidas, escrito por James Q. Wilson e George L. Kelling.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Orgasmo feminino tem efeito terapêutico, sugere pesquisador

O orgasmo feminino pode ter um efeito terapêutico. Quem diz é o psicólogo americano Barry Komisaruk, professor da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, que já passou 30 de seus 72 anos investigando os benefícios do prazer sexual no bem-estar das mulheres.

Seu último estudo demonstra que o clímax estimula todas as principais áreas do cérebro e tenta encontrar possíveis usos terapêuticos do estímulo vaginal.

No atual estágio, os estudos de Komisaruk estão concentrados em verificar se o prazer sexual pode ajudar no tratamento de pacientes com ansiedade, depressão ou dependências.

Durante sua pesquisa, Komisaruk colocou suas pacientes em câmaras de ressonância magnética com a recomendação de estimular suas partes íntimas até alcançar o orgasmo.

O monitoramento cerebral desse processo o levou a algumas conclusões interessantes, que Komisaruk compartilhou nesta entrevista telefônica com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

BBC - O que acontece no cérebro de uma mulher durante um orgasmo?

Barry Komisaruk - Há um enorme aumento da atividade. O que averiguamos é que durante o orgasmo há um aumento impressionante do fluxo de sangue e de oxigênio na cabeça, ambos nutrientes muito benéficos para o cérebro.

BBC - Como é sua análise do cérebro?

Komisaruk - Monitoramos sua atividade durante o clímax e observamos quais zonas são ativadas quando a mulher tem um orgasmo. Já vimos que seus efeitos benéficos chegam a todos os sistemas principais do cérebro. Eu me refiro ao sistema sensorial, ao sistema de coordenação motora, etc.

BBC - Seu estudo menciona que conhecer os efeitos do orgasmo na nossa cabeça pode ajudar a superar a depressão, a ansiedade ou o vício. Como?

Komisaruk - É precisamente isso que queremos comprovar. Para isso, permitimos que a paciente veja a própria análise de seu cérebro ao vivo. Estamos no processo de averiguar se visualizar os processos de nossa mente ajuda a controlá-la. Há uma zona chamada núcleo accumbens que é a área do prazer.

Essa área é ativada pela nicotina, pelo chocolate, pela cocaína e também pelos orgasmos. A minha pergunta é: podemos ensinar a nós mesmos como aumentar conscientemente a atividade nesse núcleo observando seu funcionamento? Que efeito teria isso em pacientes com depressão ou ansiedade?

BBC - Quão conhecidos são os efeitos do orgasmo na saúde?

Komisaruk - Praticamente não há estudos. Este é o primeiro que se faz sobre suas consequências sobre o cérebro. O que já se estudou é o resultado do orgasmo no coração da mulher e também os benefícios do orgasmo masculino para evitar o câncer de próstata.

Comprovou-se que as mulheres que tinham mais orgasmos gozavam de uma melhor saúde cardíaca. O estudo em homens mostrou que os que tinham menos orgasmos não haviam liberado substâncias tóxicas que estavam acumuladas na próstata pela ausência de ejaculação. Esse fator os faz mais propensos ao câncer.

BBC - Quando acredita que seu conhecimento sobre o cérebro será suficiente para oficializar uma prescrição médica de orgasmos?

Komisaruk - Eu já recomendo. Mas para conseguir que isso seja feito de maneira regular são necessárias mais pesquisas. Dependerá das descobertas que façamos no futuro.

BBC - É fácil conseguir dinheiro para pesquisar a sexualidade?

Komisaruk - É muito difícil. As entidades que financiam são reticentes em dar dinheiro para estudos sobre o prazer e o sexo. Em parte porque enfrentam a pressão social. O governo não quer se envolver com pesquisas sobre a sexualidade por temor de ser criticado com o argumento de que há problemas mais sérios.

BBC - Por que está interessado no orgasmo da mulher e não do homem? Há muita diferença entre os dois?

Komisaruk - Há mais semelhanças que diferenças. A razão pela qual comecei a me interessar pelo orgasmo feminino foi que encontrei evidências de que o estímulo vaginal tem a capacidade de bloquear a dor sem necessidade sequer de alcançar o orgasmo.

Demonstramos que ambos os prazeres atuam como calmante, mas que o orgasmo é mais efetivo que a simples estimulação.

A partir disso, muitas mulheres me disseram que utilizam a estimulação vaginal para reduzir o mal-estar da menstruação ou a dor provocada pela prática de esportes. E isso funciona para elas.

BBC - Então a estimulação vaginal pode aliviar a dor a longo prazo ou somente a curto prazo?

Komisaruk - Meus estudos somente conseguiram estabelecer que o orgasmo reduz a dor menstrual imediatamente e pode ter um efeito por horas.
O alívio das dores nas costas é outro efeito benéfico da estimulação vaginal e dos orgasmos.

Entrevista divulgada através do portal da BBC.

Leia também: "Orgasmo ajuda a prevenir doenças físicas e mentais, diz estudo"

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fome e sede ameaçam sobreviventes de tufão nas Filipinas

O cenário em Tacloban é de devastação. Na rua principal da cidade, de cerca 280 mil habitantes antes da tragédia, dezenas de corpos se decompõem a céu aberto.

Três dias após a passagem do tufão Haiyan, ainda não foram enterrados.

Até 10 mil pessoas podem ter morrido apenas em Tacloban, além de centenas em outros lugares.

Em meio aos escombros do aeroporto da cidade, foi montado um hospital improvisado. Muitos dos pacientes são tratados sem anestesia.

As pessoas que esperam no local estão desesperadas para deixar a região, em qualquer avião que possam encontrar. Centenas de pessoas esperam no aeroporto por qualquer ajuda que possa chegar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Orgasmo ajuda a prevenir doenças físicas e mentais, diz estudo


"Uma sinfonia do cérebro" ou "um show de fogos artificiais". Estas são alguns dos termos usados pelos cientistas para se referir à resposta do cérebro ao momento do orgasmo. Mas embora o prazer proporcionado por essa sensação seja de conhecimento geral, quais são os benefícios para a saúde?

Magdalena Salamanca, psicanalista especializada em sexo baseada na Espanha, disse à BBC que a ausência do prazer sexual pode provocar doenças e transtornos mentais.

"É importante porque o orgasmo é a satisfação de um dos instintos mais importantes do ser humano, que é o sexual", diz.

Ela destacou ainda que muitos dos problemas de cunho social ou profissional estão vinculados à insatisfação sexual. "Por exemplo, a ansiedade é um dos transtornos mais relacionados com a ausência do orgasmo".

Além disso, a psicóloga Ana Luna disse que "fisiologicamente, a descarga de muitas tensões que o ser humano acumula se produz por meio do orgasmo".

Atividade cerebral

Há alguns meses, cientistas da Universidade de Rutgers, no Estado americano de Nova Jersey, determinaram que o orgasmo ativa mais de 80 diferentes regiões do cérebro.

Utilizando imagens de ressonância magnética do cérebro de uma mulher de 54 anos enquanto tinha um orgasmo, os cientistas descobriram que no ato quase todo o cérebro se torna amarelo, o que indica que o órgão está praticamente todo ativo.

Os níveis de oxigênio no cérebro também refletem um espectro que vai desde o vermelho intenso até um amarelo claro, e isto tem um impacto em todo organismo.

Benefícios para a saúde

"Há outros benefícios porque todo esse sangue oxigenado que flui pelo corpo chega aos microssensores da pele e vai para todos os órgãos", diz a psicóloga Ana Luna.

Já Magdalena Salamanca destaca que a saúde física e psíquica estão muito vinculadas à satisfação sexual proporcionada pelo orgasmo, o que o estudo da Universidade Rutgers parece comprovar.

A pesquisa mostrou como a atividade cerebral iniciada pelo orgasmo se propaga por todo o sistema límbico, relacionado às emoções e à personalidade.

Por isso, psicólogos como Ana Luna acreditam que o orgasmo é uma parte essencial de uma personalidade sadia.

"Quando você não tem orgasmo toda essa energia fica represada", diz a estudiosa, acrescentando que muitas vezes a ausência do prazer sexual torna a pessoa irritadiça, triste, rabugenta e até mesmo com dificuldades para sorrir.

Informação divulgada através do portal BBC.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Feminicídios: a violência fatal contra a mulher


A violência contra as mulheres continua revelando
casos aterradores e estatísticas alarmantes.

Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea, estima que somente no período entre 2001 e 2011, tenham ocorrido mais de 50 mil feminicídios, o que equivale a, aproximadamente, 5 mil mortes ao ano. E apesar de não existirem estimativas nacionais oficiais sobre a proporção de mulheres que são assassinadas por parceiros ( ! ), acredita-se que grande parte desses crimes formam decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, uma vez que um terço deles ocorreram no próprio domicílio das vítimas.

Na versão condensada do estudo (disponível nos ARQUIVOS da Rede Ecobioética), há muitas boas informações estatísticas. E as quatro pesquisadoras responsáveis pelo trabalho publicarão a versão completa do estudo como Texto para Discussão - TD Ipea (no link).

Leitura muito recomendável.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Campanha quer por fim a uso de hienas para tratar doentes mentais na Somália

A Somália tem um dos maiores números de doentes mentais do mundo e com um sistema de saúde devastado por décadas de guerra, muitos pacientes não recebem qualquer tratamento. Muitos são acorrentados – em árvores ou em casa. Alguns são até trancados em jaulas com hienas. Mas um homem está tentando mudar este cenário.

Dr. Hab não é um psiquiatra. Seu nome real é Abdirahman Ali Awale, um enfermeiro que, após três meses de treinamento na Organização Mundial da Saúde (OMS), abraçou a missão de cuidar dos que sofrem de doenças mentais em seu país. Ele diz estar apto a tratar todos os tipos de distúrbios, desde depressão pós-parto à esquizofrenia.

Quem não quer fazer uma consulta com Dr. Hab pode fazer uma visita aos populares curandeiros que usam erva medicinais para tratar doenças mentais ou "sheiks" que ainda advocam curas tradicionais e normalmente barbáricas.

"Há uma crença na Somália de que hienas podem ver tudo, inclusive os espíritos malignos que as pessoas apontam como causadores das doenças mentais", diz ele.

"Em Mogadishu, é possível encontrar hienas que foram trazidas de bosques e famílias estão dispostas a pagar US$ 560 (R$ 1,2 mil) para trancar um ente querido junto com o animal dentro de um quarto durante a noite"

Mordidas

O "tratamento" com hienas - que custa mais do que as famílias ganham em média por ano – é brutal. Ao cravar suas garras e morder o paciente, a hiena estaria forçando os maus espíritos a deixar o corpo. Pacientes, inclusive crianças, já morreram em ataques do animal carnívoro.

"Estamos tentando mostrar às pessoas que isso não faz sentido", diz Hab. "Doenças mentais são como qualquer outra e precisam de métodos científicos para serem curadas", afirma.

A campanha do enfermeiro foi desencadeada por um incidente em 2005, quando ele testemunhou um grupo de mulheres com distúrbios mentais sendo perseguidas por jovens na rua.

"Depois disso eu decidi que teria de abrir o primeiro hospital psiquiátrico da Somália", relembra.

O Hospital Público de Saúde Mental (Habeb) em Mogadishu foi o primeiro dos seis centros que hoje Dr. Hab mantém toda a Somália, tendo atendido mais de 15 mil pacientes.

Ele enfrenta um grande desafio. A OMS estima que um em cada três somalis esteja ou tenha sido afetado por doenças mentais, bem acima da média global de um para dez. Em certas partes do país mais atingidas por décadas de conflito, este índice é ainda maior.

Dr.Hab diz que não dispõe de muitos recursos para tratar os pacientes, contando com doações de medicamentos por parte de ONGs e de farmácias particulares. Acorrentados

Ele diz que é difícil fazer os pacientes entenderem que sofrem de problemas mentais. Problemas psicológicos são geralmente explicados como dores físicas – dores de cabeça, excesso de suor e dor no peito. Alguns conceitos nem existem na cultura somali. Depressão, por exemplo, se traduz como "os sentimentos de um camelo quando seu amigo morre".

Mas nada é mais indicativo sobre a falta de entendimento da população sobre doenças mentais do que a prática disseminada de acorrentar pacientes em árvores ou em quartos.

A ONG italiana GRT tem registros de pacientes que ficaram acorrentados até morrer.

"Eu mesmo já salvei muitos pacientes que foram abandonados pela família e ficam acorrentados esperando a morte", diz Hab, que percorre áreas rurais em uma van em busca de pessoas acorrentadas para libertá-las e conduzi-las a um de seus centros.

A OMS financia a iniciativa "Livre das Correntes" em uma tentativa de erradicar a prática, começando pelos hospitais. Mas o próprio Hab admite já ter acorrentado os pacientes mais agressivos.

Hab mostra uma planilha com todos os itens de que necessita em seus centros – novos colchões, comida para os pacientes e diesel para sua van. Segundo ele, há também uma carência de enfermeiros e psiquiatras qualificadas. A luta diária para prover o tratamento adequado para seus pacientes e o sofrimento que ele testemunha está claramente afetando sua saúde.

"É um trabalho muito difícil físico e mentalmente", diz ele. "Eu era saudável quando comecei e agora sofro de diabetes".

"Eu já chorei na TV, já chorei em público, já chorei diante de presidentes", diz ele. "Até agora eu estou com vontade de chorar".

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Por que sonhamos? (documentário BBC parte 1)

No documentário da BBC, uma série de pesquisas de última geração e relatos de histórias pessoais são representados para auxiliar na busca por desvendar questões como:

O que são os sonhos?

De onde eles vem?

Será que há significados nos sonhos?

Enfim: Por que sonhamos?



Como fonte de informação muito recomendada, incluímos um arquivo PDF da primeira parte do texto “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud, no link: Ecobioética Documentos.

Por que sonhamos? (documentário BBC parte 2)

A segunda parte do documentário "Por que sonhamos?" da BBC.




Como fonte de informação muito recomendada, incluímos um arquivo PDF da primeira parte do texto “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud, no link: Ecobioética Documentos.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Frutas e verduras melhoram também a saúde mental

A quantidade que demonstrou o melhor impacto no bem-estar emocional dos participantes foi sete porções diárias.

Uma pesquisa da Universidade de Warwick, na Inglaterra, relacionou o consumo de frutas e verduras ao bem-estar e à saúde mental. Os resultados sugerem que a quantidade recomendada desse tipo de alimento é de sete porções por dia para que o benefício seja alcançado. O artigo será publicado no periódico Social Indicators Research.

Participaram do estudo cerca de 80 mil britânicos, que responderam questões sobre seus hábitos alimentares e como se sentiam. Sarah Stewart-Brown, integrante do grupo de pesquisadores, explicou que o artigo reúne diversos estudos realizados, e todos tornaram possível a mesma conclusão: a quantidade de frutas e verduras que uma pessoa ingere tem impacto em sua saúde mental, além dos efeitos já conhecidos sobre bem-estar físico. O ápice do bem-estar foi encontrado em torno das sete porções diárias. Social Indicators Research “Atualmente se recomenda na Grã-Bretanha o consumo de cinco porções diárias, que é a quantidade adequada para prevenir doenças cardíacas ou câncer, por exemplo, mas poucas pessoas têm pesquisado os efeitos de quantidades maiores”, afirmou Sarah.

A porção, para fins do estudo, é definida como uma quantidade de 80 gramas. Não foram estudados os efeitos individuais de algum tipo de fruta ou verdura, nem os períodos do dia em que o consumo é mais indicado. Sarah Stewart-Brown ressalta que esse tipo de pesquisa ainda não é realizada com frequência e que seria interessante desenvolvê-la em outros países. “Se você puder dizer às pessoas que além de fazer bem para a saúde, frutas e verduras farão com que elas se sintam melhor, é um incentivo a mais para que elas tenham hábitos saudáveis”, afirma a pesquisadora.

Sobre a pesquisa.
Título original: Is Psychological Well-being Linked to the Consumption of Fruit and Vegetables?
Publicação: periódico Social Indicators Research
Pesquisadores: David G. Blanchflower, Andrew J. Oswald, and Sarah Stewart-Brown
Instituição: Universidade de Warwick
Amostragem: 80 mil pessoas

Resultado: Foi encontrada uma relação entre o consumo de frutas e verduras e a saúde mental e o bem-estar das pessoas. A quantidade que mostrou o melhor resultado foi de sete porções diárias,que provocou um aumento de 0,25 a 0,33 pontos na escada usada para medir o bem-estar. Em comparação, o fato de estar desempregado, reduz em 0,90 pontos na mesma escada.

Acesse o arquivo .PDF com informações sobre a pesquisa (em inglês) em: www.ecobioetica.com.br/arquivos/David-Andrew-Sarah.pdf.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

País atinge metas da ONU de combate à tuberculose

O Brasil atingiu as metas do mi­lênio da Organização das Na­ções Unidas (ONU) no que se refere ao combate à tuberculo­se. Mas, em 2012, ainda foi o 15.0 país com o maior número de ca­sos do mundo e os progressos parecem ter sido interrompi­dos desde 2005. Entre 2010 e 2012, o número de casos até mesmo aumentou. As informa­ções foram publicadas ontem pela Organização Mundial da Saúde, que destaca os avanços no setor e alerta para desafios.

Em 1990, a OMS estimava que cerca de 10 mil brasileiros mor­riam anualmente por tuberculo­se. Em 2012, o número caiu para cerca de 4,9 mil. Para cada cem mil brasileiros, a taxa de morta­lidade passou nesse período de 7% para 2,5%, numa das maiores reduções entre os 22 países com alta incidência da doença. 

Em 1990, 210 mil brasileiros eram infectados anualmente pe­la doença. Em 2012, esse núme­ro caiu para 120 mil. Os dados revelam que o Brasil obteve ga­nhos importantes até 2005. Des­de então, o número de novos ca­sos está estagnado. Naquele ano, 120 mil brasileiros haviam contraído a doença. Em 2010, foram 110 mil. Mas, no ano pas­sado, o número voltou a subir.

Em 1990, para cada cem mil brasileiros, 140 eram afetados pela tuberculose. Em 2010, essa taxa caiu para 58. Hoje, 59 a cada cem mil habitantes sofrem com a doença. Os esforços de detec­ção também estão estagnados. Em 1990, 60% dos casos eram identificados. Em 2005, a taxa subiu para 85%. Hoje, ela está estagnada em 82%.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Sonhos" - por Sigmund Freud


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

18 de outubro: dia do médico



O Psicoterapia Brasil e a Unidade Brasil da Rede Internacional de Ecobioética homenageiam todos os médicos do Brasil.
Que esse dia 18 de outubro de 2013 seja MAIS e melhor, para os profissionais que estão permanentemente expostos à frustração de serem apenas humanos.

O mapa de esquizofrenia


Cientistas registram a atividade cerebral de camundongos com sintomas da doença.

Um experimento de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, poderá abrir frente para novos tratamentos da esquizofrenia, um transtorno mental que afeta 1% da população mundial.

Pela primeira vez, os pesquisadores conseguiram mapear a atividade cerebral que parece produzir a desorganização mental característica da doença, geralmente também acompanhada de delírios e alucinações. "Nossos resultados não são práticos no momento, mas certamente irão proporcionar uma nova forma de olhar para o mecanismo de ação dos atuais tratamentos e medicamentos antipsicóticos e levar a uma nova intervenção terapêutica" afirmou ao GLOBO um dos coordenadores da pesquisa, o professor Junghyup Suh. Para realizar o teste, pesquisadores do Instituto de Ciência do Cérebro Riken do MIT gravaram as oscilações das ondas cerebrais do hipocampo de camundongos, entre eles, alguns geneticamente modificados para apresentar sintomas semelhantes à esquizofrenia. Estes não produziam uma proteína chamada calcineurina, uma vez que mutações no gene que produz esta substância já tinha sido percebida em pacientes com o transtorno mental.

Os camundongos com proteína bloqueada tendiam a ter perda de memória de curto prazo, assim como comportamento social anormal e déficit de atenção.

DESORGANIZAÇÃO MENTAL EM ESQUIZOFRÊNICOS

Os roedores foram colocados num labirinto. No período de descanso, o cérebro dos animais normais ativava as células de localização do hipocampo na mesma ordem em que eles tinham percorrido o trajeto imposto. Aqueles com o transtorno, ao contrário, ativavam todas as células de localização ao mesmo tempo e em níveis anormais. Isto sugere, segundo os cientistas, que eles têm uma desorganização neuronal que os impede de repetir mentalmente uma rota que eles tinham acabado de fazer.

O artigo publicado na “Neuron” exemplifica que em camundongos normais o papel da calcineurina é reprimir a conexão entre os neurônios, as sinapses, no hipocampo. Em roedores sem a calcineurina, um fenômeno conhecido como potenciação de longo prazo (aumento rápido da resposta entre as sinapses) se tornava mais prevalente.

Os pesquisadores acreditam que a atividade anormal vista no hipocampo pode ocorrer por uma interrupção da chamada rede de modo padrão do cérebro, uma rede de comunicação que liga o hipocampo, o córtex pré-frontal e outras partes do córtex. Esta rede é mais ativa quando o indivíduo (ou no caso o roedor) está descansando entre tarefas determinadas. Quando o cérebro foca numa atividade, a rede de modo padrão é desligada.

Entretanto, esta rede é hiperativa em esquizofrênicos tanto antes quanto durante as tarefas que requerem foco. Eles geralmente não desempenham bem estas tarefas. "A possível terapia teria uma abordagem neurobiológica para diminuir a atividade cerebral na rede de modo padrão, para, assim, aliviar os sintomas e até curar o transtorno mental" acrescentou o pesquisador.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a esquizofrenia afeta cerca de 24 milhões de pessoas no mundo. O transtorno é tratável, mas a terapia é mais eficiente se ocorrer no estágio inicial.

Ele acomete principalmente jovens do sexo masculino. Mais de 50% dos esquizofrênicos, entretanto, não recebem os cuidados necessários, e mais de 90% destes estão em países em desenvolvimento, como o Brasil.

Tema que inspira uma série de filmes e livros, a esquizofrenia é conhecida de boa parte da população, mas cujos avanços não acompanham sua popularidade. Aqueles que sofriam do transtorno já foram tachados de possuídos por demônios, eram temidos e exilados. Apenas nos últimos 60 anos é que vieram os maiores progressos, com a chegada dos medicamentos anti-psicóticos. A própria equipe que realizou o experimento no MIT vem, há pelo menos uma década, investigando possibilidades de tratamento.

Em 2003, o grupo conseguiu mostrar que pacientes com esquizofrenia tinham mutações no gene responsável pela produção da calcineurina. Este não é, no entanto, o único a influenciar no aparecimento da doença. Na verdade, há vários genes suscetíveis à esquizofrenia, já que se trata de um transtorno mental de genes múltiplos que podem, também, ser afetados pelo meio ambiente.

É difícil afirmar que um gene é mais importante do que outros. Também estão entre eles: Catecol O-Metiltransferase (COMT), Neurogulin 1 (NRG1) e proteína 1 interrompida na esquizofrenia (DISC1). "Quero ressaltar, ainda assim, que nenhum dos estudos chegou a investigar as mudanças ou anormalidades no processamento da informação numa única célula ou num circuito como fizemos nesta pesquisa" defendeu Suh.

Informação divulgada no jornal O Globo.

Opinião: Eleições na ABP

Por que você é candidato numa chapa para a ABP?

Esta foi uma pergunta que minha esposa me fez há alguns dias atrás. O interessante foi que este questionamento apareceu no pós-operatório de uma apendicectomia videolaparoscópica. Mesmo sendo um procedimento simples do ponto de vista cirúrgico, o pré-operatório foi atormentador para nós dois, visto que, as hipóteses diagnósticas não eram das mais animadoras pela característica pouco convencional do quadro. Quando o medo e a ansiedade tomam conta de você, a sua energia é sugada e até aqueles com muita resiliência passam a ficar pessimistas e resignados esperando o pior. A incerteza e o risco de diagnósticos pouco palatáveis me fez silenciar externa e internamente, haja vista, que ela conseguiu cochilar após a prescrição de alguns opióides injetáveis. Como estávamos sozinhos no Box da emergência, o meu silêncio reverberou “silenciosamente” em mim mesmo.

Vivenciei a música do Rappa chamada “O silêncio que precede o esporro”. Enfim, só me restava esperar o esporro clínico de um diagnóstico que não desejava ouvir. Por bem, a tomografia de abdômen mostrou o diagnóstico mais simples e de melhor prognóstico, mas, ressalto novamente, que não havia sido pensado nele. Depois de tudo isto, no dia seguinte, eis que ela me aborda no final da noite com esta dúvida.Provavelmente, a dúvida dela surgiu por perceber o meu envolvimento na campanha a qual consumia parte do meu dia e eliminava parte do tempo disponível da família, lazer e trabalho. Diante de tudo isto, a necessidade de respondê-la era necessária e pujante, pois, assim, também me responderia. Deveria haver algo que motivasse o meu desejo de participar de alguma forma daquele momento institucional da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Para isto, tentei pensar e arquitetar minhas idéias para depois ter argumentos de resposta. Voltei um pouco no tempo e visualizei a Assembléia de Delegados no Congresso Brasileiro de Porto Alegre/RS. Lá, se não estou enganado, acontecia, pela primeira vez na história da Associação, uma disputa à diretoria da ABP com duas chapas. Os discursos foram completamente confrontadores e, depois de certo tempo, eu confesso que era muito complicado se manter atento àquelas acusações e contra-acusações as quais, muitas vezes, assumiam manifestações pessoais. Qual seria a grande motivação daquilo tudo? Em Congressos e Assembléias passadas, mesmos com as diferenças e os diferentes pontos de vistas, os atores opositores se toleravam e conviviam não digo em harmonia, mas com algum respeito básico. A sensação que me dava por ser recém-chegado àquele fórum de discussão é que o gargalo era estreito. Parecia-me que existiam menos vagas do que postulantes a elas. Eu ainda não sabia responder qual era o real impacto de um cargo oficial da ABP na vida de um psiquiatra. Embora não soubesse esta resposta, pude perceber que alguns estavam sedentos por estes cargos oficiais. Infelizmente, o gargalo era estreito e pelo funil não era possível passar todos a fim de preencher os devidos postos da Diretoria Executiva da ABP. Nisto, discussões iam e viam. Algumas eram interessantes e outras entediantes. O microfone da assembléia passava de mão em mão bastando se inscrever e falar seu nome e federada de origem. Claro que algumas falas importantes apareciam em meio ao confronto, mas, quando o microfone parava na mão de alguns delegados, as cortinas se abriam e palco estava pronto para peças teatrais performáticas dignas de trupes famosas. Assim foi aquela assembléia em Porto Alegre que, após o final da eleição, terminou tarde da noite. As Assembléias de Delegados nos Congressos seguintes realizados em Brasília e em São Paulo seguiram a mesma lógica descrita anteriormente com a ressalva de que crescia uma discussão fervorosa sobre o modelo de eleição. Os delegados que, atualmente, fazem parte do grupo diretor da ABP ou que os apóiam questionavam a “ética” daquele formato de processo eleitoral. As justificativas destas críticas estavam pautadas na falta de representatividade do pleito eleitoral pela presença de votos indiretos e num questionamento de que aquele formato “mantinha os caciques ou cardeais no poder e não permitiam a renovação das lideranças”. As discussões permeavam comportamentos ora coerentes, ora agressivos e ora irônicos até que chegou a Assembléia de Delegados no Congresso de Fortaleza onde uma nova eleição, novamente, com duas chapas aconteceu. De novo, eu inventei de estar por lá. Ali, eu percebi que a ABP passaria a ter outros rumos com um modus operandi bem político e, em alguns momentos, penosamente politiqueiro. O discurso das assembléias anteriores contextualizado na ética e no desejo de evitar um seqüenciamento dos cargos e uma manutenção do poder foi quebrado com comportamentos éticos questionáveis. Como se poder combater uma suposta falha ética com atitudes eticamente questionáveis mesmo que legais do ponto de vista normativo? Assim foi feito. Esta eleição indireta com os delegados eleitos nas suas federadas foi caracterizada por uma série de procurações que traziam uma mancha ética no processo. Senão, vejamos: alguns delegados coletaram, após contatos com outros colegas, assinaturas em procurações se transformando procuradores de 20 a 30 pessoas ao mesmo tempo e assim arbitraram a si o direito de escolher os delegados para a assembléia. Isto foi um instrumento legal, pois, quando não existe no direito administrativo uma proibição normativa explícita, o evento é permitido mesmo que existam análises na ética do processo. Neste evento, esta conduta legal demonstrava traços pouco éticos daqueles que exigiam, em nome dos bons costumes, condutas éticas. Enfim, a busca da ética e a pouca ética convivendo no mesmo espaço. Conseqüentemente, entendi que os cargos da diretoria da ABP eram desejados a todo custo. Seria pelo desejo de construção associativa ou por outras demandas? Naquela assembléia, eu não saberia responder e teria que esperar os 3 anos de gestão da chapa eleita (ABP Democrática) para poder concluir. Por ser jovem, mantive o desejo de participar associativamente. Claro que a juventude traz uma energia interessante em alguns projetos, mas pode também provocar erros impulsivos nas análises. Independente disto, eu me mantive participativo mesmo sem concordar com algumas construções da gestão atual da ABP, pois acreditava que a existência do contraditório era importante para mim e para a instituição. A minha conclusão era simples: eu posso aprender, mudar de opinião e crescer ao escutar o contraditório do grupo gestor da ABP bem como eles também poderiam ter isto utilizando a via contrária desta avenida dialética. Infelizmente, não foi isto que aconteceu pelo menos comigo. A minha fala e a minha escrita não reverberava e a indiferença era uma marca constante da atual diretoria da ABP frente as minhas intervenções, opiniões e críticas. Em alguns espaços não oficiais da ABP, mas divulgado pela própria ABP como espaço de construção coletiva, fui, inclusive, excluído. Qual seria o motivo? A justificativa é que eu teria ferido normas éticas. No entanto, este jargão pairou na superficialidade e nem sequer fui comunicado oficialmente do evento excludente. Seria uma dificuldade deles em escutar o contraditório? Será que eles estariam sempre certos? Mantive minha participação propondo, criticando e denunciando questões importantes da psiquiatria brasileira por outros canais e o comportamento indiferente e excludente era o mesmo. Assim sendo, fui ficando desestimulado e, nestes 3 últimos anos, confesso que pensei, ao receber o boleto de pagamento da anuidade, em sair da condição de sócio titular, quite e participativo da ABP. Talvez, o desejo associativo prevaleceu, embora fosse decepcionante constatar uma realidade – aquele que não escrever na mesma cartilha do grupo gestor da ABP não será escutado e, por que não dizer, respeitado.

Restou a mim observar e como um bom observador crítico eu observei demais. Observei um discurso messiânico de que a partir de então a ABP entraria nos eixos, pois, agora sim, uma gestão de bons princípios apareceria. Um discurso triste pautado na idéia de que “nunca uma gestão da ABP ....” e “que percebemos o errado e faremos o certo”. Um ato abominável com uma falta de respeito à história e as pessoas que estiveram à frente da ABP em todos estes anos. Erros aconteceram e, certamente, alguns erraram menos e outros erraram mais, porém, independente dos erros, todos construíram e tentaram fazer o seu melhor. Este discurso, que era veiculado, trazia uma idéia de que algo novo e especial, capaz de abrir uma nova era histórica, acabara de chegar. Será? Seria? Nunca gostei desta mensagem que aparecia de forma ora subliminar ou ora mais explícita. Na vida terrena não existem ou pelo menos não deve existir a figura personificada de algum messias capaz de um comportamento meteórico que mudaria tudo e, diga-se de passagem, mudando tudo que estava errado até aquele momento. Como numa mágica medieval, após a chegada dele ou deles tudo ficaria nos eixos daqui para frente, pois os erros foram extirpados à fórceps. Sempre achei estas posturas e insinuações não positivas e, institucionalmente, pouco construtivas, visto que, a ABP é um continuum, onde altos e baixos aconteceram, mas que a resultante sempre foi ascendente.

Mantive meu foco de observação e pude visualizar um pouco mais. Visualizei uma mensagem de que a gestão era defensora dos médicos, dos psiquiatras e da psiquiatria. Ademais, novamente, aparecia uma mensagem subliminar de que nunca uma gestão atuou neste caminho como esta vem atuando. Eis que veio na minha cabeça uma dúvida cabal: o que é defender o médico, o psiquiatra e a psiquiatria? Seria freqüentar o espaço do Congresso Nacional ou tirar fotos com políticos em audiências públicas com temáticas da área médica? Inclusive, é preciso ressaltar que alguns dos políticos clicados são bem questionáveis do ponto de vista ético. Confesso que ficar ombreando certos políticos brasileiros não fortalece, pelo menos do ponto de vista ético, nenhum médico psiquiatra brasileiro. As inúmeras seqüências de fotos de representantes da ABP com políticos diversos soam mais, para mim, como um desejo psicodinâmico de se tornar político do que uma defesa propriamente dita da classe. Eu também não vejo que o crescimento profissional apareça sem escutar o opositor e aqueles que não concordam conosco. Nós, médicos psiquiatras, precisamos crescer na sociedade, portanto no convívio com todos cuja maioria é de não médicos e não psiquiatras. A mensagem interna de que somos valorizados por nós mesmos não adianta nada para o objetivo mor de valorização. É preciso crescer e ser valorizado para fora. Caso contrário, não cresceremos nunca e não seremos valorizados ad eternum. De que adianta nos valorizarmos by ourselves? A gestão atual da ABP não entendeu muito bem a diferença entre ter uma postura forte e representativa e atuar com uma postura arrogante. Para sermos respeitados, precisaremos escutar além de falar. A ABP atual passa uma mensagem de que, democraticamente, escuta a todos, mas não é bem assim em termos institucionais internos e externos. As verdades julgadas absolutas que não foram construídas na coletividade são quebradiças e frágeis. O mais lamentável é o risco de ser acusado de anti-psiquiatra, anti-manicomial, anti-científico e “anti-tudo” pelos defensores apaixonados da atual gestão da ABP se você trouxer este raciocínio contraditório para a discussão. Às vezes, isto vem acontecendo e mostra a incapacidade de escutar. Assim, eu questiono como é que se pode usar as palavras democracia, democrática e parceira se esta premissa básica não é respeitada. Se eu não aceito o contraditório e imponho o que eu penso de forma absoluta, eu poderei ser um tirano com posturas centralizadoras as quais impedirão o crescimento institucional. Talvez, por isto, a ABP emita uma série de opiniões em assuntos polêmicos tais como internação psiquiátrica, políticas de álcool/drogas e políticas de saúde mental sem perguntar a opinião do associado. Embora as intenções, certamente, sejam positivas, a instituição deve sempre ter a validação dos seus associados, pois, se não for assim, a opinião em questão é da diretoria da associação e não da ABP. Esta atitude se espalha nas campanhas que a ABP passou a construir e que a meu ver valorizam mais as pessoas envolvidas na campanha do que a própria campanha em si. Como é possível acreditar que a criminalização é a melhor alternativa para combater o estigma e o preconceito à doença e ao doente mental. Desse modo, a idéia do Projeto de Lei intitulado Psicofobia mostra-se equivocada na etimologia do termo e no propósito da lei. Não é possível aceitar que o doente mental será mais respeitado por que existe uma norma que penalize as pessoas preconceituosas. A quantidade de leis é inversamente proporcional a existência de justiça social e estas associações já foram demonstradas num dos preceitos histórico do direito germânico. Novamente, a ABP mostra sua dificuldade de dialogar e assumir um papel ora de emissor e ora de receptor da comunicação. Enfim, escutar a opinião dos outros é bem vindo nesta construção dialética, pois os atores sociais construiriam algo mais sólido no combate do estigma à doença mental e ao doente mental. Portanto, a ABP atual constrói suas campanhas e suas definições políticas sem escutar e sem discutir coletivamente. Tenho receio, inclusive, que esta campanha chamada de “Psicofobia” até piore o estigma por valorizar o lado punitivo e não o educativo. Em caminho semelhante, vem à campanha de “Orgulho de Ser Psiquiatra”. Será que é preciso uma campanha para nos orgulhar da nossa formação e da nossa práxis? Se eu preciso de uma campanha sistemática para algo, eu posso está colocando a própria proposta encampada em dúvidas. Se há um desejo de prestar uma homenagem ou uma deferência a ícones da psiquiatria brasileira, que façamos isto sem sombra de dúvidas, todavia esta valorização em nada tem a ver com o ato de se orgulhar de ser psiquiatra. Todos nós nos orgulhamos e muito. O pior, eu repito, é perceber que as campanhas, novamente, são veiculadas com muitas fotos e imagens com as mesmas pessoas da diretoria. As fotos acontecem com artistas, desportistas e políticos. Enfim, as campanhas perdem destaque no meio de tantas fotos e de tantas pseudo-celebridades. Qual seria o objetivo de tudo isto? Alguém poderia dizer que esta seria a melhor forma para difundir a campanha na sociedade. Será que esta seria a melhor forma? Será que a centralização dos holofotes em poucos ajudaria na campanha em curso? Confesso que não sei, mas me incomoda sobremaneira o uso recorrente da mídia e a justificativa de que esta é a melhor forma para os objetivos institucionais. O quanto institucionais são estes objetivos?

Por outro lado, divulga-se que nunca na história da ABP a instituição teve as finanças tão ajustadas e equilibradas com um fluxo de caixa impecável. Certa vez, eu, como associado participativo, mandei um email solicitando a prestação de contas da instituição e o parecer do Conselho Fiscal sobre a gestão financeira da ABP. Até ontem, eu não obtive respostas e até o momento não tenho os dados desta solicitação mesmo com um congresso não tão barato e valores de inscrição das provas de título bem onerosos e maiores do que nas gestões anteriores. Eu não sei e nenhum associado sabe quanto custa às campanhas da ABP e quais são os seus indicadores de impacto. Portanto, elas são dispendiosas? Eles alcançam seus objetivos? Existem patrocinadores que bancam os produtos da ABP? Se sim, quais os termos contratuais? Enfim, qual é o balancete financeiro da associação e em que meios ele é divulgado? A transparência é uma marca importante de qualquer administração seja ela pública ou associativa. Não adianta afirmar que avançamos em termos financeiros e patrimoniais sem a descrição e a divulgação a quem é de direito dos meios e mecanismos de administração desta gestão econômica.

Em relação ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria, a mudança de formato agradou a alguns e desagradou a muitos. Nos últimos congressos, fomos surpreendidos com um modelo de Talk Show onde um bocado de celebridades falavam a um público não leigo com uma proposta, pelo menos propagada, de diminuir o estigma à doença mental.  Não vou me ater às questões financeiras de cachê (pago pela ABP, patrocinado por algum parceiro ou gratuito) das celebridades, visto que, já descrevi algo neste sentido no parágrafo anterior. No entanto, vale à pena ressaltar que os entrevistadores destas celebridades eram os mesmos ou o mesmo. Enfim, novamente, aparece uma faceta centralizada e ensimesmada em poucos a qual não é compatível com o vernáculo democrático tão utilizado até então. O associado aprovou e aprova este formato? Quando falo genericamente o associado, refiro-me a coletividade e não, somente, aos apoiadores da gestão política que, por conseguinte, aprovarão este estilo de congresso. O Congresso científico ofuscado pela caracterização midiática.

Por fim, vem à tona a tão desejada eleição direta que foi defendida em plataforma política prévia na última eleição da diretoria da ABP. Um avanço democrático com sufrágio universal a todo associado quite. Assim, evitaríamos que os caciques mantivessem o status quo e o controle de tudo num herdar de cargos parecidos com os das Capitanias Hereditárias do Brasil Colônia. Talvez, esta foi uma das propostas mais impactantes da ABP Democrática em 2010. A eleição direta foi encaminhada, mas será que o avanço democrático existiu de fato? Alguns pontos precisam ser realçados. Dentro da eleição direta, está sendo permitido a reeleição e se observarmos na Chapa 1, que tem o mesmo nome do pleito de 2010, poderemos perceber uma quase totalidade de recandidaturas de seus membros. Como assim? A eleição direta tinha como objetivo impedir uma herança de cargos de um para outros, ou seja, de um decano para seu protegido. Agora, neste modelo “democrático”, isto não é preciso, pois não será necessária a transmissão de cargo, visto que, a manutenção do poder é permitida. Tudo isto em nome da democracia. Ademais, todo o processo eleitoral é marcado pela burocracia e existência de muitas regras e prazos confusos. No entanto, é claro que a atual diretoria, por ser a protagonista da construção das regras e do estabelecimento dos prazos, era sabedora de tudo desde muito antes da eleição. Outro fator complicador é a limitação temporal para uma campanha franca capaz de atingir os associados num debate político de fato democrático. Qual seria o motivo de prazos tão exíguos? Qualquer chapa que desejasse concorrer com a chapa que se recandidata na sua quase totalidade (Chapa 1), teria grandes e maciças desvantagens. Isto é democrático? Isto respeita a isonomia e a imparcialidade dos pleitos eleitorais? Para piorar a situação, muitos membros da Chapa 1 foram palestrantes em congressos regionais que vem acontecendo poucos meses antes da eleição e no Programa de Educação Continuada. Isto configuraria um conflito de interesses? Isto de certa forma poderá ser interpretado como campanha? A democracia não pode funcionar assim. Ela não é pautada nestes parâmetros e o discurso não é bem democrático como se parece. Inclusive, as palavras - democrática/democracia/parceira - foram atacadas em sua gênese e princípios desde o começo do processo.

Toda esta longa descrição foi o que passou pela minha cabeça para tentar encontrar os argumentos para responder o questionamento da minha esposa. No fundo, ela entendeu os jogos políticos em que a ABP está submersa. Acho que ela queria somente me proteger evitando que eu me machucasse até por que falar a verdade conforta o que emitiu o verdadeiro, mas incomoda o ouvinte contaminado. Em função disto, poderiam acontecer alguns respingos em mim. Como ela ainda estava no leito hospitalar, preferi poupá-la de um relato tão enfadonho e decidi mostrar para ela que sou um sonhador e repliquei uma frase de Mario Quintana que havia lido no dia anterior. Assim, falei olhando nos olhos dela: “sonhar é acordar-se para dentro” e, por fim, expliquei que eu precisava me senti vivo associativamente. Depois disto, dei um pequeno beijo na sua testa e disse “boa noite”.


Dr. Régis Eric Maia BarrosPsiquiatraMestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USPCandidato a Diretor Secretário Adjunto da Chapa 2 / ABP Plural psiquiatria@stabilispsiquiatria.com.br