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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Estímulo magnético pode ajudar fumantes a largar vício, sugere estudo

Usar campos magnéticos para alterar a atividade cerebral pode ajudar alguns fumantes a abandonar o hábito, aponta um estudo preliminar recém-divulgado.

Os pesquisadores dizem ter usado estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês) para "desfazer" o vício em nicotina do cérebro do paciente.

As descobertas preliminares, apresentadas na conferência Neuroscience 2013, nos EUA, sugerem que a técnica pode ajudar fumantes a reduzir o consumo de cigarro ou mesmo abandoná-lo. Mas novos testes são necessários antes que a técnica seja indicada para uso clínico.

Estímulo

A TMS estimula neurônios a alterar funções cerebrais e já é utilizada no tratamento de alguns pacientes que sofrem de depressão. A equipe da Universidade Ben Gurion, em Israel, usou os campos magnéticos em duas áreas do cérebro associadas ao vício em nicotina: o córtex pré-frontal e a ínsula.

Os 115 fumantes que participaram do estudo foram divididos em três grupossubmetidos a TMS de alta frequência, a de baixa frequência ou a nenhum tratamento — durante 13 dias. Após seis meses de estudo, o grupo que teve TMS de alta frequência consumiu menos cigarro e apresentou índices maiores de abandono do fumo.

As melhores taxas de sucesso no tratamento ocorreram quando os participantes viram fotos de cigarros acesos durante a terapia magnética. Desses, um terço largou o cigarro após seis meses.

Resposta do cérebro

Os pesquisadores argumentam que a terapia pode alterar a resposta natural do cérebro a imagens, sensações e objetos associados ao fumo. "A pesquisa mostra que podemos conseguir desfazer algumas das mudanças que o fumo crônico causa no cérebro", explica Abraham Zangen, da Universidade Ben Gurion.

"Sabemos que muitos fumantes querem largar o cigarro ou fumar menos, e a técnica pode ajudar a conter a causa número um de doenças evitáveis."

O médico Chris Chambers, especialista em TMS na Universidade de Cardiff (Grã-Bretanha), acha que o estudo contribui por "somar-se a crescentes evidências de que o estímulo cerebral, quando aplicado a partes específicas do lóbulo frontal, pode aumentar nossa capacidade de superar vícios".

"(O estudo) é animador e tem uma gama de aplicações na psiquiatria", agrega.

No entanto, ele ressalta que a pesquisa ainda não foi revisada por grupos médicos e que ainda é preciso "desenvolver um entendimento maior sobre o porquê e como esses métodos funcionam".

Um outro estudo, divulgado na mesma conferência, sugere que o estímulo cerebral por meio de eletrodos pode ajudar também no combate ao vício de heroína. O estudo foi feito com camundongos, que ingeriram a droga descontroladamente até se viciarem. Os animais que foram submetidos a estimulação cerebral profunda reduziram o consumo do entorpecente.

Barry Everitt, professor da Universidade de Cambridge, disse que os estudos podem trazer benefícios: "Intervenções sem o uso de medicamentos seriam um grande passo adiante no tratamento antidrogas, que atualmente depende de substituir uma droga pela outra e tem altas taxas de reincidência".

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Reportagem sobre psicose pós-parto


Mães que quiseram matar filhos falam dos perigos da psicose pós-parto.

A psicose pós-parto, uma doença mental devastadora, mas pouco compreendida, afeta uma em cada 500 mães e pode resultar em suicídio ou mesmo em assassinato de bebês.

O período que sucede o parto é o momento em que as mulheres estão mais propensas a doenças mentais, tais como depressão ou psicose. Mas há tratamento.

A BBC entrevistou pessoas afetadas por esta doença que, muitas vezes, passa despercebida porque médicos e enfermeiras não estão preparados para identificar os sintomas ou porque, por medo do estigma, é escondida pelas mães.

A maioria das mulheres com a psicose pós-parto não tem história familiar ou pessoal de doença mental, alertam os especialistas.

'Estava cheia de vontade de matá-lo'

Jo Lyall era uma dessas mulheres. Depois que seu segundo filho, Finlay, nasceu, Jo passou por um episódio assustador. Uma noite, poucos dias depois de deixar o hospital, ela esteve a ponto de estrangular o bebê: "Coloquei ele adormecido na cama ao meu lado, e meu cérebro simplesmente desligou", disse ela. "Era como se alguém tivesse desligado um interruptor na minha cabeça, e eu olhei para ele e estava cheia de vontade de matá-lo."

"Eu coloquei minha mão em seu pescocinho, ainda não forte o suficiente para manter a própria cabeça, e comecei a apertar. Eu não queria machucá-lo. Sabia que não devia fazer isso, mas eu queria saber se era capaz". Jo sabia que algo estava errado, mas tinha medo de procurar ajuda, por pensar que perderia a guarda dos filhos.

Sem tratamento, ela começou a planejar como matar a si e seus dois filhos. "Um dia, pensei em sufocar os garotos enquanto eles dormiam após o almoço", disse ela. "Tinha que ter certeza de que os meninos e o cachorro estariam mortos antes que eu tirasse minha própria vida, porque eu não podia arriscar que sobrevivessem sem mim", acrescentou.

o fez várias tentativas de suicídio, mas depois de seis meses em um hospital psiquiátrico e quatro anos sob medicação, está totalmente recuperada. Ela faz campanha pela maior consciência dos sintomas de psicose pós-parto, para permitir que médicos e parteiras ofereçam um melhor tratamento para mulheres doentes. "Eu sobrevivi, em grande parte, devido a um médico e a uma quantidade extraordinária de sorte", disse ela. "Mas as mulheres não deveriam ter que confiar na sorte para sobreviver a uma condição tratável".

'Tinha desejo de machucá-lo'

Os especialistas não sabem a causa exata de psicose pós-parto, embora acredite-se que as grandes mudanças hormonais que se seguem ao nascimento do bebê tenham um papel importante, juntamente com a genética. A proporção de jovens mães em risco é grande. E mulheres com transtorno bi-polar têm 50% de chances de se tornar gravemente doentes nas semanas após o parto.

Shelley Blanchard estava nesta categoria. Por isso, sua equipe médica não só monitorou sua saúde física enquanto o nascimento do bebê se aproximava, como também o seu bem-estar psicológico. Shelley foi apoiada nos estágios finais de sua gravidez e nos primeiros meses da maternidade por uma equipe que incluía o Dr. Nick Best, psiquiatra perinatal especializado em cuidar de mulheres grávidas e jovens mães com problemas de saúde mental.

Best fez visitas regulares a Shelley, assim como a enfermeira psiquiátrica de sua comunidade. "Uma pessoa pode passar da situação normal à psicótica, delirante e paranoica no espaço de apenas dois ou três dias", disse Best.

Shelley também começou um tratamento com drogas anti-psicóticas na mesma noite que ela deu à luz o bebê Oliver. Mas algumas semanas depois do nascimento, o humor de Shelley começou a piorar e ela parou de tomar os medicamentos anti-psicóticos porque a deixavam sonolenta. "Comecei a ter pensamentos desagradáveis sobre Oliver, tinha desejo de machucá-lo, de jogá-lo pelas escadas ou soltá-lo de propósito", disse ela.

"Eu estava tão assustada, não queria machucar meu filho, mas os pensamentos foram ficando mais fortes e mais frequentes, então tive que buscar ajuda." Ela contatou a equipe médica e foi internada em uma unidade especial em Winchester, onde as mães e seus bebês podem ser mantidos em segurança durante o tratamento.

Três meses mais tarde, Oliver e Shelley estavam em casa novamente, recuperados. "Se eu não tivesse ido para a unidade, acho que provavelmente teria acabado por tomar uma overdose, e teria possivelmente me matado. Eu estava fora de controle", disse Shelley à época.

"Foi um tempo tão sombrio, mas consegui aprender um pouco mais sobre mim. Estou realmente me sentindo muito bem agora, poderia até dizer que estou me sentindo fantástica."

Pai perdeu mulher e filha

Dave Emson sabe como a psicose pós-parto pode ser grave - quando sua filha Freya tinha apenas três meses de idade, sua esposa Daksha matou o bebê a facadas e colocou fogo em seu quarto. Daksha morreu em consequência das queimaduras quase três semanas mais tarde. "Cheguei em casa por volta das cinco e meia ou mais, e quando cheguei à porta da frente senti um cheiro de queimado", disse Dave ao recordar o dia em que a tragédia aconteceu.

"Normalmente, ao entrar eu dizia 'Daksha, querida, estou em casa' e ela respondia e eu ouvia o balbuciar do bebê. Mas naquele dia houve um silêncio. Daksha deixou um bilhete falando de seus temores de que a filha do casal fosse vítima de "forças das trevas" e de seu desejo de proteger Freya a todo custo. Daksha tinha estudado psiquiatria e estava prestes a se tornar consultora quando morreu. Ela tinha escolhido a carreira em parte porque sofrera de depressão grave por anos, mas poucas pessoas sabiam de sua condição, já que ela tinha medo do estigma que traria.

O inquérito sobre sua morte levou a novas diretrizes no sistema de saúde britânico para o tratamento de funcionários com doença mental. Dave agora escreve um livro sobre sua história - para ajudar outras pessoas em situação semelhante: "Primeiramente, é uma forma de Daksha falar através de mim, de falar com pessoas que estão sofrendo, companheiros trabalhadores da área de saúde mental, pessoas que estão sofrendo com as condições de saúde mental, para que saibam que não estão sozinhas", disse ele.

reportagem divulgada através da BBC Brasil, em agosto de 2012.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Orgasmo feminino tem efeito terapêutico, sugere pesquisador

O orgasmo feminino pode ter um efeito terapêutico. Quem diz é o psicólogo americano Barry Komisaruk, professor da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, que já passou 30 de seus 72 anos investigando os benefícios do prazer sexual no bem-estar das mulheres.

Seu último estudo demonstra que o clímax estimula todas as principais áreas do cérebro e tenta encontrar possíveis usos terapêuticos do estímulo vaginal.

No atual estágio, os estudos de Komisaruk estão concentrados em verificar se o prazer sexual pode ajudar no tratamento de pacientes com ansiedade, depressão ou dependências.

Durante sua pesquisa, Komisaruk colocou suas pacientes em câmaras de ressonância magnética com a recomendação de estimular suas partes íntimas até alcançar o orgasmo.

O monitoramento cerebral desse processo o levou a algumas conclusões interessantes, que Komisaruk compartilhou nesta entrevista telefônica com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

BBC - O que acontece no cérebro de uma mulher durante um orgasmo?

Barry Komisaruk - Há um enorme aumento da atividade. O que averiguamos é que durante o orgasmo há um aumento impressionante do fluxo de sangue e de oxigênio na cabeça, ambos nutrientes muito benéficos para o cérebro.

BBC - Como é sua análise do cérebro?

Komisaruk - Monitoramos sua atividade durante o clímax e observamos quais zonas são ativadas quando a mulher tem um orgasmo. Já vimos que seus efeitos benéficos chegam a todos os sistemas principais do cérebro. Eu me refiro ao sistema sensorial, ao sistema de coordenação motora, etc.

BBC - Seu estudo menciona que conhecer os efeitos do orgasmo na nossa cabeça pode ajudar a superar a depressão, a ansiedade ou o vício. Como?

Komisaruk - É precisamente isso que queremos comprovar. Para isso, permitimos que a paciente veja a própria análise de seu cérebro ao vivo. Estamos no processo de averiguar se visualizar os processos de nossa mente ajuda a controlá-la. Há uma zona chamada núcleo accumbens que é a área do prazer.

Essa área é ativada pela nicotina, pelo chocolate, pela cocaína e também pelos orgasmos. A minha pergunta é: podemos ensinar a nós mesmos como aumentar conscientemente a atividade nesse núcleo observando seu funcionamento? Que efeito teria isso em pacientes com depressão ou ansiedade?

BBC - Quão conhecidos são os efeitos do orgasmo na saúde?

Komisaruk - Praticamente não há estudos. Este é o primeiro que se faz sobre suas consequências sobre o cérebro. O que já se estudou é o resultado do orgasmo no coração da mulher e também os benefícios do orgasmo masculino para evitar o câncer de próstata.

Comprovou-se que as mulheres que tinham mais orgasmos gozavam de uma melhor saúde cardíaca. O estudo em homens mostrou que os que tinham menos orgasmos não haviam liberado substâncias tóxicas que estavam acumuladas na próstata pela ausência de ejaculação. Esse fator os faz mais propensos ao câncer.

BBC - Quando acredita que seu conhecimento sobre o cérebro será suficiente para oficializar uma prescrição médica de orgasmos?

Komisaruk - Eu já recomendo. Mas para conseguir que isso seja feito de maneira regular são necessárias mais pesquisas. Dependerá das descobertas que façamos no futuro.

BBC - É fácil conseguir dinheiro para pesquisar a sexualidade?

Komisaruk - É muito difícil. As entidades que financiam são reticentes em dar dinheiro para estudos sobre o prazer e o sexo. Em parte porque enfrentam a pressão social. O governo não quer se envolver com pesquisas sobre a sexualidade por temor de ser criticado com o argumento de que há problemas mais sérios.

BBC - Por que está interessado no orgasmo da mulher e não do homem? Há muita diferença entre os dois?

Komisaruk - Há mais semelhanças que diferenças. A razão pela qual comecei a me interessar pelo orgasmo feminino foi que encontrei evidências de que o estímulo vaginal tem a capacidade de bloquear a dor sem necessidade sequer de alcançar o orgasmo.

Demonstramos que ambos os prazeres atuam como calmante, mas que o orgasmo é mais efetivo que a simples estimulação.

A partir disso, muitas mulheres me disseram que utilizam a estimulação vaginal para reduzir o mal-estar da menstruação ou a dor provocada pela prática de esportes. E isso funciona para elas.

BBC - Então a estimulação vaginal pode aliviar a dor a longo prazo ou somente a curto prazo?

Komisaruk - Meus estudos somente conseguiram estabelecer que o orgasmo reduz a dor menstrual imediatamente e pode ter um efeito por horas.
O alívio das dores nas costas é outro efeito benéfico da estimulação vaginal e dos orgasmos.

Entrevista divulgada através do portal da BBC.

Leia também: "Orgasmo ajuda a prevenir doenças físicas e mentais, diz estudo"

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Depressão é 2ª maior causa global de invalidez, diz estudo

A depressão é a segunda causa mais comum de invalidez em todo o mundo, atrás somente de dores nas costas, segundo um estudo recém-publicado.

O estudo, publicado na revista científica PLOS Medicine, comparou a depressão clínica com mais de outras 200 doenças e lesões apontadas como causas de invalidez.

Segundo os autores da pesquisa, a doença deve ser tratada como uma prioridade de saúde pública global.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, globalmente apenas uma pequena proporção dos pacientes com depressão tem acesso a tratamento.

Apesar de ser globalmente classificada como segunda principal causa de invalidez, a depressão tem um impacto variado dependendo do país e da região.

A incidência de depressão é maior em países como Afeganistão, Rússia e Turquia e menor em locais como Austrália, China, México, Japão e Grã-Bretanha.

O Brasil, assim como os demais países da América do Sul, são classificados como nações de incidência média de depressão, assim como países como Estados Unidos, Índia, a maior parte da Europa e da África.

'Mais atenção'

"A depressão é um grande problema e nós definitivamente precisamos prestar mais atenção a isso do que estamos prestando agora", afirmou a coordenadora do estudo, Alize Ferrari, da Escola de Saúde Populacional da Universidade de Queensland, na Austrália.

"Ainda há mais trabalho a fazer em termos de conscientização sobre a doença e também em descobrir formas de tratá-la com sucesso", disse. "O peso da doença é diferente entre os países. Ele costuma ser maior em países de renda média ou baixas e menor em países de alta renda", observou.

Segundo ela, as autoridades já fizeram um grande esforço para conscientizar sobre a doença, mas "ainda há muito estigma associado à saúde mental".

"O que uma pessoa reconhece como causa de invalidez pode ser diferente de outra pessoa e pode ser diferente entre os países também. Há muitas implicações culturais e interpretações envolvidas, o que torna mais importante aumentar a conscientização sobre o tamanho do problema e também os sinais de como detectar isso", diz.

Os dados - do ano 2010 - seguem os padrões de outros estudos semelhantes realizados em 1990 e em 2000 sobre depressão em todo o mundo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Orgasmo ajuda a prevenir doenças físicas e mentais, diz estudo


"Uma sinfonia do cérebro" ou "um show de fogos artificiais". Estas são alguns dos termos usados pelos cientistas para se referir à resposta do cérebro ao momento do orgasmo. Mas embora o prazer proporcionado por essa sensação seja de conhecimento geral, quais são os benefícios para a saúde?

Magdalena Salamanca, psicanalista especializada em sexo baseada na Espanha, disse à BBC que a ausência do prazer sexual pode provocar doenças e transtornos mentais.

"É importante porque o orgasmo é a satisfação de um dos instintos mais importantes do ser humano, que é o sexual", diz.

Ela destacou ainda que muitos dos problemas de cunho social ou profissional estão vinculados à insatisfação sexual. "Por exemplo, a ansiedade é um dos transtornos mais relacionados com a ausência do orgasmo".

Além disso, a psicóloga Ana Luna disse que "fisiologicamente, a descarga de muitas tensões que o ser humano acumula se produz por meio do orgasmo".

Atividade cerebral

Há alguns meses, cientistas da Universidade de Rutgers, no Estado americano de Nova Jersey, determinaram que o orgasmo ativa mais de 80 diferentes regiões do cérebro.

Utilizando imagens de ressonância magnética do cérebro de uma mulher de 54 anos enquanto tinha um orgasmo, os cientistas descobriram que no ato quase todo o cérebro se torna amarelo, o que indica que o órgão está praticamente todo ativo.

Os níveis de oxigênio no cérebro também refletem um espectro que vai desde o vermelho intenso até um amarelo claro, e isto tem um impacto em todo organismo.

Benefícios para a saúde

"Há outros benefícios porque todo esse sangue oxigenado que flui pelo corpo chega aos microssensores da pele e vai para todos os órgãos", diz a psicóloga Ana Luna.

Já Magdalena Salamanca destaca que a saúde física e psíquica estão muito vinculadas à satisfação sexual proporcionada pelo orgasmo, o que o estudo da Universidade Rutgers parece comprovar.

A pesquisa mostrou como a atividade cerebral iniciada pelo orgasmo se propaga por todo o sistema límbico, relacionado às emoções e à personalidade.

Por isso, psicólogos como Ana Luna acreditam que o orgasmo é uma parte essencial de uma personalidade sadia.

"Quando você não tem orgasmo toda essa energia fica represada", diz a estudiosa, acrescentando que muitas vezes a ausência do prazer sexual torna a pessoa irritadiça, triste, rabugenta e até mesmo com dificuldades para sorrir.

Informação divulgada através do portal BBC.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Campanha quer por fim a uso de hienas para tratar doentes mentais na Somália

A Somália tem um dos maiores números de doentes mentais do mundo e com um sistema de saúde devastado por décadas de guerra, muitos pacientes não recebem qualquer tratamento. Muitos são acorrentados – em árvores ou em casa. Alguns são até trancados em jaulas com hienas. Mas um homem está tentando mudar este cenário.

Dr. Hab não é um psiquiatra. Seu nome real é Abdirahman Ali Awale, um enfermeiro que, após três meses de treinamento na Organização Mundial da Saúde (OMS), abraçou a missão de cuidar dos que sofrem de doenças mentais em seu país. Ele diz estar apto a tratar todos os tipos de distúrbios, desde depressão pós-parto à esquizofrenia.

Quem não quer fazer uma consulta com Dr. Hab pode fazer uma visita aos populares curandeiros que usam erva medicinais para tratar doenças mentais ou "sheiks" que ainda advocam curas tradicionais e normalmente barbáricas.

"Há uma crença na Somália de que hienas podem ver tudo, inclusive os espíritos malignos que as pessoas apontam como causadores das doenças mentais", diz ele.

"Em Mogadishu, é possível encontrar hienas que foram trazidas de bosques e famílias estão dispostas a pagar US$ 560 (R$ 1,2 mil) para trancar um ente querido junto com o animal dentro de um quarto durante a noite"

Mordidas

O "tratamento" com hienas - que custa mais do que as famílias ganham em média por ano – é brutal. Ao cravar suas garras e morder o paciente, a hiena estaria forçando os maus espíritos a deixar o corpo. Pacientes, inclusive crianças, já morreram em ataques do animal carnívoro.

"Estamos tentando mostrar às pessoas que isso não faz sentido", diz Hab. "Doenças mentais são como qualquer outra e precisam de métodos científicos para serem curadas", afirma.

A campanha do enfermeiro foi desencadeada por um incidente em 2005, quando ele testemunhou um grupo de mulheres com distúrbios mentais sendo perseguidas por jovens na rua.

"Depois disso eu decidi que teria de abrir o primeiro hospital psiquiátrico da Somália", relembra.

O Hospital Público de Saúde Mental (Habeb) em Mogadishu foi o primeiro dos seis centros que hoje Dr. Hab mantém toda a Somália, tendo atendido mais de 15 mil pacientes.

Ele enfrenta um grande desafio. A OMS estima que um em cada três somalis esteja ou tenha sido afetado por doenças mentais, bem acima da média global de um para dez. Em certas partes do país mais atingidas por décadas de conflito, este índice é ainda maior.

Dr.Hab diz que não dispõe de muitos recursos para tratar os pacientes, contando com doações de medicamentos por parte de ONGs e de farmácias particulares. Acorrentados

Ele diz que é difícil fazer os pacientes entenderem que sofrem de problemas mentais. Problemas psicológicos são geralmente explicados como dores físicas – dores de cabeça, excesso de suor e dor no peito. Alguns conceitos nem existem na cultura somali. Depressão, por exemplo, se traduz como "os sentimentos de um camelo quando seu amigo morre".

Mas nada é mais indicativo sobre a falta de entendimento da população sobre doenças mentais do que a prática disseminada de acorrentar pacientes em árvores ou em quartos.

A ONG italiana GRT tem registros de pacientes que ficaram acorrentados até morrer.

"Eu mesmo já salvei muitos pacientes que foram abandonados pela família e ficam acorrentados esperando a morte", diz Hab, que percorre áreas rurais em uma van em busca de pessoas acorrentadas para libertá-las e conduzi-las a um de seus centros.

A OMS financia a iniciativa "Livre das Correntes" em uma tentativa de erradicar a prática, começando pelos hospitais. Mas o próprio Hab admite já ter acorrentado os pacientes mais agressivos.

Hab mostra uma planilha com todos os itens de que necessita em seus centros – novos colchões, comida para os pacientes e diesel para sua van. Segundo ele, há também uma carência de enfermeiros e psiquiatras qualificadas. A luta diária para prover o tratamento adequado para seus pacientes e o sofrimento que ele testemunha está claramente afetando sua saúde.

"É um trabalho muito difícil físico e mentalmente", diz ele. "Eu era saudável quando comecei e agora sofro de diabetes".

"Eu já chorei na TV, já chorei em público, já chorei diante de presidentes", diz ele. "Até agora eu estou com vontade de chorar".

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Fotógrafo flagra ações brutais de grupos ligados à Al-Qaeda na Síria

Decapitações e execuções públicas - com a presença de crianças - foram flagradas por um fotógrafo independente em diversas cidades da Síria.



As imagens mostradas à BBC são de atos realizados por grupos ligados à Al-Qaeda na Síria, que como os insurgentes lutam contra o regime de Bashar al-Assad.

Os grupos jihadistas estão ganhando força no país. No entanto, eles são condenados até mesmo pelos insurgentes, como o Exército pela Libertação da Síria.

Os rebeldes afirmam que não conseguem evitar que grupos ligados à Al-Qaeda ganhem território na Síria.

Atenção: as imagens deste vídeo podem ser consideradas chocantes.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Como a ciência explica o pessimismo?

Muitos de nós nos consideramos ou pessimistas ou otimistas. Mas será que a ciência é capaz de explicar por que nos sentimos assim - e se podemos mudar? Vejamos o exemplo das gêmeas idênticas Debbie e Trudi: elas têm muito em comum, salvo pelo fato de Trudi ser animada e otimista, enquanto Debbie passa por momentos de profunda depressão.

Ao estudar um grupo de gêmeos idênticos como Debbie e Trudi, o professor Tim Spector, do Hospital St Thomas, em Londres, tenta responder questões fundamentais sobre a formação de nossa personalidade. Por que algumas pessoas são mais positivas do que outras a respeito da vida?

Fator genético

Spector identificou alguns genes em funcionamento em um dos gêmeos e não no outro. Estudos com gêmeos indicam que, quando se trata de personalidade, cerca de metade das diferenças entre as pessoas são decorrentes de fatores genéticos. Mas Spector ressalta que, ao longo de nossas vidas - e em resposta a fatores ambientais -, nossos genes estão constantemente sendo ajustados, em um processo conhecido como epigenética.

Em casos como o de Debbie e Trudi, os cientistas encontraram diferenças em apenas cinco genes no hipocampo. É isso, acreditam eles, que desencadeou a depressão em Debbie. Spector, que se descreve como otimista, espera que sua pesquisa ajude a melhorar os tratamentos disponíveis para depressão e ansiedade. "Costumávamos dizer que não podíamos mudar nossos genes", diz ele. "Agora sabemos que existem esses pequenos mecanismos para 'ligá-los' ou 'desligá-los'."

Ainda mais surpreendente é a pesquisa que identificou mudanças na atividade genética causadas pela presença ou ausência do amor materno. O professor Michael Meaney, da Universidade McGill (Canadá), está pesquisando maneiras de medir a ativação dos receptores de glicocorticóides nos nossos cérebros. Isso porque o número desses receptores é um indicativo da habilidade de cada um em suportar o estresse. E também é uma medida de o quanto fomos cuidados por nossas mães durante a infância - ao refletir o quão ansiosas e estressadas eram as nossas mães e o impacto disso na quantidade de afeto que recebemos quando pequenos.

'Estado mental afetivo'

Elaine Fox, da Universidade de Essex, na Grã-Bretanha, é outra pesquisadora interessada em como o nosso "estado mental afetivo" - a maneira como vemos o mundo - nos molda.

Além de usar questionários, ela e sua equipe investigam padrões específicos na atividade cerebral. Sua pesquisa indica, por exemplo, que uma pessoa com mais atividade elétrica na parte frontal direita do córtex (em relação à esquerda) tem mais tendência ao pessimismo e à ansiedade. Outros testes adicionais ajudam a confirmar ou não essa percepção.

Pessoas pessimistas, constantemente à espera de coisas que podem dar errado, costumam ter mais estresse e ansiedade. E isso é mais do que um estado de espírito - é algo fortemente ligado à nossa saúde. Em um estudo iniciado em 1975, cientistas pediram que mais de mil pessoas na cidade de Oxford, Ohio (EUA), preenchessem um questionário sobre empregos, saúde, família e perspectivas para a velhice.

Décadas depois, Becca Levy, cientista da Universidade Yale, monitorou os entrevistados. Ao observar as certidões de óbito ela notou que as pessoas mais otimistas quanto à velhice haviam vivido, em média, sete anos e meio a mais do que os pessimistas. A impressionante descoberta levou em conta outras explicações possíveis, como o fato de pessoas mais pessimistas possivelmente terem sido influenciadas por doenças prévias ou depressão.

Freiras

Resultados semelhantes foram notados em um estudo da Universidade de Kentucky, que analisou os diários de 180 freiras católicas, escritos quando elas entraram no convento, nos anos 1930.

Freiras que vivem em comunidades fechadas são um bom objeto de estudo científico porque compartilham experiências ambientais semelhantes, algo que permite comparações realistas. Nos diários, os cientistas procuraram indícios de otimismo e pessimismo entre as freiras. Ao pesquisar suas vidas, eles descobriram que as que expressavam emoções mais positivas durante a juventude viveram até dez anos mais do que as que não tinham essa mesma perspectiva de vida.

A boa notícia é que, mesmo na idade adulta, você pode mudar suas percepções sobre a vida. Até mesmo para pessimistas, isso é motivo de celebração.




O texto foi escrito pelo médico, jornalista e apresentador da BBC, Michael Mosley.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Um em cada quatro homens asiáticos admite ter praticado estupro

Cerca de 25% dos homens entrevistados em uma pesquisa sobre violência contra mulher em países da Ásia admitiram ter cometido estupro ao menos uma vez.

O levantamento, conduzido pelas Nações Unidas em seis países do continente, sugere que o estupro é comum dentro de relacionamentos. No entanto, um em cada dez homens admitiu ter estuprado uma mulher com quem não estava se relacionando.

A pesquisa, que teve trechos publicados na revista científica Lancet, ouviu 10 mil homens em Papua Nova Guiné, Indonésia, China, Camboja, Sri Lanka e Bangladesh. Este é o primeiro estudo a fazer uma radiografia da violência contra mulher em vários países e a tentar entender as razões por trás dos abusos.

Entre os homens que admitiram ter cometido estupro, menos da metade disse ter repetido o feito mais de uma vez. O estudo mostrou que a prevalência dos abusos variou de acordo com o país.

Na Papua Nova Guiné, 62% dos homens entrevistados confessaram já ter forçado uma mulher a fazer sexo. Em áreas rurais da Indonésia, este índice foi de 48%. Os casos de estupro parecem ser menos comuns em áreas urbanas de Bangladesh (9,5%) e no Sri Lanka, onde 14,5% dos homens admitiram ter praticado estupro.

Os autores afirmam que os resultados não representam a totalidade da região da Ásia e do Pacífico, mas que fornecem dados importantes sobre a ocorrência de estupro na região.

Direito a sexo

Cerca de 75% dos homens que cometeram estupro disseram que se achavam no "direito de fazê-lo". "Estes homens achavam que tinham direito a fazer sexo com a mulher independentemente de seu consentimento", afirmou Emma Fulu, autora do estudo. Ainda segundo a pesquisadora, a segunda maior motivação para os abusos era "diversão" ou porque os homens estavam "entediados".

Alguns homens também justificaram ter estuprado uma mulher para puni-la ou porque estavam com raiva. "Surpreendentemente, a razão menos comum foi o álcool", acrescentou Fulu.

Abusos na infância

Homens que haviam sofrido abusos sexuais durante a infância têm maior tendência de cometer estupros, indica a pesquisa da ONU. "Estes dados criam indignação global principalmente por causa de casos recentes, incluindo o estupro coletivo brutal de uma estudante na Índia", afirmou a médica Michele Decker, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Baltimore, nos Estados Unidos. Para ela, o desafio agora "é transformar evidências em ações para criar um futuro mais seguro para a próxima geração de mulheres e meninas".

terça-feira, 18 de junho de 2013

EUA buscam saídas para frear suicídios de soldados

Estatísticas mostram que o suicídio mata hoje mais militares dos Estados Unidos do que as próprias operações de combate em guerras. Acredita-se que, todos os dias, um militar americano que regressou ao país após servir em uma zona de conflito tira sua própria vida.

O número de suicidas após servir no Afeganistão é particularmente ilustrativo. Ele já supera o número total de militares dos EUA que morreram em combate no país centro-asiático.

O alto número de suicidas levanta questões sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra americanos. O que estaria errado no cuidado prestado a eles?

Alguns motivos têm sido citados para explicar as mortes, entre eles o fato de que os veteranos sofrem de sequelas psiquiátricas e que o sistema para dar assistência a eles está sobrecarregado, já que governo não dedicaria suficientes recursos para ajudá-los. Entretanto, desde o ano passado, o governo americano tem ampliado o apoio aos veteranos, e novas terapias têm sido usadas para tentar minimizar os efeitos do trauma.

Estresse pós-traumático

Os transtornos psiquiátricos são um dos principais motivos que levam os militares que chegam de zonas de conflito a buscar ajuda no Departamento de Assuntos para Veteranos, mantida pelo governo dos Estados Unidos. O diagnóstico mais frequente é o de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), mas muitos também sofrem de depressão e relatam dependência de drogas.

Paula Schnurr, vice-diretora executiva do Centro Nacional para TEPT nos Estados Unidos, disse à BBC Mundo que "o TEPT é um problema muito significativo entre os veteranos e militares da ativa, já que este é um dos transtornos mais afetam os indivíduos que vivem uma experiência traumática durante o serviço militar, como por exemplo a exposição a uma zona de guerra". Mas não é necessariamente correto atribuir o grande número de suicídios de militares americanos ao diagnóstico de estresse pós-traumático. "A incidência de suicídio em pessoas com TEPT juntamente com outros transtornos mentais é alta", responde Schnurr."Porém, a grande maioria das pessoas que sofrem de TEPT não tenta se suicidar. É um problema sério, mas tempos que salientar que a maioria desses pacientes não têm tendência ao suicídio".

Investimento

Percebendo a gravidade da situação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, resolveu investir mais recursos materiais e humanos na atenção psicológica aos veteranos de guerra e militares em serviço. No dia 31 de agosto do ano passado, Obama publicou um decreto de lei que transfere mais recursos e poder a um conjunto de departamentos que oferece assistência a membros do Exército ─ o Departamento para Assuntos dos Veteranos, a Secretaria de Defesa e o Serviço de Saúde.

Além disso, no ano passado, foram investidos US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10,6 bilhões) nos serviços de para apoio à saúde mental. De acordo com o Departamento para Assuntos dos Veteranos, foram criados 15 projetos piloto em sete Estados, onde a entidade mantém agentes que ajudam os veteranos a ter acesso a serviços de saúde mental.

Foram contratados 1,6 mil agentes de saúde mental e 248 novos especialistas na área. Foi ainda criada uma campanha nacional para prevenção do suicídio com a finalidade de aproximar os veteranos e militares ativos dos serviços de saúde mental.

Dinheiro não é tudo

Contudo, julgar que a situação é resultado da mera falta de recursos é, segundo especialistas, simplificar o problema. Essa é a opinião de Raúl Coimbra, diretor do sistema de saúde do Hospital de San Diego, na Califórnia. Segundo ele, existem outros fatores que têm um papel muito importante, como o estigma que persiste em torno dos problemas mentais: muitos militares não se sentem confortáveis para pedir ajuda, pois não querem ser classificados como loucos.

Existem ainda os que querem receber ajuda, mas não pelas mãos de um especialista civil. Os militares se queixam que os civis desconhecem a realidade enfrentada pelos membros do exército e por isso preferem recorrer a outras fontes de ajuda. É o caso da organização Veterans4Warriors (Veteranos para os Guerreiros, em tradução livre do inglês), que oferece assistência específica a todo militar veterano. Por meio de um serviço telefônico ou por e-mail, um ex-militar que sofre de algum tipo de sequela mental pode receber ajuda de uma outra pessoa que pode compreender melhor sua situação.

No caso do governo, o Departamento para Assuntos dos Veteranos atende 9 milhões de militares em busca de ajuda, de um total de 22 milhões de veteranos que existem em todo o país.

Terapias alternativas

No caso dos militares que sofrem de TEPT, outra crítica frequente é que nos tratamentos existe uma tendência de medicar os pacientes em vez de se oferecerem a eles terapias mais prolongadas, que exigem mais recursos humanos, mais tempo e, assim, mais investimento.

Mas terapias tradicionais estão sendo reavaliadas. Entre as alternativas que surgem com mais força está a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, na sigla em inglês) ou a teoria do crescimento pós-traumático, segundo a qual as experiências traumáticas pode se converter, a médio e longo prazo, em uma experiência que transforma a pessoa num sentido positivo.

Na terapia de ACT, o paciente é estimulado a não negar a causa de sua ansiedade, mas a aceitá-la, enfrentá-la, para assim aprender a se afastar do trauma. Mais ainda, o paciente deve identificar os valores que formam a base de sua existência e se comprometer a viver em conformidade com eles.

Segundo Paula Schnurr, tanto a medicação como a psicoterapia são eficazes no tratamento de TEPT. "Todos os manuais de saúde mental em vigor nos Estados Unidos recomendam que utilizemos tais métodos", explica. Schnurr ressalta, ainda, a importância da educação e difusão de informações sobre o TEPT, assim como o apoio dos familiares e pessoas que convivem com o paciente, para combater o estigma associado ao mal.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Psiquiatra português desfaz mitos sobre "Uma mente brilhante"

Esquizofrenia não tem de ser incapacitante, segundo livro de Pedro Afonso

Há quem, na mente, esconda segredos bem guardados – uma psicose, um brilhantismo caótico ou até a simples alienação. A esquizofrenia é desordem cerebral crónica grave e destabilizadora, mas “não tem de ser incapacitante”, assegura Pedro Afonso em seu livro, recentemente publicado através da Princípia Editora e já nas livrarias.

Trata-se de uma desorganização ampla dos processos mentais e ainda “não existem evidências de factores causadores da doença; por isso, continua a encerrar vários mistérios, nomeadamente sobre a sua origem”, segundo assinalou o psiquiatra em entrevista ao portal Ciência Hoje, mas que foi derrubando tabus à medida que a conversa foi avançando.

A obra "Esquizofrenia" contém referências bibliográficas atualizadas, de forma a responder a muitas dúvidas sobre a doença; assim como “desfazer mitos que lhe são associados e que pioram o estigma social, dificultando a reabilitação dos doentes”, explicou o autor. É uma publicação que procura “conciliar o rigor técnico e científico com um forte sentido prático, para o público interessado”, sejam estes doentes, familiares ou até pessoas ligadas à área.

Além de elucidar as questões mais frequentes – “Como a controlar? O que fazer perante o diagnóstico? Quais os tratamentos? Quais as causas que levaram ao seu aparecimento? Como lidar com um doente esquizofrénico?”, entre outras –, o livro lançado em Portugal ainda reúne algumas informações sobre unidades de apoio em todo o país.

As funções intelectuais do afetado são perturbadas e isso pode acarretar rapidamente a alienação de tudo o que se passa à sua volta. “O fundo é o paradigma da loucura e é nesse sentido que comporta mitos intemporais”, continuou, acrescentando: “É como se o homem perdesse as suas características humanas transformando-se em algo bizarro”.

Pedro Afonso sublinhou, no entanto, que um esquizofrênico pode, de fato, levar uma vida praticamente normal, desde que medicado. Com apoio, “é possível que muitos doentes voltem a estudar e a ter uma profissão”. O autor ressalvou que existem diferentes espectros de gravidade – uns podem ser mais agressivos e evoluem nesse sentido e outros, menos graves, conseguem levar uma vida construtiva. “Sendo assim, vale a pena falar em ‘esquizofrenias’ (no plural)”, enfatizou.

Antipsicóticos e dopamina

“Tem havido um avanço em nível de antipsicóticos atípicos, com menos efeitos secundários”, disse. Na fase residual da doença, os sintomas – classificados de ‘negativos’ – são frequentemente “o isolamento, a apatia, a dificuldade em planejar tarefas e um nível afetivo ‘apagado’”. Já na fase aguda – onde as manifestações são conhecidas como ‘sintomas positivos’ – surgem as alucinações, as ideias delirantes, desordens no pensamento e no movimento.

Os primeiros são mais difíceis de reconhecer e podem ser confundidos com preguiça ou depressão; assim como os 'sintomas cognitivos', que afetam a atenção, certos tipos de memória e a capacidade de cálculo – sendo estes os mais incapacitantes para levar uma vida normal. Contudo, é um transtorno psíquico tão complexo que “surge de forma insidiosa, sem que o próprio se aperceba” e o diagnóstico é “por exclusão”.

A título de exemplo, conta: “Um jovem que consuma haxixe ou cannabis pode desenvolver um quadro muito semelhante ao do esquizofrênico, mormente delírios e alucinações. Se de fato sofrer desta enfermidade, só com o tempo e a abdicação do consumo é que se poderá saber se a psicose é induzida, confundindo o médico, ou se realmente evolui” – por já ter uma predisposição latente para a esquizofrenia.

Tal como muitas outras doenças mentais, acredita-se que esquizofrenia seja uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Existe tratamento (antipsicóticos e terapia psicossocial), mas não há cura e, por isso, os fármacos centram-se apenas na eliminação dos sintomas. Os medicamentos atuam na dopamina (essencialmente, devido ao excesso de dopamina na via mesolímbica e falta dela na via mesocortical) e outros neurotransmissores.

O suicídio

É uma condição psicótica que afeta 60 milhões de pessoas no mundo e já que os principais sintomas incluem: escutar vozes e acreditar que outros estão lendo e controlando os seus pensamentos ou conspirando para prejudicá-las. Essas experiências são aterrorizantes e podem causar medo, recolhimento ou agitação extrema. Pessoas com esquizofrenia podem falar ou fazer coisas que não fazem sentido, ficarem sentadas horas sem se moverem, falar muito pouco, ou parecer perfeitamente bem até dizerem o que realmente estão a pensar.

Por todas estas razões, é uma doença com elevada prevalência de suicídios – cenário considerado como a situação limite. “O sofrimento em termos psíquicos, na sequência de alucinações (vozes que ouvem e que lhes dizem o que fazer) é demasiado angustiante”.

Exemplos conhecidos são os de Ian Kevin Curtis (Julho de 1956 - Maio de 1980), vocalista, compositor, guitarrista ocasional da banda Joy Division, assim como um dos fundadores, suicidou-se em casa aos 24 anos. Também Van Gogh (Março de 1853 - Julho de 1890), aclamado pintor holandês, considerado o pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas e cujo talento só foi reconhecido após a sua morte, sucumbiu à doença, suicidando-se aos 37 anos.

Pedro Afonso salientou igualmente que estes doentes são inimputáveis – porque perdem o discernimento sobre a realidade e a capacidade de distinguirem o lícito do ilícito. Experienciam “uma vivência delirante de perigo iminente” e podem agredir qualquer pessoa quando se encontram “em contexto psicótico” ou sentirem que “devem andar armados para se defenderem”.

O doente e o mito

O médico psiquiatra desfaz outro dos mitos, referindo que não é uma doença associada à genialidade ou a mentes criativas, ou seja, “é uma doença transversal que pode afetar qualquer pessoa, de todos os quadrantes sociais, raças ou capacidades intelectuais”.

Se nos lembrarmos de John Nash, matemático norte-americano retratado no filme "Uma Mente Brilhante", foi professor e Prémio Nobel da Economia que apesar do desafio de conviver por toda a vida com os sintomas típicos, foi um intelectual importante e deixou grandes contribuições às áreas de economia, biologia e teoria dos jogos. Depois de 1970, à sua escolha, deixou a medicação antipsicótica. Segundo Nasar, biógrafa de Nash, este Nobel começou a desenvolver uma recuperação gradativa. Contudo, “a doença não esteve relacionada com o seu elevado nível intelectual”, como afirmou o especialista.

Apesar das várias hipóteses de explicação sobre a origem da esquizofrenia, nenhuma delas individualmente consegue dar uma resposta satisfatória. Pedro Afonso aconselha: “Em caso de dúvida, recomenda-se a observação por um médico, antes que seja diagnosticada tardiamente”.




O psiquiatra e autor Prof. Doutor Pedro Afonso.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Trauma de tortura na ditadura transmitido entre gerações, diz psicanalista

A violência sofrida por vítimas da ditadura militar no Brasil e por suas famílias não foi compartilhada e elaborada pela sociedade como um todo e é como uma "chaga aberta" que está sendo transmitida de geração para geração, segundo um psicanalista ouvido pela BBC Brasil.

Moisés Rodrigues da Silva Júnior, presidente da instituição de saúde mental paulistana Projetos Terapêuticos, disse, no entanto, que o Estado brasileiro acaba de dar um passo decisivo e histórico para tentar remediar isso.

Um projeto piloto que oferece atendimento a algumas das vítimas acaba de ser inaugurado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. As chamadas Clínicas do Testemunho são parte de uma política que visa reparar erros cometidos por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura. Entre estes, perseguições, tortura, desaparecimentos e assassinatos de supostos oponentes políticos.

O governo já oferece reparação econômica às vítimas e seus familiares, mas segundo o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, não basta reparar economicamente. “É obrigação do Estado reparar também psicologicamente”.

Cinco instituições de saúde mental – em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife – estão participando da fase inicial do programa, que vai durar dois anos e deve atender cerca de 700 pessoas. Entre as instituições está a clínica onde Moisés atende.

Dor inexplicável

"Como não houve o compartilhamento ou elaboração (do trauma sofrido), a violência se torna um material tóxico que habita as pessoas na forma de medos, ameaças e sofrimento", disse Moisés. Ele citou como exemplo o caso de uma família que atendeu, um casal e seus filhos. Moisés não sabia que um dos avós das crianças havia desaparecido durante a ditadura.

A família parecia bem ajustada. Mas os netos adolescentes do desaparecido faziam uso abusivo de drogas, explicou Moisés. "Tinham uma dor que não sabiam referir exatamente. Fomos conversando, até que começou a aparecer, por parte do pai - o filho do desaparecido - a ideia de que ele sentia a vida como uma tortura."

"Mas de onde vinha essa palavra, tortura? Eu não sabia que o pai dele tinha sido torturado, mas essa palavra me chamou a atenção e eu quis saber de onde vinha. Encontramos isso na história do avô. Não é que a partir daí tudo se fez luz, mas isso foi importante no tratamento dessa família."

Moisés disse que as vivências traumáticas, quando não são expressas, ficam num limbo atemporal onde não podem ser reconhecidas como causa do sofrimento e tão pouco esquecidas. "São uma presença ausente, ou uma ausência presente, que pode invadir (o presente) a qualquer momento, reativando os sentimentos de terror. Formam uma grande rede, que passa de uma geração para outra, como uma chaga aberta", explicou. "Então, temos de falar disso".

"Fazer circular aquilo que ficou estagnado provoca terror e, ao mesmo tempo, começa a arejar o terror. O tóxico é compartilhado e dividido por todos."

O psicanalista admitiu que o processo não é fácil e disse não saber quantas pessoas vão querer participar das Clínicas do Testemunho.

Tortura 'legítima'

Uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) constatou que 47,5% dos entrevistados eram favoráveis ao uso, em tribunais, de provas obtidas a partir de tortura policial. O estudo foi feito em onze capitais brasileiras.

Nesse contexto, a decisão do Ministério da Justiça de oferecer atendimento às vítimas da ditadura representa um marco histórico, disse o psicanalista. "A tortura é feita no Brasil com o apoio forte da população", reconhece. "Mas não podemos esquecer o lugar do Estado na organização social e simbólica".

Para Moisés, a decisão do Estado de oferecer atendimento às vítimas da ditadura estabelece um precedente fundamental. "O que é importante aqui é o reconhecimento, pelo Estado, de que não cumpriu seu dever (de proteger o cidadão), de que impingiu sofrimento e está pronto a reparar o mal realizado."

"Isto muda tudo. A partir de agora, a história não é mais eu atendendo aos netos do desaparecido, que se drogam."

"Agora, sou contratado pelo Ministério da Justiça para exercer ações reparatórias".

O projeto Clinicas do Testemunho foi inaugurado em abril, em um evento na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Moisés estava presente. "Tinha uma população muito emocionada, de afetados, familiares, simpatizantes, profissionais da saúde. Foi muita satisfação poder viver essa vitória, porque até outro dia dizia-se que isso tudo (os relatos de tortura e desaparecimentos) era uma fantasia, que no Brasil não tinha havido uma ditadura e, sim, uma 'ditabranda'".

Um testemunho

A militante política carioca Eliete Ferrer, de 66 anos, também saudou o lançamento das Clínicas do Testemunho. Ela é organizadora do livro 68, A Geração que Queria Mudar o Mundo, publicado em 2011.

No final da década de 1960, professora de história do nível primário, Eliete passou a integrar a Ação Libertadora Nacional (ALN) em protesto contra o golpe militar.

Inicialmente, o grupo apenas realizava manifestações, mas com o endurecimento na política do governo, o movimento também se radicalizou e passou à luta armada.

Em 1973, o então companheiro de Eliete, jornalista Luiz Carlos Guimarães, foi preso e torturado. Quando foi solto, dois meses depois, o casal caiu na clandestinidade e saiu do Brasil. "Fomos para o Chile, fomos direto para o terror", ela explicou. "Nós não sabíamos".

Presos em 11 de setembro de 1973, dia do golpe militar no Chile, Eliete e o companheiro sofreram violência nas mãos da polícia chilena. Houve espancamentos, simulações de fuzilamento e ameaças de estupro. Mas eles conseguiram escapar e, com ajuda da ONU e de entidades ligadas a direitos humanos, se exilaram na Suécia.

Eliete só retornaria ao Brasil em 1979, quando entrou em vigor a Lei da Anistia.

Traumatizada, ela recebeu atendimento psicológico por voluntários do Grupo Tortura Nunca Mais/Rio de Janeiro (GTNM/RJ). "Quando cheguei ao Brasil, tinha muitos problemas. Não conseguia falar sobre o Chile ou sobre a prisão do Luiz Carlos."

"Eu tinha muitos pesadelos, sempre acordava gritando, duas, três vezes por noite", contou. "Sonhava que as pessoas queriam me matar."

"Fiz terapia durante muitos anos, mais de dez. O GTNM/RJ foi pioneiro em oferecer esse atendimento".

Ela disse que a terapia a ajudou a viver melhor consigo mesma. "Quando a gente fala, o assunto duro, pontudo, que machuca como um ouriço, vai se polindo e todo mundo consegue segurá-lo."

Por tudo isso, Eliete aplaude a iniciativa do Estado brasileiro, de assumir a responsabilidade pelo atendimento às vítimas. "As clinicas são uma forma de olharmos para a ferida, junto a um profissional, uma pessoa que estudou a alma humana, e vai te ajudar a curar aquela ferida."

Próximo passo

Mas a militante acrescentou que, para ela, o processo de reparação ainda não está completo. "Se o torturador não é punido, a tortura continua, nas delegacias."

"Éramos militantes, mas quem é torturado hoje é o preto pobre nas periferias das cidades."

E finalizou: "O próximo passo, em termos institucionais, seria o julgamento dessas pessoas. Não queremos que sejam torturados como fomos, mas que sejam julgados pelas leis do país."

A Lei da Anistia, que permitiu que presos políticos e exilados como Eliete voltassem a viver em liberdade no Brasil, também garantiu o perdão político aos torturadores que trabalharam a serviço do regime.

Além do atendimento às vítimas e familiares de vítimas da ditadura militar, o projeto Clínicas do Testemunho inclui atividades paralelas: o treinamento de profissionais para atender pessoas afetadas pela violência de Estado e pesquisas sobre as consequências psíquicas e sociais da violência de Estado.

Interessados em participar das clínicas devem procurar a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Síndrome de Burnout: a doença do trabalho

Cansaço excessivo, irritação, dores musculares e falta de disposição para ir trabalhar. Cuidado! Esses sintomas podem ser mais graves do que uma simples crise de estresse.

Conhecida como a síndrome do esgotamento profissional, a Síndrome de Burnout é caracterizada pelo desgaste físico e emocional do profissional e contribui para o surgimento de outros problemas de saúde. “O número de casos vem crescendo no país. Uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association (ISMA Brasil) aponta que a síndrome atinge 30% dos profissionais brasileiros”, afirma o psiquiatra Fábio Oliveira Santos.

O distúrbio foi identificado pelo pesquisador Herbert J. Freunderberger em 1974, nos Estados Unidos, a partir da observação de variação no humor e na motivação de profissionais de saúde com os quais trabalhava.

O termo de origem inglesa ‘burnout’ é composto pelas palavras Burn, que quer dizer queimar, e Out, que significa fora. “A tradução do termo significa “queimar para fora”, o que caracteriza a doença como um estresse ocupacional que se manifesta em exaustão tanto na saúde física como mental”, diz o psiquiatra.

Segundo a psicóloga Maria de Oliveira, os sintomas da síndrome são parecidos com os de estresse e depressão. “O trabalhador pode apresentar tanto sinais de baixa auto-estima, agressividade, angústia e insônia quanto dores musculares e dores de cabeça”, afirma.

Para fazer a distinção entre as doenças é preciso ficar atento se os sinais aparecem apenas durante a realização do trabalho. “O distúrbio está ligado diretamente com o trabalho. Por isso, é preciso analisar se pessoa tem atitudes normais fora do ambiente corporativo”, diz a psicóloga.

De acordo com Maria de Oliveira é comum o diagnóstico se desenvolver em profissionais que encaram horas intensas da jornada de trabalho e que trabalham sob pressão e excesso de responsabilidade. “As pessoas que lidam com o público são as mais afetadas. É o caso de médicos, professores e policiais”, afirma.

Como o distúrbio pode comprometer o desempenho do profissional, é preciso buscar o mais breve possível a ajuda de especialistas. “Ao procurar um psicólogo ou psiquiatra, o paciente será submetido a questionários e levantamento de dados. Uma vez, diagnosticada a síndrome, o profissional irá passar pelo tratamento com sessões de psicoterapia. Nos casos mais graves também é prescrito o uso de medicamentos”, diz a psicóloga.

Trabalho na medida – Débora Nunes, 36 anos, administradora, teve a síndrome de Burnout e procurou ajuda de especialistas quando percebeu que estava com dificuldades para se relacionar com o chefe e os clientes da empresa. “Eu não suportava mais o ambiente de trabalho, mal chegava à empresa e já tinha vontade de ir embora. Quando chegava em casa eu chorava só de pensar que precisaria voltar para o trabalho no outro dia”, conta ela.

Segundo a administradora, o principal motivo que a levou a desenvolver o diagnóstico foi o seu perfeccionismo. “Eu gostava do que fazia e me dedicava, mesmo assim não estava gerando lucros para a empresa e acabei ficando frustrada com a situação”, diz.

Ao apresentar sinais de desânimo e irritabilidade, Débora recebeu o alerta de uma colega do trabalho que recomendou que ela buscasse ajuda. “Primeiro, consultei um psicólogo que fez o diagnóstico”, conta.

Débora passou por sessões de psicoterapia durante o tratamento, mas conta que a adaptação da rotina foi fundamental para conseguir se curar. “Para realizar o tratamento, saí da empresa em que trabalhava quando estava com a síndrome. Ao retornar para o mercado de trabalho me senti uma profissional renovada”, conta ela.

Atualmente, ela exerce sua profissão normalmente sem pecar pelo excesso. “É preciso aceitar que não dá para se dedicar apenas à vida profissional para manter o equilíbrio físico e emocional”, diz.

Informação divulgada através do portal MSN.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Artigo: Saúde Mental - Portugal

A Saúde Mental dos portugueses, segundo Pedro Afonso, psiquiatra.

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

 
 
 
 
Autor: Pedro Afonso.
Psiquiatra no Hospital Júlio de Matos. Membro da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e autor da obra "Esquizofrenia: Conhecer a Doença, Será Depressão ou Simplesmente Tristeza...?" e da ficção "O Dom de uma Certeza".