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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Frutas e verduras melhoram também a saúde mental

A quantidade que demonstrou o melhor impacto no bem-estar emocional dos participantes foi sete porções diárias.

Uma pesquisa da Universidade de Warwick, na Inglaterra, relacionou o consumo de frutas e verduras ao bem-estar e à saúde mental. Os resultados sugerem que a quantidade recomendada desse tipo de alimento é de sete porções por dia para que o benefício seja alcançado. O artigo será publicado no periódico Social Indicators Research.

Participaram do estudo cerca de 80 mil britânicos, que responderam questões sobre seus hábitos alimentares e como se sentiam. Sarah Stewart-Brown, integrante do grupo de pesquisadores, explicou que o artigo reúne diversos estudos realizados, e todos tornaram possível a mesma conclusão: a quantidade de frutas e verduras que uma pessoa ingere tem impacto em sua saúde mental, além dos efeitos já conhecidos sobre bem-estar físico. O ápice do bem-estar foi encontrado em torno das sete porções diárias. Social Indicators Research “Atualmente se recomenda na Grã-Bretanha o consumo de cinco porções diárias, que é a quantidade adequada para prevenir doenças cardíacas ou câncer, por exemplo, mas poucas pessoas têm pesquisado os efeitos de quantidades maiores”, afirmou Sarah.

A porção, para fins do estudo, é definida como uma quantidade de 80 gramas. Não foram estudados os efeitos individuais de algum tipo de fruta ou verdura, nem os períodos do dia em que o consumo é mais indicado. Sarah Stewart-Brown ressalta que esse tipo de pesquisa ainda não é realizada com frequência e que seria interessante desenvolvê-la em outros países. “Se você puder dizer às pessoas que além de fazer bem para a saúde, frutas e verduras farão com que elas se sintam melhor, é um incentivo a mais para que elas tenham hábitos saudáveis”, afirma a pesquisadora.

Sobre a pesquisa.
Título original: Is Psychological Well-being Linked to the Consumption of Fruit and Vegetables?
Publicação: periódico Social Indicators Research
Pesquisadores: David G. Blanchflower, Andrew J. Oswald, and Sarah Stewart-Brown
Instituição: Universidade de Warwick
Amostragem: 80 mil pessoas

Resultado: Foi encontrada uma relação entre o consumo de frutas e verduras e a saúde mental e o bem-estar das pessoas. A quantidade que mostrou o melhor resultado foi de sete porções diárias,que provocou um aumento de 0,25 a 0,33 pontos na escada usada para medir o bem-estar. Em comparação, o fato de estar desempregado, reduz em 0,90 pontos na mesma escada.

Acesse o arquivo .PDF com informações sobre a pesquisa (em inglês) em: www.ecobioetica.com.br/arquivos/David-Andrew-Sarah.pdf.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Brasil mapeia violência contra jornalistas e deve adotar plano de proteção da ONU

O Brasil deve adotar o Plano de Ação das Nações Unidas sobre a Segurança de Jornalistas e a Questão da Impunidade. A recomendação será feita em dezembro, durante o Fórum Mundial de Direitos Humanos, que acontecerá em Brasília.

O grupo de trabalho que estuda o tema também deve sugerir a criação de um observatório sobre crimes e censura contra jornalistas, o desenvolvimento de um manual de segurança e prevenção da violência contra profissionais de mídia e a aceitação dos indicadores de segurança de jornalistas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

De acordo com a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), Maria do Rosário, estuda-se ainda a federalização de crimes contra defensores de direitos humanos, o que inclui comunicadores ameaçados por causa do desempenho da profissão. “Estamos mapeando aquelas circunstâncias que inclusive levaram à morte, justamente nesses assassinatos, para que não tenhamos a impunidade. E neste mapeamento, acompanhando esses casos, nós identificamos que, em geral, os jornalistas são ameaçados por matérias que escrevem, porque desequilibram relações de poder, e a proteção eles precisam ter. Então, hoje nós estamos pensando qual é a política de proteção que deve existir, que integre inclusive a responsabilidade não só do Estado como dos próprios veículos no momento da cobertura de temas que realmente colocam os profissionais diante de um risco maior”, explicou.

A ministra participou nesta terça-feira (15) de colóquio sobre medidas nacionais e internacionais para a proteção de profissionais de comunicação. O evento promovido pela SDH em parceria com a UNESCO e o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) fez parte da programação da Conferência Global de Jornalismo Investigativo, realizada no Rio de Janeiro pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), pela Global Investigative Journalism Network e pelo Instituto Prensa y Sociedad.

Maria do Rosário defendeu também a desmilitarização das polícias que, na opinião dela, usam práticas de abordagem da época da ditadura militar. Ao avaliar as manifestações que acontecem desde junho em todo o país, Maria do Rosário afirmou que, quando a polícia ataca jornalistas, ataca todas as pessoas que têm o direito de saber o que está acontecendo.

A ministra reconheceu, ainda, que no Brasil não há atenção clara em relação aos grupos de extermínio e às estruturas de milícias que, por vezes, têm jornalistas como seus alvos. “Estamos trabalhando, sem dúvida, o direito à liberdade de expressão e a prevenção, o enfrentamento às ameaças que sofrem os jornalistas como uma questão que é responsabilidade do Estado e que dialoga com a democracia porque, quando os profissionais de comunicação são ameaçados e tentam calar esses profissionais, existe aí um ataque à própria democracia.”

Para o representante da UNESCO no Brasil, Lucien Muñoz, que também participou da abertura do colóquio, são muitas as formas de ameaças contra os profissionais de comunicação. “Matar um jornalista é obviamente uma forma extrema de censura, mas devemos lembrar também que muitos jornalistas e trabalhadores de mídia sofrem outras várias formas de intimidação, tanto emocionais como físicas e, em alguns casos, também chegam a ser presos arbitrariamente.”

Muñoz destacou que o Plano de Ação da ONU já está em implementação no Sudão do Sul, Paquistão, Nepal e Iraque. Na América Latina, além do Brasil, Honduras, Colômbia, México e Guatemala estão avaliando as mais de 120 ações concretas de proteção propostas pela UNESCO.

O diretor do UNIC Rio, Giancarlo Summa, lembrou que a censura prévia imposta pela Justiça, assim como a autocensura, são riscos à democracia tanto quanto a violência contra jornalistas. Summa destacou que diversos países possuem aparato estatal de espionagem e intimidação de comunicadores e afirmou que a liberdade de expressão também é ameaçada pela concentração de meios de comunicação. “A concentração da propriedade dos meios de comunicação é também uma ameaça contra a liberdade de expressão porque diminui a pluralidade das opiniões que podem ser e são transmitidas, divulgadas através dos meios de comunicação profissionais, de empresas de comunicação.”

A Conferência Global contou com a participação de 1,3 mil profissionais de comunicação de 87 países.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Charge: Dia das Crianças I


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Objetivos do Milênio avançam mais do que o previsto e mais metas devem ser alcançadas até 2015

Em relatório lançado na segunda-feira (1), ONU afirma que ajuda financeira caiu e lacunas persistem, mas a implementação dos ODM ganha velocidade.

Com alguns dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) já alcançados, mais metas deverão ser cumpridas até a data-limite de 2015. Apesar disso, alguns desafios devem ser tradados com urgência para que haja sucesso em relação a outros objetivos, de acordo com um Relatório lançado na segunda-feira (1) pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

Com base em estatísticas oficiais abrangentes, o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2013 mostra que as ações conjuntas dos governos nacionais, da comunidade internacional, da sociedade civil e do setor privado estão tornando realidade o cumprimento dos ODM.

“Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio têm sido o impulso global antipobreza mais bem-sucedido da história”, disse Ban Ki-moon. “Os ODM têm provado que objetivos focados de desenvolvimento global podem fazer uma grande diferença.”

As oito metas foram acordadas por todos os países como uma consequência da Cúpula do Milênio das Nações Unidas, em 2000. Com a melhoria de vida de milhões de pessoas através do cumprimento das metas de redução da pobreza, do aumento do acesso a água potável, da melhoria na qualidade de vida dos moradores de favelas e da conquista da paridade de gênero no ensino primário, o Relatório afirma que o progresso notável em outras áreas significa que mais metas dos ODM podem ser alcançadas até 2015.


MILHÕES de VIDAS SALVAS

De acordo com o Relatório, ganhos significativos têm sido obtidos na área da saúde. Entre 2000 e 2010, as taxas de mortalidade causadas pela malária caíram mais de 25% no mundo, e cerca de 1,1 milhão de mortes foram evitadas.

As taxas de mortalidade por tuberculose a nível global e em várias regiões poderão ser reduzidas pela metade até 2015, em comparação com os níveis de 1990. Entre 1995 e 2011, um total acumulado de 51 milhões de pacientes com tuberculose foram tratados com sucesso, salvando 20 milhões de vidas.

O Relatório observa que, enquanto as novas infecções pelo HIV estão em declínio, cerca de 34 milhões de pessoas viviam com HIV em 2011. No final de 2011, 8 milhões de pessoas estavam recebendo terapia antirretroviral para o HIV ou aids nas regiões em desenvolvimento e a meta dos ODM de acesso universal à terapia antirretroviral continua acessível até 2015 se as tendências atuais forem mantidas, afirma o Relatório.

A meta de reduzir pela metade a porcentagem de pessoas que sofrem de fome até 2015 está ao nosso alcance, diz o Relatório. A proporção de pessoas subnutridas no mundo diminuiu de 23% em 1990-1992 para 15% em 2010-2012.


É NECESSÁRIO ACELERAR

Em todo o mundo, a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos caiu em 41% – de 87 mortes por mil nascidos vivos em 1990 para 51 em 2011, o que significa 14 mil mortes a menos de crianças por dia. Cada vez mais, as mortes de crianças se concentram nas regiões mais pobres; o primeiro mês de vida é o mais vulnerável.

Globalmente, a taxa de mortalidade materna diminuiu 47% ao longo das últimas duas décadas, de 400 para 210 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos entre 1990 e 2010. O Relatório observa, no entanto, que o cumprimento desta meta dos ODM – de redução dos números de 1990 em 3/4 – exigirá intervenções aceleradas e forte apoio de políticas para mulheres e crianças.

Entre 2000 e 2011, o número de crianças fora da escola caiu quase pela metade – de 102 para 57 milhões – mas o Relatório infere que a muitas crianças ainda é negado o direito à educação primária. De 1990 a 2011, 1,9 bilhão de pessoas ganharam acesso a instalações sanitárias, vasos sanitários ou outra melhoria nas instalações de saneamento, mas 2,5 bilhões ainda carecem de melhorias nesta área.

O Relatório também observa que a base de recursos do planeta está em sério declínio, com perdas contínuas de florestas, espécies e populações de peixes, em um mundo que já sofre os impactos das mudanças climáticas.


PROGRESSO DESIGUAL

O Relatório recomenda que a atenção global precisa se concentrar sobre as disparidades. O progresso em direção aos oito ODM tem sido desigual não só entre regiões e países, mas também entre grupos populacionais internos.

As pessoas que vivem em situação de pobreza ou em áreas rurais permanecem em uma desvantagem injusta. Em 2011, apenas 53% dos nascimentos em áreas rurais foram assistidos por pessoal de saúde qualificado, em contraste com 84% nas áreas urbanas. Oitenta e três por cento da população sem acesso a fontes apropriadas de água potável vivem em comunidades rurais.

AJUDA FINANCEIRA EM QUEDA PARA PAÍSES POBRES

O cumprimento dos Objetivos é prejudicado pela redução da ajuda financeira global e os países mais pobres são os mais afetados negativamente, afirma o Relatório. Em 2012, desembolsos líquidos de países desenvolvidos para países em desenvolvimento totalizaram 126 bilhões de dólares. Isso representa uma redução de 4% em termos reais em relação a 2011, que já foi 2% abaixo dos níveis de 2010.

A queda afetou mais severamente os países menos desenvolvidos. Em 2012, a assistência bilateral oficial ao desenvolvimento para esses países caiu 13%, em torno de 26 bilhões de dólares. No entanto, o Relatório mostra que os encargos menores da dívida e um melhor acesso ao comércio estão beneficiando os países em desenvolvimento.


ODM e agenda de desenvolvimento pós-2015

A ONU está trabalhando com governos, sociedade civil e outros parceiros para aproveitar o impulso gerado pelos ODM para a elaboração de um acordo ambicioso, mas realista, de agenda para o período após a data-limite dos ODM, no final de 2015. O Relatório afirma que uma conclusão bem-sucedida para os ODM será um importante alicerce para uma agenda de desenvolvimento posterior, e que o volume de experiências e lições aprendidas com os ODM irão beneficiar as perspectivas de progresso contínuo.

“Através da ação acelerada, o mundo pode alcançar os ODM e gerar uma dinâmica para um quadro de desenvolvimento ambicioso e inspirador pós-2015”, afirma o secretário-geral da ONU. “Agora é a hora de intensificar os nossos esforços para construir um futuro mais justo, seguro e sustentável para todos.”

Acesse também a matéria especial para a região da América Latina e Caribe.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Pobreza e fome diminuem na América Latina e no Caribe com avanços nos Objetivos do Milênio

Região também faz avanços na expansão do acesso à educação e saneamento, mas ações são necessárias no combate à mortalidade materna e na proteção das florestas, diz relatório da ONU.

A América Latina e o Caribe atingiram uma série de metas para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), incluindo a redução – pela metade – da taxa de pobreza extrema, afirma um relatório das Nações Unidas lançado na segunda-feira (1). A proporção de pessoas na região que vive com menos de 1,25 dólar por dia caiu de 12% em 1990 para 6% em 2010.

O Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio de 2013, lançado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em Genebra, também afirma que a região está a caminho de cumprir a meta de reduzir pela metade a proporção da população que sofre com a fome até 2015. A proporção total de pessoas desnutridas na população diminuiu de 15% em 1990-1992 para 8% em 2010-2012.

Os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que possuem diversas metas que cobrem uma série de indicadores de pobreza, fome, saúde, igualdade de gênero, educação e ambientais, foram acordados por todos os países como resultado da Cúpula do Milênio das Nações Unidas, em 2000. O prazo de implementação da maioria dos objetivos é 2015.

De acordo com o Relatório, outros avanços foram alcançados através da implementação dos ODM. O acesso à educação primária foi expandido na América Latina e no Caribe com um crescimento líquido na taxa de matrículas nas escolas para crianças de 88% em 1990 para 95% em 2011. No mesmo período, o número de crianças em idade escolar que estão fora da escola diminuiu de 7 a 3 milhões. A região alcançou a igualdade na educação primária entre meninos e meninas.

A América Latina e o Caribe também estão muito perto de alcançar a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas sem saneamento básico. A proporção da população que utiliza uma unidade de saneamento melhorado, como uma latrina ou vaso sanitário, aumentou de 68% para 82% entre 1990 e 2011.

A região está a caminho de atingir a meta dos ODM de reduzir em 50% a propagação e reverter a incidência de tuberculose, com o número de novos casos da doença caindo em mais de a metade entre 1990 e 2011.

A América Latina e o Caribe atingiram a meta de água potável dos ODM cinco anos antes da data limite de 2015. A proporção da população que utiliza uma fonte melhorada de água aumentou de 85% para 94% entre 1990 e 2011.

A região também está perto de atingir a meta de reduzir a taxa de mortalidade infantil, com a taxa de mortes de crianças menores de cinco anos caindo em 64% entre 1990 e 2011.


DESAFIOS NO CARIBE

Disparidades no progresso persistem entre as duas sub-regiões. De 2010 a 2012, a prevalência de pessoas desnutridas na América Latina foi de 8%, enquanto no Caribe foi de 18%.

A mortalidade materna no Caribe continua alta, com 190 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos em 2010. Ações aceleradas são urgentemente necessárias para atingir a meta dos ODM de reduzir esta proporção em três quartos. A América Latina tem uma taxa de mortalidade materna muito mais baixa, com 72 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos em 2010.

Em um desenvolvimento positivo, o Caribe é a região que possui a queda mais acentuada no número de pessoas infectadas com o HIV, que caiu 43% entre 2001 e 2011, com uma estimativa de 13 mil novas infecções em 2011. No entanto, depois da África Subsaariana, o Caribe é a região mais afetada, com 1% dos adultos vivendo com o HIV em 2011.

Na América Latina e no Caribe, a meta de acesso universal ao tratamento para HIV/Aids (acesso à terapia antirretroviral) está disponível a pelo menos 80% das pessoas que precisam dela. Em 2011, 68% das pessoas que viviam com HIV na América Latina e no Caribe receberam o tratamento, a maior [proporção] entre todas as regiões em desenvolvimento.


Maiores perdas florestais; taxas mais altas de gravidez entre adolescentes

As florestas estão desaparecendo em um ritmo acelerado na região, apesar do estabelecimento de políticas florestais e leis de apoio à gestão florestal sustentável em muitos países. A maior perda líquida de florestas ocorreu na América do Sul – cerca de 3,6 milhões de hectares por ano de 2005 a 2010.

Na América Latina e no Caribe, os níveis de gravidez adolescente – arriscado tanto para as mães quanto para os seus recém-nascidos – permanecem elevados e só recentemente começaram a cair. Na América Latina, a taxa de natalidade adolescente caiu de 92 nascimentos a cada mil mulheres em 1990 para 88 em 2000 e para 80 em 2010, enquanto o Caribe teve um declínio de 80 nascimentos a cada mil mulheres em 1990 para 78 em 2000 e para 68 em 2010. O problema é agravado pelo fato de que as meninas adolescentes, em geral, enfrentam maiores barreiras que as mulheres adultas no acesso aos serviços de saúde reprodutiva.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Opinião: ciência - políticas públicas

Ciência com fronteiras

Estamos em plena era da sociedade do conhecimento, em que a produção do saber e a inovação representam o principal fator estratégico para o desenvolvimento social e econômico. Atualmente, cada vez mais o trabalho físico é feito pelas máquinas, e o mental, pelos computadores. No entanto, cabe ao homem a tarefa de ter ideias e ser criativo. Galileu Galilei (1564-1642) é considerado o fundador da ciência moderna. Estabeleceu os alicerces do método científico e da autonomia da pesquisa científica. Rapidamente a ciência moderna espalhou-se pelo planeta.

No Brasil, a ciência é uma atividade recente, foi institucionalizada, em 1950, com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nos últimos 63 anos, tivemos grandes conquistas. Foi criado um sistema modelar de formação de cientistas: os programas de iniciação científica, para estudantes do ensino básico e universitário, que preparam e estimulam um número considerável de jovens para o sistema de pós-graduação. Em algumas áreas, como doenças tropicais e pesquisas agronômicas, estamos na fronteira da ciência mundial. Por seu lado, inovamos pouco e estamos em posição não confortável na obtenção de patentes, em comparação com os países centrais.

Recentemente, foi lançado o Ciências sem Fronteiras, que tem como meta a expansão da ciência e da tecnologia, estimulando a mobilidade internacional. O programa permite o intercâmbio, de forma que alunos de graduação e pós-graduação façam estágios no exterior. Além disso, busca atrair pesquisadores estrangeiros que queiram se fixar no Brasil ou estabelecer parcerias com brasileiros nas áreas prioritárias definidas no programa. Em adição, cria oportunidade para que pesquisadores de empresas recebam treinamento especializado no exterior. Será importante garantir a empregabilidade e proporcionar condições de trabalho para esse grande contingente de estudantes e profissionais que se aperfeiçoaram no exterior.

O termo “fronteira”, utilizado no título deste artigo, se refere a um dos seus significados, o limite, e pretende destacar algumas dimensões que freiam o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro. Para termos uma inflexão nessa área, precisamos, urgentemente, garantir um ensino básico de qualidade para todos os jovens brasileiros. Eles representam o futuro e serão os cientistas do amanhã. Sem isso, não teremos capital humano para enfrentar os grandes desafios das próximas décadas.

As agências de fomento necessitam estar em permanente sintonia com as fronteiras da ciência e com as inovações que possam proporcionar uma melhoria da qualidade de vida para toda a sociedade, principalmente por meio das inovações nas tecnologias sociais. É também fundamental que os auxílios à pesquisa sejam adequados e liberados com regularidade. É imperativo que os pesquisadores brasileiros possam trabalhar nas mesmas condições daqueles que desenvolvem pesquisa e inovação em países com tradição em inovação tecnológica. Ou seja, não basta o governo disponibilizar recursos.

Aliás, é um engano associar a nossa pouca inovação somente à falta de recursos. É preciso, acima de tudo, facilitar o uso dos mesmos para importação de insumos e equipamentos, contratação dos melhores profissionais com salários diferenciados, remuneração de acordo com a capacidade científica e, mais importante, sem a interferência demasiada do controle estatal. Uma maneira de acelerar esse processo seria a expansão de institutos de pesquisa financiados pelo poder público com mais autonomia científica e financeira. Os atuais marcos regulatórios, que dificultam a aquisição de insumos e equipamentos, precisam ser urgentemente revisados e simplificados, assim como os marcos que impedem o acesso à biodiversidade.

É também importante eliminar o apartheid entre a universidade e a empresa. Os pesquisadores e as empresas precisam ser parceiros, desenvolvendo projetos de elevados riscos. Sem isso, a qualidade da ciência não melhorará, a inovação tampouco avançará e certamente perderemos a batalha da competitividade. Assim fazendo, poderemos comemorar, no futuro, a conquista do verdadeiro Ciências sem Fronteiras, que colocará o Brasil na vanguarda científica internacional.


Autor: Isaac Roitman.
(Professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo do Futuro da UnB e membro titular da Academia Brasileira de Ciências)
Artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jovens se articulam na contramão do pessimismo com 'Imagina na Copa'


Ônibus atrasado, aeroporto cheio, fila demorada, chope quente, sistema educacional precário... quem nunca reclamou desses problemas no Brasil?

Em uma tentativa de passar das lamentações para a ação, um grupo de quatro amigos que mora em São Paulo resolveu fazer algo a respeito. Pra isso, aproveitaram a frase que virou um dos bordões mais populares do país e criou o projeto "Imagina na Copa".

Só que nele a frase pessimista ganha uma conotação oposta, para incentivar iniciativas positivas e transformadoras que podem ser realizadas até o início do Mundial.

No site da organização (Imagina na Copa), um novo vídeo é incluído toda semana com uma nova história de um projeto criado por um jovem que, de um jeito ou de outro, está fazendo algo para tentar melhorar o país. A ideia é justamente dar visibilidade para essas iniciativas para que elas possam crescer.

"A Copa é um momento histórico e não podemos, de jeito nenhum, perder essa oportunidade. Só que, no nosso caso, preferimos não ficar só reclamando", diz Mariana Campanatti, uma das criadoras do Imagina.

"E então começamos a pensar em como reverter esse pessimismo e essa falta de ação", acrescenta outra sócia, Mariana Ribeiro. "Mostrar para essas pessoas que reclamavam que existem, sim, coisas legais acontecendo perto de onde vivem, feitas para mudar problemas à nossa volta."

Emprego na berlinda

E à medida que o projeto tomava forma na cabeça das duas e dos outros dois idealizadores, Fernanda Cabral e Tiago Pereira, eles começaram a questionar os próprios empregos e objetivos.

Foi nesse momento que Fernanda Cabral, outra sócia, percebeu que o Imagina na Copa seria apenas "uma paginazinha na internet ou uma coisa grande". Ela diz que a chamada rede de apoio dos quatro (formada especialmente por seus pais) topou bancá-los no começo, e eles então pediram demissão de seus empregos.

Em seguida, eles lançaram uma ação pra arrecadar dinheiro em um site de arrecadação coletiva de verbas, em que qualquer pessoa pode doar dinheiro para um projeto específico.

Com 294 doadores, eles conseguiram os R$ 25 mil que precisavam para investir em um site, em vídeos e na primeira oficina para capacitar jovens que pudessem repassar as ideias da organização e das ações selecionadas.

Segundo os idealizadores, os projetos geralmente são simples e fáceis de ser reproduzidos em outras partes do Brasil, e procuram resolver um problema real. É o caso, por exemplo, do "Que ônibus Passa Aqui?".

A iniciativa disponibiliza em seu site um adesivo usado para escrever qual ônibus passa em determinando ponto. E são os próprios cidadãos que imprimem e colam essa etiqueta nos pontos de ônibus da cidade.

Críticas

O "Que ônibus passa aqui?" foi criado em Porto Alegre, onde a Prefeitura sinalizou que ia bancar o projeto, mas acabou recuando - e foram jovens que acabaram adesivando os pontos cidade afora.

Ações como essa abrem espaço para a discussão sobre se o "Imagina na Copa" e seus incentivadores não estão cuidando de um problema que não é apenas da população, e, sim, do governo.

”Não estamos facilitando a vida da Prefeitura, mas, sim, a nossa vida", afirma Mariana Ribeiro. "Mostrar que dá para fazer algo, seja sinalizar as rotas de ônibus ou criar uma biblioteca ambulante, é um jeito de pressionar o governo."

As três meninas também dizem acreditar que a internet é a ferramenta ideal para reverter esse pessimismo pré-Copa, mas não pode ser a única.

“Não somos contra o ativismo de sofá, mas achamos que uma hora você tem que sair do sofá", diz Mariana Ribeiro, em referência a movimentos organizados principalmente em mídias sociais, que costumam ser criticados por não terem ações fora do ambiente online.

“São formas de ativismo complementares", afirma Mariana Campanatti. "Do seu sofá, você encontra pessoas com a mesma causa, que eventualmente saem de casa para realizar algo."

"Tudo bem a pessoa não fazer nada, mas ela tem que começar a pensar", acrescenta Fernanda. "A reflexão é para todos, a ação, não."

Veja abaixo alguns dos projetos que ganharam o apoio dos criadores do "Imagina na Copa".

Projeto ATADOS

Em uma história que se assemelha à do próprio Imagina na Copa, o projeto Atados foi criado por três amigos formados em administração na USP.

É uma espécie de rede social que ajuda pessoas que querem fazer trabalho voluntário, mas não sabem direito por onde começar.

No site, que centraliza essas vagas, a pessoa se cadastra e começa a procurar ações ou causas das quais gostaria de participar.

Há dezenas de instituições cadastradas, como a Fundação Gol de Letra e o Instituto Alana. Feita a escolha, o site faz a ponte entre voluntário e instituição.

Uma das ações que mais chamaram a atenção foi a participação de voluntários para organizar a festa de casamento entre dois idosos que viviam em uma casa de repouso.

Para as fundadoras do Imagina na Copa, o site é um exemplo de projeto inovador pensado e colocado em prática por jovens.

Projeto PRAIA da ESTAÇÃO

Os motivos para Fernanda Cabral, do Imagina na Copa, adorar o projeto Praia da Estação vão além do fato de ele acontecer em sua terra natal, Belo Horizonte. "É uma ação que nos faz reviver a cidade, de uma forma diferente e criativa", diz.

O projeto surgiu como reação a um decreto da prefeitura de BH proibindo eventos na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da cidade. Um blog anônimo foi criado em seguida, convocando os moradores a irem ao local, como forma de protesto.

Hoje, o local abriga shows, festas e apresentações, sempre com um lado divertido, com pessoas levando seu guarda-sol para dar um caráter de praia e slogans do tipo: "Ei, polícia, a praia é uma delícia".

Projeto BIBLIOCICLETA

O projeto de um jovem da cidade baiana de Simões Filho, a cerca de 25 quilômetros de Salvador, chamou atenção do Imagina na Copa por ser simples, barato e viável também em outras cidades. O Bibliocicleta foi criado a partir de um trabalho de conclusão de curso de Design, na Universidade Federal da Bahia.

Nele, uma bicicleta é adaptada - com materiais simples como tubos de PVC - para se tornar uma bibilioteca itinerante.

Quando a bicicleta chega em um bairro, crianças e jovens podem escolher os livros (recebidos por doações) e ficar com eles.

Hoje, há oficinas em diversos Estados para se ensinar como se adapta a bicicleta.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Opinião: A Síndrome da Reivindicação Sucessiva

A Síndrome da Reivindicação Sucessiva é um ardil usado por quem não quer fazer uma coisa e argumenta que não é contrário à ideia, mas ela deve depender de algo, sem o quê, será inócua ou contraproducente.

Dois exemplos:

1 — A corrupção política só acabará quando houver uma reforma, criando-se o financiamento público de campanha.

Falso. O que inibirá com a corrupção será a ida dos larápios para a cadeia, e é isso que os defensores do financiamento público, inclusive Lula, querem impedir.

2 — A contratação de médicos estrangeiros por tempo determinado para trabalhar em áreas onde não há esses profissionais só fará sentido quando se rediscutir o sistema de financiamento da saúde ou o plano de carreira do SUS.

Falso. Hoje, dois terços dos 288 mil médicos estão nas regiões Sul e Sudeste. Só 13% deles clinicam em municípios com menos de 50 mil habitantes, onde vivem 64 milhões de pessoas. Em 397 municípios não há médico algum. É direito de qualquer cidadão trabalhar onde bem entende, mas barrar o acesso de outro profissional que aceita ir para um lugar que não lhe interessa é bem outra coisa.

O ardil destina-se a congelar uma situação na qual os médicos estabelecidos têm no Brasil uma reserva de mercado e transformam concorrência em vírus. O andar de cima dos pequenos municípios trata-se em outra cidade, ou em São Paulo. O peão, dana-se, ou vai ao curandeiro.

Se três médicos cubanos, marcianos ou espanhóis chegarem a um município pobre para uma permanência de três anos, qual dano ameaçará a população?

A reivindicação sucessiva é sempre impecável. Lei do Ventre Livre? Enquanto não houvesse creches seria a “Lei de Herodes”.

Lei dos Sexagenários? Sem asilo para os negros forros, uma crueldade.

Cotas nas universidades públicas? O que se precisa é melhorar o ensino médio.

Voto para o analfabeto? É obrigação do Estado alfabetizá-los. Até lá, que esperem.
(Não custa lembrar que os generais de 1964 achavam isso e, em 1969, quando decidiram escolher um presidente da República, meteram-se numa enrascada, pois se o voto de um analfabeto não vale o de um coronel, o de um general que comandava uma mesa não valia o de um colega que tinha tropa).

Os municípios sem médico também são pobres de renda. Em março a doutora Dilma torrou R$ 325 mil em três dias de hotelaria romana, noves fora o AeroLula. Esse dinheiro equivale a algumas semanas da receita de muitos municípios sem médico.

A nobiliarquia mobilizou-se contra a ideia dos médicos estrangeiros com uma declaração retumbante do Conselho Federal de Medicina: “Não admitimos uma medicina de segunda para os mais carentes. Até porque quem está no governo, quando adoece, vai para hospitais de primeira linha”.

Falta explicar que tipo de medicina existe num município sem médico. Ademais, admite sim, porque nenhum doutor reclamou quando Lula, feliz paciente do Hospital Sírio-Libanês, resolveu se garantir passando no médium João de Deus, em Abadiânia. Com seus poderes, ele faz cirurgias e já atendeu nove milhões de pacientes.

O que diriam os doutores se o Ministério da saúde quisesse atrair curandeiros? João de Deus talvez ficasse a favor.
 
Autor: Elio Gaspari
(jornalista e escritor)
Artigo publicado no jornal O Globo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Charge: importação de profissionais


segunda-feira, 20 de maio de 2013

OMS alerta para disparidade de médicos no País

O Brasil tem, proporcionalmente à população, metade dos médicos dos países europeus - no Norte e Nordeste, essa taxa se aproxima à de alguns dos países mais pobres do mundo. Dados que serão divulgados hoje pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na abertura de sua assembleia anual, em Genebra, revelam que a média de profissionais para cada 10 mil pessoas no Brasil está abaixo da média do continente americano e é bastante inferior à dos países ricos.

O governo brasileiro vem discutindo a ideia de importar médicos, justamente para atender áreas de maior déficit. Se em alguns centros urbanos os números chegam a superar a média de países ricos, em outras regiões a penúria é dramática, com mais de 300 municípios em dificuldades.

Segundo a OMS, há 17,6 médicos no Brasil para cada 10 mil pessoas. A taxa é inferior à média do restante dos países emergentes -17,8. O índice também é inferior à média das Américas (mais de 20). Mas é a comparação com os países ricos, principalmente da Europa, que revela a disparidade entre a situação no Brasil e nas economias desenvolvidas. Em geral, existem duas vezes mais médicos na Europa que no Brasil ~ 33,3 a cada 10 mil habitantes. São 48 médicos na Áustria a cada 10 mil cidadãos, contra 40 na Suíça, 37 na Bélgica, 34 na Dinamarca, 33 na França, 36 na Alemanha e 38 na Itália.

Disparidade» O que chama a atenção da OMS é que há diferentes realidades no Brasil. No Sudeste, por exemplo, a taxa é de 26 médicos por 10 mil habitantes, superior à dos EUA (24), Canadá (20) e Japão (21) de saúde no mundo. Mas, nos Estados do Norte, são 10 médicos para cada 10 mil pessoas, abaixo da média nacional de países como Trinidad e Tobago, Tunísia, Tuvalu, Vietnã, Guatemala, El Salvador ou Albânia. No Nordeste, a taxa é de 12 médicos para cada 10 mil pessoas - no Maranhão, chega a 7 médicos por 10 mil, taxa equivalente à da índia ou do Iraque. A situação mais dramática, porém, é ainda da África, com apenas 2,5 médicos a cada 10 mil habitantes.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Charge: direitos humanos, ditadura e verdades


Brasil importará 6 mil médicos de Cuba para trabalhar no interior

A informação foi dada ontem pelo ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, depois de um encontro de trabalho com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez. "Estamos nos organizando para receber um número maior de médicos aqui, em vista do déficit de profissionais de Medicina. Trata-se de uma cooperação que tem grande potencial e a qual atribuímos um grande valor estratégico", informou o ministro.

Os médicos cubanos viriam por meio de contratos com a Opas como prestadores de serviço ao governo brasileiro. A intenção é que esse período seja de dois ou três anos - o prazo máximo não está definido. Seria uma forma de o governo ultrapassar as dificuldades criadas pela contratação de estrangeiros, especialmente na área de Medicina, onde há enorme pressão pela validação dos diplomas.

A intenção do governo, no entanto, é abrir espaço para os que quiserem ficar. Depois de terminado o contrato via organização pan-americana, o médico estrangeiro poderá fazer o Reva-lida, exame de validação preparado pelo Ministério da Educação para poder atuar sem impedimentos no Brasil

O formato de toda essa operação ainda está sendo estudado pelo governo. Depende de uma autorização legal, que poderá ser medida provisória ou projeto de lei, "Ainda estamos formalizando os entendimentos para que eles possam desempenhar sua atividade profissional no Brasil e atender regiões particularmente carentes do País", disse Patriota.

A vinda dos médicos começou a ser negociada durante a visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba, em janeiro de 2012. E, apesar da resistência de entidades de classe, tem a chancela dela. A intenção não é trazer apenas cubanos, mas também espanhóis e portugueses. Cuba, no entanto, foi o primeiro país a oferecer um número significativo de profissionais de saúde.

Déficit. O Brasil tem, de acordo com levantamento da Organização Mundial de Saúde, pelo menos 455 municípios onde não há nenhum médico. Na Região Norte, a média é 0,8 por mil habitantes e, no Nordeste, 1 por mil, enquanto a OMS preconiza 1,5 por mil.

Informação divulgada através do jornal O Estado de São Paulo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Artigo: Saúde Mental - Portugal

A Saúde Mental dos portugueses, segundo Pedro Afonso, psiquiatra.

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

 
 
 
 
Autor: Pedro Afonso.
Psiquiatra no Hospital Júlio de Matos. Membro da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e autor da obra "Esquizofrenia: Conhecer a Doença, Será Depressão ou Simplesmente Tristeza...?" e da ficção "O Dom de uma Certeza".

terça-feira, 16 de abril de 2013

Opinião: consumo

Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos

No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.

Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves, tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte do savoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.








Autor: Adriana Setti
(jornalista e escritora)
Texto divulgado na Revista Época.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Programa de cooperação da ONU com países africanos lança campanha global para escolher logomarca

Na primeira semana de abril, um programa da ONU de cooperação com a África inspirado por uma iniciativa brasileira — o PAA África — lançou uma campanha aberta para a escolha de uma nova logomarca para compor a identidade visual do projeto.

Estabelecido em 2012, o PAA África — Purchase from Africans for Africa, em tradução livre ‘Comprar dos africanos para a África’ — é uma iniciativa do Governo do Brasil em parceria com o Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Reino Unido para promover segurança alimentar e fortalecimento da agricultura familiar em 5 países africanos.

Inspirado pela experiência positiva do Programa de Aquisição de Alimentos do Brasil, o programa já tem cinco projetos piloto de compras locais da agricultura familiar para alimentação escolar em curso — na Etiópia, no Malauí, no Níger, no Senegal e em Moçambique.

A participação é livre e os candidatos podem baixar o regulamento e a ficha de inscrição AQUI.

Para participar, basta mandar um design original para a logomarca do projeto junto com a ficha de inscrição preenchida para o endereço eletrônico: info@paa-africa.org até o dia 10 de maio de 2013.

O desenho escolhido fará parte de todas as comunicações oficiais do PAA África e das organizações parceiras na ONU e no Governo brasileiro. O trabalho vencedor e seus respectivos autores receberão amplo reconhecimento como parceiros na luta pelo combate à insegurança alimentar na África, com seu perfil publicado no site do PAA África.

O vencedor também receberá um certificado reconhecendo sua contribuição vencedora e um kit exclusivo do PAA África.

O anúncio do vencedor está previsto para o dia 22 de maio de 2013, durante o Fórum Global sobre Nutrição Infantil 2013, evento coorganizado pelo Centro de Excelência contra a Fome do PMA, que acontecerá na Praia do Forte, Bahia. O evento discute formas de construir programas nacionais de alimentação escolar sustentáveis, um elemento chave na concepção e execução do PAA África.

O PMA é a maior agência humanitária do mundo lutando contra a fome em diferentes países. A cada ano, o PMA alimenta em média mais de 90 milhões de pessoas em mais de 70 países.
 
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Opinião: energia e Sustentabilidade

A energia elétrica sustentável

A posta mais segura no futuro energético é a necessidade de fontes energéticas de baixo carbono. Cerca de 80% da energia primária consumida hoje no mundo é à base de carbono: carvão, petróleo e gás. Teremos de mudar para uma energia sem carbono - ou de baixo carbono - até meados do século. As grandes interrogações: como e quando.

A energia primária de baixa emissão de carbono envolve três opções: energia renovável, entre as quais a eólica, a solar, a geotérmica, a hidrelétrica e a gerada pelo aproveitamento da biomassa; a energia nuclear; e captura e sequestro de carbono, o que significa usar combustíveis fósseis para criar energia, mas aprisionar as emissões de CO2 resultantes e armazenar o carbono em segurança no subsolo.

Há três razões incontornáveis para o mundo fazer a mudança para uma energia de baixo carbono. Em primeiro lugar, a elevação dos níveis de CO2 está acidificando os mares da Terra. Se mantivermos nossos velhos hábitos, acabaremos destruindo uma enorme parte da vida marinha, o que comprometerá severamente as cadeias alimentares das quais dependemos.

Muitos, sem dúvida, discutirão qual das alternativas é mais inteligente: a aposta da França na energia elétrica de centrais nucleares ou a opção solar da Alemanha. Mas tudo indica que ambas as estratégias estão corretas.

Em segundo lugar, o CO2 está mudando perigosamente o clima do mundo, por mais que os interesses dos grandes conglomerados do petróleo tentem nos convencer do contrário.

Em terceiro lugar, estamos diante da alta significativa dos preços dos combustíveis fósseis, num momento em que o crescimento dos países em desenvolvimento eleva a demanda e se esgotam as fontes convencionais de carvão, petróleo e gás. Podemos, seguramente, encontrar mais combustíveis fósseis, mas a um custo muito mais alto e com um risco ambiental muito maior, decorrente de contaminações industriais, resíduos, vazamentos e outros estragos.

Mesmo a tão apregoada revolução do gás de xisto é, em grande medida, um excesso de alarde publicitário - semelhante às corridas do ouro e às bolhas das ações do passado. As reservas de gás de xisto se esgotam muito mais rapidamente do que os campos convencionais. E são ambientalmente sujas, para piorar.

Os Estados Unidos desenvolveram muitas novas tecnologias energéticas de baixo carbono, mas outros países mostram-se atualmente muito mais determinados, prescientes e decididos em canalizar essas tecnologias para o uso em grande escala. Politicamente, os EUA ainda são a terra dos grandes conglomerados do petróleo. Os americanos são bombardeados pela mídia que minimiza a mudança climática, enquanto países muito mais pobres em combustíveis fósseis já estão fazendo a transição necessária para um futuro de baixo carbono.

Dois países europeus vizinhos, a Alemanha e a França, estão mostrando o caminho alternativo para um futuro de baixo carbono. A Alemanha está levando à frente a "Energiewende", ou transição para a energia sustentável - um esforço notável para atender toda a demanda energética do país com energia renovável, principalmente a solar e a eólica. Por seu lado, a França recorre intensamente à energia elétrica nuclear de baixo carbono, e está migrando rapidamente para veículos elétricos, como o pioneiro Leaf, da Renault-Nissan.

Desses dois enfoques, o da Alemanha é uma aposta mais ousada. Depois do desastre nuclear do Japão em Fukushima, a Alemanha resolveu fechar todo o seu setor nuclear de geração de energia elétrica e mudar totalmente para uma estratégia baseada em maior eficiência energética (menor utilização de energia por unidade de renda nacional) e em fontes renováveis. Não há, na verdade, uma receita clara para operar uma enorme transformação energética desse porte, e a Alemanha, quase certamente, precisará depender de uma rede elétrica pan-europeia para distribuir energia limpa, e poderá acabar recorrendo também à energia elétrica solar importada do norte da África e Oriente Médio.

A aposta da França nas centrais elétricas nucleares é uma opção menos arrojada. Afinal, a maior parte da energia elétrica francesa provém há anos das centrais nucleares. E, embora o sentimento antinuclear seja muito forte na Europa - e, cada vez mais, até mesmo na França -, a energia elétrica gerada em centrais nucleares continuará fazendo parte da cesta energética mundial por várias décadas, simplesmente porque boa parte da Ásia (incluindo China, Índia, Coreia do Sul e Japão) continuará sendo sua grande usuária.

O fundamental é que a França e a Alemanha, e muitos outros países europeus - entre os quais os países escandinavos, com seu considerável potencial eólico e hidrelétrico - estão reconhecendo que o mundo como um todo terá de abandonar o modelo energético baseado em combustíveis fósseis. Esse é o prognóstico certo.

Muitos, sem dúvida, discutirão qual das alternativas - a aposta da França na energia elétrica de centrais nucleares ou a opção solar da Alemanha - é mais inteligente.

Mas tudo indica que ambas as estratégias estão corretas. A maior parte dos estudos mostra que a descarbonização profunda da economia mundial entre os dias atuais e meados do século, um horizonte temporal curto, determinado por realidades ambientais, exigirá que todas as alternativas de baixo carbono - entre as quais a maior eficiência e os renováveis - tenham sua escala enormemente ampliada.

Uma das maiores prioridades da nova Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável, que eu dirijo representando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, será traçar caminhos alternativos em favor de uma economia de baixo carbono, levando em consideração as especificidades dos países de todo o mundo. Países diferentes escolherão estratégias diferentes, mas precisaremos todos chegar ao mesmo lugar: um novo modelo energético sustentado por fontes de baixo carbono, eletrificação de veículos e prédios e cidades inteligentes e eficientes.

Os pioneiros nessa mudança talvez paguem atualmente um preço ligeiramente mais elevado por essas estratégias, mas eles e o mundo colherão benefícios econômicos e ambientais de longo prazo. Ao abraçar tecnologias verdadeiramente sustentáveis, a França, a Alemanha e outros países estão criando o sistema energético que sustentará cada vez mais a economia mundial por todo este século.

Autor: Jeffrey D. Sachs
(professor de desenvolvimento sustentável, de política e gestão de saúde e diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia. É também assessor especial do secretário-geral da ONU sobre as Metas de Desenvolvimento do Milênio)
Comentário publicado no jornal Valor Econômico.

Opinião: economia e política

Obsessão psicanalítica

O Brasil é um país muito mais evoluído, politicamente, que alguns de nossos vizinhos. Basta ver a fragilidade institucional de parte de nossos sócios do Mercosul - antigos ou novos - para perceber que aqui há um grau de racionalidade claramente superior ao de outros países da região.

Cícero, o filósofo romano da Antiguidade, dizia que "os oradores são mais veementes quanto mais fracas são as suas causas". No realismo fantástico latino-americano, isso não poderia ser mais verdadeiro. Basta ter lido as teorias malucas que associam a doença que vitimou Hugo Chávez a uma suposta "conspiração americana" para perceber a que limite pode levar o delírio político de um país.

Mesmo assim, a fixação de setores oficiais em fazer tábula rasa de qualquer coisa que lembre o Governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) está começando a atingir níveis preocupantes. Primeiro, porque mais de 10 anos depois de o Governo FHC ter concluído, tal obsessão adquire contornos psicanalíticos. E, segundo, porque alguns atos emanados do que pode ser qualificado de "espírito de demolição" para não deixar pedra sobre pedra do que foi herdado em 2003 estão causando um enorme dano ao país.

Deixando de lado a controvérsia acerca da manutenção ou não do "tripé" macroeconômico de câmbio flexível, austeridade fiscal e metas de inflação, os setores mais radicais do movimento que levou à mudança de Governo em 2003 tinham "juradas de morte" duas medidas adotadas no Governo FHC e que eram vistas por esses setores como símbolos do "neoliberalismo", "consenso de Washington", "ortodoxia" ou seja lá como for que a retórica oca do fanatismo ideológico quiser classificar. As duas medidas eram a Lei do Petróleo de 1997 e a reforma previdenciária aprovada no segundo Governo FHC.

Em 2003, Lula teve a sabedoria de não fazer marolas na economia e atuou de forma consistente em relação a esses dois pontos: manteve a Lei do Petróleo e as rodadas anuais de licitação do setor e não voltou atrás na Previdência. Aos poucos, porém, as mudanças políticas e a fragilidade da oposição levaram aqueles setores a voltar à carga.

Em 2010, eles conseguiram sua primeira grande "vitória", com a aprovação do novo marco regulatório do petróleo, no contexto das descobertas do pré-sal. A vitória se revelou um desastre, causado pelos ideólogos que escreveram em 1995 que o fim do monopólio iria "destruir" a Petrobras. O setor, que até então vinha "bombando", parou em termos de novos investimentos. As rodadas deixaram de ser feitas, a superfície da área sob concessão encolheu e, com o tempo, a própria produção chegou a cair. Para pior, no dia em que os leilões forem retomados, a exigência de que a Petrobras entre com 30 % dos recursos nos novos investimentos ameaça se transformar em um pesadelo financeiro para a empresa. Todos sabem que o Governo se arrepende dessa medida, mas não sabe como fazer para dar "meia volta, volver" sem passar recibo.

Agora, o script se repete e, no marco da reaproximação do Governo com os sindicalistas que pouco freqüentaram o Planalto depois de 2010, anuncia-se uma pauta que incluiria o "fim do fator previdenciário". Espero que seja uma interpretação de um jornalista desavisado. Custo a acreditar que a presidente Dilma cometeria esse equívoco, que faria as perspectivas fiscais não exatamente róseas relacionadas às tendências demográficas adentrar no terreno sombrio dos "50 tons de cinza" dos déficits - agravados - da Previdência Social.

Há várias décadas, Fernando Pessoa, incursionando no terreno da análise econômica, em outro contexto, escreveu que "legisla-se em favor do empregado contra o comerciante e o industrial e supõe-se que sobre esse mesmo empregado não recairão nunca os efeitos dessa legislação. Limita-se a produção com restrições. Quando, depois, a produção baixa e a estrutura social inteira se sente variadamente disso, olha-se para essas consequências como para um ciclone ou um terremoto, uma coisa vinda de fora e inteiramente imprevisível" ("A economia em Pessoa", Ed. Reler). O país já fez uma besteira maiúscula mudando as regras de exploração do petróleo em 2010. Evitemos agora um novo "tiro no pé". Caso contrário, se o fator previdenciário acabar, não nos queixemos das consequências que virão.

Autor: Fabio Giambiagi.
Comentário publicado no jornal O Globo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ONU consulta brasileiros para identificar prioridades para o mundo pós-2015.

As Nações Unidas estão realizando consultas em todo o Brasil para saber qual a prioridade da população para melhorar o País e o mundo. Para isso, desde fevereiro estão sendo organizados encontros com representantes de grupos da sociedade – como jovens, populações indígenas, pessoas com deficiência, população LGBT etc. –, além de debates nas cinco regiões brasileiras. Nestes eventos, os participantes são convidados a discutir sobre as três mudanças que consideram necessárias para melhorar as suas vidas e as de suas comunidades e como elas podem ser implementadas.

A educação aparece como prioridade para todos os segmentos consultados. Entre as sugestões apresentadas para melhorar a qualidade está a fiscalização orçamentária; a valorização da educação básica; capacitação de professores, aliada ao aumento de salário e redução de carga horária; escola de período integral e gratuita para todos; campanhas de incentivo à leitura; preservação da diversidade linguística e de identidades culturais no currículo escolar; implementação de ações de segurança e defesa civil nas escolas; e fortalecimento da gestão participativa, entre outras medidas.

Outro assunto que aparece com frequência na pesquisa é saúde - os grupos sugerem que se trabalhe mais a área de saúde preventiva e que sejam realizadas melhorias na saúde pública (incluindo a saúde mental) e no saneamento básico. Foi também destacada a importância da promoção da transparência na gestão desta área e que sejam destinados mais investimentos.

As pesquisas compiladas são disponibilizadas imediatamente no site WorldWeWant2015. As consultas também foram feitas através de questionários via site da ONU e da Secretaria-Geral da Presidência. Até 31 de março, data limite para participar desta forma, foram recebidos aproximadamente seis mil questionários.

Mas ainda há tempo participar, já que a ONU também está ouvindo as pessoas através da Internet. Nesta pesquisa, de 16 assuntos sugeridos, cada pessoa pode escolher seis prioridades.

Coincidentemente, a educação de qualidade lidera também a lista mundial. De acordo com esta consulta, além da melhoria no ensino, os brasileiros querem governo honesto e atuante, melhoria dos serviços de saúde, acesso a alimentos de qualidade, proteção contra o crime e a violência, além do acesso à água potável e ao saneamento.

Pela Internet, o país é o segundo no ranking de participação na pesquisa, com quase 12 mil votos. O primeiro lugar está com a Nigéria, onde quase 150 mil pessoas deram sua opinião até agora.

Para participar da pesquisa online, acesse http://bit.ly/Pb-134

Todas as sugestões serão compartilhadas com os líderes mundiais que definirão a agenda de desenvolvimento global pós-2015, que por sua vez ampliará os resultados dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e enfrentará as desigualdades que ainda persistirem e os novos desafios que afetam o planeta.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ONU destaca aumento do investimento estrangeiro entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O volume de Investimento Estrangeiro Direto (IED) que entra e sai das economias emergentes dos BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – está aumentando sua influência global, de acordo “Monitor de Tendências do Investimento Global”.

O relatório, divulgado na segunda-feira (25/03) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), também destaca a crescente relação entre os BRICS e a África.

O estudo mostra que na última década, o IED mais do que triplicou nos BRICS, totalizando 263 bilhão de dólares em 2012. Este valor representa 20% dos fluxos de IED do mundo. Um aumento significativo desde 2000, quando era de apenas 6%.

Enquanto isso, o investimento dos BRICS em outros países subiu de 7 bilhões de dólares em 2000 para 126 bilhões em 2012, passando de 1% para 9%, com a China e a Rússia puxando os números.

No continente africano, os investimentos do bloco representaram 25% dos investimentos estrangeiros em 2012, especialmente nos setores industrial e de serviços. Apesar dos custos de trabalho na África serem próximos aos custos domésticos nos BRICS, a isenção de impostos nos países africanos e as medidas de tarifa zero da China para os países menos desenvolvidos explicam os investimentos.

O Brasil, por exemplo, expandiu seus negócios na nova indústria de etanol africana em países como Angola, Gana e Moçambique. A China é um dos países que investem em países menos desenvolvidos como o Sudão e Zâmbia. Uma empresa indiana adquiriu recentemente uma rede de telefonia móvel africana e os bancos russos estão se expandindo para países como Costa do Marfim e Nigéria.

“O aumento do IED na indústria, que tem consequências positivas para a criação de emprego e crescimento industrial, está se tornando uma faceta importante da cooperação econômica Sul-Sul”, ressalta o relatório, que prevê um aumento dessa tendência no futuro.

No entanto, a principal fatia do investimento externo do BRICS ainda está em economias desenvolvidas, com 34% de suas ações indo para a União Europeia. O relatório observa que esses investimentos são em grande parte impulsionados por motivos de procura de mercado, bem como fusões e aquisições transfronteiras.

O relatório foi publicado as vésperas da quinta Cúpula do BRICS, realizada nesta terça-feira (26) e quarta-feira (27), em Durban, África do Sul, e cujo tema é “BRICS e África: Parceria para o desenvolvimento, integração e industrialização”.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Desastres naturais causaram prejuízo de 138 bilhões de dólares, calcula ONU

O Escritório da ONU para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR) afirmou nesta quinta-feira (14) que, pela primeira vez na história, ocorreram perdas econômicas anuais de mais de 100 bilhões de dólares por três anos consecutivos. As perdas se deram, segundo a agência, ao um enorme aumento de exposição de bens industriais e de propriedade privada em eventos de desastres extremos.

Em uma coletiva de imprensa em Genebra, a Diretora do UNISDR, Elizabeth Longworth, disse que uma revisão das perdas econômicas causadas por eventos de grandes desastres desde 1980 mostra que desde meados da década de 90 tem havido um aumento nos prejuízos econômicos, se transformando em uma tendência ascendente confirmada pelas perdas do ano passado.

Mesmo sem nenhum grande desastre, como um grande terremoto urbano, Longworth lembrou que as perdas econômicas – em estimativas conservadoras – foram de 138 bilhões de dólares.

Esse índice já atingiu esse patamar em nove ocasiões desde então, incluindo os últimos três anos: 2010 (138 bilhões), 2011 (371 bilhões) e 2012 (138 bilhões). Em 2012, cerca de 310 desastres mataram mais de 9.300 pessoas, afetando outras 106 milhões. Os danos atingiram principalmente Estados Unidos, Itália e China.

O ano foi particularmente acentuado pelo fato de que não houve desastres de grandes proporções, em termos de impacto humano. O pior caso foi o tufão Bopha, que atingiu as Filipinas em dezembro, com mais de 1.900 mortos e desaparecidos. A Ásia, mais uma vez, mostrou-se a região mais propensa a desastres do mundo, tanto em termos do número de desastres quanto do número de vítimas.

Por outro lado, 63% das perdas econômicas foram nas Américas, principalmente devido ao furacão Sandy (50 bilhões de dólares) e à seca (20 bilhões). A Europa foi atingida por duas longas ondas de frio no início e no final do ano, matando quase mil pessoas, enquanto a África foi severamente afetada pela seca, mas também por inundações como a da Nigéria, com mais de 300 vidas perdidas.

“Globalmente, a maioria das vítimas deste ano foram de inundações e secas, responsáveis por quase 80% de todas as vítimas. Mas como ocorreram em países mais pobres, as perdas econômicas são baixas”, destacou a professora Debby Guha-Sapir, Diretora do Centro para Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED) na Universidade de Louvain, na Bélgica.

“Mesmo assim, as inundações do Paquistão custaram cerca de 2% de seu PIB anual, um valor muito grande para ser recuperado. Os desastres são um grande problema em todos os países pobres e ameaças à segurança global. Eles devem ser levados a sério”, completou Guha-Sapir.

Acesse o banco de dados do CRED (em inglês).