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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Vitórias e ‘efeito contágio’ multiplicam pequenos protestos pelo país.

Após as gigantescas manifestações que tiveram início com a luta pela redução das tarifas do transporte público, mas que incorporaram outras pautas e tomaram diversas cidades do país nos últimos dias, um novo fenômeno passou a ficar mais evidente no cenário brasileiro: protestos e passeatas com um menor número de pessoas e reivindicações mais específicas começaram a brotar no centro e nas periferias das grandes metrópoles ou em municípios do interior.


No Rio de Janeiro, cerca de 1 mil moradores das comunidades da Rocinha e do Vidigal marcharam até a residência do governador Sérgio Cabral na última terça-feira para mostrar insatisfação com as obras do PAC 2 - que preveem a construção de um teleférico na Rocinha. Eles pediram melhor saneamento e educação nas comunidades.

Em São Paulo, na última quarta-feira, dois protestos tomaram a avenida Paulista: um, com cerca de 300 pessoas, contra o deputado federal Marco Feliciano e o projeto de "cura gay" aprovado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara e outro, com cerca de 100 manifestantes, contra a proposta que prevê a atuação de médicos estrangeiros no Brasil.

Além disso, nos últimos dias, foram registrados em diversos locais protestos de movimentos de moradia, contra a violência policial e contra o projeto de lei no Ato Médico, que regulamenta a atuação de profissionais da saúde.

Em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, manifestantes ocuparam a Câmara dos Vereadores em protesto contra supostas irregularidades na CPI que investiga o incêndio que matou 242 pessoas na boate Kiss, em janeiro.

Contágio

"De fato, nós temos observado que está havendo uma descentralização das manifestações e, ao mesmo tempo, uma fragmentação. Aquelas manifestações iniciais, que congregavam muitas reivindicações, começam a se fragmentar em diferentes manifestações por diferentes causas", afirma o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, diretor do IUPERJ, da Universidade Cândido Mendes. Na avaliação de Monteiro, além de uma fragmentação, os protestos passaram a incorporar também manifestantes de classes populares, que eram minoria nas grandes marchas, até então majoritariamente de classe média.

Para o cientista político, essa proliferação de manifestações com pautas mais específicas pode ser explicada pelo que chama de "efeito de contágio", que faz com que alguns setores acabem por se 'inspirar' nos protestos e decidam sair às ruas para reivindicar suas próprias demandas. "Temos visto Brasil afora também comunidades menores, mais pobres, fechando estradas... então isso pode ser aquilo que os analistas de movimentos sociais chamam de efeito de contágio. Esse efeito de contágio é você ver o outro movimento fazendo uma manifestação e fazer também. Isso é já uma evolução desse movimento (de protestos)", diz.

Governo.

Com a força das manifestações, os executivos, legislativos e a Justiça de diversas esferas da federação passaram a fazer concessões aos manifestantes. Prefeituras e governos estaduais baixaram tarifas de transporte público, o Congresso aprovou em tempo recorde medidas que estavam nas pautas dos protestos e a presidente Dilma Rousseff anunciou uma séria de cinco "pactos" que preveem melhorias nas áreas de educação, saúde, responsabilidade fiscal e até uma reforma política.

Mas, no lugar de acalmar os ânimos dos manifestantes, as concessões alcançadas após as marchas podem acabar por estimular novos protestos. "De alguma maneira, essa movimentação meio atabalhoada da classe política está fazendo com que as pessoas se sintam estimuladas a ir para a rua mesmo (...). As pessoas vão pensar: 'é assim que funciona, nós vamos para rua, reclamamos e os políticos fazem'", diz Monteiro.

Rocinha

Um dos organizadores do protesto na Rocinha, o estudante de design Denis Neves, de 27 anos, participou de algumas das manifestações no centro do Rio que culminaram com a redução nos preços das tarifas e avaliou que este poderia ser um bom momento para levar a reivindicações de sua comunidade para as ruas. Ele conta que o fato de os governos dos mais diversos níveis terem feitos concessões aos manifestantes estimulou ainda mais os moradores a realizarem o ato que questionou a construção de um teleférico na comunidade e pedia saneamento básico e creches para os moradores. "Tivemos essa ideia de trazer para a Rocinha as manifestações que estavam acontecendo no Brasil (...) Porque finalmente o povo está sendo ouvido. A gente vê que, com os manifestos, tanto no campo da Presidência, quanto no governo e no município, todo mundo está fazendo por onde (para atender as demandas). Até o (presidente do Senado) Renan Calheiros está a favor da tarifa zero, então você vê que realmente funciona, que está tendo retorno", diz.

Após que a marcha que seguiu até o Leblon, os manifestantes tiveram uma pequena vitória. Segundo Neves, eles foram convidados para uma reunião com o governador Sérgio Cabral nesta sexta-feira e agora trabalham para detalhar uma pauta de reivindicações. Divisões.

Pedro Fassoni Arruda, professor do Departamento de Política da PUC-SP, avalia que a presença de diversas pautas nos protestos acabou por criar divisões entre os manifestantes, o que contribuiu para que, após a redução nos preços das tarifas, o movimento se dividisse, com cada um dos setores organizando atos com reivindicações específicas. "Chegou um momento em que houve conflitos entre os próprios manifestantes, não entre eles e a polícia. Isso é sintomático do quanto (o movimento) diversificou, incorporando setores desde a esquerda até a extrema direita no espectro político. Então (quando) aqueles protestos atingiram o objetivo, cada um agora está tentando colocar uma reivindicação de acordo com seus interesses: a PEC 37, o 'Fora Feliciano', isso ou aquilo", diz.

Arruda concorda que as concessões do governo podem acabar por estimular novos protestos, mas avalia que isto não quer dizer que essas demandas serão atendidas. "Até agora, o que a gente viu de concreto foi apenas a revogação do aumento e a não aprovação da PEC 37, mas muitas outras questões ainda precisam ser discutidas. Por exemplo, as manifestações exigindo a saída do Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos não surtiram nenhum efeito, ele continua lá firme e forte", diz.

"O curioso é que a população se divide, alguns podem reivindicar alguma coisa nas ruas e outro grupo convocar uma manifestação exigindo exatamente o contrário. Então, depende muito da correlação de forças, qual o grupo que tem realmente maior poder de influenciar as decisões do governo".

Mobilização

Um dos fundadores do Fórum de Lutas contra o Aumento da Passagem, grupo que vinha organizando os protestos no Rio, o estudante Raphael Godoi, de 16 anos, concorda que a redução nas tarifas "animou" vários pessoas, que vêm comparecendo em peso em reuniões do movimento ou convocando atos com outras pautas.

O movimento fundado por Godoi realizou uma manifestação na tarde da quinta-feira no centro do Rio que mobilizou cerca de 2 mil pessoas. "A cada plenária (vem) gente nova. Acho que a galera está animada, (mas também) está todo mundo puxando eventos para seus próprios objetivos. Isso ocorreu simultaneamente com diversas pessoas e a gente vê essa divisão: tem um monte de eventos, em vários lugares e um monte de causas diferentes que não estão mais levando o mesmo número de pessoas", diz.

Embora reconheça que as próximas manifestações possam atrair um número menor de pessoas, ele avalia que o movimento – que, entre outras pautas, continuará protestando por tarifa zero e contra a privatização do Maracanã e a remoção de famílias pelas obras da Copa e Olimpíada – não perderá força. "Eu acho que vamos continuar com o movimento forte sim. Vai cair um pouco o número de pessoas, mas vai ficar forte, até mesmo porque quem vai continuar, vai continuar realmente com uma visão política e sabendo o que quer", diz.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Despite the commodity boom, Brazil is close to boiling point

 
People have lost faith in the political process - protests over bus fares and the cost of hosting the Fifa World Cup have become a vehicle for anyone unhappy about anything.

How should a government respond when it is the target of nationwide protests? Swedish leaders reacted by wringing their hands and empathising, Turks by calling counter-demonstrations, Syrians by shooting the demonstrators.

The most original response has come from the President of Brazil, Dilma Rousseff, who brazenly co-opted the protesters to her cause. “The size of the demonstrations”, she said, “shows the energy of our democracy, the strength of the voice of the streets and the civility of our population.” Brazilians are certainly civil: you won’t find a cheerier, more relaxed people in the Western hemisphere. Yet they have taken to the streets in their hundreds of thousands – and, despite President Rousseff’s words, not entirely peacefully.

Brazil, the B of the BRIC countries, is now the seventh largest economy on earth. Yet, despite the commodity boom that has lifted the entire continent, its economy is stalling. Is the unrest economic? Not entirely: there has been a decade of growth and unemployment is low. The protests began over notionally financial issues – bus fares and the cost of hosting the Fifa World Cup – but they soon became a vehicle for anyone who was unhappy about anything.

If the unrest turns violent, disorder becomes self-reinforcing. In any population, potential looters outnumber police. Law enforcement works on the theory that not all the looters will go on a spree at the same moment – just as banking rests on the assumption that we won’t all simultaneously withdraw our deposits. When the hoodies realise that the forces of order are overstretched – during a blackout, for example – pillaging usually follows.

Editorial publicado no jornal The Telegraph.

'Revolução dos 20 centavos' mostra que 'fantasia acabou', diz 'Financial Times'

Um editorial publicado nesta quinta-feira no diário britânico Financial Times diz que os maiores protestos de rua vividos no Brasil nos últimos 20 anos mostram que os brasileiros se deram conta de que o "glorioso novo país" propagado pelo governo seria uma "fantasia".

A revolução dos 20 centavos mostra que "a fantasia acabou" diz o jornal, citando que "espetaculares 10 anos de crescimento" tiraram "cerca de 30 milhões de pessoas da pobreza" com novas demandas que não foram atendidas.

A chamada nova classe média, diz o jornal, "pode consumir como nunca", mas "as mudanças sociais em outros setores não acompanharam as demandas desta nova classe, ainda precária".

O editorial cita que "não há problema" em cultivar a imagem global do Brasil com investimentos de US$ 12 bilhões em estádios de futebol, mas "não quando a vida é tão dura para a maioria".

"Eles pagam impostos iguais aos de primeiro mundo e recebem em troca serviços públicos de má qualidade de países em desenvolvimento".

"Ônibus lotados e tráfego pesado tornam as viagens diárias caras e um desperdício de tempo. A corrupção do governo prevalece."

Para o FT, os brasileiros tentam se posicionar "entre o Brasil 'velho' que teriam deixado para trás e o glorioso Brasil 'novo' que o governo diz ser o país em que vivem".

"Isso talvez esteja em sintonia com uma tendência que corre entre os investidores: a de que o modelo brasileiro chegou ao seu limite".

"Em toda América do Sul, cidadãos estão fartos de ouvir como as coisas são boas", diz o FT, acrescentando que os protestos no Brasil vão causar preocupações nos mercados financeiros a respeito dos mercados emergentes como um todo e podem indicar que a "salada política dos velhos dias e o dinheiro fácil do passado podem estar chegando ao fim".

Daily Telegraph

Em um artigo de opinião, intitulado "Apesar do boom das commodities, o Brasil está perto de entrar em ebulição", o jornal britânico Daily Telegraph diz que a frustração que desencadeou os protestos no país se explica pelo fato de as pessoas "terem perdido fé no processo político", a exemplo do que ocorreu em outros países da região.

O texto, assinado por Daniel Hannanfaz, faz uma retrospectiva dos acontecimentos políticos nos países da América do Sul, que, nas últimas três décadas saíram de ditaduras militares, passaram por governos neoliberais que "desperdiçaram suas chances e, em desespero, optaram pela esquerda populista".

"Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Cristina Kirchner na Argentina e Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho carismático de Dilma Rousseff, no Brasil".

Segundo o texto, este modelo funcionou durante um tempo.

"As pessoas preferiam eleger os populistas simplesmente pelo fato de que não eram da velha oligarquia. Mas mais cedo ou mais tarde, como acontece com muitos governos socialistas, o dinheiro acaba".

"Esse momento chegou para o Brasil e os brasileiros sentem isso".

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Opinião: manifestações em SP e RJ

Os estudantes entre o molotov e a utopia.

As cenas de uma manifestação juvenil com ônibus queimados, catracas quebradas e engarrafamentos são assistidas, do sofá de casa, por uma franca maioria de brasileiros que hoje é favorável à redução da maioridade penal. Só pode dar em encrenca.

É provável que os 92,6% de brasileiros favoráveis a jovens deliquentes na cadeia (pesquisa CNT/mda) refiram-se a crimes a mão armada, mas a demanda por endurecimento penal reflete uma sociedade menos afeita a contestações da ordem.

Os manifestantes saíram à rua em várias capitais. Como em algumas conseguiram reverter o aumento de tarifa, acham que podem ter sucesso nas demais. O policial que, apedrejado, não disparou contra os manifestantes, parecia sugerir que a audiência não seria atraída por jovens idealistas. Nas transmissões ao vivo ontem já parecia haver dúvidas sobre quem detinha o monopólio da violência.

Geração é menos conservadora que a de seus pais.

Parece exagerada a comparação do movimento do passe livre com os acampamentos Wall Street ou com as rebeliões da praça Tahir. A conjuntura nacional é turbulenta mas não se pode dizer que o Brasil viva uma crise econômica ou política.

Também não há paralelo com a mais recente manifestação juvenil da vizinhança, no Chile, onde as universidades, maciçamente privadas, endividaram famílias por várias gerações sem emprego capaz de quitar o crédito escolar. As diferenças não autorizam a conclusão de que são vândalos os de cá e ativistas os de lá.

Assemelham-se todos pela dispensa da mediação de imprensa, sindicatos ou organizações estudantis. É pelas redes sociais que forjam identidade. Se o Passe Livre tem sido bem sucedido é porque gera, entre seus participantes, a sensação de que pertencem a algum lugar.

E que lugar é esse?

Dos jovens brasileiros entre 18 e 30 anos, 23 milhões (55%) pertencem à classe C, com renda mensal entre R$ 219 e R$ 1.019.

De cada R$ 100 que recebem, destinam R$ 70 para ajudar nas despesas de casa.

As pesquisas os situam como uma geração que tem o dobro da escolaridade dos pais, acessam notícias pela internet, são formadores de opinião na família e adotam posturas menos conservadoras em temas morais que seus pais.

Duas pesquisas, uma com amostra geral (CNT/mda) e outra com jovens da classe C (Datapopular), mostram o confronto. Enquanto entre os brasileiros, em geral, o casamento gay é aprovado por 37%, entre jovens emergentes chega a 49%.

Entre 2002 e 2010 os universitários da classe C saltaram de 6 milhões para 9 milhões. Serão 11 milhões em 2014. São o público alvo do 1,6 milhão de bolsas que o Prouni já distribui desde 2005.

Nas universidades federais, os jovens oriundos de famílias com renda até cinco salários mínimos, ocupam 67% das vagas.

Não parece haver dúvidas de que é uma geração que usufrui de mais oportunidades que seus pais, mas há crescentes dificuldades no cotidiano para usufruí-las. De tão lotado, o metrô de São Paulo, por exemplo, transporta, por quilômetro quadrado, quatro vezes mais passageiros que o de Nova York.

Os jovens têm celulares e laptop. Empregados, alcançam um plano de saúde, mas frequentemente o atendimento concorre em precariedade com o dos hospitais públicos.

Mais da metade dos universitários do país usa transporte público. Pouco mais de 18% vão de bicicleta, a pé ou de carona e 21% usam carro.

Estão entre os cerca de 25% dos passageiros de transporte público em todo o país que usufruem de descontos. Pedem tarifa zero e, pelos depoimentos que se colhem nas suas manifestações, esperavam, de uma administração petista, melhor acolhimento de suas reivindicações.

Pegaram no contrapé o prefeito Fernando Haddad (PT), que fez da melhoria do transporte público o carro chefe de sua campanha eleitoral.

Haddad segurou por seis meses o reajuste da tarifa que já estava congelada por dois anos quando assumiu. Atendeu ao apelo anti-inflacionário da Presidente da República e a seus próprios temores em estrear na cadeira sob protestos populares.

Anunciou 150 novos corredores de ônibus e montou uma engenharia financeira para viabilizar o bilhete único mensal mas falhou em descasar seu lançamento do reajuste de tarifa.

Argumenta que reajustou abaixo da inflação, mas a moçada do passe livre quer justar contas com o passado. Retroage ao lançamento do Real para sustentar que a tarifa subiu mais que os demais preços da economia nesses quase 20 anos.

As manifestações antecipam os embates que a partir de agora serão cada vez mais frequentes entre o Palácio do Planalto e a federação. Com a pressão sobre a política fiscal como instrumento anti-inflacionário, pouca margem de manobra tende a ser aberta para governadores e prefeitos.

Em meio à avalanche de desonerações destinadas a alavancar a economia, Haddad pediu para que a Cide sobre a gasolina, hoje zerada, voltasse a ser cobrada com o objetivo de constituir um fundo de financiamento ao transporte público. Brasília fez ouvido de mercador à proposta.

Numa de suas melhores peças de campanha durante o horário eleitoral gratuito, Haddad dizia que o governo Lula havia melhorado a vida das pessoas da porta de casa para dentro. E que ele se dispunha a trabalhar por melhorias da porta para fora.

O que se assistiu ontem no Teatro Municipal e em outros cantos do país foi uma cobrança contundente dessa promessa. Pelo que anuncia a conjuntura econômica, é só o começo. Cooptados, os movimentos sociais tradicionais perderam a capacidade de organizar a reação para preservar os ganhos e mobilizar novos avanços.

Os manifestantes de ontem agem noutra frequência. Além da violência, as críticas mais frequentes ao movimento que se colhem nas redes sociais é que ali não está representada a base da pirâmide social, a dos brasileiros que vão comer menos para continuarem a se deslocar. Para muitos jovens que seguem até o final dos cursos universitários sustentados pelos pais, o protesto pode ter virado um programa de fim de tarde. Mas se há algo a louvar nesses eventos marcados por excessos de todos os lados é que as manifestações parecem resgatar o coletivo para que a moçada pode ter interesses que vão além do seu umbigo.

Autora: Maria Cristina Fernandes.
(jornalista, mestre em Política Comparada pela Universidade de Paris)
Artigo publicado no jornal Valor Econômico.

Protestos e repressão acirram tensão em São Paulo

Pelo quarto dia em pouco mais de uma semana, milhares de manifestantes se reuniram nas ruas de São Paulo para protestar contra o aumento das tarifas de transporte público na cidade.

A Polícia Militar reprimiu a manifestação com bombas de efeito moral e balas de borracha para evitar o avanço do protesto, que teve início na região central da capital, em frente ao Teatro Municipal.

O confronto foi marcado por cenas de violência, com imagens de manifestantes, cinegrafistas e fotógrafos atingidos pelos disparos da polícia. O tumulto provocou correria e os manifestantes reagiram à repressão policial atirando pedras e outros objetos.

Durante o choque com a polícia, manifestantes picharam ônibus, incendiaram restos de lixo e atiraram rojões contra as tropas da PM.

Segundo dados divulgados pela Polícia Militar de São Paulo, um total de 232 pessoas foram detidas na noite de quinta-feira, sendo que 198 foram encaminhadas para o 78º Distrito Policial, nos Jardins (zona oeste de São Paulo) e 34 foram levadas para o 1º Distrito, na Sé, região central.

A manifestação, que contava com a participação de cerca de 5 mil pessoas, segundo estimativa da PM, tinha o objetivo de cobrar a revisão do preço das passagens de ônibus e metrô, que passaram de R$ 3 para R$ 3,20 em São Paulo na semana passada.

"Cada vez que a tarifa sobe, aumenta também o número de pessoas excluídas do sistema de transporte", afirma o Movimento Passe Livre, em seu site. "E não ter acesso ao transporte significa não ter acesso à cidade: dependemos da condução para ir e voltar do trabalho, escolas, hospitais, visitar amigos, etc."

Negociação e impasse

De acordo com a Agência Brasil, os policiais negociavam com representantes do Movimento Passe Livre para que o protesto terminasse na Praça Roosevelt, mas, durante a negociação, os manifestantes decidiram seguir com o protesto e partir em direção à Avenida Paulista, uma das vias mais movimentadas e simbólicas de São Paulo.

Além de acirrar a tensão na cidade, o tumulto teve um forte impacto na mobilidade das pessoas que se deslocavam do trabalho para casa e interrompeu o trânsito em algumas das principais ruas de São Paulo, como Consolação e Augusta.

A ONG de direitos humanos Anistia Internacional divulgou uma nota em que pede uma solução pacífica para o impasse entre manifestantes e autoridades.

A organização afirma ver "com preocupação o aumento da violência na repressão aos protestos" e se diz preocupada com o "discurso das autoridades sinalizando uma radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes".

A entidade diz que é contra a depredação do patrimônio púbico e atos violentos de ambos os lados e pede um canal de diálogo entre governo e manifestantes.

Reajuste mantido

Durante compromisso em Santos, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, descartou rever o reajuste da tarifa e disse que os protestos têm motivação política. "O que a gente percebe é que é um movimento político, pequeno, mas muito violento", afirmou.

Em uma nota em que rebate as acusações de vandalismo e depredação do patrimônio público, o Movimento Passe Livre diz que os manifestantes apenas reagiram à "agressão dos policiais".

"O Movimento Passe Livre não incentiva a violência em momento algum de suas manifestações, mas é impossível controlar a frustração e a revolta de milhares de pessoas com o poder público e com a violência da Polícia Militar", afirma o grupo.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que o valor das tarifas de transporte "será mantido porque está muito abaixo da inflação acumulada".

Haddad acrescentou que considera "legítima toda e qualquer forma de manifestação e expressão" e que a capital paulista é "o berço das manifestações". "O que São Paulo não aceita é a violência, de qualquer parte", completou.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse em Brasília que o governo federal está à disposição de qualquer Estado para ajudar a lidar com os protestos.

"É lamentável que ainda existam pessoas que não consigam perceber que, no estado de direito, é legítima a manifestação, é legítimo que as pessoas expressem sua opinião", afirmou Cardozo. "Mas não é legítimo que pratiquem atos de vandalismo e violência."

Além dos confrontos na capital paulista, protestos semelhantes foram registrados nos últimos dias nas cidades de Porto Alegre, Santarém (PA), Santos, Natal e Rio de Janeiro.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jovens se articulam na contramão do pessimismo com 'Imagina na Copa'


Ônibus atrasado, aeroporto cheio, fila demorada, chope quente, sistema educacional precário... quem nunca reclamou desses problemas no Brasil?

Em uma tentativa de passar das lamentações para a ação, um grupo de quatro amigos que mora em São Paulo resolveu fazer algo a respeito. Pra isso, aproveitaram a frase que virou um dos bordões mais populares do país e criou o projeto "Imagina na Copa".

Só que nele a frase pessimista ganha uma conotação oposta, para incentivar iniciativas positivas e transformadoras que podem ser realizadas até o início do Mundial.

No site da organização (Imagina na Copa), um novo vídeo é incluído toda semana com uma nova história de um projeto criado por um jovem que, de um jeito ou de outro, está fazendo algo para tentar melhorar o país. A ideia é justamente dar visibilidade para essas iniciativas para que elas possam crescer.

"A Copa é um momento histórico e não podemos, de jeito nenhum, perder essa oportunidade. Só que, no nosso caso, preferimos não ficar só reclamando", diz Mariana Campanatti, uma das criadoras do Imagina.

"E então começamos a pensar em como reverter esse pessimismo e essa falta de ação", acrescenta outra sócia, Mariana Ribeiro. "Mostrar para essas pessoas que reclamavam que existem, sim, coisas legais acontecendo perto de onde vivem, feitas para mudar problemas à nossa volta."

Emprego na berlinda

E à medida que o projeto tomava forma na cabeça das duas e dos outros dois idealizadores, Fernanda Cabral e Tiago Pereira, eles começaram a questionar os próprios empregos e objetivos.

Foi nesse momento que Fernanda Cabral, outra sócia, percebeu que o Imagina na Copa seria apenas "uma paginazinha na internet ou uma coisa grande". Ela diz que a chamada rede de apoio dos quatro (formada especialmente por seus pais) topou bancá-los no começo, e eles então pediram demissão de seus empregos.

Em seguida, eles lançaram uma ação pra arrecadar dinheiro em um site de arrecadação coletiva de verbas, em que qualquer pessoa pode doar dinheiro para um projeto específico.

Com 294 doadores, eles conseguiram os R$ 25 mil que precisavam para investir em um site, em vídeos e na primeira oficina para capacitar jovens que pudessem repassar as ideias da organização e das ações selecionadas.

Segundo os idealizadores, os projetos geralmente são simples e fáceis de ser reproduzidos em outras partes do Brasil, e procuram resolver um problema real. É o caso, por exemplo, do "Que ônibus Passa Aqui?".

A iniciativa disponibiliza em seu site um adesivo usado para escrever qual ônibus passa em determinando ponto. E são os próprios cidadãos que imprimem e colam essa etiqueta nos pontos de ônibus da cidade.

Críticas

O "Que ônibus passa aqui?" foi criado em Porto Alegre, onde a Prefeitura sinalizou que ia bancar o projeto, mas acabou recuando - e foram jovens que acabaram adesivando os pontos cidade afora.

Ações como essa abrem espaço para a discussão sobre se o "Imagina na Copa" e seus incentivadores não estão cuidando de um problema que não é apenas da população, e, sim, do governo.

”Não estamos facilitando a vida da Prefeitura, mas, sim, a nossa vida", afirma Mariana Ribeiro. "Mostrar que dá para fazer algo, seja sinalizar as rotas de ônibus ou criar uma biblioteca ambulante, é um jeito de pressionar o governo."

As três meninas também dizem acreditar que a internet é a ferramenta ideal para reverter esse pessimismo pré-Copa, mas não pode ser a única.

“Não somos contra o ativismo de sofá, mas achamos que uma hora você tem que sair do sofá", diz Mariana Ribeiro, em referência a movimentos organizados principalmente em mídias sociais, que costumam ser criticados por não terem ações fora do ambiente online.

“São formas de ativismo complementares", afirma Mariana Campanatti. "Do seu sofá, você encontra pessoas com a mesma causa, que eventualmente saem de casa para realizar algo."

"Tudo bem a pessoa não fazer nada, mas ela tem que começar a pensar", acrescenta Fernanda. "A reflexão é para todos, a ação, não."

Veja abaixo alguns dos projetos que ganharam o apoio dos criadores do "Imagina na Copa".

Projeto ATADOS

Em uma história que se assemelha à do próprio Imagina na Copa, o projeto Atados foi criado por três amigos formados em administração na USP.

É uma espécie de rede social que ajuda pessoas que querem fazer trabalho voluntário, mas não sabem direito por onde começar.

No site, que centraliza essas vagas, a pessoa se cadastra e começa a procurar ações ou causas das quais gostaria de participar.

Há dezenas de instituições cadastradas, como a Fundação Gol de Letra e o Instituto Alana. Feita a escolha, o site faz a ponte entre voluntário e instituição.

Uma das ações que mais chamaram a atenção foi a participação de voluntários para organizar a festa de casamento entre dois idosos que viviam em uma casa de repouso.

Para as fundadoras do Imagina na Copa, o site é um exemplo de projeto inovador pensado e colocado em prática por jovens.

Projeto PRAIA da ESTAÇÃO

Os motivos para Fernanda Cabral, do Imagina na Copa, adorar o projeto Praia da Estação vão além do fato de ele acontecer em sua terra natal, Belo Horizonte. "É uma ação que nos faz reviver a cidade, de uma forma diferente e criativa", diz.

O projeto surgiu como reação a um decreto da prefeitura de BH proibindo eventos na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da cidade. Um blog anônimo foi criado em seguida, convocando os moradores a irem ao local, como forma de protesto.

Hoje, o local abriga shows, festas e apresentações, sempre com um lado divertido, com pessoas levando seu guarda-sol para dar um caráter de praia e slogans do tipo: "Ei, polícia, a praia é uma delícia".

Projeto BIBLIOCICLETA

O projeto de um jovem da cidade baiana de Simões Filho, a cerca de 25 quilômetros de Salvador, chamou atenção do Imagina na Copa por ser simples, barato e viável também em outras cidades. O Bibliocicleta foi criado a partir de um trabalho de conclusão de curso de Design, na Universidade Federal da Bahia.

Nele, uma bicicleta é adaptada - com materiais simples como tubos de PVC - para se tornar uma bibilioteca itinerante.

Quando a bicicleta chega em um bairro, crianças e jovens podem escolher os livros (recebidos por doações) e ficar com eles.

Hoje, há oficinas em diversos Estados para se ensinar como se adapta a bicicleta.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Leading pediatricians' group backs same-sex marriage

The nation's most influential pediatrician's group has endorsed same-sex marriage, saying a stable relationship between parents regardless of sexual orientation contributes to a child's health and well-being.

The new policy of the American Academy of Pediatrics, published online Thursday, cites research showing that the parents' sexual orientation has no effect on a child's development. Kids fare just as well in same-sex or straight families when they are nurturing and financially and emotionally stable, the academy says.

Separately, a new national survey shows the nation's views on same-sex marriage are more favorable -- in large part because of a shift in attitudes among those who know someone who is gay or became more accepting as they got older of gays and lesbians.

The Pew Research Center poll also finds that a large group of younger adults who tend to be more open to gay rights is driving the numbers upward.

The issue has grabbed the national spotlight recently with the public embrace of same-sex marriage by Democrat Hillary Rodham Clinton and Republican Sen. Rob Portman of Ohio.

The pediatricians' academy says a two-parent marriage is best equipped to provide that kind of environment. The new policy says that if a child has two same-sex parents who choose to marry, "It is in the best interests of their children that legal and social institutions allow and support them to do so."

The policy cites reports indicating that almost 2 million U.S. children are being raised by same-sex parents, many of them in states that don't allow gays to marry.

Officials with the academy said they wanted to make its views known before two same-sex marriage cases are considered by the U.S. Supreme Court next week.

"We wanted that policy statement available for the justices to review," said Dr. Thomas McInerney, the academy's president and a pediatrician in Rochester, N.Y.

The pediatricians' stance is not surprising. They previously joined other national groups, including the American Medical Association, in supporting one of the Supreme Court cases that contends the Defense of Marriage Act is unconstitutional. The academy also previously supported adoption by same-sex parents.

The academy's statement notes that several other national health groups have supported same-sex marriage. Those are the American Academy of Family Physicians, the American Psychiatric Association, the American Psychological Association and the American College of Nursing.

Dr. Ben Siegel, a Boston pediatrician and chairman of an academy committee that developed the new policy, said its focus is on "nurturing children. We want what's best for children."

Commenting on the new national survey, the Pew center's director, Michael Dimock, says, "We've certainly seen the trend (in support of same-sex marriage) over the last ten years. But we're now really in a position to talk about the combination of generational change and personal change that have sort of brought the country to where it is today."

Overall, the poll finds 49 percent of Americans favor allowing gay men and lesbians to marry legally, and 44 percent opposed to the idea. That's more people now favoring same-sex marriage than opposing it. A decade ago, 58 percent opposed it and a third supported it.

The 49 percent who now support same-sex marriage includes 14 percent who say they have changed their minds.

Informação divulgada através do portal da rede de notícias CBS.