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terça-feira, 26 de março de 2013

Opinião: trânsito, violência e comportamento social.

Violência no trânsito.

Todos somos vítimas e algozes em uma realidade que insistimos em não modificar.

No relatório mundial sobre a situação da segurança rodoviária apresentado pela Organização Mundial da Saúde – OMS, com informações de 182 países, o número de vítimas de acidentes envolvendo veículos em 2010 foi 1.24 milhão, a maioria homens com idade inferior a 44 anos.

De acordo com esses dados, das 37.594 vidas perdidas em acidentes de trânsito no Brasil em 2009 (pág. 88 do relatório), 9.398 pessoas eram motociclistas (25%), 8.647 pedestres (23%), 8.271 ocupantes de veículos de passeio (22%), e 1.504 ciclistas (4%), entre outras perdas inscritas em categorias diferentes. E se a informação oficial brasileira é alarmante, pois se equipara aos índices advindos de nações onde existem conflitos armados, não menos importante, deveria ser a atenção oferecida pelo poder público e sociedade civil organizada, à população afetada direta e indiretamente por essa verdadeira catástrofe.

Mães, pais, irmãos, familiares e amigos que perderam entes queridos em situações tão violentas e inesperadas como são os desastres no trânsito, precisam receber acompanhamento emocional, entre outros. E a ausência e/ou ineficiência do Estado em mais essa área, possivelmente estarão associadas não apenas à perspectiva de futuro adoecimento em Saúde Mental de parte dessa população, como também podem estar ligadas à própria situação recorrente de imprudência, irresponsabilidade e insegurança que continua a originar tantas mortes e sofrimento. Pois na mesma medida em que ações de fiscalização efetivamente reduzem os acidentes ocasionados por alcoolemia, por exemplo, o abandono de rodovias, a ineficiência na fiscalização sobre veículos e a capacidade efetiva dos seus condutores, e a ausência do estado, assim como da Sociedade em sua capacidade de indignar-se e exigir mudanças de atitudes, sobre motoristas e motociclistas imprudentes, obviamente, contribuem na composição da realidade que aflige a todos, sem distinção.

Falham as autoridades, das que desviam recursos e são incompetentes para gerir as organizações essenciais à promoção de qualidade de vida para a população, às que não fiscalizam vias, veículos, motoristas e transeuntes, por omissão ou conivência com a falta de estrutura que lhes é ofertada. Falham os condutores, ciclistas e pedestres, despreparados e imprudentes, assim como os familiares e amigos que os cercam, sem interferir em suas atitudes. E falha a sociedade, como instituição, indiferente, egoísta e individualista, ao atribuir sempre “ao outro” a responsabilidade por quaisquer obrigações e ônus.

Repensar a sociedade, seus vínculos emocionais, sociais/relacionais, culturais, e a percepção de realidade e responsabilidades, é imperativo para que mudanças comportamentais reais sejam alcançadas. Aliás, segundo a base de dados DATASUS do Ministério da Saúde, em 2010 o Brasil perdeu 42.844 pessoas no trânsito, cinco mil a mais que no período avaliado pela OMS.

Não podemos saber que 40 mil pessoas foram mortas e simplesmente continuarmos o nosso cotidiano, como se fossem só estatísticas. Não há estabilidade emocional capaz de elaborar essa realidade, violenta e recorrente, sem que haja sensível desumanização.

Autor: Dr. José T. Thomé.
Psiquiatra-Psicoterapeuta (ABP/AMB)
Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética / Cátedra UNESCO de Bioética,
Vice-presidente da Secção Psiquiatria e Intervenção em Crises da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA),
Vice- presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia-ABRAP

Coordenador do Curso Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras do Inst. Sedes Sapientiae-SP.
Artigo divulgado através do portal da Rede Ecobioética.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Opinião: tratamento após a tragédia em Santa Maria-RS

Impacto emocional e tratamento após tragédias.

Vivemos um momento de dor, e eu não desejo manifestar-me como “oportunista” a partir de um acontecimento tão triste como o que ocorreu em Santa Maria, no dia 27 passado. A dimensão do sofrimento que sentem os pais que perderam seus filhos, os amigos, professores e pessoas das comunidades que foram violentadas por essa tragédia, somente eles próprios podem descrever. E como brasileiro, eu anseio por estender a todos a minha solidariedade.

Na condição de médico especializado em psiquiatria e psicoterapia, que há quase três décadas estuda e trata os impactos emocionais e consequências psíquicas que afligem populações expostas em desastres, entretanto, devo alertar as autoridades do Estado do Rio Grande do Sul e do Ministério da Saúde, sobre algumas características de eventos como esse. Por exemplo, sobre a necessidade de comprometimento, e ações efetivas e duradouras, no sentido de prevenir e, quando necessário, oferecer tratamento em Saúde Mental, para as pessoas afetadas direta e indiretamente pelo incêndio.

Após desastres de natureza antropogênica, em que estão presentes características como as que foram noticiadas nas últimas semanas, as reações iniciais das pessoas são explosivas e se manifestam sob forma de desespero, revolta e intenção de identificar e punir as pessoas envolvidas em atitudes com influência direta sobre o desastre. Essas reações estimulam a impressão de que o problema será solucionado e, de alguma forma, a dor irá amenizar. Entretanto, na população afetada, o sentimento de perda e a percepção sobre a alteração imposta às suas vidas, emergirá com mais intensidade posteriormente. Por exemplo, para os alunos que retornarão às escolas e não encontrarão seus colegas, e para as mães que não terão mais a presença dos filhos durante o jantar. Será nesse período, semanas após as informações sobre a tragédia terem deixado os noticiários, que a presença de uma rede social de apoio, fundamentada em relações humanas, conhecimento especializado e confiança, poderá evitar que momentos de desordem emocional evoluam para quadros de adoecimento da sociedade.

Dimensionar o tamanho da população que deverá receber e poderá multiplicar iniciativas de suporte dentro dessa rede social, não é tarefa simples. Segundo dados da Rede Ibero-americana de Ecobioética / Cátedra UNESCO de Bioética, após catástrofes, surgem centenas de pessoas indiretamente afetadas emocionalmente, para cada indivíduo diretamente afligido no acidente. Assim, diante de uma situação extrema como a que está acontecendo em Santa Maria, sob a perspectiva da Saúde Mental - leia-se também promoção de Qualidade de Vida, não basta concentrar esforços em assistência às famílias que sofreram perdas, apenas durante os momentos iniciais. É necessário agir não somente sobre o momento, disruptivo e potencialmente traumatogênico, mas também por um período posterior longo, e contemplando todas as instâncias envolvidas na tragédia. Nesse caso, é indispensável identificar agentes multiplicadores e capacitar a mencionada rede social de apoio, que poderá amparar e acompanhar a população afetada, durante o doloroso período posterior ao acontecimento que modificou parte das suas histórias de vida.

É importante não esquecer que as famílias que hoje necessitam de apoio não sofrem de doença psíquica, e são compostas, na sua maioria, por pessoas estabilizadas, que foram submetidas em um momento de impacto emocional enorme, e compreensivelmente estão desestabilizadas, enquanto buscam representar psiquicamente o acontecimento que as abalou. Por isso, as iniciativas promovidas pelas autoridades não devem estar fundamentadas somente em consultórios, nem tampouco contemplar apenas ações terapêuticas emergenciais. Mas sim, promover políticas de reinserção, que considerem a realidade, a cultura, as tradições e as características humanas da população da região de Santa Maria, para reconstruir vínculos e o sentimento de segurança/confiança, entre pessoas, compreensivelmente, vulneráveis.

Infelizmente, a tendência em eventos que estimulam comoção nacional é revelar intervenções públicas pontuais e imediatistas, que oferecem apoio apenas durante o período mais agudo e recente do acontecimento, buscam acalmar a população, e a abandonam logo em seguida. Diante de uma situação tão desestabilizadora como a que ocorreu em Santa Maria, sem diminuir a importante contribuição humana e técnica que os profissionais voluntários ofereceram nos dias posteriores ao desastre, é indispensável observar e interagir em toda a cadeia de vínculos psico-relacionais que influenciam as pessoas afetadas pelo acidente. Afinal, não é possível, acreditar que pais que perderam filhos de forma tão abrupta, medicados ou não, participem em sessões semanais de psicoterapia e, em suas residências, atividades e cotidiano, acumulem suas emoções para expressá-las novamente, apenas na sessão da semana seguinte. Essas pessoas e toda a população que as cerca, precisam ser acompanhadas e receber apoio para que em conjunto, reconstruam os seus vínculos emocionais, sentimentos e tenham a percepção de sua resiliência, ou seja, a capacidade de se reconstruir depois de atingido pelo evento disruptivo. Nesse contexto, a contribuição oferecida por aqueles que eu denomino “cuidadores”, tais como educadores, sacerdotes, profissionais de assistência social, profissionais de saúde, autoridades e membros das comunidades locais, serão determinantes para reforçar a identidade e a união da população local.

Como referência do período de tempo em que as pessoas afetadas por desastres precisam receber acompanhamento especializado, e individualizado através de registro e consulta periódica aos seus históricos pré e pós evento, posso afirmar, com segurança e baseado em programas de apoio em situações análogas, que este não deve ser inferior a 3 anos. E, assim sendo, a diferença entre promoção de ações emergenciais, promessas e simples retórica política, e o suporte disponibilizado a partir capacitação da citada rede de apoio através de trabalho técnico/científico em Saúde, torna-se evidente.

A cultura e as tradições tão exemplarmente preservadas e presentes no estado do Rio Grande, são características facilitadoras para quaisquer políticas de reinserção e promoção de qualidade de vida, que sejam empreendidas na região. Assim sendo, caberá às autoridades municipais, estaduais e federais, a tarefa de somente cumprir os seus papéis, de forma responsável e integrada, para que o sofrimento gerado no último domingo de janeiro, não se perpetue durante anos, sob forma de adoecimento psíquico e comorbidades.

Autor: José Toufic Thomé
Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética / Cátedra UNESCO de Bioética,
Vice-presidente da Secção Psiquiatria e Intervenção em Catástrofes da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA),
Psiquiatra-Psicoterapeuta (ABP/AMB),
Coordenador do Curso Intervenções em Situações Limite Desorganizadoras do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Comunicado de APAL por la Tragedia de Santa María, Brasil


El Comité Ejecutivo de APAL expresa mediante este comunicado. su consternación, profundo dolor y solidaridad con el pueblo de Brasil y en particular con nuestros queridos colegas y hermanos de la Asociación Brasileña de Psiquiatría-ABP, por la tragedia ocurrida en una discoteca de la localidad de Santa María ubicada en Río Grande do Sul, que deja un terrible saldo de 238 jóvenes muertos y centenares de heridos.

Una vez más se reitera, con características casi idénticas, la sumatoria de factores de riesgo colectivo que segaron la vida de dos centenares de jóvenes en el local bailable Cromagnon de Buenos Aires, Argentina, la madrugada del 30 de diciembre de 2004. que consideramos merece la pena enumerar: negligencia criminal y dolo en los responsables de su funcionamiento y habilitación, costumbre de efectuar festejos pirotécnicos como parte del show en locales cerrados, presencia de materiales de aislamiento acústico venenosos a la combustión, con la consecuente muerte por inhalación de gas cianhídrico, sobrecarga de público, muy por encima de la capacidad prevista del local, con mínimas salidas de emergencia, causales de muerte por aplastamiento en los intentos desesperados por salir.

Todo configura una combinación letal similar que enluta a Brasil y nuevamente a toda Latinoamérica y que, además del terrible saldo de victimas fatales, dejará múltiples secuelas psico-traumáticas en los sobrevivientes y familiares de los fallecidos.

Como especialistas de psiquiatría, invitamos a las autoridades y asociados de todas las entidades de integran APAL, como una modesta contribución desde nuestro rol a todo lo que debe hacerse para que estos hechos luctuosos no vuelvan a repetirse, a planificar y participar en actividades de prevención, psicoeducación y toma de conciencia destinadas a la comunidad, referidas a posibles catástrofes sociales similares a la descrita.

Consideramos que lo acontecido no puede ser considerado simplemente un terrible, accidente, sino la resultante de una forma más de imprevisión y violencia
social que afecta a nuestros jóvenes y a la sociedad en su conjunto, que pueden y deben ser modificadas mediante el esfuerzo conjunto de todos.

Dr Alfredo Cía
Presidente

Dr Rodrigo Córdoba Rojas
Vicepresidente

Prof Juan Carlos Stagnaro
Secretario General