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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O mapa de esquizofrenia


Cientistas registram a atividade cerebral de camundongos com sintomas da doença.

Um experimento de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, poderá abrir frente para novos tratamentos da esquizofrenia, um transtorno mental que afeta 1% da população mundial.

Pela primeira vez, os pesquisadores conseguiram mapear a atividade cerebral que parece produzir a desorganização mental característica da doença, geralmente também acompanhada de delírios e alucinações. "Nossos resultados não são práticos no momento, mas certamente irão proporcionar uma nova forma de olhar para o mecanismo de ação dos atuais tratamentos e medicamentos antipsicóticos e levar a uma nova intervenção terapêutica" afirmou ao GLOBO um dos coordenadores da pesquisa, o professor Junghyup Suh. Para realizar o teste, pesquisadores do Instituto de Ciência do Cérebro Riken do MIT gravaram as oscilações das ondas cerebrais do hipocampo de camundongos, entre eles, alguns geneticamente modificados para apresentar sintomas semelhantes à esquizofrenia. Estes não produziam uma proteína chamada calcineurina, uma vez que mutações no gene que produz esta substância já tinha sido percebida em pacientes com o transtorno mental.

Os camundongos com proteína bloqueada tendiam a ter perda de memória de curto prazo, assim como comportamento social anormal e déficit de atenção.

DESORGANIZAÇÃO MENTAL EM ESQUIZOFRÊNICOS

Os roedores foram colocados num labirinto. No período de descanso, o cérebro dos animais normais ativava as células de localização do hipocampo na mesma ordem em que eles tinham percorrido o trajeto imposto. Aqueles com o transtorno, ao contrário, ativavam todas as células de localização ao mesmo tempo e em níveis anormais. Isto sugere, segundo os cientistas, que eles têm uma desorganização neuronal que os impede de repetir mentalmente uma rota que eles tinham acabado de fazer.

O artigo publicado na “Neuron” exemplifica que em camundongos normais o papel da calcineurina é reprimir a conexão entre os neurônios, as sinapses, no hipocampo. Em roedores sem a calcineurina, um fenômeno conhecido como potenciação de longo prazo (aumento rápido da resposta entre as sinapses) se tornava mais prevalente.

Os pesquisadores acreditam que a atividade anormal vista no hipocampo pode ocorrer por uma interrupção da chamada rede de modo padrão do cérebro, uma rede de comunicação que liga o hipocampo, o córtex pré-frontal e outras partes do córtex. Esta rede é mais ativa quando o indivíduo (ou no caso o roedor) está descansando entre tarefas determinadas. Quando o cérebro foca numa atividade, a rede de modo padrão é desligada.

Entretanto, esta rede é hiperativa em esquizofrênicos tanto antes quanto durante as tarefas que requerem foco. Eles geralmente não desempenham bem estas tarefas. "A possível terapia teria uma abordagem neurobiológica para diminuir a atividade cerebral na rede de modo padrão, para, assim, aliviar os sintomas e até curar o transtorno mental" acrescentou o pesquisador.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a esquizofrenia afeta cerca de 24 milhões de pessoas no mundo. O transtorno é tratável, mas a terapia é mais eficiente se ocorrer no estágio inicial.

Ele acomete principalmente jovens do sexo masculino. Mais de 50% dos esquizofrênicos, entretanto, não recebem os cuidados necessários, e mais de 90% destes estão em países em desenvolvimento, como o Brasil.

Tema que inspira uma série de filmes e livros, a esquizofrenia é conhecida de boa parte da população, mas cujos avanços não acompanham sua popularidade. Aqueles que sofriam do transtorno já foram tachados de possuídos por demônios, eram temidos e exilados. Apenas nos últimos 60 anos é que vieram os maiores progressos, com a chegada dos medicamentos anti-psicóticos. A própria equipe que realizou o experimento no MIT vem, há pelo menos uma década, investigando possibilidades de tratamento.

Em 2003, o grupo conseguiu mostrar que pacientes com esquizofrenia tinham mutações no gene responsável pela produção da calcineurina. Este não é, no entanto, o único a influenciar no aparecimento da doença. Na verdade, há vários genes suscetíveis à esquizofrenia, já que se trata de um transtorno mental de genes múltiplos que podem, também, ser afetados pelo meio ambiente.

É difícil afirmar que um gene é mais importante do que outros. Também estão entre eles: Catecol O-Metiltransferase (COMT), Neurogulin 1 (NRG1) e proteína 1 interrompida na esquizofrenia (DISC1). "Quero ressaltar, ainda assim, que nenhum dos estudos chegou a investigar as mudanças ou anormalidades no processamento da informação numa única célula ou num circuito como fizemos nesta pesquisa" defendeu Suh.

Informação divulgada no jornal O Globo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Testes podem detectar esquizofrenia no ‘olhar’, indica estudo.



Segundo estudo divulgado em novembro e publicado pela Biological Psychiatry, um modelo de testes de olhar teve 98% de precisão em distinguir pessoas com e sem esquizofrenia. A descoberta, dizem os pesquisadores, pode agilizar o diagnóstico da doença.

Os autores do estudo, que pertencem à Universidade de Aberdeen (Grã-Bretanha), agora investigam se isso pode servir para que, identificado o mal, o tratamento dos sintomas seja feito com mais rapidez. O estudo foi liderado pelos professores Philip Benson e David St Clair, que explicam que pesquisas prévias já indicavam a relação entre esquizofrenia e alterações no movimento dos olhos.

A pesquisa da Universidade de Aberdeen usou diversos testes de olhar, nos quais era pedido que voluntários acompanhassem com os olhos objetos que se moviam lentamente; que observassem uma variedade de cenas do dia a dia; e que mantivessem um olhar fixo sobre um alvo parado. "As pessoas com esquizofrenia têm déficits já bem documentados na habilidade de acompanhar com os olhos objetos em movimento lento", explica Benson, em comunicado da universidade. "Seu movimento dos olhos tende a não acompanhar o objeto a princípio, e depois fazê-lo usando movimentos rápidos dos olhos."

O teste de cenas do dia a dia mostrou que "portadores de esquizofrenia têm um padrão anormal (de observação)", diz ele. No último teste, de fixar-se em um objeto parado, esses portadores "têm dificuldades em manter um olhar fixo".

A equipe de Benson e St Clair realizou seu estudo com 88 pacientes diagnosticados com esquizofrenia e 88 pessoas em um grupo de controle.

Diagnóstico clínico

Para Benson, "sabe-se há mais de cem anos que indivíduos com doenças psicóticas têm diversas anormalidades no movimento dos olhos. Mas, até a realização do nosso estudo, usando uma nova bateria de testes, ninguém pensou que essas anormalidades eram sensíveis o bastante para serem usadas como forma de diagnóstico clínico".

Seu colega St Clair explicou que, atualmente, o diagnóstico da esquizofrenia é feito "apenas com (a análise) de sintomas e de comportamento", na ausência de exames de sangue ou de tomografias para isso. "Se você tem sintomas de distúrbios, o diagnóstico é fácil. Mas há muitos pacientes (cujo diagnóstico) não é tão simples", agrega. "É (um procedimento) caro, que consome tempo e requer indivíduos altamente treinados. Em comparação, esses testes de olhar são simples, baratos e podem ser feitos em questão de minutos."

Segundo ele, isso significa que um modelo semelhante ao usado no estudo poderia ser aplicado em hospitais e clínicas. "O próximo passo é descobrir quando essas anormalidades são passíveis de serem detectadas pela primeira vez e se isso podem ser usado como pontos de referência para estudos de como intervir na doença".

Associações ligadas ao tratamento de esquizofrenia no Brasil dizem que a doença atinge 0,7% da população, o que pode equivaler a 1,2 milhão de pessoas.

O portal da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre) reúne informações interessantes sobre assuntos relacionados à doença. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pesquisa indica que uso de avatares ajuda a tratar esquizofrenia.

Uma pesquisa britânica indica que o uso de avatares pode ajudar no tratamento de pacientes esquizofrênicos, que escutam vozes. O estudo, divulgado na publicação científica British Journal of Psychiatry e conduzido por uma equipe da University College London, se concentrou em pacientes que não responderam à medicação padrão usada para tratar da doença.

Os pacientes criaram avatares, escolhendo um rosto e uma voz que combinavam com as vozes dentro de suas cabeças. Depois de seis sessões de terapia, quase todos os 16 pacientes que terminaram o tratamento disseram que as vozes melhoraram, e três deles disseram que as vozes pararam completamente.

Confrontando

O estudo, liderado pelo psiquiatra e professor emérito da University College London, Julian Leff, comparou 14 pacientes que se submeteram à terapia com avatares com 12 pacientes que receberam a medicação antipsicótica padrão e tiveram sessões ocasionais de terapia. Mais tarde os pacientes do segundo grupo também se submeteram à terapia com avatares.

Leff falou com os pacientes por meio de seus avatares em sessões de terapia. Aos poucos, ele treinou os pacientes a confrontar as vozes. "Eu incentivo o paciente dizendo: você não pode aceitar isso, você deve dizer ao avatar que o que ele, ou ela, está dizendo é um absurdo, que você não acredita nessas coisas, e que ele, ou ela, deve ir embora, e deixá-lo em paz. Você não precisa desse tormento," disse Leff.

"Gradualmente o avatar muda de atitude dizendo, 'tudo bem, vou te deixar em paz. Eu sei que tornei sua vida muito infeliz, como posso te ajudar?' E então começa a incentivá-los a fazer coisas que podem melhorar suas vidas," contou Leff.

No final do tratamento, os pacientes disseram que ouviam as vozes com menos frequência e que não ficavam mais tão perturbados com elas. Os níveis de depressão e os pensamentos suicidas também diminuíram, o que é particularmente relevante em um grupo de pacientes onde um em dez tenta o suicídio.

Alta taxa de abandono

O fato de apenas 16 dos 26 pacientes terem completado o tratamento foi atribuído pelos pesquisadores ao medo incutido pelas vozes que os pacientes escutam, algumas das quais "ameaçaram" ou "intimidaram" os pacientes a deixar a terapia. Novas opções de tratamento foram aceitas por um em cada quatro pacientes com esquizofrenia que não respondem à medicação. A terapia cognitiva comportamental pode ajudá-los a lidar com as vozes, mas não costuma aliviá-las.

Um estudo maior, com 142 pacientes, está previsto para começar no mês que vem em colaboração com o Instituto de Psiquiatria do King’s College London.

O professor Thomas Craig, que vai conduzir o estudo maior, disse: "A beleza da terapia com avatar é sua simplicidade e coragem. A maioria das terapias para esse tipo de doença é cara e demorada."

"Se nós mostrarmos que este tratamento é eficaz, esperamos que ele esteja amplamente disponível no Reino Unido em apenas dois anos. A tecnologia básica usada no tratamentos está bem desenvolvida, e muitos profissionais de saúde mental já têm as habilidades terapêuticas necessárias para aplicá-lo."

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Psiquiatra português desfaz mitos sobre "Uma mente brilhante"

Esquizofrenia não tem de ser incapacitante, segundo livro de Pedro Afonso

Há quem, na mente, esconda segredos bem guardados – uma psicose, um brilhantismo caótico ou até a simples alienação. A esquizofrenia é desordem cerebral crónica grave e destabilizadora, mas “não tem de ser incapacitante”, assegura Pedro Afonso em seu livro, recentemente publicado através da Princípia Editora e já nas livrarias.

Trata-se de uma desorganização ampla dos processos mentais e ainda “não existem evidências de factores causadores da doença; por isso, continua a encerrar vários mistérios, nomeadamente sobre a sua origem”, segundo assinalou o psiquiatra em entrevista ao portal Ciência Hoje, mas que foi derrubando tabus à medida que a conversa foi avançando.

A obra "Esquizofrenia" contém referências bibliográficas atualizadas, de forma a responder a muitas dúvidas sobre a doença; assim como “desfazer mitos que lhe são associados e que pioram o estigma social, dificultando a reabilitação dos doentes”, explicou o autor. É uma publicação que procura “conciliar o rigor técnico e científico com um forte sentido prático, para o público interessado”, sejam estes doentes, familiares ou até pessoas ligadas à área.

Além de elucidar as questões mais frequentes – “Como a controlar? O que fazer perante o diagnóstico? Quais os tratamentos? Quais as causas que levaram ao seu aparecimento? Como lidar com um doente esquizofrénico?”, entre outras –, o livro lançado em Portugal ainda reúne algumas informações sobre unidades de apoio em todo o país.

As funções intelectuais do afetado são perturbadas e isso pode acarretar rapidamente a alienação de tudo o que se passa à sua volta. “O fundo é o paradigma da loucura e é nesse sentido que comporta mitos intemporais”, continuou, acrescentando: “É como se o homem perdesse as suas características humanas transformando-se em algo bizarro”.

Pedro Afonso sublinhou, no entanto, que um esquizofrênico pode, de fato, levar uma vida praticamente normal, desde que medicado. Com apoio, “é possível que muitos doentes voltem a estudar e a ter uma profissão”. O autor ressalvou que existem diferentes espectros de gravidade – uns podem ser mais agressivos e evoluem nesse sentido e outros, menos graves, conseguem levar uma vida construtiva. “Sendo assim, vale a pena falar em ‘esquizofrenias’ (no plural)”, enfatizou.

Antipsicóticos e dopamina

“Tem havido um avanço em nível de antipsicóticos atípicos, com menos efeitos secundários”, disse. Na fase residual da doença, os sintomas – classificados de ‘negativos’ – são frequentemente “o isolamento, a apatia, a dificuldade em planejar tarefas e um nível afetivo ‘apagado’”. Já na fase aguda – onde as manifestações são conhecidas como ‘sintomas positivos’ – surgem as alucinações, as ideias delirantes, desordens no pensamento e no movimento.

Os primeiros são mais difíceis de reconhecer e podem ser confundidos com preguiça ou depressão; assim como os 'sintomas cognitivos', que afetam a atenção, certos tipos de memória e a capacidade de cálculo – sendo estes os mais incapacitantes para levar uma vida normal. Contudo, é um transtorno psíquico tão complexo que “surge de forma insidiosa, sem que o próprio se aperceba” e o diagnóstico é “por exclusão”.

A título de exemplo, conta: “Um jovem que consuma haxixe ou cannabis pode desenvolver um quadro muito semelhante ao do esquizofrênico, mormente delírios e alucinações. Se de fato sofrer desta enfermidade, só com o tempo e a abdicação do consumo é que se poderá saber se a psicose é induzida, confundindo o médico, ou se realmente evolui” – por já ter uma predisposição latente para a esquizofrenia.

Tal como muitas outras doenças mentais, acredita-se que esquizofrenia seja uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Existe tratamento (antipsicóticos e terapia psicossocial), mas não há cura e, por isso, os fármacos centram-se apenas na eliminação dos sintomas. Os medicamentos atuam na dopamina (essencialmente, devido ao excesso de dopamina na via mesolímbica e falta dela na via mesocortical) e outros neurotransmissores.

O suicídio

É uma condição psicótica que afeta 60 milhões de pessoas no mundo e já que os principais sintomas incluem: escutar vozes e acreditar que outros estão lendo e controlando os seus pensamentos ou conspirando para prejudicá-las. Essas experiências são aterrorizantes e podem causar medo, recolhimento ou agitação extrema. Pessoas com esquizofrenia podem falar ou fazer coisas que não fazem sentido, ficarem sentadas horas sem se moverem, falar muito pouco, ou parecer perfeitamente bem até dizerem o que realmente estão a pensar.

Por todas estas razões, é uma doença com elevada prevalência de suicídios – cenário considerado como a situação limite. “O sofrimento em termos psíquicos, na sequência de alucinações (vozes que ouvem e que lhes dizem o que fazer) é demasiado angustiante”.

Exemplos conhecidos são os de Ian Kevin Curtis (Julho de 1956 - Maio de 1980), vocalista, compositor, guitarrista ocasional da banda Joy Division, assim como um dos fundadores, suicidou-se em casa aos 24 anos. Também Van Gogh (Março de 1853 - Julho de 1890), aclamado pintor holandês, considerado o pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas e cujo talento só foi reconhecido após a sua morte, sucumbiu à doença, suicidando-se aos 37 anos.

Pedro Afonso salientou igualmente que estes doentes são inimputáveis – porque perdem o discernimento sobre a realidade e a capacidade de distinguirem o lícito do ilícito. Experienciam “uma vivência delirante de perigo iminente” e podem agredir qualquer pessoa quando se encontram “em contexto psicótico” ou sentirem que “devem andar armados para se defenderem”.

O doente e o mito

O médico psiquiatra desfaz outro dos mitos, referindo que não é uma doença associada à genialidade ou a mentes criativas, ou seja, “é uma doença transversal que pode afetar qualquer pessoa, de todos os quadrantes sociais, raças ou capacidades intelectuais”.

Se nos lembrarmos de John Nash, matemático norte-americano retratado no filme "Uma Mente Brilhante", foi professor e Prémio Nobel da Economia que apesar do desafio de conviver por toda a vida com os sintomas típicos, foi um intelectual importante e deixou grandes contribuições às áreas de economia, biologia e teoria dos jogos. Depois de 1970, à sua escolha, deixou a medicação antipsicótica. Segundo Nasar, biógrafa de Nash, este Nobel começou a desenvolver uma recuperação gradativa. Contudo, “a doença não esteve relacionada com o seu elevado nível intelectual”, como afirmou o especialista.

Apesar das várias hipóteses de explicação sobre a origem da esquizofrenia, nenhuma delas individualmente consegue dar uma resposta satisfatória. Pedro Afonso aconselha: “Em caso de dúvida, recomenda-se a observação por um médico, antes que seja diagnosticada tardiamente”.




O psiquiatra e autor Prof. Doutor Pedro Afonso.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Opinião: Políticas públicas e leitos psiquiátricos

Para onde irão os pacientes?

No final de 2012, o Sindicato dos Hospitais do Estado de São Paulo (Sindhosp) fez um alerta público sobre fechamento de mais de 600 leitos psiquiátricos em território paulista, consequência da extinção de dois hospitais especializados na região de Sorocaba. A medida segue uma linha de raciocínio, uma ideologia, na qual os hospitais não são mais necessários à rede de atenção à saúde mental do País. Semanas após o alerta, outro baque veio à tona: as prefeituras de Sorocaba, Salto de Pirapora e Piedade assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Públicos Federal e o Estadual, comprometendo-se a transferir 2.700 pacientes, hoje internados, para comunidades terapêuticas e Centros de Atenção, Psicossocial (CAPs) num período máximo de três anos.

Enquanto isso, na capital, o governador Geraldo Alckmin anunciou, nos primeiros dias de 2013, que o poder público investirá na internação compulsória de viciadòs em crack. Segundo o governo, esses pacientes serão encaminhados ao Centro de Referêcia de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), serviço inaugurado na região da Nova Luz justamente para tentar atender às necessidades daqueles que habitam as “cracolândias” da região central da cidade.

O problema das drogas, no entanto, não acaba nos limites da Grande São Paulo. Em especial o do crack, que ganha novos adeptos a cada ano e já constitui uma questão de saúde pública. Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), amplamente divulgada em 2010, revelou que 98% de 3.950 cidades brasileiras já enfrentam problemas com o crack. O trabalho da CNM não se encerrou na pesquisa e ganhou continuidade com o lançamento de um Observatório do Crack, que revelou recentemente outro dado preocupante: 996 dos municípios paulistas registraram, em seus serviços de saúde, mais atendimentos relacionados ao crack do que ao álcool. Em 47% das cidades, o crack também já é o primeiro motivo de atendimento entre as drogas ilícitas. Estima-se que no Brasil 2 milhões de pessoas sejam usuárias de crack. Esse número pode estar negligenciado, dizem especialistas. Além dessa grave epidemia, vivemos uma crescente demanda por atendimentos em saúde mental, que deve agravar-se até 2020, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A depressão, por exemplo, chegará a ocupar a segunda posição entre as doenças mais recorrentes no mundo. Hoje ela afeta 340 milhões de pessoas e é responsável por 900 mil suicídios / ano. Não à toa, uma das principais campanhas deflagradas pelo órgão em 2012 foi "Investir em Saúde Mental"; Segundo a OMS, faltam recursos financeiros e profissionais capacitados, principalmente em países de baixa e média renda.

Caso do Brasil, que investe apenas 2% de seus recursos federais reservados à saúde para a assistência em saúde mental. Nosso país também ignora terminantemente as recomendações da OMS de se manter um leito psiquiátrico para cada mil habitantes. Em São Paulo, o maior polo de saúde do País, temos pouco mais de 13 mil leitos de internação para o tratamento de doentes mentais. Isso equivale a uma relação de 0,23 leito por mil habitantes. A média nacional é ainda pior são 35 mil leitos, ou 0,18 para cada grupo de mil habitantes.

Os números preocupam porque revelam um cenário sucateado, cuja rede de atenção simples; mente inexiste. É a chamada desassistência, que deixa na mão aqueles que precisam de internação e também os que necessitam de acompanhamento psicológico e social para seguir o seu caminho. Afinal, os Centros de Atenção Psicossocial, propagados como serviço de primeira ordem na hierarquia da política do Ministério da Saúde, ainda são insuficientes para atender à demanda de indivíduos que precisam de continuidade no tratamento. Aliás, a rede de atenção à saúde mental deve contemplar todas as fases do tratamento, incluindo o hospital especializado, os CAPs, residências terapêuticas e outras formas de atendimento extra-hospitalar.

Sem entrar no mérito da polêmica da internação compulsória e partindo do princípio de que haverá vaga para todos os viciados em crack, pergunto-me: para onde serão encaminhadas as pessoas após o período de internação e desintoxicação? Sabe-se, por exemplo, que, mesmo sob acompanhamento médico e psicossocial, usuários de crack reincidem na droga em 70% dos casos.

Embora tenhamos todos a convicção de que o modelo dos manicômios tenha ficado para trás, não podemos aceitar, enquanto representantes da sociedade civil organizada, que a população fique sem assistência. E que os hospitais especializados sejam sufocados pelo Ministério da Saúde, por causa de uma política irresponsável de pagamentos irrisórios, obrigando essas instituições a fechar as portas. Só para ter uma ideia, o Sistema Unico de Saúde (SUS) reembolsa uma diária hospitalar em saúde mental a partir de R$ 35, incluindo cinco refeições, atendimento médico, de enfermagem, medicamentos, terapia ocupacional e tudo o que envolve a especialidade. Essa prática levou, de 2001 para cá, ao fechamento de 84 mil leitos psiquiátricos no País.

Afinal, para onde irão os viciados em tratamento? Para onde seguirão os 2.700 pacientes internados em hospitais psiquiátricos na região de Sorocaba? Para onde irão os esquizofrênicos graves, os que estão em surto psicótico, os que correm risco de suicídio? Os hospitais psiquiátricos podem e devem existir, como um braço de assistência para os casos graves, que necessitam de internação e cuidados especiais. É preciso acabar com a inquisição propalada pelos movimentos anti-manicomiais, que contaminaram as esferas de governo. É preciso focar nossos esforços, acima de tudo, na prevenção e na educação da sociedade sobre como lidar com os nossos pacientes, muitos deles ignorados pelas famílias e marginalizados aos nossos olhos anestesiados pela suposta normalidade.

Autor: Yussif All Mere Jr.
(médico e presidente do SINDHOSP)
Artigo veiculado no jornal O Estado de São Paulo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Equipe de Psicossomática Psicanalítica / Instituto Sedes Sapientiae-SP

SOLIDARIEDADE AOS COLEGAS DO CRIA DA UNIFESP

Nós da equipe de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae manifestamos nossa total solidariedade a toda a equipe do Centro de Referência da Infância e da Adolescência - CRIA da UNIFESP, indignados diante da determinação da Secretaria da Saúde do Governo do Estado de SP que encerra o apoio financeiro que há mais de dez anos vinha viabilizando o trabalho desses profissionais.

Há mais de 30 anos, são conhecidos a importância e o alcance do trabalho dessa equipe estruturada a partir das atividades pioneiras de Raul Gorayeb e Oswaldo Di Loreto entre muitos que lutaram por atendimentos dignos no campo da Saúde Mental infantil e adolescente no Brasil, principalmente junto à população absolutamente carente de serviços para lidar com seu sofrimento psíquico.

Repudiamos a justificativa da Secretaria da Saúde para tal interrupção, alegando que serviços de saúde mental inspirados pela prática psicanalítica "não contam com eficácia comprovada" e não fazem parte da "mainstream" da psiquiatria atual.

Consideramos essa alegação mais uma manifestação de atitudes discriminatórias que, infelizmente, vem sendo observadas de forma cada vez mais frequente, intensa e intimidatória nos serviços públicos de Saúde Mental, instituições, CAPs e congêneres.

Acreditamos e defendemos o respeito à pluralidade de olhares, compreensão e de abordagens terapêuticas que tentam lidar com o sofrimento humano, reconhecendo serem elas, sobretudo, fruto das histórias transferenciais, clínicas e identificatórias da formação dos profissionais que buscam, todos, oferecer o que tem de melhor para os pacientes.

É lamentável que equipes e trabalhos sérios na área de Saúde Mental, construídos ao longo de anos de forma cuidadosa e com imenso esforço individual e coletivo sejam inviabilizados de forma intempestiva a partir de posições preconceituosas, desconsiderando as necessidades e a realidade clínica individual e social dos pacientes e da população atendida nesses serviços.

Consideramos ser mais grave ainda, do ponto de vista ético, o desrespeito aos vínculos terapêuticos, institucionais e históricos construídos com os pacientes e suas famílias que estão sendo interrompidos de forma repentina pela simples razão de inexistirem no momento estruturas terapêuticas alternativas capazes de receber o encaminhamento dos pacientes que deixarão de ser atendidos.

Equipe de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Encerramento das atividades do CRIA / Unifesp

COMUNICADO OFICIAL DA COORDENAÇÃO E DA EQUIPE TÉCNICA DO
Centro de Referência da Infância e da Adolescência - CRIA DA UNIFESP, DIANTE DO ENCERRAMENTO DE SUAS ATIVIDADES


"O nosso objetivo é partilhar a indignação diante de grave acontecimento decorrente de uma tendência que vem prevalecendo no sistema estadual de saúde. O Governo de SP , através da Secretaria Estadual de Saúde (SES), assumiu, oficialmente, que serviços de base psicanalítica não contam com eficácia comprovada. Nesse contexto, propõe encerrar o apoio financeiro que há mais de dez anos confere ao Centro de Referência da Infância e Adolescência - CRIA.

O CRIA foi inaugurado em 2002, por um convênio entre a UNIFESP e a SES, com a interveniência da SPDM. É uma instituição que realiza cerca de 1200 atendimentos mensais de bebês, crianças, adolescentes e seus familiares através de uma equipe interdisciplinar que garante uma visão e assistência global aos pacientes.

A assistência prestada pelo CRIA é abrangente e inclui pacientes com diversas patologias graves. Para nosso espanto, a diretriz atual da SES do Estado de São Paulo criticou severamente o fato de atendermos qualquer queixa ou diagnostico afirmando que a população alvo deve ser composta por pacientes psicóticos e autistas. Entendemos que todo sofrimento merece ser escutado e tratado sem delimitar sua atuação em função de uma única patologia, diferentemente do que prega o mainstream atual das práticas médicas e assistências vigentes em nossa atualidade.

Nossos encaminhamentos são oriundos de diversas instituições (abrigos, escolas, creches, conselhos tutelares, vara da infância, hospitais, CAPs e outros serviços de Saúde Mental) que sideradas e apavoradas diante daquilo que escapa a nomenclatura dos manuais classificatórios nos procuram e demandam atendimento a esta população, pedindo ainda, em muitas situações, supervisão para a própria equipe.

Em que espaços serão escutadas e trabalhadas nas suas questões, as crianças que estão vivendo um luto pela morte de algum parente próximo, os adolescentes adotados, devolvidos por seus pais para abrigos? Ou mesmo adolescentes em relação fusional com seus objetos primordiais que fazem em seu próprio corpo os cortes simbólicos que não estão operando em seu psiquismo, levando-os a sérias tentativas de suicídio? Sem falar ainda nas inúmeras crianças que estão com fobias que a impedem de ir à escola, estudar ou aprender? Ou ainda os adolescentes chamados delinquentes que buscam a qualquer preço uma referência? E as crianças vitimas de violência, que necessitam de um espaço para falar?

Desta forma, ainda que atendemos, ao longo destes dez anos, crianças autistas e adolescentes psicóticos (temos dois programas estruturados para isso além de um programa de atendimento de bebês que procura identificar sinais de risco para tais patologias e intervir precocemente) não restringimos assistência à estas patologias.

A razão de nossa posição se deve à nossa concepção de clínica que considera como aspecto fundamental a plasticidade dos sintomas apresentados na infância e adolescência, e além disso, o fato do sofrimento destes jovens estarem referidos a dinâmica familiar a qual estão inseridos. Se isto, por um lado, torna a tarefa clinica muito mais complicada e desafiadora, por outro, também garante as intervenções um grande poder de êxito, tornando esta clinica muito menos sujeita a cronificacão das patologias e por isso muito mais flexível e surpreendente.

Muitos pacientes que foram atendidos no CRIA melhoraram de seus sintomas e puderam retomar sua vida e seu desenvolvimento. Mas não nos dispomos e nem nunca tivemos a pretensão de isentar os nossos pacientes de fazer calar sua angustia. Os convidamos com disponibilidade a que eles falem e escutem a história que acompanha seu sofrimento, o que se coloca nas entrelinhas, as várias versões sobre o que se apresenta como sintoma.

O fechamento do CRIA representa também uma perda na formação de médicos residentes, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais que la realizam suas primeiras experiências clinicas com crianças e adolescentes e que aprendem que por detrás de um diagnóstico, de uma patologia, existe um ser humano que sofre.

O CRIA, por estar inserido numa Universidade, oferece muitas horas de trabalho de sua equipe na formação de estudantes e outros profissionais da rede por meio de supervisões clínicas, aulas, palestras, seminários e simpósios. Infelizmente, a SES ignora tais atividades afirmando que a instituição produz pouco.

A produtividade de um serviço que prima pela qualidade não pode ser medida apenas levando em conta números de atendimentos. O CRIA oferece aos pacientes consultas de longa duração para que possam falar de suas questões que ultrapassam a descrição fenomenológica dos sintomas.

A SES, ao fechar o CRIA, leva em consideração as consequências para os pacientes que há anos lá se tratam? Como responderão adolescentes que já tentaram suicídio diversas vezes e que lá encontraram um espaço para falar de seus sofrimentos sem precisarem recorrer a uma forma tão dramática? E as crianças tão vinculadas aos profissionais que há anos as atendem?

Nos resta agora a lamentável tarefa de dizer aos pacientes e seus familiares que há mais restrições de assistência a eles no quadro da nossa saúde pública. Dizer a eles que o sofrimento que os levou a buscar atendimento não é suficiente nem legitimo de merecer escuta e trabalho. E que o vínculo que fizeram com os profissionais é irrelevante. Ainda que do ponto de vista epidemiológico seus sintomas e queixas componham parte significativa da demanda de atendimento.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Eric Kandel explica como estudo com ratos pode ajudar a entender o corpo humano

O psiquiatra dá dois exemplos e um deles é a esquizofrenia. Eric explicou que com a pesquisa em ratos foi possível descobrir que a doença não tem relação com o desenvolvimento.



Entrevista veiculada através do canal Globo News.

Estudo: tratamento de doenças neurológicas

Pesquisas de Eric Kandel abrem novos caminhos para o tratamento de doenças neurológicas.

A memória é o que dá sentido e coerência à vida, mas há uma base biológica para compreender como ela funciona? A nova ciência da mente está rompendo as barreiras entre a biologia, as ciências humanas e as artes. Saiba mais sobre a vida de Eric Kandel - ganhador do prêmio Nobel no ano 2000 - e sobre sua pesquisa, que abre novos caminhos para o tratamento de doenças que causam perda de memória e para a forma como compreendemos o mundo.

Uma nota musical, uma frase, o que determina que certos momentos fiquem em nossa memória ao longo dos anos? Eric Kandel acredita haver uma base biológica para esse fenômeno. Ao analisar o hipocampo e doenças como o Alzheimer e a esquizofrenia, Kandel transitou entre a psicanálise, a filosofia, as artes e o funcionamento sistema nervoso com a premissa de que a percepção e a memória dependem de como nosso corpo é capaz de armazenar nos neurônios as informações que recebe. E, essas informações, em geral, são limitadas. O cérebro está em um processo criativo constante que cria e recria significados aos estímulos que recebe.

A nova ciência da mente, que Eric Kandel desenvolve em seu laboratório na Universidade de Columbia, em Nova York, está transformando a relação entre a biologia, as ciências humanas e as artes. Pesquisas revolucionárias indicam não apenas novos caminhos para o tratamento de doenças mentais e para perda de memória, como também abrem espaço para uma fundamentação biológica da subjetividade.

Informação divulgada através do Portal G1.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chega ao mercado brasileiro novo medicamento injetável para o tratamento da esquizofrenia

Entrevista com Rodrigo Bressan, psiquiatra e coordenador do Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Entrevista veiculada na Rádio CBN.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Psiquiatras dizem que atirador norueguês não é mentalmente são

Psiquiatras que examinaram o atirador norueguês Anders Behring Breivik concluíram que ele não deve ser responsabilizado criminalmente pelo assassinato de 77 pessoas este ano por não ser mentalmente são.

Eles acreditam que Breivik sofre de esquizofrenia paranóica e estava em um estado psicótico durante os ataques ocorridos em 22 de julho.

Os psiquiatras disseram que Breivik não esteve mentalmente são durante nenhuma das 13 entrevistas que conduziram com ele.

Não está claro se as conclusões dos psiquiatras vão impedir a realização do julgamento, previsto para abril de 2012.

Entrevista: terapia x esquizofrenia

No bloco inicial do programa (~ 7 minutos), a psicóloga Renata Fernandes Lopes explicou alguns tipos tratamentos usados na abordagem de pacientes com diagnóstico de esquizofrenia.



Veiculado no programa Bem Viver, do canal Globo News.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O paciente esquizofrênico tem recaídas?


 
Para 81% cuidadores é possível prevenir recaída com adesão ao tratamento.

Uma pesquisa inédita realizada pela Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia - ABRE - em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp – PROESQ, revelou pela primeira vez o impacto da recaída para pacientes com esquizofrenia e seus cuidadores. Realizada pelo Ibope e apoiada pela Janssen Farmacêutica, a pesquisa contou com duas partes: uma quantitativa (envolvendo 60 cuidadores) e outra qualitativa (mais extensa, de profundidade, envolvendo 12 cuidadores). Todos os entrevistados são associados à ABRE.

Os resultados da pesquisa quantitativa revelaram que para 38% dos entrevistados, o fator mais importante no sucesso no tratamento é ter acesso a um psiquiatra. Já 27% acham que a disponibilidade de medicamentos e tratamentos são primordiais e 25% apontaram que é fundamental ter acesso a um medicamento específico que ajude a evitar as recaídas. Apenas 8% consideram mais importante que o paciente trabalhe ou estude.

Além disso, os cuidadores percebem a correlação direta entre medicamento e a prevenção de recaídas. Para 81% deles é possível prevenir a recaída por meio da adesão ao tratamento. No entanto 60% acham que a atitude principal é evitar situações que causem estresse.

Para o psiquiatra Rodrigo Bressan, coordenador do PROESQ/Unifesp, a pesquisa da ABRE é um grande passo para dar voz às pessoas que sofrem com a esquizofrenia, tanto cuidadores, quanto familiares. "A pesquisa mostrou que evitar a recaída é a principal luta dos cuidadores. Eles estão cada vez mais conscientes de que a prevenção é o melhor caminho para isso e que é preciso medicações cada vez mais eficazes somadas ao tratamento multidisciplinar", afirma.

Na opinião do especialista, a prevenção de recaídas passa por um diagnóstico precoce e bem realizado, melhor entendimento do que é a doença, a compreensão do estigma da doença e o trabalho de forma cooperada entre todos os envolvidos: cuidadores, familiares, os médicos e demais profissionais de saúde e o próprio paciente.

A recaída dos sintomas psicóticos é um grande transtorno para os cuidadores, pois além de ver o paciente em sofrimento, muitas vezes é necessário que mais de uma pessoa da família deixe de trabalhar ou estudar para cuidar do paciente. "A dinâmica da família fica alterada com possíveis consequências nas relações entre os membros e, certamente, com aumento dos custos econômicos para o núcleo familiar", afirma Bressan.

Esse problema também foi apontado pela pesquisa. Praticamente todos os entrevistados afirmaram que a recaída do paciente interfere em suas vidas, principalmente afetando os relacionamentos. Dois terços afirmaram que o convívio com os amigos ou familiares diminuiu de alguma forma, mas que isso não dependia necessariamente dos episódios de recaídas. Boa parte acredita que seja possível prevenir recaídas e quase todos acreditam que a melhor forma seja por meio da medicação. Apesar de a psiquiatria ser uma especialidade médica estigmatizada pela maioria da população, entre os cuidadores o profissional é visto como o fator mais importante no sucesso do tratamento.

Com relação às tarefas diárias e ao tratamento, 30% dos entrevistados apontaram que a maior dificuldade é fazer o paciente tomar o medicamento e 25% acreditam que conseguir um trabalho e/ou estudo seja mais complicado. Já 20% falaram que o mais difícil é a disponibilidade do medicamento e tratamento.

Publicado no portal Bonde.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Arquivo PsicoterapiaBrasil - Esquizofrenia.

Esquizofrenia sem mitos


Diferentemente da abordagem na novela das seis, os avanços nos tratamentos permitem que o portador da doença tenha vida normal

Qual é a primeira idéia que lhe vem à cabeça quando você ouve a palavra “esquizofrenia”? Uma pessoa louca, desvairada, perigosa, agressiva, imprevisível, que precisa passar a vida trancada num manicômio? Se você pensa assim, está completamente errado! Diferente do que aconteceu com a personagem Alexandra, interpretada pela atriz Nívea Stelman na novela Alma Gêmea da Rede Globo, com os avanços atuais nos tratamentos da doença, o portador de esquizofrenia tem uma vida normal, junto à família e à sociedade. É, portanto, fundamental deixar de lado os preconceitos, as idéias pejorativas e estigmatizantes. Esquizofrenia é uma doença como outra qualquer. Sabemos hoje que é decorrente de alterações químicas no cérebro, que são responsáveis pelos sintomas. A esquizofrenia começa geralmente no fim da adolescência, início da idade adulta e atinge igualmente ambos os sexos. Tipicamente, evolui ao longo da vida com períodos curtos de sintomas mais intensos (“surtos”), alternados com períodos longos de controle total ou parcial dos sintomas (“remissão”).

Os principais sintomas da esquizofrenia são: idéias ou pensamentos incompatíveis com a realidade (“delírios”), percepções falsas dos órgãos dos sentidos, especialmente audição (“alucinações”, escuta vozes que não existem), perda do nexo entre os pensamentos (“desorganização do pensamento”), alterações na forma de expressar emoções, em geral uma redução da expressão emocional ou uma expressão inadequada das emoções, alterações da vontade, com apatia, desinteresse pelas atividades cotidianas. O diagnóstico é feito a partir das queixas apresentadas, não havendo exames laboratoriais ou radiológicos para confirmar a doença.

Tratamentos eficazes para a esquizofrenia começaram a surgir por volta de 1950, quando os primeiros medicamentos antipsicóticos foram desenvolvidos. Desde então, numerosos medicamentos foram descobertos. Estamos hoje na era dos antipsicóticos de segunda geração. Estes medicamentos têm duas funções: controlar os sintomas durante o surto da doença e manter os sintomas em remissão, evitando recaídas. Os antipsicóticos de segunda geração agem sobre os diversos sintomas da esquizofrenia e têm a vantagem adicional de não provocar tantos efeitos colaterais quanto os de primeira geração. Assim, o tratamento fica mais confortável para o portador, facilitando a adesão ao tratamento.

Para a grande maioria dos portadores, a medicação terá que ser utilizada por toda a vida, para garantir o controle dos sintomas e permitir que outras abordagens terapêuticas (tais como: terapia ocupacional, psicoterapia, orientação psicoeducacional) possam ser utilizadas. A família tem um papel fundamental na recuperação do portador, sendo um parceiro no tratamento. É importante saber que ela não é causa da doença e tem muito a contribuir no caminho de reintegração do portador. Informação objetiva é imprescindível! Conversar com o psiquiatra sobre a doença, conhecer seus sintomas, como ela acontece, seu tratamento, ajuda a vencer as dificuldades iniciais e estabelecer uma parceria produtiva. Aprender a contornar os problemas cotidianos e saber lidar com os comportamentos, muitas vezes inusitados, dos portadores de esquizofrenia auxiliam a recuperação.

Lembre-se: esquizofrenia é uma doença como outra qualquer, tem tratamento eficaz que permite ao portador participar ativamente da vida na comunidade.

O texto foi escrito pelo colega Mário Louzã
(psiquiatra, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, médico assistente e coordenador do Projeto Esquizofrenia (Projesq) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP)
Publicado na revista Isto É em setembro de 2005. Matéria publicada na revista Isto É