sexta-feira, 19 de junho de 2009

Enfermeira gaúcha fala sobre projeto de HIV/Aids

Considerada a mais turís-tica cidade do Camboja, Siem Riep enfrenta um grande problema de prostituição. Estimativas apontam que 3 mil, dos 300 mil habitantes da cidade ao norte do país, trabalham como profis-sionais do sexo. Deste total, entre 3% e 4% são soropositivos.

Para atender as necessidades deste grupo, Médicos Sem Fronteiras (MSF) montou um programa dentro de seu projeto de HIV/Aids especialmente voltado para essa população. Através de ações preventivas realizadas em bordéis clandestinos e karaokês, uma vez que a prostituição é considerada crime no Camboja, a enfermeira gaúcha Ana Lúcia Bueno, de 27 anos, e sua equipe ensinaram a esses profissionais a importância de se proteger contra as doenças sexualmente transmissíveis. Nesta sexta-feira, a enfermeira fala sobre o projeto em palestra, às 19h, no estande da exposição "Médicos Sem Fronteiras no Mundo", no Mercado Público de Porto Alegre. Abaixo, uma pequena amostra do evento desta noite.

Qual é o diferencial deste projeto para HIV/Aids no Camboja?
Ana Lúcia Bueno – O diferencial deste projeto de HIV/Aids realizado em Siem Reap é que, além de ter comprovado ser possível o tratamento desta doença em um país de poucos recursos, nos preocupamos em atender os grupos de risco, concientizando-os, levando-os para testagem, oferecendo tratamento e serviços de prevenção.

Qual a população incluída no que vocês chamam de grupos de risco?
Ana Lúcia – Antes de mais nada, é importante ressaltar que não atendíamos só os grupos de risco, e sim todos os tipos de pacientes. Apenas nos focamos mais nestes por percebermos que a incidência da doença era preocupante. Quando falamos em grupo de risco estamos nos referindo ao que chamamos de trabalhadores do sexo.

Como vocês tinham acesso a este grupo específico de pacientes?
Ana Lúcia – O sul da Ásia é muito conhecido pelo turismo sexual, sendo assim, cada ONG local mapeou sua área de atuação obtendo o número de bares e karaokês existentes, monitorando-os mensalmente para saber se há novas meninas ainda não abordadas para testagem e tratamento. MSF, através de uma parceria com as ONGs locais, capacitou profissionais e foi até estes lugares realizando serviços de conscientização, prevenção, entregando preservativos, etc.

Qual foi a reação dos grupos de risco ao trabalho preventivo de MSF?
Ana Lúcia – O material antigo, feito somente pelo Ministério da Saúde, tinha uma menor aceitação do que os novos, feitos por MSF em colaboração com as ONGS locais e com o próprio Ministério da Saúde. A princípio havia uma certa hesitação por parte das pessoas, mas com o material novo, que usava uma linguagem mais simples, eles ficaram mais à vontade para fazer perguntas, tirar dúvidas, o que facilitou muito o nosso trabalho de prevenção.

O estigma com relação à HIV/Aids ainda existe?
Ana Lúcia - Olha, por incrível que pareça, o estigma com tuberculose no país é maior do que com HIV/Aids. Conversei com muitos pacientes que falavam abertamente sobre a doença com seus vizinhos, família, etc. Entre os trabalhadores do sexo a estigmatização é bem maior porque a questão afeta o trabalho deles, o negócio. Neste caso, precisamos insistir muito na questão da prevenção.

Como é realizar ações preventivas neste país?
Ana Lúcia – O primeiro caso de HIV/Aids registrado aconteceu em 1993, o que é bem recente. Eles ainda são muito pouco desenvolvidos em termos de tratamento e prevenção. A chegada de MSF ajudou a melhorar esta questão. Outro obstáculo para as ações preventivas é o fato das autoridades locais acharem que a população deveria pagar pelos preservativos. Mas agora até há uma abertura maior às novas propostas. Para a população de risco, a maior dificuldade é a estigmatização e o preconceito, muitos preferem não revelar que estão doentes para não perder clientes.

Como será feito o repasse do projeto para o governo local?
Ana Lúcia – A tentativa é deixar o máximo possível de herança de MSF. Estamos pondo as ONG´s locais em contato com uma outra ONG internacional para torná-los mais fortes e representativos. Juntas, elas serão responsáveis pela continuidade do trabalho de prevenção. Além disso, o Ministério da Saúde já está com alguns dos outros projetos, como diabetes e hipertensão. Na tentativa de manter a qualidade dos serviços oferecidos, MSF está treinando e capacitando as equipes destas ONGs e do próprio Ministério da Saúde.

Quais as maiores heranças que MSF vai deixar no país?
Ana Lúcia – Em termos materiais seria o hospital que construímos em 2008. Antes disso os pacientes, principalmente de tuberculose, ficavam isolados em um hospital que se localizava em uma área muito insalubre, cheia de lama. Mas a maior herança, da qual me orgulho muito, é observar que a capacitação de equipe que fizemos deu resultado. Ao sair de lá, vi que eles realizavam um trabalho em equipe e com qualidade. Há também uma maior aproximação da equipe com os pacientes, o que não ocorria antes.


Fonte: Médicos sem Fronteiras

Uso indiscriminado de medicamento em crianças preocupa

O Jornal Nacional mostrou, na quarta-feira, o perigo de consumir antibióticos sem receita médica. Nesta quinta, nós trazemos outro alerta. Médicos estão preocupados com o uso crescente de um remédio popular no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção.

O diagnóstico de uma adolescente foi confirmado há oito anos, quando a escola chamou a atenção para um problema. “Na turma, eu sempre ficava atrasada pra caramba, eu trocava a letra, demorava a ler”, comenta a estudante. Ela diz que até hoje toma remédio pra dar conta dos estudos. “O remédio me ajuda a me concentrar na aula”, diz.

Um psiquiatra explica que problemas assim são diagnosticados com mais segurança na idade escolar da criança. “A partir dos cinco, seis anos nós já podemos verificar se essa criança é desatenta, e, o mais comum, desatenta e hiperativa. Ela atrapalha a aula, os colegas, briga muito, não consegue estudar direito, mesmo sendo inteligente”, disse o psiquiatra Claudio Costa.

Uma mãe acredita que nem toda prescrição é correta. Ela diz que sofre pressão do colégio do filho para fazer o tratamento do menino, que tem nove anos e ganhou fama de agitado e impulsivo.

“Uma vez no mês a gente é chamado lá, para levar no neurologista para iniciar o medicamento com ele. Na primeira consulta, a médica só ficou observando ele e já puxou o receituário para indicar o medicamento”, disse, preferindo não ser identificada.

O remédio mais usado pra combater o Transtorno de Déficit de Atenção é o metilfenidato. Ele age no sistema nervoso central aumentando a capacidade de concentração. Daí ter ficado conhecido como droga da obediência. O consumo do medicamento aumentou 1.600% em oito anos, no Brasil.

Especialistas acreditam que pelo menos 90% das vendas são para crianças e adolescentes. “É um diagnóstico complexo. E a intervenção normalmente ela é multidisciplinar, com médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais”, disse Regina Volpini, psicóloga.

Uma professora de pediatria, na Faculdade de Medicina da Unicamp, se diz assustada com o uso crescente do metilfenidato. Especialmente por conta dos efeitos colaterais.

“Na verdade, o que se quer quando usa o remédio é que a criança fique quieta. Eu não daria esse medicamento, porque é um psicotrópico e tem reações adversas bastante sérias, variando desde problemas cardíacos, psicose, alucinação e agir como um zumbi. A pessoa fica como se ela estivesse amarrada dentro dela mesma”, disse Maria Aparecida Moysés, da Unicamp.

Para a médica da Associação Brasileira de Neuro-Psiquiatria da Infância e Adolescência, Cláudia Machado, o metilfenidato, apesar de forte, é necessário em alguns casos, para combater o Transtorno do Déficit de Atenção.
“Ele tem um efeito de melhora em quase 80%, 90% dos casos. Então por isso que, quando usado e bem indicado, ele tem uma resposta muito boa para criança e também para a família”, disse Cláudia.


Assista:


Fonte: Jornal Nacional

Tratamento online contra a depressão é eficaz

Pesquisadores da Universi-dade de New South, de Sydney, Austrália, fizeram uma descoberta que pode mudar o modo que tra-tamentos contra depressão são realizados. Um estudo mostrou que pacientes que participaram de um programa com terapias feitas pela Internet tiveram taxas de recuperação tão eficazes quanto os que participaram de terapias presenciais.

Além disso, o programa necessitou de apenas 111 minutos de contato entre o paciente e o médico durante um período de oito semanas, um tempo significativamente menor do que o necessário para outras terapias similares. Gavin Andrews, professor de psiquiatria da Universidade de New South, diz que o estudo é uma surpresa para quem não acreditava que terapias realizadas pela Internet poderiam ser bem-sucedidas.

"Sabíamos que a Internet tinha sucesso tratando fobias sociais e outros problemas de ansiedade, mas essas condições são mais simples. Acreditava-se que a depressão seria mais difícil de tratar por causa da falta de motivação associada com a doença, mas esse não foi o caso", afirma.

Na pesquisa, Andres e seu colega Nick Titov acompanharam 45 pessoas que tinham o diagnóstico de depressão. Essas pessoas passaram por seis sessões online de aulas e tarefas semanais e tinham contato por e-mail uma vez por semana com um psicólogo, além de participarem de um fórum com outros pacientes do programa. Após o fim do programa, 34% dos pacientes não tinham mais os critérios para serem diagnosticados como depressivos, um resultado parecido com os da terapia presencial. 82% dos participantes afirmaram estar satisfeitos com o programa.

Os resultados repetem o sucesso de um estudo-piloto anterior e reafirmam o sucesso de tratamentos experimentais online para outras doenças mentais. A pesquisa mostrou também que a terapia online faz com que os pacientes superem algumas das barreiras que os impedem de procurar tratamento, como o estigma associado a procurar um psicólogo ou psiquiatra. "O programa através da Internet é conveniente", afirma Andrews. "As pessoas podem usá-lo quando quiserem, sem ter que marcar horário e sair de casa. Os participantes participavam dos fóruns à uma da manhã", diz.

Apesar dos resultados animadores, Andrews afirma que eles têm que ser acompanhados com mais estudos. "Se os resultados se repetirem em experimentos maiores, programas online poderão ser utilizados em grande escala para auxiliar programas para a saúde mental que já existem", afirma.

Esta nova modalidade de tratamento poderá ser muito útil na democratização do tratamento contra a depressão, já que poucas pessoas podem pagar para realizar terapia contínua contra a doença no Brasil.

Fonte: Paraná Online

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Congresso debate Saúde Mental nos países de língua portuguesa


Por iniciativa da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), nos dias 3 e 4 de julho, o Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) receberá, na capital fluminense, o congresso: A Questão da Saúde Mental na Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Durante os dois dias do evento haverá uma conferência, mesas para discussão sobre dois temas, a apresentação de um documentário cinematográfico e debate que contará com a participação do cineasta Victor Lopes e dos escritores Odete Semedo e Pepetela, além de especialistas e profissionais ligados à área de Saúde Mental.

Na sexta-feira, a conferência de abertura será apresentada pelo diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, que abordará o tema: Papel e Importância da CPLP.

O segundo dia de evento oferecerá oportunidade para troca de experiências entre profissionais de países como Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Portugal e Brasil, em uma mesa de discussão coordenada pelo psiquiatra, psicanalista e professor da UFRJ Marco Antônio Brasil, durante a primeira parte, e por Fátima Vasconcellos, psiquiatra que preside a Associação de psiquiatria do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), na etapa final.

À tarde, o presidente da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), Cáudio Rossi, será o coordenador da mesa: Catástrofes Naturais e Provocadas – A visão da Psiquiatria, Psicanálise e Literatura, que contará com a participação da professora de Literaturas Africanas da UFRJ, Carmem Lúcia Tindó Secco; da psicóloga, médica e psicanalista Celmy Quilelli Correa, e do presidente da Rede Ibero-Americana de Ecobioética / cátedra de Bioética da UNESCO, no Brasil, e Coordenador da Comissão Técnica sobre Intervenção em Desastres e Catástrofes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), José Toufic Thomé.

As inscrições podem ser realizadas na Sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), localizada à rua David Campista, 80, bairro Humaitá – RJ ou através do telefone (21) 2537 1333 (Secretaria da SBPRJ).

SERVIÇO

Congresso dos Países de Língua Portuguesa
A Questão da Saúde Mental


Data: 03 e 04/07

Local: Instituto de Psiquiatria da UFRJ
Av. Venceslau Braz, 71 – fundos, bairro Botafogo – Rio de Janeiro - RJ

Realização: SBPRJ / ABP / APERJ

Apoio: UFRJ / Ministério das Relações Exteriores / IPA / FEBRAPSI

Hotel oficial: Leme Othon Palace 55 (21) 2122 5900
Av. Atlântica,656 - Leme - Rio de Janeiro – RJ
Reservas: 55 (21) 2122 5900

INSCRIÇÕES
Inteira: R$ 120,00
Estudantes: R$ 60,00
Membros FEBRAPSI, ABP e APERJ: R$ 100,00

Clique aqui e conheça a relação de conferencistas com presença confirmada.

Estudo mostra como devaneios podem ajudar a resolver problemas

Para quem se sente culpado pelo tempo gasto em devaneios, essa notícia talvez traga alívio. Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá, descobriram que enquanto “sonhamos acordados”, diversas áreas do cérebro estão em franca atividade, inclusive aquelas ligadas à solução de problemas complexos, que antes se supunha “dormentes” durante esses episódios.

“O devaneio sempre esteve associado a coisas negativas, como preguiça e falta de atenção”, diz o psicólogo Kalina Christoff, autor do estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. “Mas agora percebemos que o cérebro está muito ativo nesses momentos, muito mais do que quando estamos concentrados em tarefas rotineiras.”

O cérebro dos voluntários foi observado por meio de ressonância magnética funcional. Os pesquisadores alternaram tarefas que exigiam atenção com momentos em que os participantes podiam pensar no que quisessem. Segundo os autores, no dia-a-dia, os devaneios podem ocupar até um terço do período em que permanecemos acordados.

Durante os devaneios, observou-se intensa atividade no córtex cingulado anterior e da junção tempoparietal, que fazem parte do que os cientistas chamam de “rede basal”, por estar associada à atividade mental rotineira. O que os surpreendeu, entretanto, foi a ativação da chamada “rede executiva” que inclui o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior, tipicamente associados a esforços intelectuais intensos. “Não imaginávamos que essas vias pudessem operar em paralelo”, disse Christoff. Segundo ele, estes resultados apóiam aquela noção intuitiva que tomos temos, de que quando defrontados com um grande problema, melhor é tentar se distrair um pouco, “refrescar a cuca”. Pode ser bem mais produtivo.

Fonte: Mente e Cérebro

De caso pensado


O que leva uma pessoa a enviar uma dúzia de flores murchas ou uma caixa de escorpiões artificiais a um desafeto? O mesmo motivo que desperta a vontade de esmurrar alguém numa briga. São apenas jeitos diferentes de lidar com a raiva.

Enquanto os homens, num acesso de fúria, partem mais facilmente para a reação física, a maioria das mulheres tende a expressar sua mágoa com o que se chama de agressão de baixa intensidade -que inclui atitudes de desprezo, fofocas e planos de vingança.

A questão é que essas diferenças não são apenas comportamentais. Elas refletem modos diversos de processar as emoções no cérebro, sugere um estudo recém-divulgado, feito na Universidade Ibero-Americana, no México.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão após avaliar 42 homens e o mesmo número de mulheres, que foram expostos a 120 imagens com quatro características principais: agradáveis, desagradáveis, estímulos capazes de levar à ação e aqueles que deprimem ou levam à inatividade.

Enquanto isso, eram monitorados por meio de eletroencefalograma e pela medida de respostas da atividade neurovegetativa (como temperatura corporal, frequência cardíaca e tensão muscular).

Quando a pessoa reagia com alta atividade emocional a um estímulo desagradável, era classificada como agressor reativo. Se a resposta emocional era mais fraca e o indivíduo planejava uma estratégia para liberar a raiva posteriormente, era caracterizado como proativo. Os dados revelaram que 70% dos homens tendem à impulsividade, em comparação com apenas 10% das mulheres.

"O comportamento reativo é um ato não planejado, dirigido pela raiva, que objetiva machucar a vítima", disse à Folha, por e-mail, o autor do estudo, o psicólogo Oscar Galicia, do laboratório de neurociências do Departamento de Psicologia da Universidade Ibero-Americana. "Já a agressividade premeditada é um meio de chegar a um objetivo diferente do de ferir fisicamente."
E, nesse quesito, as mulheres são especialistas, como atestam os números da pesquisa.

Em uma loja de Barueri (SP), especializada em vender produtos sob medida para quem quer atingir o alvo sem derrubar uma gota de suor, as mulheres são 85% da clientela. Com o explicativo nome de Doces Vinganças, a loja vende por mês 1.500 itens como peixes podres, ovos em pedestais com dizeres como "para o galinha do ano" e coisas do gênero - além das citadas no início da reportagem.

"O "presente" é um objeto simbólico usado para expressar sensações e coisas que a pessoa não consegue verbalizar diretamente", justifica a empresária Kiki Sudário. Os objetos custam de R$ 46 (uma pá de lixo) a R$ 388 (um par de chifres naturais, incluindo a entrega).

"Concordo plenamente que as mulheres respondem de uma maneira mais elaborada em determinados casos", afirma o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Gender Group do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, que presta assistência psicoterapêutica e desenvolve pesquisas sobre gênero. "As mulheres elaboram mais e criam estratégias para atingir seu alvo", diz.

O problema é que, muitas vezes, a raiva leva a mulher a viver uma eterna fantasia negativa. A psicóloga Denise Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, relata casos de gente que planeja, com requintes de detalhe, assassinatos que nunca serão concretizados. "A mulher fica invadida pelo sentimento de vingança e isso a impede de se livrar do agressor, levando a pensamentos obsessivos. Já os homens descarregam mais rápido", compara.

Por outro lado, a reação dos homens, mais impulsiva, não costuma medir as consequências. "Eles precisam agir, são levados a ter uma reação imediata quando estão diante de situações que os afrontam diretamente, como é o caso da traição", nota Cuschnir.

Biologia e cultura

Não importa se a pessoa descarrega sua raiva com um soco na parede ou espalhando mentiras: por trás da agressão, há de fatores biológicos a culturais e sociais. "A base da diferença é física", diz Denise Ramos.

Segundo ela, o corpo do homem, dotado de mais força e massa muscular, foi equipado para reagir fisicamente. Já as mulheres atacam mais verbalmente. "A raiva é igual, mas ela sabe que não pode competir com o homem, então precisa elaborar um plano e segura a raiva em função dele", observa. "Isso não quer dizer que a agressão seja menos cruel."

Para a antropologia social, no entanto, essa diferença entre os padrões de homens e mulheres não é determinada pelo sexo ou pela biologia -é construída nas relações sociais. "Essas generalizações soam muito falsas quando fazemos pesquisa empírica e mesmo quando observamos bem as pessoas", diz a antropóloga Heloísa Buarque de Almeida, professora da USP e pesquisadora colaboradora do Pagu, Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). "O gênero é aprendido, o que explica tantas variações entre sociedades e variações históricas numa só sociedade."

Pesquisas feitas na década de 1930 pela antropóloga norte-americana Margaret Mead mostram que as reações podem ser diferentes em outras culturas. Em uma tribo estudada pela cientista, homens e mulheres eram dóceis, em outra, ambos eram agressivos e, em uma terceira, as mulheres eram mais explosivas que os homens.

"Isso mostra como muito do que achamos serem comportamentos "naturais" são socialmente aprendidos. Desde o nascimento, os meninos aprendem que podem ser mais agressivos, mas não devem chorar, assim como as meninas devem supostamente controlar melhor as emoções e não ser agressivas, mas podem chorar mais vezes", observa a antropóloga Heloísa Buarque.
O fato é que a agressividade existe em todos os seres vivos e teve um importante valor adaptativo. Até as plantas usam seus espinhos para afastar animais que desejam comê-las.

"Ao longo da evolução, esse sentimento permitiu a reprodução da espécie, a conquista de território e a obtenção de recursos, garantindo a sobrevivência", diz Galicia.

Há basicamente três tipos de agressividade: a voltada para atingir um objetivo, a que visa exclusivamente à defesa e a que pretende fazer o mal ao outro. E nem sempre ela tem uma conotação negativa.

As duas primeiras só se transformam em transtorno quando, em nome do objetivo, pratica-se o mal ou quando a preocupação com a defesa vira uma prisão que impede a pessoa de se relacionar com os demais. Já o terceiro tipo é sempre negativo.
"A pessoa pode até experimentar a vingança, mas é um prazer efêmero e frágil", diz o psicoterapeuta Ari Rehfeld, supervisor da clínica psicológica da PUC-SP.

Reações infantis

Tanto esmurrar alguém como planejar uma vingança são formas imaturas de lidar com a agressividade. "A capacidade de análise fica diminuída nesses casos", diz Rehfeld.
"A exposição a modelos inadequados está por trás disso", diz Galicia. "Se a criança aprende que a violência é uma estratégia válida de interação social, vai achar que esse é um meio de alcançar seus objetivos, independentemente do dano causado aos demais."

Já a vingança é sempre negativa, frisa Denise Ramos. "A pessoa vai agir em função do outro e, pior, nunca ficará satisfeita, pois não há pedido de perdão", afirma. "A raiva pode ser um bom combustível para mudanças ou destruições irreparáveis", acrescenta Cuschnir.

O segredo para lidar com as situações capazes de nos fazer explodir de raiva? Considerar as consequências, aprender a conversar (ouvindo o outro), reconhecer as próprias emoções e tomar decisões lógicas -mesmo se a vontade for de enforcar o indivíduo ou embarcá-lo num cruzeiro para o Alasca sem passagem de volta.

Fonte: Folha de S. Paulo

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Esquizofrenia e as Constelações Familiares

A edição de domingo (14/6) do Diário da Manhã aborda a esquizofrenia e a discussão em torno da reforma psiquiátrica. Alguns defensores da reforma, como a psicóloga Deusdete do Carmo Martins, representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP) no Fórum Goiano de Saúde Mental, argumentam que o tratamento não deve ser feito em instituições que isolam o paciente, que o segrega do convívio social. Por outro lado, há profissionais experientes, como o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremego), que defendem que, em momentos de crise, a internação em hospital psiquiátrico torna-se imprescindível.

A esquizofrenia é um grave transtorno mental que tem sido tema de reportagens em jornais, revistas e também na novela Caminho das Índias, da TV Globo, cujo personagem Tasso enfrenta o mais cruel dos preconceitos: o da própria família, que resiste em reconhecê-lo esquizofrênico. Em recente edição, a revista Época mostrou o drama do escritor e poeta Ferreira Gullar, que tem dois filhos com o problema. Mas a discussão deve ser mais ampla, ir além do “interna ou não interna”, comumente abordado na mídia. Devemos ampliar o debate e buscar soluções para o paciente, inclusive soluções novas. Em Caminho das Índias, fica claro que o transtorno atinge toda a família.

Bons argumentos não faltam para defensores e opositores da reforma que, com certeza, é um tema que ainda vai longe. Quero acreditar que todos, no final, sairão ganhando, especialmente os doentes.

Apresento, neste espaço democrático do Diário da Manhã, uma metodologia terapêutica que tem crescido vertiginosamente, sobretudo por sua forma simples e direta na busca de solução dos mais diversos problemas: as Constelações Familiares. Trata-se de um método desenvolvido originalmente pelo psicólogo alemão Bert Hellinger, com sólida base científica, inserido na abordagem sistêmico-fenomenológica. Sistêmico porque o paciente é visto dentro de seu contexto familiar, e o terapeuta se coloca a serviço de todo o sistema familiar na busca de soluções; e fenomenológica porque o terapeuta, o paciente e as pessoas que são chamadas a representar membros de sua família durante o processo terapêutico devem estar dispostos a se abrir à realidade que busca manifestar-se e a aceitá-la tal como é, sem intenções, sem medo e sem apelar para teorias ou experiências anteriores.

O que ocorre numa Constelação Familiar é que um paciente, aleatoriamente, escolhe entre os participantes de um grupo as pessoas que vão representar membros de sua família (pai, mãe, irmão, parceiro etc.) e os posiciona num determinado espaço, uns em relação aos outros. O mais curioso é que os representantes passam a sentir e a expressar sentimentos e comportamentos estranhos a si mesmos e, eventualmente, “captam” sintomas dos membros da família que eles representam, sem nenhuma informação prévia a respeito deles.

O método possibilita vir à luz o pano de fundo das mais diversas questões relacionadas à saúde, como a esquizofrenia, comportamentos destrutivos, dificuldades profissionais e financeiras, relacionamentos amorosos, lutos, perdas etc. O que se percebe é que situações traumáticas vivenciadas na família, em gerações passadas, podem repercutir no futuro, levando pessoas a repetirem, de forma inconsciente, o destino trágico de antepassados. Priorizamos as forças positivas que se mostram no sistema, mobilizando-as de forma que se tornem úteis ao cliente e a seu sistema familiar, ou seja, buscamos um caminho de solução.

Devo advertir que Constelações Familiares é uma forma de terapia complementar para a esquizofrenia e outros transtornos, e que não substitui os tratamentos tradicionais, tanto médico quanto psicológico e, por melhor que seja, não é uma panaceia universal do tipo “resolve tudo”. O que temos observado é que o método tem sido muito útil a pessoas que não obtiveram o resultado esperado nas terapias convencionais.

Fonte: Diário da Manhã
A Lei Federal nº 11.705/08 com-pleta seu primeiro ano de vigência, no próximo dia 20, com uma certeza: a tolerância zero à combinação álcool e volante salva vidas. O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran) prepara para esta sexta-feira as estatísticas de morte e de acidentes fatais. O órgão não confirma, mas a tendência é de queda assim como ocorreu nos primeiros 11 meses de vigência da legislação. A estimativa da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) é de 46 vidas preservadas por dia no país. Quase 500 ferimentos são evitados e cerca de 80 pessoas deixam de se tornar cadeirantes diariamente desde que a lei entrou em vigor.

Apesar da reação contrária de entidades de classe ligadas a bares e restaurantes e da reclamação de motoristas habituados a beber e pegar o volante em seguida, as estatísticas dos órgãos fiscalizadores comprovam que os índices de acidentes fatais e de mortos no trânsito caíram 19% e 17,5%, respectivamente, de junho de 2008 a maio deste ano no DF. Em números absolutos, foram 81 mortes a menos, média de sete por mês.

Para o diretor do Conselho Nacional de Administração da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Fernando Cabral, os resultados só reforçam que a entidade estava com a razão. “A lei é exagerada e desnecessária. Para ter o mesmo efeito, bastava apenas fazer valer a legislação anterior, com tolerância de 6 decigramas de álcool por litro de sangue. Sem terrorismo, sem criminalizar as pessoas desnecessariamente”, defende.

Comparado com as 454 mortes produzidas pelo trânsito em 2008 no DF, as 81 vidas poupadas podem até parecer pouco. Mas pergunte aos que enterram um parente vítima da imprudência de quem achou que estava bem para dirigir depois de beber o que pensam sobre o assunto. Para o presidente da Abramet, Flávio Adura, a sociedade brasileira despertou para uma inadiável necessidade da redução de número de mortos, feridos e incapacitados em razão de acidentes de trânsito. “Não podíamos continuar tolerando passivamente tanto sofrimento. A aprovação inicial da lei foi superior a 80%. Ela modificou o comportamento de parte da sociedade brasileira. Tornou essas pessoas mais responsáveis com o tema bebida e direção”, acredita.

Relaxamento

Mas nesse um ano a sensação geral é de que a fiscalizou afrouxou. E passado o susto inicial, o motorista relaxou e voltou a beber e dirigir. É o que revelou o levantamento da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. O órgão ouviu 54 mil pessoas e constatou aumento de 21% dos motoristas que admitem beber de forma abusiva e pegar o volante em seguida. Em junho de 2008, quando a legislação entrou em vigor, 1,9% dos entrevistados admitiu ter dirigido sob o efeito do álcool. Em março deste ano, nove meses depois da lei, o percentual subiu para 2,3%.

O órgão considera beber de forma abusiva o consumo de mais de quatro doses de bebida alcoólica para mulheres e mais de cinco doses para homens em uma mesma ocasião. Isso não significa que beber menos impedirá o motorista de ser reprovado no teste no bafômetro, por exemplo. Os homens são os que mais desrespeitam a lei. Entre eles, o percentual que admite dirigir alcoolizado é 10 vezes (3%) maior que o de mulheres (0,3%). “O resultado é preocupante. O ideal é que os índices dos três primeiros meses de legislação tivessem se mantido”, avalia Deborah Malta, coordenadora-geral de doenças e agravos não transmissíveis. “A lei é o amparo legal para que os órgãos fiscalizem e desenvolvam ações que levem ao seu cumprimento. Não deve ser questionada. As campanhas são importantes e estão acontecendo. Acredito que essas ações integradas promovem mudança de hábito, inclusive entre os adultos”, explica.

A coordenadora é a favor de campanhas como a lançada em 10 de junho pelo Ministério da Justiça. No Balão do Aeroporto, uma garrafa de 8m de altura abriga um carro batido — alerta para todos.

Desnutrição legal

Autor da proposta que reduziu a zero a tolerância de álcool para quem está ao volante, o deputado federal Hugo Leal (PSC) defende a legislação: “Comparando o primeiro ano da lei com o de um ser humano, diria que ela venceu a barreira inicial, que á a desnutrição legal, ou seja, o esquecimento. A lei seca continua sendo debatida”.

Hugo Legal considera normal que em alguns estados a redução de acidentes fatais e de mortes não tenha se mantido. Segundo ele, é resultado do fim do medo inicial. Aliados à diminuição da fiscalização ou à inexistência dela em muitos lugares Brasil afora, os índices pararam de cair ou ficaram estagnados.

Fonte: Correio Brasiliense

terça-feira, 16 de junho de 2009

Em cada Estado o mesmo retrato

Nos últimos anos, o Rio Grande do Norte tem experimentado um nível de desenvolvimento científico na área de neu-rociências que pode encher de orgulho o povo potiguar: as pesquisas desenvolvidas no Instituto de Neurociências de Natal repercutem em revistas científicas internacionais, o que confere ao nosso Estado uma maturidade científica inestimável e contribui com o desenvolvimento acadêmico em todo o País.

A felicidade, porém, não é plena, e o ânimo está constantemente abalado por notícias que chegam de todas as regiões sobre a condição da assistência psiquiátrica brasileira. Lamentavelmente, o retrato no Rio Grande do Norte é cópia dos relatos vindos de fora. A negligência política sai de Brasília e se dissemina por todos os lugares. A reforma da assistência em saúde mental conduzida pelo Ministério da Saúde tem implicado num verdadeiro retrocesso da assistência psiquiátrica. Assistimos ao retorno dos pacientes pobres para as ruas, que ficam à mercê de suas patologias e correm o risco de se tornar sujeitos ou vítimas de violência.

Em nosso Estado, convivemos com uma quantidade insuficiente de locais para atendimento. O índice de leitos hospitalares no Rio Grande do Norte é inferior aos 0,45/ 1000 hab, recomendado pela portaria de nº1.101/2002 do próprio Ministério da Saúde. Além disso, em Natal, com a implantação do SISREG (sistema de regulação online), foi retardado o acesso dos pacientes às internações.

Foi precipitada a desativação de leitos do único hospital público do estado (João Machado), que já vivia em estado de superlotação. Como se não bastasse, o ambulatório dessa mesma instituição foi desativado de forma precipitada e leviana. Seu Hospital-Dia também fechado, dando indícios de plano proposital para fragilizar e conduzir o hospital para a total inoperância. Como compreender o fechamento de equipamentos que vem prestando bons serviços à comunidade? É essa a "reforma psiquiátrica"? A psiquiatria, como ciência, está em constante mudança e evolução. Não precisa ser reformada, assim como as demais especialidades médicas.

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) utilizados, equivocadamente, como forma de substituição dos leitos, não impedem a repressão da demanda, nem a longa permanência dos usuários, funcionando como degredadores do valor profissional psiquiátrico, uma vez que nos deparamos com unidades em que o profissional só comparece quinzenalmente, quando não mensalmente. Além disso, carecemos de serviços para o tratamento dos dependentes químicos, bem como existe uma grande lacuna quando se trata de unidades para crianças e adolescentes.

A rede ambulatorial está aquém da demanda. A quantidade de médicos psiquiatras é insuficiente, e os Caps, além da já citada inadequação, precisariam existir em maior número e com assistência médica adequada. As equipes multidisciplinares, por mais onipotentes que se apresentem, não podem prescindir do psiquiatra. Afinal, é ele quem estabelece o diagnóstico e a terapêutica correta para os portadores de transtorno mental.

É de causar indignação tanta ingerência, irresponsabilidade e negligência. Resta-nos, ao menos por enquanto, trabalhar e torcer para que nossos apelos, em algum momento, alcancem a consciência de políticos realmente comprometidos.

Enquanto isso, buscamos fazer a nossa parte. O Rio Grande do Norte promoveu a XIII Jornada Nordestina de Psiquiatria, que aconteceu nos dias 4, 5 e 6 de junho, em Natal. A nossa dedicação para viabilizar esse evento provou que, apesar da falta de investimentos, estamos contribuindo para o aprimoramento e desenvolvimento científico da especialidade.

Paralelamente, o trabalho político continua. Com a habitual disposição para colaborar com os responsáveis, reafirmamos o desejo de encontrar autoridades empenhadas em seguir as Diretrizes para um Modelo de Assistência Integral em Saúde Mental, elaboradas ainda em 2006 pela Associação Brasileira de Psiquiatria. O tempo passa e o cenário da saúde mental no Brasil e no Rio Grande do Norte não pode piorar.

Fonte: O Jornal de Hoje

49,8% da violência doméstica é praticada por pessoa alcoolizada

Quase metade das agressões domésticas é realizada por pessoas alcoolizadas. É o que mostra uma pesquisa realizada em 108 cidades brasileiras - da qual Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica fizeram parte. Os dados revelam que 49,8% dos casos de violência dentro de casa são cometidos por pessoas que fazem uso de bebida alcoólica.

O estudo também traz o perfil dos agressores, das vítimas, as consequências, e a frequência desses abusos. O coordenador da pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, o psicólogo Arilton Fonseca, explica que a alta incidência de álcool em casos domésticos já era conhecida, mas o Brasil precisava de uma constatação.

Sofrimento duradouro

"Foram 7 mil famílias pesquisadas, e não tivemos nenhuma surpresa com a associação do álcool às agressões sofridas. Isso é uma realidade mundial que foi refletida no país. O que chamou a atenção foi o tempo de sofrimento das vítimas nesses casos específicos".

Quando o álcool entra nas residências dos brasileiros, as agressões podem durar décadas. Os agredidos, em 15,7% dos casos, têm os abusos repetidos por mais de dez anos. Mas entre os agressores que não bebem, esse índice cai para 4,2 %.

Isso pode acontecer por alguns motivos, como a impunidade, a falta de ajuda e o silêncio, já que 86,4% das vítimas não procuram nenhum tipo de resgate, e apenas 8,4% procuram as delegacias para denunciar os casos. O mesmo acontece com os agressores, que, em 88,6% dos casos, não procuram um fim para a situação, e não aceitam ajuda.

"As vítimas não podem se calar e precisam lutar para vencer essas ocorrências. Existem muitas formas de amenizar esse problema, como a separação, a denúncia e a busca por ajuda de profissionais", explica a delegada titular da Delegacia da Mulher de Cariacica, Tânia Zanolli. (César Fernandes)

O perfil das vítimas
Parentesco entre a vítima e o agressor
Cônjuge: 40,7% dos casos
Marido: 5,0%
Mulher: 35,7%
Filhos: 19,0%
Irmãos: 10,7%
Pai ou Mãe: 7,5%
Outros: 21,7% dos casos


Tipos de violência
Bronca ou discussão: 86.9% das queixas
Escândalo: 73,9%
Agressões físicas (soco, tapa, empurrão)
Ameaças: 37,4%
Agrediu: 25,6%

Relação sexual forçada
Ameaça: 4,8%
Consumou: 3,3%

Agressões com armas
Ameaça: 11,1%
Agrediu: 5,0%

Fonte: Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Na Grande Vitória, índice pode ser maior

O índice das agressões domiciliares praticado por pessoas alcoolizadas pode ser ainda maior na Grande Vitória. É o que afirma a titular da Delegacia da Mulher de Cariacica, Tânia Zanolli. Segundo ela, esse número pode saltar de 49,8% - dado da pesquisa - para 80%.

A delegada afirma que o machismo aparece como base para agressões, mas o álcool impera como o grande motivador das ocorrências. "O álcool é uma arma. Se fosse classificar, essa seria a causa número um das agressões", diz.

O álcool funciona com multiplicador da violência. O percentual de agressões com uso de objetos, por exemplo, é de 16,7%, em quem bebe; e 7,1%, nos sóbrios. "A violência já existe, mas é aguçada com a bebida. Mesmo sendo uma doença, a consciência do agressor é presente. Ninguém fica bêbado e agride o patrão ou o colega. Esse cidadão mostra o lado violento com a família", afirma


Fonte: A Gazeta

Brigas de trânsito se multiplicam pelo Brasil

A briga no trânsito, de tanto acontecer, virou estatística. Gente que, de uma hora para outra, vira bicho. Tem explicação? Já se contam às centenas os casos que, diariamente, nós vemos pelas ruas.

Curitiba, plena luz do dia. Um motorista se irritou com o caminhão de uma floricultura parado no meio da avenida e agrediu o dono da loja. A filha do comerciante e outras duas mulheres revidaram e atacaram o rapaz.

Quando tudo parecia terminado, ele voltou ao carro e com uma caneta atacou a jovem. Uma mulher usou um pedaço de madeira. O comerciante e o motorista voltaram a se atracar. Seis pessoas tiveram que separar os dois.

Ferida, a moça tenta impedir que o rapaz e o pai dele deixassem o local. Mas eles foram embora antes da chegada da polícia.

Impaciência? Intolerância? Nenhum motorista gosta de admitir que perde a cabeça. É sempre o outro.

“Nunca perdi a cabeça no trânsito”, diz um motorista.

“Não sou de briga”, garante um homem.

Mas são cada vez maiores os relatos de agressões no trânsito.

“Já viu gente ser agredida na minha frente. O pessoal se engalfinha, briga à toa”, observa um motorista.

Só Em São Paulo, o disque 190 da Polícia Militar recebe por dia 400 registros. Seria maior não fosse o medo. O publicitário Thiago Vieira estava no carro parado no farol quando um motorista bateu na traseira do veículo. O rapaz desceu e partiu para cima dele. Socorrido por quem passava pelo local, ele não quis prestar queixa.

“Não sei do que o ser humano é capaz. O que pode ser capaz uma pessoa enfurecida. Talvez ele estivesse com outros problemas e descontou na hora. Eu não queria pagar para ver e preferi eu mesmo pagar meu prejuízo e evitar maiores aborrecimentos para mim”, diz o publicitário.

Especialistas em trânsito dizem que a relação do brasileiro com o carro tem a ver com status e poder. Dominar o veículo, as ruas, impedir ultrapassagens são formas de exibição. Da combinação de problemas em casa, no trabalho e de um trânsito caótico pode nascer a violência.

São flagrantes como o de uma grávida. Ela quase apanhou depois que tentou socorrer o marido durante uma briga de trânsito. E a morte trágica de Alexandre de Andrade, de 18 anos, que levou um tiro disparado por outro motorista.

No caso de Curitiba, um grupo inteiro perdeu a cabeça. O alerta é do psiquiatra Júlio César Fontana Rosa: isso pode acontecer até mesmo com pessoas que não tenham antecedente de agressividade.

“Em determinadas situações que você tem tempo para refletir, você deixa de realizar aquele ato. Algumas pessoas não conseguem ter essa reflexão. Temos que ficar atentos porque o trânsito está nos levando a situações de impaciência onde estamos explodindo. Em São Paulo já está difícil de o sujeito aceitar que o carro da frente fique a 10 metros do seu, por exemplo”, explica o psiquiatra da ABRAMET Júlio César Fontana Rosa.

A partir de 1 de julho quem se envolver em um acidente grave de trânsito terá a carteira suspensa e será obrigado a passar por exames físicos e psicológicos. Ficará a cargo da autoridade de trânsito local definir o que é acidente grave.


Assista:



Fonte: Bom Dia Brasil

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"Saúde mental precisa de atenção"

No mês da luta antimanicomial, a Associação Brasileira de Psiquiatria, presidida pelo pernambucano João Alberto Carvalho, chama a atenção para a necessidade de ampliar as ações de reforma psiquiátrica, o que inclui a criação de uma rede integrada e hierarquizada de assistência, desde a atenção primária nas comunidades até às eventuais necessidades de hospitalização. Na entrevista a seguir, Carvalho faz uma análise do processo.

JC – Temos mais de uma década de reforma psiquiátrica e ainda encontramos hospitais lotados de portadores de doença mental? Por quê?

JOÃO CARVALHO – Pernambuco reflete uma condição nacional. O novo modelo de assistência psiquiátrica propôs uma desospitalização. A Associação Brasileira de Psiquiatria não defende os manicômios. A reformulação era necessária e tinha que acontecer. Como a reforma da assistência, passamos a observar fenômenos curiosos. Houve a desospitalização e, paralelamente, não foi garantida uma assistência em termos desejáveis. Não foram progressivamente instalados ambulatórios e outras formas de hospitalização necessárias e indicadas. Os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) foram criados, mas a estrutura não foi concebida para atender toda a demanda psiquiátrica, que inclui dar conta de emergência, hospitalização, reabilitação e ambulatório.

JC – É necessária uma assistência específica para cada tipo de paciente?

CARVALHO – Exatamente. Como em toda medicina, existem graus diferentes de complexidade de doença e que pedem ferramentas específicas. Em psiquiatria, não só existem graus de complexidade como estágios diferentes. Pode haver um momento em que o paciente esteja compensado, na sua rotina. Mas pode existir o momento em que ele precise de uma emergência. Se há precariedade das emergências gerais, o que dizer da psiquiátrica? O paciente precisa ter uma rede integrada e hierarquizada de saúde, onde o paciente tenha a prevenção, passando pela hospitalização se necessário, e ambulatório, que deveria ser a ferramenta mais difundida de atendimento. O paciente precisa ter acesso aos medicamentos essenciais e a unidades psiquiátricas em hospital-geral. Essas ferramentas não foram oferecidas no tempo adequado. Se por um lado você tem alguns avanços e excelências em saúde mental, por outro há retrocesso de décadas.

JC – Por que a reforma não avança?

CARVALHO – Faltou determinação para fazer em tempo apropriado a transição do sistema. A pressa revela muitas vezes a necessidade de uma implantação mais ideológica do que assistencial. O discurso foi privilegiado. A lei existe e tecnicamente representa um avanço inédito, mas falta oferecer o que a lei determina. Publicamos em 2006 e entregamos três vezes ao Ministério da Saúde diretrizes para um modelo de assistência em saúde mental e tem sido muito pouco considerado. Tem sido atualizado a cada ano, com informações de psiquiatria infantil e tratamento da dependência de álcool e drogas.

JC – Se os gestores quiserem cumprir a lei, faltarão psiquiatras?

CARVALHO – Não acho que faltem psiquiatras no Brasil. A questão é a má distribuição. Eles estão mais concentrados na área urbana do que no interior e mais centralizados no Sul e Sudeste do que no Norte e certos Estados do Nordeste e Centro-Oeste. No Maranhão todo, só há 21 médicos psiquiatras. No Amapá e Roraima, são dois ou três. Pernambuco tem um número muito bom, são 166 psiquiatras cadastrados, segundo banco de dados do Ministério da Saúde, mas precisa aumentar o número de vagas de residência. O poder público culpa os médicos pelo déficit, dizendo que eles não querem trabalhar no serviço público. Mas a questão é o que eles oferecem como remuneração justa, plano de cargos e educação continuada. A Associação Brasileira de Psiquiatria tem um programa de educação continuada, virtual, com aulas novas a cada mês e avaliação. Ele tem sido copiado no mundo inteiro.

JC – Como evitar o alto consumo de psicotrópicos?

CARVALHO – A medicalização de problemáticas individuais e sociais é um fato no mundo inteiro. Preconizamos que seja evitado. Se as pessoas têm ferramentas educativas, sociais adequadas, a tendência a experimentar determinadas vicissitudes como doença é nula. Isso reduzem o adoecimento da população. Por isso, é necessário promover campanhas educativas e orientação nas escolas. A Anvisa tem feito um trabalho sério de desestímulo ao uso de remédio sem receita. Mas ainda é um fato a venda sem controle.

JC – Como a população carcerária, portadora de doença mental, está sendo assistida?

CARVALHO – A Associação Brasileira de Psiquiatria participa de uma comissão que visita hospitais de custódia. Visitamos no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Não chegamos ainda a Pernambuco porque somos poucos. Se o doente está no sistema penitenciário é que ele deixou de ser atendido no sistema de saúde. Propomos um diálogo mais íntimo entre saúde e judiciário. O doente mental não é por si só violento. Se tornou-se, é porque faltou tratamento. Quando ele entra no sistema prisional é duplamente estigmatizado. É doente e criminoso.


JC – Como promover saúde mental?

CARVALHO – A prevenção é essencial e possível. A Associação Brasileira de Psiquiatria tem uma série de ferramentas para crianças, escolas e populações em maior risco, como adolescentes e pessoas que vivenciam catástrofes, como enchentes. Detecção precoce de casos, intervenção, encaminhamento rápido, Programa Saúde da Família com retaguarda psiquiátrica necessária para orientar o profissional e uma rede boa constituem o trabalho primário. A prevenção, portanto, passa por saúde, educação, emprego, condições de moradia, diagnóstico precoce e higiene.


Fonte: Jornal do Commércio

Mulheres que sofrem de "drunkorexia" trocam comida por álcool

Aos 11 anos, Sueli (nome fictí-cio) era uma criança bastante ativa. Fazia natação, ginástica rítmica e até se envolvia em competições. Seu peso era o esperado para uma garota de sua idade, mas, mesmo assim, Sueli não queria comer.

"De manhã, minha mãe mandava o lanchinho para a escola, mas eu não comia. No início, ele embolorava dentro da lancheira. Depois, comecei a jogar fora. À noite eu jantava, mas vomitava tudo", conta.

Sueli faz parte do grupo crescente de mulheres que, em algum momento da vida, desenvolverá algum tipo de transtorno alimentar --no caso dela, os 4% que sofrem de anorexia nervosa. O dado é do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (Ambulim/IPq).

Seu drama alimentar se iniciou com uma anorexia com vômitos provocados. Mas não parou por aí. Com o repúdio aos alimentos, veio o uso de álcool e de remédios para emagrecer. "Com 13 anos, comecei a fazer regime. Estava pesando 67 kg para os meus 1,68 m quando comecei a tomar remédio para perder peso."

O álcool e as drogas psicoativas costumam ser usados para aliviar a dor e a ansiedade causadas pela fome, mas o contrário também acontece. Alcoólatras -ou alcoólicos, termo preferido por entidades ligadas ao tema- e dependentes químicos podem desenvolver transtornos alimentares.

Segundo uma pesquisa feita com 80 pacientes do Programa da Mulher Dependente Química (Promud/IPq), 56% das mulheres dependentes de álcool ou de drogas que estavam em tratamento tinham algum tipo de transtorno alimentar.

Dessa porcentagem, 41% tinham transtorno do comer compulsivo, 30% tinham bulimia e 8% eram anoréxicas. Os dados serão apresentados amanhã no 8º Congresso Brasileiro de Transtornos Alimentares e Obesidade pela psicóloga Silvia Brasiliano, coordenadora do Promud. "As mulheres com transtornos alimentares têm oito vezes mais chance de ter um transtorno relacionado ao álcool e a outras drogas", diz.

A droga mais procurada por quem sofre dos transtornos é o álcool, mas são comuns os casos de uso de anfetaminas, cocaína e crack, que também ajudam a aplacar a fome.

As anoréxicas passam a recusar a comida, mas a aceitar o uso dessas substâncias. As compulsivas geralmente tentam substituir a comida por alguma delas, enquanto as bulímicas juntam, à compulsão, formas de compensar a ingestão de calorias, como vomitar ou usar laxantes e diuréticos.

Foi o que fez Sueli para chegar aos 45 kg. "Durante um bom tempo, fiquei à base só de remédio. Passei 21 dias sem comer, só chupava limão. Comecei a ter quedas de pressão. Aí eu comia e vomitava tudo."

No ano que se seguiu, ela teve grandes alterações de peso e entrou no que se chama de "efeito sanfona". Teve que tomar injeção de corticoides para asma e engordou um pouco. "No fim do mesmo ano, estava com 68 kg. Engordei e fiz dieta de novo. Fui para 78 kg. No início do ano seguinte, eu já estava com 53 kg", lembra.

Para a psicanalista Dirce de Sá Freire, coordenadora do curso de especialização "Transtornos alimentares- obesidade, anorexia e bulimia", da PUC-RJ, a chave dos transtornos alimentares e da dependência de drogas é a mesma: a compulsão.

As duas psicólogas concordam que a sociedade moderna tem sua parcela de culpa nos transtornos. "Nossa sociedade é centrada no indivíduo e há enfraquecimento de vínculo social", afirma Brasiliano.

"Isso abre portas para o que chamamos de patologias do desamparo, como a compra e o jogo compulsivos", completa a coordenadora do Promud.

Dirce de Sá, da PUC-RJ, acredita que esse tipo de comportamento esteja ligado à dificuldade de estabelecer e obedecer a limites. "As marcas do nosso tempo são a falta de limites e o excesso. Estamos sempre à beira da transgressão", diz.

A isso soma-se a busca da imagem ideal, inalcançável para a maioria das pessoas.

"A mídia vê a magreza como padrão ouro de beleza. Há um estímulo a viver perigosamente", afirma o psiquiatra Hamer Nastasy Palhares, do Núcleo Einstein de Álcool e Drogas, do hospital Albert Einstein.

"Drunkorexia"

Musas da música pop como Amy Winehouse e Britney Spears, que frequentemente combinam o uso de álcool e drogas com pouca ou nenhuma comida, costumam influenciar as jovens.

Elas foram a inspiração para o transtorno que vai virar assunto da próxima novela das oito, a "drunkorexia" (em inglês) ou "ebriorexia" (em espanhol). Os nomes não são científicos, mas, segundo Palhares, podem ajudar a esclarecer o problema. "Não é um termo oficial, mas tem um apelo didático. Ajuda as pessoas a identificar que têm um problema", diz.

Embora seja novidade para alguns, os termos já são comuns em blogs de adolescentes. Depois das páginas que encorajavam a anorexia e a bulimia, o assunto da vez é a "drunkorexia".

Ágata (também nome fictício), 19, é um exemplo. Ela e uma amiga criaram uma comunidade no site de relacionamento Orkut para contar suas experiências.

Para não ingerir muitas calorias, Ágata costuma pular refeições e fazer jejum nos dias de festa ou de happy hour. "Evito comer, até para não pesar o estômago, para poder beber à vontade e sentir que minha roupa continua agradável", conta a estudante.

Casos como o de Ágata podem não parecer alarmantes, mas é tênue a linha que os separa da doença. "O divisor de águas é quando a pessoa passa a consumir o álcool a ponto de se envolver em problemas como atrasar no trabalho, provocar uma pequena batida de carro ou restringir a alimentação exageradamente", explica Brasiliano, do Promud.

Antes de frequentar bares ou festas, Ágata teve um "princípio de anorexia". Na época, ela tinha um fotolog onde exibia suas fotos e comunicava os avanços de sua dieta. Com o tempo, porém, a jovem desistiu da ideia e voltou a ganhar peso. "Recuperei todos os sofridos quilos que emagreci", conta.

"De 20% a 30% dos casos de aneroxia envolvem o uso de substâncias psicoativas. É comum haver dieta bastante restritiva e uso de álcool", afirma o psiquiatra Palhares.

Ele lembra que a prática, no entanto, é um péssimo negócio. "Um grama de álcool tem sete calorias, o que é quase o dobro do valor calórico de um um grama de açúcar."

Embora os transtornos alimentares atinjam principalmente as mulheres, eles não são mais problemas exclusivos delas. "Entre 10% e 15% dos anoréxicos são homens. Não é mais uma doença de gênero como se acreditava", diz a psicóloga Dirce de Sá.

Consequências

Ao se deparar com uma página similar à de Ágata na internet, Sueli não se conteve e enviou uma resposta à garota. "Resumi meu histórico para ela e espero que sirva para alguma coisa", diz.

Depois de conviver 25 anos com os transtornos alimentares e a dependência química, entrar em coma alcoólico e tentar o suicídio, ela vê no corpo os efeitos dessa combinação. Sofre de refluxo, hipertensão e problemas intestinais.

Atualmente, Sueli tenta manter sua compulsão sob controle, mas sem ilusões. "Não é fácil, é um problema para a vida inteira", reflete.


Fonte: Folha de S. Paulo