Fases de euforia, extroversão, dificul-dade para se concentrar, falta de sono e excessos comportamentais (como exagerar no álcool, nas drogas, nas compras ou no sexo) seguidas de períodos de depressão, nas quais a pessoa não tem vontade de fazer nada ou fica muito irritada. Essa montanha russa de sintomas é típica de quem sofre de transtorno bipolar, mal que afeta de 7% a 9% da população e é tema do filme “Amantes”, lançado recentemente no cinema.Especialista no assunto, o psiquiatra Diogo Lara cansou de receber em seu consultório, em Porto Alegre (RS), pessoas em crise porque receberam antidepressivos, como o Prozac, ou remédios para déficit de atenção, como a ritalina, após um diagnóstico equivocado. Essas substâncias, quando receitadas sem acompanhamento adequado para quem é bipolar, podem deflagrar as crises de “mania”, ou seja, fases em que o humor está “para cima” demais.
“No início a pessoa se sente bem, inflada, mas depois de um tempo começa a meter os pés pelas mãos: se descontrola nos gastos, nos relacionamentos e, quando a vida degringola, ela vai buscar ajuda”, conta o psiquiatra. Em determinado período, metade dos pacientes que buscavam seu consultório tinham esse perfil, o que o motivou a escrever o livro “Temperamento forte e bipolaridade – Dominando os altos e baixos do humor”, que acaba de ser relançado pela Editora Saraiva.
O livro aborda um aspecto delicado para quem é bipolar ou convive com quem sofre do transtorno: a dificuldade para distinguir o que é a doença e o que faz parte da personalidade da pessoa. E saber quando uma fase de mania ou de depressão está chegando é uma arma eficiente para evitar prejuízos na vida da pessoa. É nessa hora que o médico pode ajustar a dose do remédio, evitando os altos e baixos típicos do transtorno, que já foi associado a personalidades como Virginia Woolf, Kurt Cobain, Robin Williams e Vincent van Gogh.
Para entender melhor as variações de humor, é preciso, antes de mais nada, compreender que existem características de temperamento que não necessariamente envolvem qualquer doença. Veja alguns “estilos afetivos” descritos pelos especialistas:
* Hipertímicos: manifestam o dinamismo e a busca por estímulos e sensações prazerosas, tendem a ser exploradores, impulsivos, otimistas, entusiasmados, inquisidores, extravagantes, curiosos e desorganizados. Tem como vantagens o potencial para a criação, a inovação, a liderança, o carisma, as descobertas e o progresso. Adaptam-se pouco a sistemas regrados, rotineiros e previsíveis, podendo ficar inquietos, irritados ou, às vezes, desanimados.
* Depressivos: são preocupados, pessimistas, passivos, cautelosos, quietos, tímidos e indecisos. A vantagem está principalmente na capacidade de manter a cautela e traçar um planejamento cuidadoso para momentos em que há de fato alguma ameaça ou perigo. Em geral, são pessoas reservadas, reflexivas, resignadas, que toleram bem situações monótonas, preservam e gostam de ordem. Em excesso, gera ansiedade e inibição desproporcionais ao risco real.
* Ciclotímicos: a característica principal é a alternância entre períodos de autoconfiança alta e baixa, estados apáticos e energéticos, pensamentos confusos e rápidos/aguçados, humor tristonho e brincalhão/irônico, momentos introvertidos/calados e expansivos/falantes, sonolência e pouca necessidade de sono.
* Irritáveis: apesar de menos definido e comum, esse grupo inclui pessoas que manifestam a irritabilidade como uma característica marcante e constante. Podem ser ameaçadores, desconfiados, combativos e destrutivos.
Como saber, então, quando uma atitude é compatível com o temperamento da pessoa, ou sinaliza um sintoma do transtorno bipolar? Em um quadro, o autor mostra como certos comportamentos são manifestados por uma pessoa normal, por um hipertímico, e por quem está numa fase de “hipomania” (ou pequena mania) ou “mania”.
Por exemplo: uma pessoa hipertímica pode ser menos controlada com os gastos, mas não sofre consequências por isso. Já quem está em hipomania tende a gastar com impulsividade e as dívidas se acumulam. Já na fase típica de mania, a pessoa fica fora de controle e dívidas grandes surgem em um curto espaço de tempo.
Além do acompanhamento profissional e dos remédios, algumas atitudes são importantes para evitar os altos e baixos, como dormir bem (de sete a nove horas por dia, de preferência em horários regulares), praticar uma atividade física, de preferência a aeróbica e no período da manhã (os exercícios são estabilizadores naturais de humor) e incorporar o peixe ou o óleo de peixe à dieta (estudos mostram que a bipolaridade é mais frequente em países com baixo consumo do alimento).
Excesso de estímulos
De acordo com Lara, há uma impressão geral de que a incidência do transtorno bipolar está aumentando, por uma questão ambiental. “Todos os dias recebemos no consultório pessoas que estão turbinadas pelo excesso de tarefas e de estímulos, ou que estão frustradas porque não conseguem acompanhar o ritmo”, comenta.
O psiquiatra está coletando dados pela internet para um estudo científico que, segundo ele, não possui patrocínio da indústria farmacêutica. Trata-se de um questionário que leva aproximadamente 2,5 horas para ser preenchido. A contribuição, anônima, pode ser feita no site www.temperamento.com.br. Quem participa recebe um retorno sobre seu perfil psicológico e psiquiátrico.
“Temperamento forte e bipolaridade – Dominando os altos e baixos do humor”
Autor: Diogo Lara
Editora Saraiva
168 páginas
R$ 29,90
Fonte: UOL
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