segunda-feira, 9 de novembro de 2009

45% da Grande São Paulo já manifestou transtorno mental

Na região metropolitana de São Paulo, 45% dos residentes já tiveram algum transtorno mental ao longo da vida. Nos últimos 12 meses, 30% manifestaram algum problema.

As informações inéditas constam do projeto São Paulo Megacity, um estudo realizado pelo IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas de São Paulo com 5.037 residentes dos 39 municípios da região. Foram excluídos moradores de rua, pessoas que vivem em instituições e presos. Os dados foram apresentados ontem no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em São Paulo.

O grupo de doenças que compõem os transtornos de ansiedade, como estresse pós-traumático, fobias específicas e transtornos de pânico, é o mais frequente nessa população ao longo da vida, respondendo por 28% dos casos.

Isoladamente, a depressão foi a doença mais prevalente -18% dos avaliados manifestaram o problema. Em seguida estão as fobias específicas (12,4%) e abuso e dependência de álcool e drogas (9,8%).

"A Grande São Paulo tem características que a diferem de outros contextos, no que diz respeito à violência, por exemplo. Isso pode ajudar a explicar a alta prevalência dessas doenças", diz a psiquiatra Maria Carmen Viana, pesquisadora do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica do IPq e uma das investigadoras.

Os pesquisadores entrevistaram pessoalmente, entre maio de 2005 e abril de 2007, voluntários com mais de 18 anos. Foram usados métodos específicos para detectar transtornos mentais em estudos epidemiológicos. Segundo a psiquiatra do IPq Laura Helena Andrade, coordenadora do trabalho, os resultados de pesquisas com essa forma de avaliação realizadas em outros países foram confirmados em exames clínicos detalhados posteriores.

Segundo o Ministério da Saúde, as prevalências dessas doenças no Brasil seguem as taxas mundiais, mais baixas do que as apresentadas na Grande São Paulo. No caso dos transtornos de ansiedade, a proporção é de 15% da população.

Dados do ministério mostram ainda que, no país, a depressão grave atinge 6% das mulheres maiores de 15 anos e 2% dos homens. A moderada ou leve é manifestada por cerca de 15% da população em algum momento da vida.

Dados de estudos internacionais apontam ainda que cerca de 30% das pessoas manifestam algum transtorno psiquiátrico ao longo da vida, de acordo com o psiquiatra Acioly Lacerda, professor de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Uma das hipóteses para explicar a alta prevalência na Grande São Paulo são dados de trabalhos científicos que apontam relação proporcional entre o tamanho da cidade e o maior risco para transtornos graves. "Existem vários fatores que influenciam, como o estresse social. O estresse mais poderoso nesse sentido é o da competitividade, da expectativa social, que é muito maior em megalópoles do que em locais menores", explica Lacerda.

Para os pesquisadores, São Paulo não está preparada para lidar com os problemas. O estudo mostrou que, entre os que sofrem de depressão, por exemplo, somente 37% dos pacientes recebem tratamento -desses, 15% seguem tratamento que consideram adequado (com visitas ao médico ou ao psicólogo e uso de antidepressivos ou psicoterapia).

"Esses dados precisam ser analisados para apontarmos a que se deve o problema. Mas é preciso ter políticas públicas de saúde direcionadas para prevenção em crianças e adolescentes com risco, detecção e intervenção precoce", diz Viana.

1 em cada 4 mulheres teve depressão

De acordo com o estudo, as mulheres sofrem mais de depressão do que os homens -uma em cada quatro manifesta o problema ao longo da vida, contra 11,3% deles.

No entanto, a doença incapacita mais o sexo masculino -62% apresentaram alguma incapacitação grave em relacionamentos, atividades em casa ou no trabalho e na vida social, enquanto 46% delas tiveram o problema. "Vimos que a incapacitação aumenta quanto mais precoce é a doença", afirma Laura Andrade.

Uma das explicações é que o homem tende a lidar mal com o problema. "Ele tem outras estratégias, como abuso de drogas, álcool, envolvimento em violência. Muitos dos diagnosticados como abusadores de substâncias têm primariamente depressão, mas elas mascaram a sintomatologia", diz Lacerda.

A dificuldade de identificar os sintomas também explica os menores índices de prevalência entre eles.

Com relação à classificação da doença, 73% das depressões diagnosticadas eram graves ou muito graves (com sintomas mais intensos). Mais da metade (53%) manifestou algum outro transtorno psiquiátrico e 45% apresentou ansiedade associada.

Entre as principais comorbidades, os pacientes apresentaram dores de cabeça graves e frequentes (54,7%) e dores nas costas (39%) -sintomas relacionados à doença.

Nos últimos 12 meses, 10,4% da população estudada manifestou a doença. Esse número, segundo os pesquisadores, é mais alto do que as taxas dos EUA, por exemplo, país com índices elevados da doença. "Em comparação com países desenvolvidos e em desenvolvimento, as taxas da Grande São Paulo são maiores", diz Andrade.


Fonte: Folha de S. Paulo

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