
Foto: Edison Russo
Os doentes mentais que experimentam delírios têm o dobro do risco de vitimização do que os que não os experimentam, diz especialista.
As pessoas com alguns tipos de doenças mentais cometem mais crimes do que as que não padecem dessas mesmas doenças. Essa é relação provada e demonstrada em criminologia em pesquisas feitas em diferentes países. Não obstante, estudo recente dirigido por Brent Teasdale, professor na Georgia State University, produziu novas informações: as doenças mentais aumentam mais o risco de o paciente se tornar vítima de crime do que de cometer um.
Teasdale foge dos rótulos mais ambiciosos das doenças mentais e se concentra em comportamentos e sintomas mais específicos. Pacientes que sofrem de alucinações, por exemplo, são vítimas preferenciais de crimes, o mesmo passando com pacientes com delírios. O risco de vitimização é multiplicado quando o paciente está drogado ou alcoolizado, ou não possui residência. Contudo, morar ou não na rua é variável associada à vitimização de direito próprio. Os moradores de rua são vítimas de crimes com muito mais frequência do que os que têm um “ponto”, um lugar onde dormir. Essa é relação que se explica por várias teorias, inclusive a dos encontros, a de atividades de rotina e a de oportunidades.
Os moradores de rua passam mais tempo expostos a agentes do crime do que os demais, que têm residência fixa ou dispõem de um ou mais pontos onde passarem a noite e/ou parte do dia. Os momentos que um morador de rua passa em um ponto protegido reduzem o risco de crime. Essa redução é de particular importância à noite, como previsto pela teoria dos encontros. Essa teoria propõe que, nas sociedades modernas, o risco de encontro com um criminoso é mais alto à noite. Para evitar esses encontros, é mais importante ter onde ficar à noite do que ter onde ficar durante o dia.
Teasdale quantificou o risco. Os doentes mentais que experimentam delírios têm o dobro do risco de vitimização do que os que não os experimentam. A população tem receio dos doentes mentais, particularmente se esses apresentarem sintomas como delírios e alucinações. De fato, as doenças mentais aumentam a probabilidade de cometer um crime, violento ou não. E, entre os doentes mentais, os que apresentam delírios e alucinações cometem mais crimes do que os que não apresentam esses sintomas. Essas relações são verdadeiras, mas provocam medo generalizado e estigma.
"O estigma pode aumentar a violência preventiva contra doentes mentais. Creio que, na maior parte dos casos, as pessoas tomam medidas e ações evasivas e algumas cometem violências verbais, outras cometem violências físicas que, hipotetizo, não seriam cometidas se as vítimas fossem pessoas normais", comenta Teasdale.
"Os doentes mentais, nos momentos da doença, podem estar confusos e voltados para dentro, distorcendo suas percepções do ambiente que os circunda. Percebem pouco e avaliam pior. Nas explosões de delírios e alucinações as pessoas encarregadas, inclusive voluntariamente, de cuidar dos pacientes podem fugir deles e da sua responsabilidade, deixando-os à mercê dos encontros negativos. Não é fácil lidar com delírios e alucinações".
Os resultados sugerem algumas medidas preventivas. Parentes e amigos de pacientes mentais, em geral, devem ser alertados a respeito da maior vulnerabilidade deles, em particular dos que apresentam delírios e alucinações. Nos países em que predomina a lei de Gerson e o limiar da responsabilidade é baixo, esse abandono talvez seja mais frequente e os riscos para o paciente muito mais elevados.
As conclusões de Teasdale foram baseadas numa pesquisa chamada de MacArthur Violence Risk Assessment Study, que acompanhou durante um ano pacientes que tiveram alta de hospitais psiquiátricos.
Fonte: Jornal Correio Braziliense.
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