Um país doente
As discussões sobre uma nova maneira de financiar a saúde abre espaço para questionamentos que renovam a certeza de uma doença que parece incurável no Brasil — a má gestão dos recursos públicos quando se trata de liberação de verbas para o setor mais caótico entre todos que necessitam de mudanças. Reportagem exibida na tevê no último domingo mostra um argumento irrefutável de que esse mal — que se alastra a cada ano e a cada governo — contamina os quatro cantos do país, sem distinguir região ou estado para atacar.
A reportagem concentrou o foco em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Sergipe, Paraíba e Pará, com dados alarmantes. Por exemplo, são centenas de ambulâncias velhas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) quebradas, sem documentação, que rodam pelo território brasileiro, além de 1,2 mil outras novas, mas paradas, abandonadas, sem condições de atender a um público que chega a 112 milhões de brasileiros por ano.
Diante dos fatos, é de se indagar: o que adianta aumentar a verba da saúde, se os gestores, na ponta do sistema, em estados e municípios, deixam a situação chegar a esse ponto? Imagine a farra que será feita se a presidente Dilma Rousseff conseguir dobrar o orçamento de uma área tão importante. A mesma reportagem expôs declarações ridículas, risíveis, inaceitáveis, das autoridades que tentaram se justificar na tevê.
Na Paraíba, o secretário de Saúde, Waldson Souza, culpa o governo anterior pela desordem no sistema de atendimento móvel. "Critérios políticos definiram a quem o estado iria agraciar naquele momento. Por critérios técnicos, muitos municípios não teriam recebido, porque não têm serviços para regular as ambulâncias." Ou seja, os veículos do Samu não conseguem atender a população mas são preciosa moeda eleitoreira.
No ano passado, o Ministério da Saúde entregou 2.312 ambulâncias novas, mas 1.215 estão paradas. A Paraíba foi um dos estados que mais recebeu unidades. Das 160 novas, 90 estão paradas. Em São Paulo, das 281 ambulâncias recebidas, 242 estão sem rodar há mais de um ano. Em Minas, nenhuma das 72 circula. Uma ambulância muitas vezes significa a vida de um paciente, mas também a morte. "Eu estava precisando, mas ninguém ajudou", disse Maria do Carmo, referindo-se ao Samu de Maceió. Grávida de nove meses, ela perdeu o filho por falta de socorro.
Autor: Carlos Tavares.
Publicado no jornal Correio Braziliense.
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