quarta-feira, 22 de junho de 2011

Artigo:

E o petróleo saudita?

Obama quer "reajustar" a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio. O longo período de apoio a ditaduras deve encerrar-se e os americanos, como disse Obama em discurso histórico, precisam tomar assento nas trincheiras pró-democracia. Israel e os palestinos que negociem, escapando de um imobilismo asfixiante. O melhor meio de consegui-lo, na opinião de Obama, é mesmo negociar com um aditivo, a devolução antecipada, por parte de Israel, das terras ocupadas por ele com a guerra de 1967. Invasão que inclusive deu ânimo ao projeto de um Grande Israel.

Obama fez uma promessa, a de escrever um "novo capítulo" na história da diplomacia americana. Ela ficaria ombro a ombro com os que procuram injetar democracias no Egito e na Tunísia e lutam contra ditaduras na Líbia e em Baharin, embora se trate de porto até agora seguro para a sexta frota americana, a do Mediterrâneo. O sonho de um Estado judaico e democrático, sentenciou Obama de modo claro e seguro, não se realizará por completo com territórios palestinos "permanentemente" ocupados. Mas ele não aceita que os palestinos levem adiante o projeto de pedir à ONU que reconheça a existência "de fato" de um Estado palestino, com as fronteiras definidas em 1948.

Já os israelenses se recusam a concordar com as fronteiras sugeridas por Obama, por considerar que ficariam sem condições de defender-se. Há outros quesitos, que Obama certamente conhece, embora tenham ficado de fora de seu "reajuste" da diplomacia dos Estados Unidos no Oriente Médio. No discurso do presidente americano, não se ouviu um único suspiro que tratasse da Arábia Saudita, autocracia das mais fechadas e que não emitiu, até agora, nenhum sinal de que possa reformar-se. A Arábia Saudita é um dos maiores fornecedores de petróleo dos Estados Unidos.

Importante jornal de Washington já endossara a versão de que o ditador Kadafi, da Líbia, estaria sendo alvo de represálias por pretender "libianizar" o petróleo de seu país. Quanto à Arábia Saudita, pelo menos sua gente já indicaria que os ventos de mudança, mesmo que os palácios reais empurrem em sentido contrário, podem afinal alcançá-la. O rei Abdulla estava há três meses em tratamento em hospitais fora do país. Voltou com receio de "insegurança potencial" que poderia desabar em cima de seu trono. Mas não falou nada, pelo menos até agora, que pudesse resultar em mudanças políticas.

Limitou-se a anunciar que aplicaria
US$ 36 bilhões em medidas de bem-estar social. Iriam para educação e moradias. Com isso teria conseguido esvaziar um primeiro "dia da fúria" que jovens sauditas chegaram a convocar, como se estivessem em fase de aquecimento. Mas a Arábia Saudita, é importante registrar, tem uma demografia mais ou menos igual à que ajudou a produzir rebeliões em outros países árabes. Quase a metade de sua população está abaixo dos 18 anos e não tem emprego — 40% dos jovens têm idades entre 20 e 24 anos.

São rapazes e moças que se entendem cada vez mais, sobretudo por meio da internet, com jovens de outros países árabes. Importante intelectual saudita, Mai Yamani diz que esse número aumenta "em níveis surpreendentes" as trocas de mensagens no golfo, cheio de petróleo. O ministro do Exterior da Arábia Saudita, um príncipe de nome Al-Faisal, ameaçou cortar os dedos de quem tentar interferir "em nossos problemas internos". Em outras partes do mundo, tal tipo de ameaça poderia ser encarada como figurativa. Outro autor saudita avisa que esse tipo de ameaça, em seu país, deve ser encarada ao pé da letra.

Um colunista do Guardian, de Londres, diz que os protestos ainda não explodiram na Arábia Saudita porque a monarquia no poder se apoia num "regime de terror", torturando, matando e mutilando. Mas existem outros itens. O banco francês Societé Generale avisou que "instabilidades" envolvendo a Arábia Saudita podem levar a US$ 200 o preço de um barril de petróleo. Significaria um pré-colapso, segundo estimativas de especialistas, das economias do Ocidente. Estados Unidos e Europa não querem saber disso. É o que explicaria a falta total de algum tipo de referência à Arábia Saudita no discurso de Obama pró-democracia no Oriente Médio. Mas até quando será possível esse tipo de omissão?

Autor: Newton Carlos
Publicado no Jornal Correio Braziliense.

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