Em uma tarde que não gosta de lembrar, Alberto* entrou em uma agência bancaria da Rua Santa Marcelina, na zona leste, com um cheque de R$ 2.700, pagamento de um mês inteiro de trabalho. Quando saiu do banco com o dinheiro, foi abordado por dois homens. Entregou tudo. Do outro lado da cidade, Ronaldo* foi vítima de um sequestro relâmpago há três anos. Estava parado em um semáforo de Santo Amaro, zona sul, quando um homem armado entrou em seu carro. Ameaçado com um revólver, ele dirigiu até um banco e sacou todo o dinheiro que o ladrão queria. Alberto e Ronaldo estão entre as 150 pessoas que responderam a uma pesquisa do Suplemento Focas sobre a violência em São Paulo.Setenta e sete por cento dos entrevistados disseram se sentir menos seguros hoje na capital do que há 20 anos. Alberto e Ronaldo - os sobrenomes foram omitidos para manter o anonimato - contaram que não se acham totalmente em segurança em nenhum lugar. "Nem em casa", repetiram, confirmando a resposta de boa parte dos demais entrevistados. Centro e zona leste são vistas como as regiões mais violentas.
Mais da metade das pessoas (52%) afirmou já ter sido vítima de algum crime. Destes, 78% foram roubados, 20% furtados e 2% sequestrados. Os crimes sofridos por Alberto e Ronaldo são também os mais temidos: 47% dizem se preocupar com roubo e 25%, sequestro. O medo afeta até os que não sofreram diretamente com a violência. Quem foi vítima de crimes conta para conhecidos, que, por sua vez, passam a história adiante. "Isso provoca insegurança generalizada", diz o pesquisador Naércio Menezes, do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa.
A sensação crescente de insegurança não necessariamente acompanha os índices de criminalidade. Pode até ser positiva, na visão do psiquiatra José Paulo Fiks. "A tolerância com a violência é menor hoje do que antes. Até o século 19, havia duelos nas ruas. Isso só começou a mudar nos anos 1960." Fiks trabalha no Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência, o Prove. Dez psiquiatras acompanham vítimas e testemunhas que desenvolveram algum tipo de trauma. Cerca de 12 mil pessoas já foram atendidas na Universidade Federal de São Paulo. Dessas, 41% procuraram o centro após terem sido roubadas.
OFICIAIS
O índice de assassinatos no município é hoje um quarto do que foi em 1990. Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) apontam que houve queda de 80% no total de homicídios na última década. Em 1999, a taxa era de 52,5 mortes anuais para cada 100 mil habitantes. Em 2008, esse número caiu para 11,2. Apesar de os números serem comparáveis aos de metrópoles como Los Angeles, o que diferencia a violência em São Paulo, segundo Naércio Menezes, é a abordagem dos criminosos. "O risco de morte é elevado. Há muitas armas nas mãos dos bandidos."
A queda no índice de homicídios foi acompanhada pelo aumento de cerca de 30% no número de furtos. O crescimento no total de notificações, estimuladas pela criação do boletim de ocorrência virtual e pela exigência do registro por parte dos seguros de carro, pode explicar esse aumento. Dos entrevistados, 2% apontaram o furto como o crime que mais temem.
Os dados sobre a criminalidade podem ser ainda maiores. Um estudo coordenado por Menezes mostra que menos de um terço dos paulistanos faz registro policial quando têm algo roubado ou furtado: "A maioria acha que não vai dar em nada."
Fonte: O Estado de S. Paulo
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