terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crack mata mais que gripe suína e dengue em Goiânia

Não passa nem um dia sem mor-rer no mínimo três pessoas na Grande Goiânia por causa de crack. Esses dias, morreram cinco de uma só vez; outro dia, foram mais três, em outra chacina, coisa que já se tornou muito comum. Não há muita repercussão porque atingem sobretudo os pobres (a doença mental tende a abaixar o nível socioeconômico de seu portador e da família ).

Ao contrário da gripe suína, e mesmo da dengue, os governos ficam completamente perdidos. Por quê? Para responder isso, vou voltar ao tempo em que eu era coordenador estadual de saúde mental. Naquela época, eu queria formar médicos e psiquiatras para prepará-los para os grandes desafios da saúde pública do século 21, que são os problemas mentais.

Fui ao MEC (Ministério da Educação), solicitei abertura de residência médica no HGG, veio uma equipe aqui e nem resposta se dignaram a me dar. Disseram depois que o ministério estava estimulando “residências multiprofissionais” e não residências médicas – sou favorável a todo profissional dentro da assistência hospitalar, sobretudo das enfermeiras, técnicas, auxiliares de enfermagem, as que mais lutam, se esforçam, sofrem dentro de um hospital e não são bem reconhecidas ou bem remuneradas.

Apesar do meu reconhecimento desses e outros profissionais, no entanto, com isso, não podemos anular a especificidade de cada profissão e dizer, por exemplo, que um enfermeiro, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta, pode e deve trabalhar como um médico, diagnosticando, tratando, propondo tratamento, etc. Se fazem isso, então qual a especificidade do médico? Mas, voltando ao assunto da formação médica especializada, depois eu tentei abrir um curso de especialização em Psiquiatria; do mesmo modo, as instâncias superiores, governamentais, me disseram que só iriam especializar se fosse um curso voltado para não médicos.

Por fim, tentei fazer cursos de fim de semana para treinar médicos em Psiquiatria, mas nesta época fui demitido. O resultado aí está, simplesmente não há médicos formados em Psiquiatria, capazes de atender os casos complexos de dependência de crack – casos onde estão envolvidos, além da droga, hiperatividade, bipolaridade, epilepsia, lesão cerebral, depressão, ansiedade, etc. Da mesma forma, o Ministério da Saúde, deixando hospitais psiquiátricos conveniados a pão e água por uma dezena de anos, literalmente, acabou estimulando o fechamento de leitos, leitos atrás dos quais eles agora correm desesperadamente para fazer face à epidemia de crack.

Houve, durante anos, e há uma política governamental de demonizar o hospital psiquiátrico, dizendo que era um lugar de tortura, de prisão, um lugar onde só médicos tinham o poder, etc., tudo isso para gerar cabides de empregos multiprofissionais em centros ambulatoriais do governo, centros que não deixam de ter sua grande importância, mas cuja especificidade não consegue suplantar o hospital psiquiátrico, e cujo gerenciamento, incompleto, como tudo do governo, deixa grande parcela da população sem assistência.

São centros que têm uma média de aproximadamente quinze funcionários para cada médico psiquiatra, isso quando têm médicos psiquiatras – grande parte tem apenas “apêndices prescritores em saúde mental”, médicos gerais ou de outra especialidade. Aí, quando é para pagar decentemente um médico psiquiatra nos governos, dizem que não têm dinheiro... Disseram que os leitos psiquiátricos seriam instalados em hospitais gerais do governo,coisa que nunca aconteceu, por problemas de gerenciamento, como sempre. Durante anos, engambelaram a população com discursos, leis, retórica de que doença mental é uma doença social e não médica, que doença mental se cura com amor, com hortaliças, com reuniões de bate-bapo regadas a cafezinho; tudo isso é importante na vida, mas doença é doença.

Enquanto isso, os médicos que quiseram se especializar, estudar, dentro da medicina, dentro da ciência ( e não de blá-blá-blá ), acabaram saindo do serviço público e se dedicando à, cada vez mais promissora, carreira de psiquiatra particular ou de convênios. E quanto mais deixavam o serviço público, mais este se locupletava de profissionais contrários e hostis à prática médica, profissionais que, muitas vezes, por motivos de poder e de corporativismo, até queriam substituir o médico, dando diagnósticos médicos, propondo tratamentos médicos, exames médicos – daí a grande dificuldade para se aprovar a lei que regulamenta profissão médica, o direito do médico estudar, praticar, para dar diagnósticos e indicar tratamentos.

Em vez de os médicos lutarem, escolheram o caminho mais fácil, como acontece com todo ser humano: deixaram o campo, às vezes até abandonaram a profissão (o maior índice de médicos que não exercem a medicina está justamente entre os ex-psiquiatras). Agora, para o tratamento do crack daqueles que não têm dinheiro, não têm convênios com médicos particulares ou hospitais privados, a solução de “tratamento” é esta: ter a sorte de morrer com uma bala na cabeça em uma chacina qualquer.


Fonte: Diário da Manhã

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