Não há um remédio único para tratar a esquizofrenia. Maria de Lourdes Bastos Silvino, 58, elaborou uma receita própria. “A gente tem que ter tudo: Deus, a confiança, o médico, a terapia”, indica. A presidente da Coopcaps é também mãe de Jocélio, 35. “Ele estudava, normal. Começou com uns pesadelos. Teve um surto em 89”, revela.
No hospital psiquiátrico da época, “deram aquelas injeções, e ele ficou 24 horas dormindo”, lembra Maria de Lourdes. Durante 12 anos, Jocélio viveu de remédios. Entre 2001 e 2008, “todo tipo de medicação, ele experimentou”. Eram tentativas de controlar a agitação.
Jocélio atravessa a conversa, chegando de mansinho. Vem porque sabe que estão contando a sua história e quer dizer sua versão. Gosta de praia, cinema, estudar, praia, livros, História, Geografia, praia. E de “pintar madeira. São 24 peças”, aponta o tabuleiro de damas que deixou ao sol. Ele também dá uma mãozinha à cooperativa.
A Coopcaps se tornou uma segunda casa para dona Maria e Jocélio, ampliando a família. A convivência com outros pares ameniza o problema. Também por isso, Rosália Oliveira Lucena, 60, mãe de Evanildo, 30, buscou a Associação de Defesa da Saúde Mental (ADSM): “Justamente, por essa minha curiosidade de compreender a doença dele através de outras pessoas. Cada um diz como faz para vencer aqueles problemas que estão passando. Vou conhecer os outros para saber o que sentem e poder entender o meu filho”.
Quando o pai morreu, Evanildo se trancou em seus nove anos. Até a adolescência, não queria mais sair de casa e nem estudar. O coração doía. Começaram o pânico, os choros, as vozes sem corpo, a agressividade. O primeiro diagnóstico foi depressão, “devido à idade, que era normal nessa fase de transição”. Um surto foi a luz no fim do túnel. “Eu também não sabia o que era a esquizofrenia”, partilha dona Rosália.
Há 18 anos, desde quando começou a medicação apropriada, Evanildo ensina a dona Rosália sobre a doença. Mas, principalmente, sobre a vida. “Hoje, entendo bastante meu filho. Olho ele com outros olhos: que é um ser humano, precisa de cuidado. Procuro entender as limitações que ele tem... Conviver, se entender. Esse foi o aprendizado”. (Ana Mary C. Cavalcante)
SAIBA MAIS
>A ponte entre psicologia e arte foi alicerçada, em 1946, pela psiquiatra e terapeuta alagoana Nise da Silveira (1905-). Ela fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional. Para comprovar sua teoria - de que é possível a inclusão social do paciente psiquiátrico -, ela inaugurou a Casa da Palmeiras. Ali, ao invés de eletrochoque, coma insulínico ou lobotomia, a pintura e a modelagem em argila eram os principais métodos de tratamento.
PARA PENSAR
“Agora, temos de nos ajustar à realidade dos milagres. Podemos, simplesmente, dizer que o remédio falhou... Ou que a própria doença retornou... Ou que os pacientes não suportaram ter perdido anos de vida... A realidade é que não sabemos o que deu errado nem o que deu certo. O que sabemos é que, ao se fecharem as janelas químicas, outro despertar aconteceu. O espírito humano é mais forte que qualquer remédio. E é isso que precisa ser alimentado... Por meio do trabalho, lazer, da amizade e da família. Isso é o que importa. Foi disso que nos esquecemos. Das coisas mais simples”. Trecho do filme Tempo de Despertar.
Fonte: Jornal O Povo
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