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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Opinião: drogas e políticas públicas

Crack: uma realidade dolorosa

A sociedade padece e agoniza diante da situação dos usuários de crack e das “cracolândias”. Em todos os confins do território brasileiro existem usuários desta droga. Embora o cidadão pobre, sem oportunidades e que fica à mercê da sociedade continue sendo o mais acometido, pessoas das classes sociais mais abastadas também passaram a configurar como usuários desta substância. Conseqüentemente, o caos, numa realidade já caótica, vem se agravando. Eis que surge um questionamento: como reagir frente a esta realidade?

Os programas governamentais sucumbem na necessidade de combater o crack. Tais programas e projetos devem extrapolar a dimensão da saúde, visto que, sem instrumentos sociais, educacionais e culturais nenhum resultado será alcançado. Por mais que o componente de saúde pública seja primordial, é obtuso e equivocado achar que a problemática do crack e que todas as suas conseqüências serão combatidas, apenas, com discussões pautadas em leitos psiquiátricos ou clínicas de tratamento.O dependente de crack e suas famílias necessitarão, além de espaços de tratamentos dignos e adequados, de uma revolução social.

Este é o grande engodo da problemática que poderia ser questionada de forma reducionista da seguinte forma: o Estado Brasileiro está preparado e se mostra capaz para esta revolução?

Confesso que é difícil responder se em algum momento ele esteve ou se ele está ou se ele estará pronto para revolucionar desta forma conforme analisado acima. O dependente de crack é o mesmo fora e dentro do espaço de tratamento seja ele comunitário, hospitalar ou misto. Portanto, a vida dele, em sua quase totalidade, acontecerá nas ruas, nas relações familiares e sociais, no trabalho e no cotidiano. Eis o porquê da necessidade de se pensar além dos espaços de tratamento sejam eles públicos ou privados. A propósito estes últimos crescem gradativamente evidenciando a falência do modelo público de tratamento e a lucratividade neste terreno fértil e não semeado pelo Estado.

Após as propostas de Reforma da Assistência à Saúde Mental, ocorridas nas décadas de 1980 e 1990 e confirmadas nas décadas seguintes, ocorreu uma redução maciça dos leitos hospitalares psiquiátricos. Paralelamente, havia a proposta de criar uma rede comunitária substitutiva capaz de assumir, em todos os aspectos terapêuticos, o paciente psiquiátrico. Nesta transição reformadora, alguns pontos críticos merecem destaques:

1. O descompasso na velocidade de redução dos leitos hospitalares e de criação dos serviços substitutivos comunitários;

2. A falta de análise longitudinal do principal substitutivo da Reforma “Psiquiátrica” Brasileira (CAPS – Centro de Atenção Psicossocial) no que concerne aos seus indicadores de impacto (eficiência, eficácia, efetividade, etc);

3. O investimento deficitário para o setor hospitalar gerando uma falta de assistência àqueles que necessitam deste modelo de tratamento;

4. O número limitado de unidades psiquiátricas em hospital geral capazes de fornecer um tratamento psiquiátrico mais integral e integrado com as outras áreas médicas;

5. O financiamento precário para saúde mental associado a um direcionamento majoritário de recursos aos Centros de Atenção Psicossociais.

Há uma necessidade de avaliação crítica sobre estes pontos e isto de forma alguma é significado de que ocorrerá uma defesa a modelos asilares ou manicomiais. Pelo contrário, os asilos não necessariamente precisam de muros hospitalares, visto que, eles também estão ligados a forma ideológica do pensar e nascem com o abandono. Desse modo, um consultório pode ser manicomial, um CAPS pode ser manicomial, uma unidade de internação pode ser manicomial e embora os manicômios tenham sido combatidos no período pós-reformador, atualmente, temos manicômios maiores do que os de outrora, por exemplo: os presídios brasileiros.

Se o gargalo já era estreito para ter um tratamento psiquiátrico digno antes do aumento da preocupação social com o crack e com as “cracolândias”, imaginem agora. Por isto, eu volto a ressaltar: o que era o caos ficou mais caótico e neste terremoto sanitário e social surgirão aproveitadores e falsos líderes capazes de lucrar com tudo isto sejam com ganhos primários ou secundários. Na verdade, isto já é um filme repetido basta lembrar as guerras, as situações de conflitos e a seca nordestina.

Em todo processo saúde-doença, independente da patologia, é necessário compreender, aprofundar o entendimento e investir em atividades preventivas. Estas propostas mostram-se eficazes e, ao final, menos onerosas, portanto mais eficientes. Em relação ao crack, discute-se sobre “tratar” e “internar” como se a simples colocação do indivíduo no regime hospitalar, por mais que indicada sob o julgamento médico, resolvesse a problemática. A discussão técnica de muitas entidades representativas de classes e de categorias profissionais bate, recorrentemente, nesta tecla. Cansamos de escutar o questionamento – “onde vamos internar”? No entanto, não escutamos o seguinte questionar: como vamos fazer para combater esta ascensão de usuários de crack e de “cracolândias”? Enfim, numa linguagem mais coloquial, seria melhor e mais lógico “enxugar o gelo ou impedir que ele cresça”?

A voz daqueles que trabalham com saúde mental e que poderiam pressionar as instâncias governamentais é uma voz fraca e sem reverberação. No Brasil, a forma ideologicamente apaixonada que a Reforma da Assistência à Saúde Mental foi conduzida deixou um triste legado – a dicotomia entre as categorias profissionais. De um lado “os defensores da reforma” e de outro “os opositores da reforma”. Às vezes, esta análise é tão primitiva e tão apaixonada que você pode ser colocado em um lado por uma simples opinião que, em tese, não teve como objetivo defender nem lá, nem cá. Conclusão: a voz é fragmentada e, muitas vezes, até contraditória. O resultado é um meio de cultura apropriado para a construção de Políticas de Saúde Pública que não darão certo. E nós, protagonistas do processo, ficamos parecidos com “baratas tontas” trombando uns nos outros sem conseguir mudar absolutamente nada.

Talvez, tudo isto justifique esta importante problemática. Portanto, a questão não é somente a capacidade expansiva de consumo e de dependência que o crack tem. Ele se encaixou como dedo em luva nesta realidade caracterizada por uma:
• Atenção à saúde mental capenga;
• Usuários com situação social, educacional e cultural agonizante;
• Disputa entre categorias profissionais com ausência de voz conjunta e coletiva;
• Ausência de Políticas de Saúde Mental com medição de indicadores de impacto das suas propostas;
• Surgimento de aproveitadores e falsos líderes que, ao invés de inverter e resolver a demanda, acaba por perpetuá-la.

O crack é uma realidade nua e crua que está explícita aos olhos de todos. Não adiantará se esconder, pois, de um jeito ou de outro, ele baterá na nossa porta. Por fim, é preferível analisarmos estes pontos de estrangulamentos a fim de construirmos exércitos e propostas de vitória, pois esta postura é mais digna e enriquecedora do que escrever e valorizar derrotas. As categorias profissionais da saúde mental e a sociedade civil precisarão ajustar o discurso para que, de maneira mais efetiva e menos dicotomizada e messiânica, melhores resultados sejam alcançados.







Autor: Dr. Régis Eric Maia Barros
(Psiquiatra, Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP)
Escreva para o autor AQUI.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Estímulo magnético pode ajudar fumantes a largar vício, sugere estudo

Usar campos magnéticos para alterar a atividade cerebral pode ajudar alguns fumantes a abandonar o hábito, aponta um estudo preliminar recém-divulgado.

Os pesquisadores dizem ter usado estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês) para "desfazer" o vício em nicotina do cérebro do paciente.

As descobertas preliminares, apresentadas na conferência Neuroscience 2013, nos EUA, sugerem que a técnica pode ajudar fumantes a reduzir o consumo de cigarro ou mesmo abandoná-lo. Mas novos testes são necessários antes que a técnica seja indicada para uso clínico.

Estímulo

A TMS estimula neurônios a alterar funções cerebrais e já é utilizada no tratamento de alguns pacientes que sofrem de depressão. A equipe da Universidade Ben Gurion, em Israel, usou os campos magnéticos em duas áreas do cérebro associadas ao vício em nicotina: o córtex pré-frontal e a ínsula.

Os 115 fumantes que participaram do estudo foram divididos em três grupossubmetidos a TMS de alta frequência, a de baixa frequência ou a nenhum tratamento — durante 13 dias. Após seis meses de estudo, o grupo que teve TMS de alta frequência consumiu menos cigarro e apresentou índices maiores de abandono do fumo.

As melhores taxas de sucesso no tratamento ocorreram quando os participantes viram fotos de cigarros acesos durante a terapia magnética. Desses, um terço largou o cigarro após seis meses.

Resposta do cérebro

Os pesquisadores argumentam que a terapia pode alterar a resposta natural do cérebro a imagens, sensações e objetos associados ao fumo. "A pesquisa mostra que podemos conseguir desfazer algumas das mudanças que o fumo crônico causa no cérebro", explica Abraham Zangen, da Universidade Ben Gurion.

"Sabemos que muitos fumantes querem largar o cigarro ou fumar menos, e a técnica pode ajudar a conter a causa número um de doenças evitáveis."

O médico Chris Chambers, especialista em TMS na Universidade de Cardiff (Grã-Bretanha), acha que o estudo contribui por "somar-se a crescentes evidências de que o estímulo cerebral, quando aplicado a partes específicas do lóbulo frontal, pode aumentar nossa capacidade de superar vícios".

"(O estudo) é animador e tem uma gama de aplicações na psiquiatria", agrega.

No entanto, ele ressalta que a pesquisa ainda não foi revisada por grupos médicos e que ainda é preciso "desenvolver um entendimento maior sobre o porquê e como esses métodos funcionam".

Um outro estudo, divulgado na mesma conferência, sugere que o estímulo cerebral por meio de eletrodos pode ajudar também no combate ao vício de heroína. O estudo foi feito com camundongos, que ingeriram a droga descontroladamente até se viciarem. Os animais que foram submetidos a estimulação cerebral profunda reduziram o consumo do entorpecente.

Barry Everitt, professor da Universidade de Cambridge, disse que os estudos podem trazer benefícios: "Intervenções sem o uso de medicamentos seriam um grande passo adiante no tratamento antidrogas, que atualmente depende de substituir uma droga pela outra e tem altas taxas de reincidência".

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Estudo mostra que cocaína muda estrutura do cérebro em duas horas

Uma pesquisa feita por cientistas nos Estados Unidos revelou que a cocaína pode mudar a estrutura do cérebro poucas horas após o consumo.


Os estudiosos da Universidade da Califórnia fizeram experimentos com camundongos, que receberam injeções com cocaína.

Eles constataram que, apenas duas horas após receber a primeira dose, as cobaias já haviam desenvolvido no cérebro novas estruturas que são ligadas à memória, ao uso de drogas e a mudanças de comportamento. Os camundongos que tiveram as maiores alterações no cérebro revelaram ter uma dependência mais elevada de cocaína, mostrando que, segundo especialistas, o cérebro deles estava "aprendendo o vício".

A pesquisa foi divulgada na publicação científica Nature Neuroscience.

Caçador de cocaína

Os cientistas investigaram nas cobaias o surgimento de pequenas estruturas nas células do cérebro chamadas espinhas dendríticas, que têm relação profunda com a formação das memórias. Um microscópio a laser foi usado para olhar dentro do cérebro dos camundongos, ainda vivos, para procurar por espinhas dendríticas após eles receberem doses de cocaína. A mesma análise foi feita em camundongos que, em vez de injeções com cocaína, receberam injeções com água.

O grupo que recebeu cocaína apresentou uma maior formação de espinhas dendríticas, o que indica que mais memórias, relacionadas ao uso da droga, foram formadas.

A pesquisadora Linda Wilbrecht, professora assistente de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia na cidade de Berkeley, disse: "Nossas imagens fornecem sinais claros de que a cocaína induz ganhos rápidos de novas espinhas, e quanto mais espinhas os camundongos ganham, mais eles mostram que ‘aprenderam’ (o vício) sobre a droga".

"Isso nos mostra um possível mecanismo ligando o consumo de drogas à busca por mais drogas."

"Essas mudanças provocadas pela droga no cérebro podem explicar como sinais relacionados à droga dominam o processo de tomada de decisões em um usuário humano", concluiu a pesquisadora.

O pesquisador Gerome Breen, do Insituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, ressaltou que "o desenvolvimento da espinhas dendríticas é particularmente importante no aprendizado e na memória". "Este estudo nos dá um entendimento sólido de como o vício ocorre – ele mostra como a dependência é aprendida pelo cérebro."

terça-feira, 18 de junho de 2013

EUA buscam saídas para frear suicídios de soldados

Estatísticas mostram que o suicídio mata hoje mais militares dos Estados Unidos do que as próprias operações de combate em guerras. Acredita-se que, todos os dias, um militar americano que regressou ao país após servir em uma zona de conflito tira sua própria vida.

O número de suicidas após servir no Afeganistão é particularmente ilustrativo. Ele já supera o número total de militares dos EUA que morreram em combate no país centro-asiático.

O alto número de suicidas levanta questões sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra americanos. O que estaria errado no cuidado prestado a eles?

Alguns motivos têm sido citados para explicar as mortes, entre eles o fato de que os veteranos sofrem de sequelas psiquiátricas e que o sistema para dar assistência a eles está sobrecarregado, já que governo não dedicaria suficientes recursos para ajudá-los. Entretanto, desde o ano passado, o governo americano tem ampliado o apoio aos veteranos, e novas terapias têm sido usadas para tentar minimizar os efeitos do trauma.

Estresse pós-traumático

Os transtornos psiquiátricos são um dos principais motivos que levam os militares que chegam de zonas de conflito a buscar ajuda no Departamento de Assuntos para Veteranos, mantida pelo governo dos Estados Unidos. O diagnóstico mais frequente é o de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), mas muitos também sofrem de depressão e relatam dependência de drogas.

Paula Schnurr, vice-diretora executiva do Centro Nacional para TEPT nos Estados Unidos, disse à BBC Mundo que "o TEPT é um problema muito significativo entre os veteranos e militares da ativa, já que este é um dos transtornos mais afetam os indivíduos que vivem uma experiência traumática durante o serviço militar, como por exemplo a exposição a uma zona de guerra". Mas não é necessariamente correto atribuir o grande número de suicídios de militares americanos ao diagnóstico de estresse pós-traumático. "A incidência de suicídio em pessoas com TEPT juntamente com outros transtornos mentais é alta", responde Schnurr."Porém, a grande maioria das pessoas que sofrem de TEPT não tenta se suicidar. É um problema sério, mas tempos que salientar que a maioria desses pacientes não têm tendência ao suicídio".

Investimento

Percebendo a gravidade da situação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, resolveu investir mais recursos materiais e humanos na atenção psicológica aos veteranos de guerra e militares em serviço. No dia 31 de agosto do ano passado, Obama publicou um decreto de lei que transfere mais recursos e poder a um conjunto de departamentos que oferece assistência a membros do Exército ─ o Departamento para Assuntos dos Veteranos, a Secretaria de Defesa e o Serviço de Saúde.

Além disso, no ano passado, foram investidos US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10,6 bilhões) nos serviços de para apoio à saúde mental. De acordo com o Departamento para Assuntos dos Veteranos, foram criados 15 projetos piloto em sete Estados, onde a entidade mantém agentes que ajudam os veteranos a ter acesso a serviços de saúde mental.

Foram contratados 1,6 mil agentes de saúde mental e 248 novos especialistas na área. Foi ainda criada uma campanha nacional para prevenção do suicídio com a finalidade de aproximar os veteranos e militares ativos dos serviços de saúde mental.

Dinheiro não é tudo

Contudo, julgar que a situação é resultado da mera falta de recursos é, segundo especialistas, simplificar o problema. Essa é a opinião de Raúl Coimbra, diretor do sistema de saúde do Hospital de San Diego, na Califórnia. Segundo ele, existem outros fatores que têm um papel muito importante, como o estigma que persiste em torno dos problemas mentais: muitos militares não se sentem confortáveis para pedir ajuda, pois não querem ser classificados como loucos.

Existem ainda os que querem receber ajuda, mas não pelas mãos de um especialista civil. Os militares se queixam que os civis desconhecem a realidade enfrentada pelos membros do exército e por isso preferem recorrer a outras fontes de ajuda. É o caso da organização Veterans4Warriors (Veteranos para os Guerreiros, em tradução livre do inglês), que oferece assistência específica a todo militar veterano. Por meio de um serviço telefônico ou por e-mail, um ex-militar que sofre de algum tipo de sequela mental pode receber ajuda de uma outra pessoa que pode compreender melhor sua situação.

No caso do governo, o Departamento para Assuntos dos Veteranos atende 9 milhões de militares em busca de ajuda, de um total de 22 milhões de veteranos que existem em todo o país.

Terapias alternativas

No caso dos militares que sofrem de TEPT, outra crítica frequente é que nos tratamentos existe uma tendência de medicar os pacientes em vez de se oferecerem a eles terapias mais prolongadas, que exigem mais recursos humanos, mais tempo e, assim, mais investimento.

Mas terapias tradicionais estão sendo reavaliadas. Entre as alternativas que surgem com mais força está a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, na sigla em inglês) ou a teoria do crescimento pós-traumático, segundo a qual as experiências traumáticas pode se converter, a médio e longo prazo, em uma experiência que transforma a pessoa num sentido positivo.

Na terapia de ACT, o paciente é estimulado a não negar a causa de sua ansiedade, mas a aceitá-la, enfrentá-la, para assim aprender a se afastar do trauma. Mais ainda, o paciente deve identificar os valores que formam a base de sua existência e se comprometer a viver em conformidade com eles.

Segundo Paula Schnurr, tanto a medicação como a psicoterapia são eficazes no tratamento de TEPT. "Todos os manuais de saúde mental em vigor nos Estados Unidos recomendam que utilizemos tais métodos", explica. Schnurr ressalta, ainda, a importância da educação e difusão de informações sobre o TEPT, assim como o apoio dos familiares e pessoas que convivem com o paciente, para combater o estigma associado ao mal.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

BEBER, DIRIGIR, MATAR... POR QUE INSISTIR NO ERRO?

NÃO BASTA A LEI SECA, É PRECISO PUNIR MAIS

O aumento no rigor da lei seca e da fiscalização sobre o condutor se mostra ineficiente para coibir tragédias provocadas por pessoas alcoolizadas que insistem em assumir o volante. O mau hábito persiste motivado pela sensação de impunidade gerada, em parte, pela cultura brasileira de desvalorização dos crimes de trânsito. Historicamente, eles são entendidos como fatalidades, mesmo no caso como o que tirou a vida de Janice dos Reis Bonfim, de 18 anos, no último domingo.

Desde que a lei seca entrou em vigor, em junho de 2008, 20 motoristas, em média, são flagrados alcoolizados diariamente no Distrito Federal. Professor de medicina legal da Universidade de Brasília (UnB), Malthus Galvão garante não haver dúvidas sobre os efeitos nocivos do álcool na aptidão para guiar um veículo. "O motorista perde a capacidade de julgamento", sentencia. De 2008 até março, a fiscalização aplicou 37.436 multas. Nesse período, 15.816 condutores acabaram punidos com a suspensão do direito de dirigir por um ano.

Ainda assim, é pouco, garante o especialista em segurança no trânsito e presidente do Instituto de Segurança de Trânsito (IST), David Duarte. "A fiscalização é ineficiente. Há três anos, o IST fez uma pesquisa na qual 120 mil pessoas admitiram dirigir depois de beber durante o fim de semana. Mas, no mesmo ano, em 365 dias, somente cerca de 10 mil foram flagradas embriagadas", compara Duarte.

Se a punição no âmbito administrativo fica aquém do razoável, quando os casos graves chegam ao Judiciário, não é diferente. O advogado criminalista Técio Lins e Silva cita uma pesquisa feita há 30 anos, segundo a qual apenas 5% dos delitos de trânsito culminavam com a condenação judicial do autor. "Do ponto de vista histórico, esse estudo vale como se fosse ontem. Faz parte da cultura brasileira não valorizar o acidente de trânsito. Somente após a lei seca isso começou a mudar", afirma.

Apesar da indignação de parentes de vítimas em relação às punições mais brandas nos casos de acidentes graves ou fatais, Lins e Silva destaca que as decisões do Judiciário refletem a cultura nacional. "O juiz é igual a todos nós. Tem a cabeça da média das pessoas. Por exemplo, há 30 anos, ninguém conseguia uma condenação contra o marido que espancava a mulher. A sociedade mudou, e as decisões também", compara.

"Super-homem"

Diretor-presidente da Escola Nacional da Magistratura, Roberto Bacellar considera a lei seca um passo importante para mudar a cultura em relação a alcoolemia ao volante. "A mudança está em curso. Ninguém mais aceita que esses fatos (acidentes fatais) aconteçam e se passe a mão na cabeça do cidadão. Essa evolução da sociedade vai se refletir no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, que é o aplicador das leis", acredita.

Para Bacellar, mesmo com a nova legislação, aprovada em dezembro do ano passado (leia O que diz a lei), os réus de crimes de trânsito só devem ir a júri popular se o Ministério Público conseguir provar que a pessoa assumiu ao risco de provocar a morte de alguém ao assumir o volante alcoolizado. "Essa é uma questão técnica, e cada caso é cercado de circunstâncias que o MP precisa reunir e provar que a pessoa agiu com dolo", explica.

No domingo, o motorista Kelvin Martins Inácio, 20 anos, foi submetido a exames no Instituto de Medicina Legal (IML) após atropelar duas jovens, de 14 e 18 anos, e matar a mais velha. O teste comprovou a embriaguez do condutor, que dirigia um Monza e atingiu as vítimas no Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia. Kelvin tentou fugir do local, mas bateu em um poste. Acabou preso.

Para a doutoranda em psicologia e mestre em política social Andrea dos Santos Nascimento, a insistência dos motoristas em dirigir alcoolizados, apesar das tragédias e da proibição legal, tem relação com o que ela chama de cultura do super-homem. "É aquele pensamento de "nada irá acontecer comigo. Não vou cair em blitz, não vou bater o carro, sei o que estou fazendo, dirijo melhor quando bebo". Mas entre a fantasia e vida real existem pessoas, idosos, gestantes e crianças", adverte.

Aliado a isso, Andrea afirma que a legislação, apesar de boa, é frouxa. Nesse caso, a população tem a certeza de que ela não será punida. "O sentimento geral é de que eu posso beber e dirigir. Se acontecer alguma coisa, não vou produzir prova contra mim e vai ficar tudo bem. Muita gente ainda se safa", denuncia. Apesar das críticas, o subcomandante do BPTran, major Wagner Freitas, ressalta que a fiscalização ocorre todos os dias da semana. "Se a fiscalização não fosse eficaz, haveria menos flagrantes, mas tivemos um aumento de 140% no primeiro trimestre do ano", cita.

Basta de penas brandas

» GUILHERME GOULART

A lei, por si só, não basta. Enquanto a regra fica no papel e a vigência dela não é cobrada nas ruas pelos agentes de trânsito, a principal consequência é a perda da credibilidade. Sem punição, o motorista faz o que quer: acelera demais, não usa o cinto de segurança, estaciona onde quer e não para diante da faixa de pedestres. No caso da embriaguez ao volante, o problema esbarra não só na ineficiência da fiscalização, mas na dificuldade de manter esse infrator atrás das grades, mesmo se ele acaba envolvido em acidente fatal.

Por mais que o flagrante esteja caracterizado por meio de provas técnicas, o Judiciário segue a cultura de tratar como uma fatalidade o motorista que desrespeita a lei seca e mata no trânsito. Mesmo que os entendimentos da Polícia Civil e do Ministério Público sejam de homicídio doloso — nesse tipo de situação, o condutor assumiria o risco de matar? —, pouquíssimos casos terminam em condenações maiores. Até quando continuará sendo comum o cumprimento de penas brandas, restritas a serviços à comunidade e ao pagamento de cestas básicas? Esse tipo de punição não serve para a sociedade.

O que diz a lei

O artigo 165 fixa que é infração gravíssima dirigir sob a influência de álcool ou de substância psicoativa. A desobediência resulta em multa de R$ 1.915,40 e na suspensão do direito de dirigir por um ano. Os reincidentes pagam a multa em dobro. Dirigir com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência resulta em pena de detenção de 6 meses a 3 anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir. O crime pode ser caracterizado por concentração igual ou superior a 6 decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar ou sinais que indiquem alteração da capacidade psicomotora. As provas podem ser obtidas mediante teste de alcoolemia, exame clínico, perícia, vídeo, testemunhas ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova.

Informação divulgada através do jornal Correio Braziliense.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Artigo: Saúde Mental - Portugal

A Saúde Mental dos portugueses, segundo Pedro Afonso, psiquiatra.

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

 
 
 
 
Autor: Pedro Afonso.
Psiquiatra no Hospital Júlio de Matos. Membro da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e autor da obra "Esquizofrenia: Conhecer a Doença, Será Depressão ou Simplesmente Tristeza...?" e da ficção "O Dom de uma Certeza".

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Charge: crack

Apenas para lembrar...
O assunto é sério e precisa ser tratado com profissionalismo e empenho.
Menos populismo, promessas e demagogia. MAIS seriedade e atenção para protocolos que realmente funcionam e políticas públicas coerentes.

terça-feira, 26 de março de 2013

Cientistas israelenses criam capacete contra fumo e depressão

Dois cientistas israelenses desenvolveram um capacete que emite ondas magnéticas para o cérebro e que, segundo pesquisas, tem efeitos significativos no combate a transtornos como a depressão e o vício do fumo.

O capacete, desenvolvido pelo neurocientista Abraham Zangen e pelo físico Yiftach Roth, emite ondas magnéticas em alta frequência para regiões mais profundas no cérebro, que até hoje podiam ser acessadas só com intervenções cirúrgicas ou choques elétricos.

Por intermédio dos estímulos, eles obtiveram resultados positivos tanto em casos de pacientes que sofrem de depressão profunda como em pessoas que já tinham tentado parar de fumar por outros meios e não conseguiram.

Entretanto, de acordo com Roth, o sistema, denominado Estimulação Transcraniana Magnética Profunda (Deep TMS em inglês) pode ser eficaz no tratamento de um leque "muito amplo" de problemas, como o mal de Parkinson, distúrbio bipolar, mal de Alzheimer, autismo, distúrbio obsessivo-compulsivo, dependência de drogas e alcoolismo.

Diferentes capacetes

Mais de 3 mil pessoas, em Israel e no exterior, já participaram de experiências com o capacete, e recentemente a FDA – agência reguladora de medicamentos dos EUA – outorgou um certificado para utilização do sistema no combate à depressão.

A ideia de desenvolver o sistema surgiu em 2000. Abraham Zanger, chefe do laboratório de Neurociência da Universidade Ben Gurion, explicou à BBC Brasil que, para cada problema, é criado um capacete diferente, “adaptado para transmitir as ondas magnéticas às áreas relevantes do cérebro".

"No começo do tratamento houve alguns pacientes que se queixaram de leves dores de cabeça, mas com o tempo as dores passaram", disse.

O psiquiatra Hilik Lewkovitz, do hospital psiquiátrico Shalvata, no qual o sistema já está sendo usado, disse que "o número de pacientes que reagiram de maneira positiva a esse tratamento é significativo".

Ele chamou a tecnologia de “revolucionária”, pois “não é invasiva e tem poucos efeitos colaterais e que apresenta resultados positivos no tratamento de vários distúrbios psiquiátricos".

Remissão completa

Uma pesquisa feita no hospital Beer Yakov concluiu que 32,6% tratados com as ondas magnéticas apresentaram uma remissão completa da depressão e outros 38,4% demonstraram melhora substancial.

De acordo com a bióloga Limor Klein Dinur, que dirigiu uma pesquisa com 115 participantes sobre os efeitos do sistema em fumantes, 44% delas pararam de fumar após o tratamento.

"Não houve danos às capacidades cognitivas dos participantes, e em alguns casos até observamos uma melhora cognitiva", disse a cientista à BBC Brasil.

De acordo com ela, 80% dos participantes que não pararam de fumar diminuíram o número de cigarros fumados em mais de 50%.

Informação divulgada através do portal BBC Brasil.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um mês após SP, Rio inicia internação de viciados em crack à força

A prefeitura do Rio de Janeiro deu início nesta terça-feira a um programa de internação involuntária de adultos viciados em crack. Ao menos 30 usuários da droga foram encaminhados para hospitais.

A ação no Rio de Janeiro ocorre 30 dias após o início de medida semelhante na capital paulista. Nesse período, o governo de São Paulo afirmou ter internado 223 pessoas – somente 17 das quais de forma involuntária, com intervenção da família.

As internações cariocas ocorreram por meio de uma operação realizada às margens da avenida Brasil, próximo ao Complexo da Maré, na zona norte da cidade.

A região continuará sendo ocupada por policiais e órgãos municipais por tempo indeterminado, em uma tentativa de impedir que os dependentes voltem a se concentrar no local.

Até o momento, a prefeitura afirmou ter realizado 30 internações involuntárias de adultos usuários de crack.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde e Defesa Civil, no entanto, entre as "internações involuntárias" estariam 29 viciados que, após serem encaminhados para uma central de triagem, teriam sido "convencidos" pelas equipes de saúde de que a internação seria necessária.

Em outro caso, uma mulher que estava com a saúde debilitada foi levada de ambulância diretamente da região da Cracolândia para o hospital. Ainda de acordo com a secretaria, não houve nenhum usuário que tenha oferecido resistência ao ser encaminhado para o hospital.

De acordo com a prefeitura, embora não tenham sido internados, outros 69 usuários de crack retirados da região foram levados para um abrigo, onde recebem tratamento ambulatorial.

Esta é a primeira vez que a prefeitura do Rio de Janeiro adota a prática de internação involuntária de adultos dependentes de crack. Desde 2011, no entanto, menores apreendidos em operações contra o crack na cidade já vinham sendo internados compulsoriamente.

Para a operação desta terça-feira foram mobilizadas mais de 300 pessoas, entre elas médicos, psicólogos e assistentes sociais, além de homens da Guarda Municipal, Polícia Militar, Bope (Batalhão de Operações Espaciais), Tropa de Choque e Polícia Civil.

Em uma tentativa de evitar acidentes como o que matou uma criança durante uma operação contra o crack em janeiro, a avenida Brasil foi fechada ao trânsito por 30 minutos para a ação.

São Paulo

Ao contrário do que aconteceu em São Paulo durante a ação contra a Cracolândia, no início deste ano, no primeiro dia de operação no Rio não houve nenhum caso de famílias que pediram a internação de parentes dependentes, segundo a prefeitura.

Tanto no Rio como em São Paulo, a Justiça não precisou até hoje intervir para determinar internações compulsórias de viciados.

Após divulgar nesta terça-feira um balanço sobre o programa de combate ao crack em São Paulo, o governado Geraldo Alckmin ressaltou a participação de familiares em internações involuntárias.

"É um momento novo, de esperança, trabalho conjunto com as famílias para o tratamento da dependência química e o novo plano de vida, o novo trabalho para os pacientes com as famílias", disse Alckmin.

Internação

A eficácia da internação involuntária e compulsória de usuários de drogas divide médicos, além de suscitar críticas de alguns juristas quanto à sua legalidade.

Para a professora Magda Vaissman, psiquiatra e pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, a internação é importante para o tratamento de usuários de crack, mas ela deve ser acompanhada por medidas para a reinserção do dependente na sociedade.

"O paciente às vezes está tão alterado, está tão doente, que o senso crítico, o juízo de realidade dele, está comprometido. Fere a liberdade individual, fere, mas você não pode deixar o paciente se suicidar", disse a psiquiatra, que compara a medida à internação de um paciente que está tendo um surto de esquizofrenia.

Ela aponta, no entanto, que é preciso haver um trabalho de acompanhamento do paciente após a internação. "O problema das internações em adultos é que infelizmente não há remédio para crack. Então, o paciente é sedado, mas se não for feito um trabalho de reabilitação e reinclusão social, o índice de recuperação é muito baixo".

"Você tira o usuário da rua e quando ele retorna, volta a usar. Então você tem que ter programas muito bons extra-hospitalares atrelados à internação", disse.

Informação divulgada no portal da BBC Brasil.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Bebidas alcoólicas prejudicam ciclos do sono, diz estudo

Um estudo britânico sugere que o consumo de bebidas alcoólicas antes de dormir pode prejudicar a noite de sono.

Segundo o estudo, do Centro do Sono de Londres, o álcool prejudica os ciclos do sono e, se consumido com frequência antes de dormir, pode até causar sérios problemas como apneia e insônia crônica.

Por um lado, o consumo de álcool pode até encurtar o tempo necessário para o primeiro cochilo e também levar a um sono profundo, mas, pelo outro, pode anular o ciclo do sono que gera maior descanso, no qual ocorrem os sonhos.

Muitos defendem doses moderadas de bebidas e, em algumas clínicas e asilos, elas são servidas regularmente.

No entanto, Irshaad Ebrahim, diretor-médico do Centro do Sono de Londres e um dos autores da última pesquisa, diz que é preciso cautela em relação a bebidas alcoólicas.

"Devemos tomar muito cuidado com a bebida alcoólica (consumida) regularmente. Um ou dois copos à noite podem ser bons no curto prazo, mas se você continua usando uma dose antes de dormir, poderá causar problemas", afirmou.

"Se você beber é melhor esperar uma hora e meia a duas horas antes de ir dormir, para passar o efeito do álcool."

A pesquisa foi publicada na revista especializada Alcoholism: Clinical & Experimental Research.

Menos repouso, mais ronco

A equipe de Ebrahim analisou cerca de cem estudos relativos ao consumo de álcool antes de dormir e então partiu para um exame mais detalhado de 20 pesquisas.

A partir destas análises, eles descobriram que a bebida alcoólica altera o sono de três formas. Primeiro, acelera o início do sono. Em seguida, faz com que a pessoa caia em um sono profundo.

Estas duas mudanças, idênticas às observadas em pessoas que tomam remédios antidrepressivos, podem parecer boas e até explicam por que pessoas com insônia consomem bebida para poder dormir.

Mas, a terceira e última mudança, a fragmentação dos padrões de sono na segunda metade da noite, é a prejudicial.

As bebidas alcoólicas reduzem o tempo passado no sono REM (em inglês, rapid eyes movement, ou movimento rápido dos olhos), a fase na qual os sonhos geralmente ocorrem. E, segundo Ebrahim, como consequência, as pessoas tem um sono menos repousante. Além disso, também pode causar o ronco.

"Com doses cada vez maiores, a bebida alcoólica suprime nossa respiração. Pode transformar pessoas que não roncam em pessoas que roncam e estas em pessoas com apneia, quando a respiração é interrompida", afirmou Ebrahim.

Para Chris Idzikowski, diretor do Centro do Sono em Edimburgo, na Escócia, bebidas alcoólicas não são úteis para se conseguir uma noite mais tranquila.

"O sono pode começar mais profundo, mas então é interrompido. Além disso, o sono mais profundo provavelmente vai levar ao ronco e piorar a respiração", afirmou.

Idzikowski também alerta para o fato de o álcool deixar a pessoa desidratada e fazer com que ela acorde para ir ao banheiro.

"Muita comida ou álcool, principalmente tarde da noite, antes de dormir, podem causar uma confusão com os padrões de sono", acrescentou.

Informação divulgada através do ortal BBC Brasil.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Bebida mais cara reduz mortalidade ligada ao álcool, indica pesquisa


Uma pesquisa canadense associou o aumento dos preços de bebidas alcoólicas a uma queda significativa no número de mortes relacionadas ao consumo de álcool.

Os resultados do estudo, divulgados na publicação científica Addiction, indicam que um aumento de 10% no custo das bebidas poderia levar a uma queda de 32% nas mortes relacionadas ao consumo de álcool.

A pesquisa foi realizada entre 2002 e 2009 na província da Colúmbia Britânica (oeste do Canadá) e incluiu dois períodos no que diz respeito às regras sobre a venda de bebidas alcoólicas na região. No primeiro, as bebidas só podiam ser compradas em lojas do governo. No segundo, foi liberada a venda em pontos de venda do setor privado.

Além do aumento do preço, o maior acesso a bebidas alcoólicas, com o surgimento de muitas lojas vendendo esses produtos, também teve um impacto significativo sobre a mortalidade dos consumidores.

De acordo com os cientistas, um aumento de 10% no número de pontos de venda foi associado a uma alta de 2% no número de mortes relacionadas ao álcool.

Impacto 'imediato'

Esse foi o primeiro estudo a destacar os efeitos do preço do álcool nos índices de mortalidade dos consumidores.

Segundo os pesquisadores, com um aumento dos preços das bebidas, a redução no número de mortes é "imediata, substancial e significativa".

"Esse estudo parece revelar evidências científicas mostrando que, apesar do que muitos pensam, até quem bebe com mais frequência reduz seu consumo quando o preço mínimo do álcool aumenta", diz Tim Stockwell, diretor do Centro para Pesquisas sobre Dependência da Universidade de Victoria da Colúmbia Britânica.

"É difícil explicar de outra forma a queda significativa nas mortes relacionadas ao consumo de álcool na Colúmbia Britânica."

A divulgação da pesquisa ocorre em um momento em que a Grã-Bretanha analisa a possibilidade de adotar preços mínimos para as bebidas alcoólicas com o objetivo de coibir abusos.

A Escócia aprovou em 2012 uma lei prevendo um preço mínimo, mas sua aplicação está em suspenso enquanto correm recursos judiciais movidos por fabricantes, que alegam que a medida viola normas da União Europeia.

Outro lado

Embora o estudo tenha sido bem recebida pelos que defendem restrições ao álcool em diversos países, ela foi criticada pela indústria de bebidas - que questionou suas bases estatísticas.

A Associação Escocesa de Produtores de Uísque divulgou uma nota em que disse que “as alegações feitas pelos pesquisadores canadenses não se justificam com base em dados oficiais do governo canadense, que mostram um aumento de 9% no número de mortes relacionadas ao álcool na Colúmbia Britânica no período, não uma queda, como foi dito.”

O presidente da Associação Britânica de Vinhos e Destilados, Miles Beale, também criticou a pesquisa.

“Não há uma ligação simples entre o preço da bebida alcoólica e o dano que ela causa”, disse. “É mais provável que o consumo esteja relacionado a fatores culturais, e que o aumento no preço não tenha um impacto significativo nisso”, afirmou.

Informação divulgada através do portal da BBC Brasil.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na balada do nada

Numa usina elétrica desativada, cenário de máquinas, fiações e tubos da era do nazismo, uma boate vira a noite sem fechar. É a Berghain/Panorama Bar - vulgo Paranoia, para os brasileiros que habitam o circuito techno -, apontada por alguns como o melhor clube do mundo, ainda que seja para turista ver. Tales Ab’Sáber foi um que lá baixou, numa estada em Berlim. E de lá saiu com a certeza de que tinha material valioso para uma perícia sobre a grande noite da diversão industrial, traduzido em A Música do Tempo Infinito, livro lançado em outubro pela Cosac Naify.
 
"É uma festa intensa, que deseja não terminar jamais", diz o psicanalista sobre a balada alemã, que pulsa quase diariamente a partir das 23h59 e que, de sábado para domingo, entorpece o público com música eletrônica até a noite seguinte. Nessa perspectiva, o único sentido do dia é acionar o GPS para a próxima noitada, algo instantâneo de se fazer em Berlim, considerando a fábrica de entretenimento que é.
 
Depois da tragédia em Santa Maria, as blitze que se espalharam pelo País atrás de boates-ratoeiras escancarou uma noite brasileira também alucinada, que por nada festeja tudo. Antes do incêndio, somente na cidade gaúcha eram pelo menos cinco baladas por dia, de quinta-feira a sábado. Em São Paulo capital, 500 casas noturnas foram licenciadas no ano passado e cerca de 600 esperam na fila por um alvará, enquanto outros milhares se espalharam feito gripe pelo País.
 
"Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer", diz Tales. "A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é." Algo diferente dos shows de rock e dos inferninhos dos anos 1970? Em seu apartamento em Pinheiros, bairro que abriga mais de dez páginas de boates no Google, Tales tenta traduzir essa geração que, em suas palavras, vive uma experiência sensorial sem compartilhamento. Esse gaúcho, radicado desde o primeiro ano de vida em São Paulo, também faz uma crítica sobre a morte quase instantânea de mais de 230 guris num país que vendeu para si a imagem de moderno, mas que de modernidade só absorveu a excitação, o Facebook e a pirotecnia.
 
A operação pente-fino nas boates do País mostrou que nos municípios brasileiros as casas noturnas brotaram a rodo. Que tipo de lazer é esse, que atrai tantos jovens?
 
Ele tem raízes na oferta de experiências própria da grande metrópole moderna, como os cafés concertos da Paris de Haussmann, os cabarés berlinenses dos anos 1920 e as casas de dança e jazz da Nova York da mesma época. Muito cedo se observou nessa invenção para a noite uma espécie de nova ordem internacional da diversão, ligada à organização da vida das massas na sociedade liberal. No entanto, a partir dos anos 1950 e 1960, emergiu a ideia de que a noite dos jovens estaria ligada também a um vetor político, de crítica ao sistema, no qual aquilo que era ofertado pelo mercado era vivido como a negatividade da antiga bohème. Esse movimento sempre guardou a ambiguidade de ser regulador e ao mesmo tempo um espaço imaginário de desejos conflitantes com a vida social. A partir das décadas de 1980 e 1990, há um retorno à ordem da contracultura ocidental, que teve seu ápice público e político, em plena luz do dia, em 1968 e 1970. Ele foi retirado do cotidiano, reservado para a circulação de mercado, para ser guardado, e de certo modo privatizado, na emergência da boate de massa, o novo espaço da república pop. Essa passagem histórica foi marcada pela ultrapassagem do rock - e da canção - pela música eletrônica. No Brasil, ela se condensou na balada, que não existia na minha juventude nos anos 1980.
 
O que, em geral, caracteriza uma balada?
 
Certa vez um jovem paciente me falou: "A balada é um lugar em que tudo muda. Quando você entra numa balada tudo vira outra coisa, você, as pessoas, o mundo. Nada do que vale fora de lá continua valendo, é um mundo à parte e outro do próprio mundo". A balada é o espaço que sustenta esse desejo. Ela dá uma amostra, um sampler, do mundo do luxo e da luxúria para os que não o possuem, ou da experiência estética antiburguesa para os adaptados. Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer. A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica do que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é. Ela mantém vivo esse potencial utópico, e ao mesmo tempo o reduz a um espaço socialmente aceito. É a sua forma de solução de compromisso, o seu sonho social.
 
A balada agrega todas as classes sociais. De que juventude estamos tratando?
 
Uma juventude desencantada, que teve os impulsos críticos de radicalização humanista, estética e democrática, próprios do movimento da juventude ocidental do século 20, reduzidos a práticas de consumo a partir da aceleração da cultura do dinheiro dos anos 1990 e 2000. Essa juventude tenta manter valores de vanguarda de eros e civilização, como dizia o filósofo Herbert Marcuse, comprometidos com seu destino de venda de um trabalho sem garantias, muitas vezes sem direitos efetivos, no mundo das corporações. Uma juventude atomizada, que caminha entre a baixa vida de mercado e o hedonismo de consumo do teatro excitado de sua noite.
 
O que costumam festejar?
 
É um paradoxo. Eles festejam suas vidas difíceis de mercado, e sua inserção por um fio na coisa toda. Mais ou menos do mesmo modo que a mercadoria, por meio da cultura da propaganda, festeja a si própria sem parar. A ordem do poder atual exige celebração contínua, ligada à afirmação do indivíduo de realização do próprio prazer, desde que ele seja de mercado, apolítico. E esses jovens, que por vezes fingem um cuidadoso punkismo construído em lojas caras da moda, celebram a mesma celebração geral de seu mundo. Ou, como escrevi em meu livro, eles festejam o fato de não haver nada a festejar. É a compulsão a ser feliz, que diz muito respeito à propaganda.
 
Por que há tantos megaeventos para uma geração tão voltada para si mesma?
 
Exatamente por isso. Nesse ponto foi o filósofo Theodor Adorno quem nos deu contribuições importantes. Quanto mais individualizado e rarefeito na vida social para defender o próprio prazer, menos exigente culturalmente é esse consumidor, e mais sua ilusão de individualidade deságua em uma administração cultural geral. Podemos dizer que o hiperindivíduo, que busca a singularidade do seu prazer nas ofertas de mercado, acaba pensando como todos os demais, em uma grande uniformidade cultural, e ele vai de fato alimentar o megafestival que legitima o presente. Estamos diante de um mundo que, na mesma medida em que afirma o indivíduo, o empobrece e o torna apenas idêntico a todos.
 
Vivemos uma segunda ‘idade da festa’, expressão cunhada pelo jornalista Gay Talese que você recupera no seu livro?
 
É realmente muito interessante a formulação de Talese, que percebeu de modo intuitivo e profundo a transformação iminente do grande movimento político da contracultura jovem em uma cultura erótica da festa administrada. Em uma imensa festa contracultural de Andy Warhol, embalada pelo Velvet Underground num ginásio de Nova York, no auge dos protestos públicos contra a Guerra do Vietnã, Talese percebeu o destino da coisa toda: a política seria em breve substituída pela imagem. Seu texto é o primeiro a falar da celebração de tudo e de nada, que passou a ser a cultura jovem no nosso tempo, em que há muita produção de imagem, excitação e gozo, mas, para lembramos os termos do escritor, "nada está acontecendo". Um lance de espírito de gênio. Por que a festa precisa sugar tudo para ela? Tudo tem que se expressar como excitação. É a mesma lógica da mercadoria quando ela aparece: excitar para circular. Todos precisam estar nesse estado porque, caso contrário, não correspondem ao mundo. Esse momento está ligado ao desligamento do vetor político da contracultura. Ele passa a ser encenado, não é mais o embate político real.
 
Onde estaria esse vetor político hoje?
 
É uma grande angústia ver esse hipermundo pacificado porque as pessoas foram convencidas de que a política se resolve nos partidos. Se a gente não acredita nas respostas que estão sendo dadas, a gente não acredita nessa política e ela não cumpre seu mandato, embora diga que cumpra. Adorno dizia isso: a ideologia não é mentirosa no seu conteúdo. O conteúdo da política é uma verdade racional humana. A ideologia é mentirosa porque ela disse que já deu o que prometeu, cortando o processo de demanda social. A política está congelada nessa estrutura do capital. Manter isso, que é extremamente instável e estável, implica uma energia incrível, inclusive de repressão. Em 2008, vimos como é difícil manter o equilíbrio de um negócio que tem que gerar cada vez mais lucro. A política está naquilo que essa própria estrutura aparentemente fechada não consegue sustentar mais. Essas são as crises reais, que a ideologia não consegue barrar. No plano simbólico da expressão cultural, é tudo política de imagem, de alimentar o todo.
 
Nesse texto, Talese também dizia que, para existir, a pessoa precisava ser vista. Hoje, para existir, ela necessita ser fotografada e postar-se no Facebook.
 
Era o tempo dos famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol, o vínculo subjetivo com a sociedade do espetáculo do escritor francês Guy Debord. Nos anos 1960, começa a surgir essa percepção de que as pessoas estão encenando alguma coisa. Tão importante quanto ser alguém é produzir sua imagem. Essa foi a grande mensagem social da televisão. A internet é uma grande universalização dessa tendência, acompanhada de fragmentação e algum grau virtual de participação. Eles estão o tempo todo se comunicando, em grande parte querendo saber onde está a melhor festa. Essa prática cria, a cada noite, um mapa da vida e da cidade, um GPS das baladas. E esse mapa é mundial.
 
Isso também vigora com força no Oriente?
 
Repare: todo filme que trata de contradições políticas no Oriente traz uma baladinha. É uma espécie de enclave da cultura ocidental, que significa a inversão de todos os valores ao redor. Essa balada está sintonizada com a balada ocidental, a mesma música, a mesma moda, o folgazão do consumo de diversão internacional.
 
Ironicamente, todas as câmaras do circuito interno da boate Kiss desapareceram. Ninguém quer ficar com a imagem de responsável pela tragédia…
 
Esse episódio catastrófico revela uma situação de descompasso do Brasil. O País produziu para si mesmo o discurso edificante de que se modernizou rapidamente, o que não é verdade em muitos aspectos da vida. A Kiss é uma pequena boate, mas com características dessa cultura global da casa noturna cuja relação entre empresário, prefeitura e agentes públicos de segurança é toda degradada. Ninguém é culpado, e todo mundo é. São os déficits de técnica brasileiros, técnica pública, inclusive.
 
Durante manifestações pedindo justiça, familiares mostraram cartazes revelando sua indignação com ‘a ganância de gente corrupta’. Que elementos dessa tragédia mostram essa ganância? Os seguranças impedindo a saída dos jovens porque eles não haviam pago a consumação, por exemplo?
 
Esse incêndio é uma espécie de fato infinito. Ele congrega uma série de fatos do mundo - legais, políticos, simbólicos. Vamos pensar nos seguranças, por exemplo. Eles têm a mentalidade da polícia, se é que não são policiais. É a mentalidade autoritária em que a relação com o outro é sempre de predomínio pela força, de inabilidade para lidar com o público, com alguém que não seja "ordem e progresso". É esse autoritarismo que o patrão espera dele, aliás. Mas onde está a brigada de incêndio, que seria a outra consciência? Não tem! Morreu gente por causa disso, desse entrave à saída.
 
Também havia uma quantidade de pessoas muito além da capacidade do lugar…
 
Nos anos 1980, quando começaram a surgir as boates, elas não eram assim. O Madame Satã não era assim. E antes, nos anos 1950, 60, muito menos. O público era de adultos, os inferninhos eram micro, um tipo de boemia completamente outra, era o mundo do João Antônio, de Copacabana. Mudou a escala. Isso é próprio da geração, mas tem o elemento universal da catástrofe. Ela representa a humanidade, estamos todos diante dela e ela fala a todos. Em parte porque ocupam todas as revistas, todos os jornais. É a tautologia da indústria da comunicação. Em parte porque, de fato, algo diz que poderia ter sido com meu filho ou comigo. As pessoas se sentem comprometidas. Se elas fossem comprometidas assim com a política, seria fascinante. Mas não são.
 
Você reserva um longo capítulo para as drogas no seu livro. Que papel elas têm nessa grande noite da diversão industrial?
 
As drogas, no movimento contracultural da juventude ocidental modernista, eram uma experimentação erótica, faziam parte de um projeto no qual se poderia estabelecer outra ordem de existência na vida moderna. Elas também foram capturadas para dentro das casas noturnas, numa fusão com a música techno, especialmente com a explosão do ecstasy no final dos anos 1980 e começo dos 90. A droga é estrutural da própria experiência, não é mais uma possibilidade. Ela é necessária para que a coisa exista.
 
Estamos falando de drogas e álcool?
 
Sim, dos dois. Isso disparou uma realidade de excessos. A partir do surgimento da música da noite, aparece um novo tipo de cultura da droga, que é uma drogadição exibida, conspícua. O lugar por excelência disso é a boate. Mas a partir daí existe uma universalização das drogas como diversão, portanto como objeto de consumo de massa.
 
E a música? De onde veio a necessidade da pirotecnia para acompanhá-la?
 
Quando os Beatles tocavam nos estádios nos anos 1960, quando inauguraram essa era de espetáculo de massa e expressão pop, grandiosa e sedutora, eram quatro músicos em cima de um palco e só. E havia 60 mil pessoas vendo! Jimi Hendrix, quando botou fogo na guitarra, foi um xamanismo, uma espécie de autossacrifício, uma coisa dionisíaca de incendiar uma parte de si mesmo, ao mesmo tempo amando e atacando o que o representava. Mas foi um evento individual. Depois começa a surgir essa espetacularização visual do mundo da canção. Em 1968, 69, Pink Floyd começa a fazer projeções de imagens, uma produção mais barata. Então, num certo momento dos anos 1980, isso vira um espetáculo pirotécnico gigantesco, com explosões, bolas de fogo. Agora, as pequenas bandas do interior do mundo querem soltar seus rojões e fogos de artifício. Está aumentando a espetacularização, o que significa que a música perdeu importância.
 
Você chama o DJ da música techno de um ‘Sísifo de nosso tempo, pulsando imensamente ao mesmo tempo que anuncia o vazio’. Mas músicos de outros ritmos que alimentam as baladas também não param. É o tal corpo-coração, enquanto a alma alucina?
 
Sim, é o corpo-suor, em que tudo tem que ser traduzido em pulsação. No Brasil, isso nos chegou muito pelo axé, com as cantoras dançando o tempo todo. As coisas têm que ser levadas no limite da expressividade, do desgaste físico. A banda de Santa Maria se chama Gurizada Fandangueira. Fandango é o velho baile gauchesco de dar o pão, que era feito com sanfona, uma música popular, de fazenda. E o fandango da Gurizada virou isso, uma exibição com sinalizadores que deseja agradar a 1.500 pessoas. Grandes artistas, como Madonna e Lady Gaga, fazem espetáculos assim também. A arte vai sendo deslocada para essa coisa mais infantil. Às vezes a música é playback, mas não é ela que está em jogo. É este show. Um show de pura excitação.

Texto de Mônica Manir
Publicado no jornal O Estado de São Paulo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Especialistas da ONU e OMS criticam internação compulsória de viciados em crack

A internação compulsória de dependentes de crack não é a maneira mais eficiente de se lidar com o problema do vício, segundo especialistas da ONU e da OMS (Organização Mundial da Saúde) ouvidos pela BBC Brasil.

O tema voltou a debate no Brasil em janeiro, quando o governo de São Paulo fez uma parceria com a Justiça para agilizar a internação forçada de casos extremos de dependentes da droga.

Para o médico italiano Gilberto Gerra, chefe do departamento de prevenção às drogas e saúde do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC, na sigla em inglês), é necessário oferecer aos viciados "serviços atrativos e uma assistência social sólida".

"Uma boa cura de desintoxicação envolve tratamento de saúde, inclusive psiquiátrico para diagnosticar as causas do vício, pessoas especializadas e sorridentes para lidar com os dependentes e incentivos como alimentação, moradia e ajuda para arrumar um emprego", diz Gerra.

"O Brasil precisa investir recursos para oferecer serviços que funcionem e ofereçam acompanhamento médico completo, proteção social, comida e trabalho para os dependentes", afirma.

De acordo com ele, o Brasil tem bons profissionais no campo do tratamento das drogas, mas faltam especialistas, e a rede médica nessa área é insuficiente.

Segundo Gerra, a internação compulsória deve ocorrer pelo prazo máximo de algumas semanas e só se justifica quando o dependente apresenta comportamento perigoso para a sociedade ou para si próprio.

Acompanhamento

O médico defende o acompanhamento contínuo mesmo após a fase de desintoxicação, como exames de urina para detectar drogas nas pessoas que receberam auxílio para arrumar um emprego ou a presença de assistentes na hora das compras no supermercado para fiscalizar se o cupom de alimentação recebido é realmente utilizado com essa finalidade.

Autor do documento "Da coerção à coesão: tratando a dependência às drogas por meio de cuidados à saúde e não da punição", do UNODC, Gerra diz que o tratamento do vício do crack não é feito com remédios e sim com acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Ele afirma ainda que os países democráticos devem "estar atentos" ao sistema de internação compulsória para não transformar isso em uma "rede" de tratamento para lidar com o problema.

Para o médico australiano Nicolas Campion Clark, da direção do abuso de substâncias da Organização Mundial da Saúde (OMS), a internação compulsória traz o risco de "criar uma barreira com o dependente" e afetar sua confiança, dificultando, portanto, o tratamento.

Clark afirma que muitos países possuem legislações que autorizam a internação compulsória de dependentes, mas "isso é usado raramente e não funciona realmente na prática".

"É melhor encorajar o sistema voluntário de tratamento. É difícil forçar alguém a se tratar. Se você oferecer uma chance para as pessoas se recuperarem e terem comida, alguns vão agradecer, outros vão querer voltar para onde estavam", afirma.

Problemas múltiplos

O especialista da OMS também afirma que o vício do crack envolve problemas múltiplos (psicológicos e sociais) que devem ser tratados com ações em várias áreas além da médica, como moradia, alimentação, assistência geral e programas de emprego.

Ele afirma que há exemplos de programas de tratamento voluntário de dependentes em países como os Estados Unidos e a Austrália que "ajudam as pessoas a reconstruir suas vidas e não são apenas soluções temporárias".

O médico cita também o programa brasileiro que permite às grávidas viciadas em crack obter tijolos e materiais para construir casas em troca de tratamento.

"Isso dá instrumentos para que elas façam algo diferente em suas vidas", afirma.

A OMS já criticou o sistema de internação compulsória de dependentes realizado em países asiáticos. "Eles detém pessoas viciadas e estão tratando casos de saúde com a prisão", diz Clark.

A organização publicou um documento no ano passado solicitando aos países para fechar os centros de tratamento compulsório de drogas.

Segundo Clark, pelo menos 90% dos dependentes químicos no mundo não recebem tratamento.

São Paulo

Segundo Rosângela Elias, coordenadora de saúde mental, álcool e drogas da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, as propostas do governo paulista para o tratamento dos usuários de crack estão de acordo com as premissas da ONU e da OMS.

O governo paulista iniciou em parceria com a Justiça no último dia 21 um plantão jurídico em uma clínica especializada no tratamento de dependentes químicos no centro da capital. A medida gerou polêmica e atraiu críticas de ativistas de direitos humanos, contrários à internação forçada e que temiam o uso da polícia para levar viciados para tratamento.

Autoridades do governo passaram a dizer então que a polícia não participaria da ação e que apenas em casos extremos a internação compulsória seria empregada. Até agora, nenhum paciente foi internado por ordem judicial e menos de 10 foram internados involuntariamente (a pedido da família, mas sem ordem da Justiça), segundo Elias.

Mas, a exposição na mídia aumentou número de atendimentos voluntários nessa clínica. "Passamos a atender até 120 pessoas em um dia. Esse era o número de pessoas que recebíamos em uma semana", disse Elias.

Segundo ela, o Estado mantém ainda cerca de 300 vagas em moradias assistidas. Nelas, o viciado em crack em processo de desintoxicação recebe por até seis meses um local para morar, alimentos e incentivos para voltar ao mercado de trabalho.

Nesse período, também é incentivado a frequentar clínicas públicas especializadas onde recebe atendimento clínico e psicológico. De acordo com Elias, há uma mobilização de secretarias estaduais e municipais para ajudar o dependente químico em recuperação a se reinserir na sociedade.

Informações divulgadas através do portal da BBC Brasil.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Internação compulsória é caminho a ser percorrido


Para o médico, medida pode não ser a ideal, mas politizar a questão torna a discussão inútil; segundo ele, ninguém tem receita exata para tratar dependentes de crack.
 
Revoltado. É assim que o médico e colunista da Folha Drauzio Varella, 69, diz se sentir com a polêmica envolvendo a internação compulsória de dependentes de crack, adotada há uma semana pelo governo Alckmin.
 
Cancerologista de formação e com profundo conhecimento em dependência química, Varella considera a discussão “ridícula”.
“Que dignidade tem uma pessoa jogada na sarjeta? Pode ser que internação compulsória não seja a solução ideal, mas é um caminho que temos que percorrer. Se houver exagero, é questão de corrigir.”
 
Ele defende que as grávidas da cracolândia também sejam internadas mesmo contra a vontade. “Eu, se tivesse uma filha grávida, jogada na sarjeta, nem que fosse com camisa de força tiraria ela de lá.”
 
A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha, na última quinta, em seu consultório no centro de São Paulo.
Folha – Muito se discute sobre a ineficácia das internações compulsórias. Na opinião do sr., elas se justificam?
Drauzio Varella – Não conhecemos bem a eficácia ou a ineficácia porque as experiências com internações compulsórias são pequenas no mundo. Mesmo as de outros países não servem para nós. O Brasil tem uma realidade diferente.
Neste momento, temos uma quantidade inaceitável de usuários. E muitos chegando aos estágios finais. Estão nas ruas, nas sarjetas. O risco de morte é muito alto, e nós estamos permitindo isso.
 
Qual o tratamento ideal?
Depende da fase. Você tem usuários que usam dois ou três dias e param. Tem gente que usa um, dois dias, repete e nunca mais fica livre. E você tem os que chegam à fase final.
A gente convive com essa realidade, e quando o Estado resolve criar um mecanismo para tirar essas pessoas da rua de qualquer maneira começa uma discussão política absurda. Começam a falar que essa medida não respeita a dignidade humana. Que dignidade tem uma pessoa na sarjeta daquela maneira?
Está na hora de parar com essa discussão ridícula. Pode ser que internação compulsória não seja a solução ideal, mas é um caminho que temos que percorrer. Se houver exagero, é uma questão de corrigir. Vão haver erros, vão haver acertos. Temos que aprender nesse caminho porque ninguém tem a receita.
 
O debate está ideologizado?
Totalmente. É uma questão ideológica e não é hora para isso. Estamos numa epidemia, quanto mais tempo passa, mais gente morre.
Sempre faço uma pergunta nessas conversas: ‘Se fosse sua filha naquela situação, você deixaria lá para não interferir no livre arbítrio dela?’
Eu, se tivesse uma filha grávida, jogada na sarjeta, nem que fosse com camisa de força tiraria ela de lá.
Quando vemos essa discussão nos jornais, parece que estamos discutindo o direito do filho dos outros de continuar usando droga até morrer. É uma argumentação frágil, jargões vazios, de 50 anos atrás. Eu fico revoltado com essa discussão inútil.
 
E o que fazer com as grávidas do crack?
São casos de internação compulsória, o sistema de saúde tem que ir atrás e internar mesmo que não queiram. O crack é mais forte do que o instinto materno. Elas não param porque estão dominadas pelo crack. Tem uma relação de uso e recompensa e acabou. Nada vale tanto quanto essa dependência. Como prevenir a gravidez na cracolândia?
É a coisa mais fácil. Há anticoncepcionais injetáveis, dá a injeção e dura três meses.
 
Haveria mais polêmica…
A menina não engravida para experimentar os mistérios da maternidade, ela engravida porque na situação em que ela vive não há outra forma de se relacionar com os homens. Essa é a realidade.
Precisa levar para um lugar onde terá amparo, um pré-natal decente. Não podemos ficar nessa posição passiva.
 
Por que é tão difícil adotar uma estratégia efetiva de enfrentamento do crack?
Pela própria característica da dependência. É uma doença crônica. Você deixa de ser usuário de uma droga qualquer, mas não deixa de ser dependente. É a mesma história do fumante. Há 20 anos sem fumar, um dia fica nervoso, pega um cigarro e volta a fumar. Ou do alcoólatra.
Com o crack, é a mesma coisa, a dependência persiste para sempre. Você pega uma pessoa que fuma crack, interna, passa por psicólogo, reata laços com a família, passa um ano sem fumar. Aí, um belo dia, recomeça tudo. Você não pode dizer que o tratamento falhou. Ele ficou um ano livre. Isso não invalida que ele seja tratado novamente.
 
Fazendo uma analogia com a especialidade do sr., é como tratar um tumor avançado?
Exatamente. Eu pego uma paciente com câncer avançado, faço um tratamento agressivo com quimioterapia e ela passa seis meses com remissão da doença.
Acho ótimo. Pelo menos passou seis meses bem, com a família, tocando as coisas. Aí, quando sai da remissão [volta do tumor], a gente tenta outro esquema. A gente não se dá ao direito de não tratar um doente porque a doença vai voltar. Por que não se faz isso com usuário de drogas?
 
Isso acontece porque há muito preconceito com as dependências de uma forma geral?
Sim, temos muito preconceito. Nós usamos drogas também, uns fumam, outros bebem, só que temos controle. E temos o maior desprezo pelos que perdem o controle.
 
Qual o futuro do tratamento das dependências?
A medicina não sabe tratar dependência. Vejo na cadeia meninas desesperadas, me pedindo ajuda. Eu fico olhando com cara de idiota. Não tem o que fazer. Só posso dizer: fique longe da droga.
Não tem um remédio que você diga: você vai tomar um remédio bom em que 30% dos casos ficam livres da droga.
O problema é o prazer. Se você conseguir uma pequena molécula que inative os receptores dos neurônios que recebem a cocaína, o sujeito deixa de ter prazer. Há experiências com anticorpos para tentar desarmar essa ligação, mas estamos em fase inicial.
 
O sr. acredita que veremos o fim dessa epidemia do crack?
Droga é moda, e a moda do crack vai passar ou ficar restrita a pequenas populações.
 
Mas para isso acontecer não é preciso uma política nacional de enfrentamento do crack?
Acho que temos que ter uma política nacional para definir as grandes diretrizes. Mas não acho que vamos definir isso com políticas nacionais. Temos que particularizar. Cada cidade tem que criar estruturas locais de atendimento.
Nós perdemos muito tempo. Não fizemos campanha educacional, não trabalhamos as crianças. Agora todos ficam horrorizados. Temos que ter aulas nas escolas, aprender desde pequeno. Precisamos chegar antes da dependência.

Entrevista veiculada no jornal Folha de São Paulo.